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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em finos.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em finos.

O vendedor de carros que era mau a matemática.

No outro dia - não interessa agora qual - chateei-me com um vendedor de carros. A minha Clotilde (sim, porque o meu carro sempre se identificou como fêmea, e vocês não têm nada com isso) foi-se abaixo de vez, após muitos anos de luta. Não de viagem, mesmo de luta, porque sempre que eu ia sair à noite e levava o carro, ela apanhava por tabela de dois bêbados que se encostavam a ela enquanto andavam à frouxa pancada.

Enfim, lá se foi a Clotilde e lá tive de ir eu a um stand comprar um automóvel novo. Chegado ao estaminé, o tipo faz-me uma verdadeira visita guiada por cada um dos animais de estimação metálicos. Como sou um rapaz que pensa sempre no futuro, e julgo que um dia vou ter a sorte de arranjar uma parceira e filhos que me aturem, como a Clotilde fazia, pedi-lhe para ver modelos de carros de cinco lugares.

E isso foi o que lhe pedi, mas a resposta dele foi levar-me a uma zona onde, dizia ele, havia todo o tipo de "carros de cinco portas". Ora, eu, que já vejo mal mas ainda não sou cego, rebati logo que aquilo eram carros de quatro portas, e não cinco, e que achava mal que ele estivesse ali a tentar vender-me uma porta a mais só para tentar angariar mais uns trocos. O indivíduo lá rebateu que aquilo eram cinco portas, sim, que o porta-bagagens era considerado uma porta, e tal... E eu disse-lhe: "Então entre lá no carro pelo porta-bagagens, que eu quero ver!". Ele bem que se meteu lá dentro e tentou passar por cima dos bancos, mas não conseguiu. Por isso, tirou as almofadas do banco de trás, expondo as pequenas estacas, e acabou por morrer empalado.

Eu, claro, acabei por não levar o carro, ainda por cima com manchas de sangue no banco de trás... Mas fiquei satisfeito, porque, a partir desse dia, nunca mais naquele stand se disse "cinco portas".

Que isto seja uma lição para todos.

Manter a vida em águas de bacalhau.

Um dos trabalhos escolares de que mais viva memória tenho diz respeito à disciplina de Filosofia. Era um debate encenado, daqueles em que os alunos devem encontrar pontos de vista filosóficos válidos de ambos os lados e defender um determinado ponto de vista. Neste caso, era a própria professora que decidia quem ia defender o quê.

O tema era a eutanásia. Eu rezei para que ela não me pusesse no papel de alguém que fosse contra a eutanásia, porque, do alto dos meus 14 anos, inteligente e maduro como ninguém (ironia básica), já desconfiava que ia ter o meu trabalho dificultado. E, como bom preguiçoso que sou, prefiro fazer sempre o trabalho mais fácil.

Porque, já naquela altura, tinha a noção de que seria bastante difícil para mim defender argumentos contra a eutanásia. Na minha mente, era como ser contra uma pessoa que se vê num beco sem saída e ainda lhe fechar a luz, apesar dos gritos de socorro. Era contra-natura, para mim. Não fazia sentido.

Ontem, o meu país (ou uns quantos "representantes", vá) quis dizer-me uma coisa que muita gente já me disse ao longo da vida: que eu, se calhar, não tenho razão. Mas eu, desta vez, e mais do que de nas outras vezes, continuo a achar que, se calhar, não é bem assim... Desta vez, país, vou ter de discordar. Tu é que não estiveste bem, puto.

Mas é na boa, o pessoal perdoa. Pelo menos até te veres numa situação em que anseias desesperadamente pelo alívio da morte. Aí, país, passarás a estar por tua conta.

 

 

P.S.: E em relação ao debate? Tive sorte. Acabei por poder defender aquilo que, para mim, fazia mais sentido. E, nessa noite, deitei-me de consciência tranquila. E tu, país? Dormiste bem hoje?

O epíteto da liberdade.

Toda a gente fala nos saltos de avião como se fossem o exemplo mais acabado de liberdade que podemos experienciar, ou o expoente máximo da adrenalina.

 

Com pára-quedas, atenção.

 

Mas ninguém fala do pobre coitado do profissional que nos acompanha nos saltos, e que provavelmente faz aquilo várias vezes ao dia, mais de trezentas vezes por ano. Será que aquilo que um ser humano comum encara como a experiência mais libertadora do mundo é, para esse super-herói sem capa, o normal? Será que já virou rotina?

Poderá ser que o que faz essa pessoa sentir um formigueiro na barriga é sentar-se em casa a ver televisão no fim do dia? Fazer festas ao gato? Beber um bom copo de vinho e masturbar-se antes de adormecer?

Será isso, para essa tal pessoa, o epíteto da liberdade?

A minha experiência com um Danoninho.

Uma das minhas comidas-fetiche, em miúdo, era o Danoninho. Essa pequena espécie de iogurte um bocado amaricado era, para mim, uma utopia.

Isto porque, apesar de o ver todos os dias na televisão, em anúncios que estrelavam uma espécie de dinossauro muito estranho e crianças demasiado contentes em relação a um bocado de leite fermentado, raramente o consumia. É que os meus pais, pessoas espertas, preferiam comprar iogurtes decentes, mais grandotes, que realmente alimentassem uma pessoa. Principalmente uma mini-pessoa, ainda em crescimento. Se quem consumia Danoninho tinha "um bocadinho assim", eu tinha "um bocadão assado". E não falo da minha pila...

Além disso, o preço daquelas coisas é uma coisinha parva. Sei-o agora porque, aqui há dias, já adulto (mais ou menos, vá), comprei uma pequena caixinha daquelas coisas, para vingar os sonhos de criança que raramente cheguei a realizar. Pensei que o custo alto do produto podia ser fundamentado, que se calhar aquele era realmente o melhor conjunto de bactérias bolorentas que existe e que eu simplesmente já não me lembrava.

Fiz de tudo: comi directamente do frasquinho cor-de-rosa, meti em cereais, molhei produtos vários e até fiz gelados com aquilo, como mostravam na televisão nos meus tempos de maior impressionabilidade. Tudo para aproveitar o produto até ao último tostão que este custou.

Como tem acontecido bastantes vezes ao longo da vida, tive de dar novamente razão aos meus pais: há coisas que valem mais a pena comprar, como mordaças e chibatas.

 

Eles nunca me falaram nessas duas coisas em específico, mas eu percebi que era isso que eles queriam dizer.

A ver se isto ainda trabalha.

Cá está, mais um daqueles hiatos giros como só nós sabemos fazer... O que até dá muito jeito, porque, em termos de sustentabilidade de um blogue, é mesmo isto que se quer, não é? Meses e meses de pausa?

Pronto, não é, sejam do contra, então.

 

Olá, de novo.

E até já. (Prometemos).

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. III

     - Esteves, alguma novidade? – perguntaram-lhe pelo walkie-talkie.

     - Ainda nada, chefe – respondeu o Esteves.

     - Continua à procura, então.

     Manuel Esteves ainda não tinha a certeza do que queriam que encontrasse. Tinham-lhe pedido para rever as cassetes de segurança daquele dia, particularmente a do corredor do quarto 59. E ele bem que procurava, mas não via mais ninguém a entrar naquele quarto para além de uma enfermeira de meia-idade cujo nome agora não se lembrava bem e, a dada altura, vários enfermeiros e médicos que corriam na direcção do quarto, como se uma emergência tivesse ocorrido. Era tudo o que as cassetes daquele corredor lhe mostravam para aquele dia, mas parecia não ser suficiente para os seus superiores.

     Mas foi isso que lhes disse.

     - Senhor, continuo sem ver mais do que aquilo que lhe disse há pouco. Tudo normal até à altura do incidente.

     - Certo, Esteves, vamos analisar a situação por aqui. Continua atento – ordenou-lhe o chefe da segurança do hospital.

     Manuel recostou-se nas costas da cadeira. Estava cansado de tudo. Aquele novo trabalho não era especialmente difícil ou exigente, mas acordar cedo todos os dias para ir para a monotonia do cubículo escuro ver ecrãs a preto e branco o dia inteiro não era propriamente uma fonte de entusiasmo e de adrenalina. Sentia-se como uma pessoa que, quanto mais dorme, mais quer dormir – embora não dormisse mais do que o tempo necessário todos os dias.

     A situação só melhorava quando partilhava o dia de trabalho com o Sousa, que, embora lhe ocupasse algum espaço no cubículo, sempre era uma companhia, e era um tipo divertido. Mas o pai do Sousa tinha morrido, e o rapaz estava de licença.

     «Continua atento», tinham-lhe pedido. Mas Esteves já tinha tido atenção suficiente por um dia, e sabia que pouco mais tinha para fazer, a menos que alguém lhe desse uma enxada para a mão ou lhe fizessem mais algum pedido pelo rádio. E, nessa altura, acordaria.

     Fechou os olhos e tentou dormir, mas, ao abri-los novamente para uma última análise ao ambiente que o rodeava, viu muito perto dele duas bolas amarelas e ameaçadoras. Foi a última coisa que viu, embora conseguisse sentir enquanto esquartejavam os seus quatro membros de uma só vez.

 

***

 

     Tomás Sousa estava de licença, era verdade. Mas sentia-se culpado por ter deixado o Esteves sozinho naquele cubículo nos últimos dias. Como ia regressar ao trabalho logo no dia seguinte, decidiu surpreender o colega e levar-lhe um quiche vegetariano feito pela mulher, com alguns vegetais que o próprio colega havia colhido e lhe havia oferecido como forma de lhe dar os sentimentos. Além disso, conversar com o Esteves fora do contexto do trabalho ia fazer-lhe bem.

     Contudo, quando abriu a porta da garagem onde estava o cubículo das câmaras de vigilância e olhou para dentro, não viu nada para além de manchas de sangue nos vidros e de um rasto da mesma substância no chão, que desaparecia completamente alguns metros mais à frente. Os ecrãs continuavam ligados e a cadeira do colega estava caída de costas, mas não havia sinal do Esteves.

     Tomás carregou num botão da mesa e falou para o microfone, pedindo ajuda.

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. I

     Luís Fagundes nunca teve filhos. Também nunca teve uma família, nem sequer uma casa. Luís Fagundes, bem vistas as coisas, nunca teve nada. Agora, naquele lar para onde tinha sido transportado após a morte da irmã, também não tinha uma perna. Pelo menos já não a sentia. Aparentemente, iam cortá-la por causa de uma doença qualquer que Luís mal sabia o que era, mas que lhe diziam que tinha. E ele, como sempre fora uma pessoa conformada, anuía. Mas talvez não o tivesse feito se soubesse que, como consequência, lhe iriam retirar um dos seus quatro instrumentos de trabalho – os seus membros.

     Toda a vida Luís tinha trabalhado a terra. Tinha sido o seu único sustento e contribuição (embora mínima) para a casa da irmã e do marido dela, onde sempre residira após a morte dos pais. Apesar de tudo, não era um inquilino especialmente incomodativo. De manhã à noite, tendo o cuidado de levar algumas merendas consigo para não ter de ter o trabalho desnecessário de parar de trabalhar, ficava nos campos e plantava um pouco de tudo, mas com especial destaque para as batatas.

     Ninguém sabe bem o porquê de Luís não ter dado um pontapé mais a fundo na sua própria vida – nem sequer o próprio. Mas, ao que tudo levava a crer, tinha sido feliz de enxada na mão e em longas conversas com os outros homens da freguesia num banquinho que havia no adro da igreja. Ali, falava-se principalmente de agricultura – pelo menos quando passava alguém, porque toda a gente sabe que os homens falam de muita coisa quando estão sozinhos.

     No entanto, cavar a terra ao pé-coxinho ainda não é, nos tempos de hoje, factível. Existem demasiadas condicionantes; e Luís, embora tivesse alguns indícios de demência e estivesse ainda meio zonzo por causa da medicação, sabia-o.

     Começou a chorar, mas sem derramar qualquer lágrima. Habituara-se a chorar para si mesmo ao longo de toda a vida. Era capaz de entrar e sair de um longo estado de depressão sem alguém notar, mesmo a família, até porque nada disso alguma vez o impedira de continuar a trabalhar e a seguir com a sua vida.

     A sua auto-comiseração foi interrompida por uma das enfermeiras que costumava visitá-lo. Não era bonita nem feia, mas Luís também nunca tinha tido grande apreço por essas questões de beleza. Só tinha tido uma namorada e não durara muito tempo, até porque fora naquela altura em que pouco tempo de namoro não dava direito a muitas trocas afectivas – não como hoje em dia, achava ele.

     A enfermeira pediu para entrar e, ao olhar para a cama de Luís, deu um grito. Apressou-se a pedir ajuda na direcção geral do corredor e a lançar-se para o armário das toalhas. Luís só teve tempo de a ver despejar uma grande quantidade de toalhas brancas em cima da cama que, ao serem levantadas, tornavam-se avermelhadas. Não sabia o que se estava a passar, mas sentia-se cada vez mais zonzo; e já não tinha a certeza de ser da medicação.

     Adormeceu.