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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em finos.

Queria? Já não quer?

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A página em branco

Ultimamente não tenho escrito muito, nem aqui nem só para mim. Tal facto não incomoda ninguém a não ser eu próprio, porque gosto de o fazer. Podia listar um sem número de razões para ter acontecido isto, mas a verdade é que a culpada acaba por ser só a preguiça. O que não deixa de ser um contra-senso, pois é algo que me traz satisfação e prazer, algo que estimo. Mas, como em imensas destas situações, mesmo que seja algo que queira muito fazer, acabo por deixar passar por preguiça de começar.

 

Claro que o tempo, ou falta dele, é sempre um factor, mas não é desculpa neste caso. Podiam haver outras razões, como o famigerado medo da página em branco. 

Contudo, ideias não me faltam. Não é para me gabar, mas tenho uma enorme quantidade de ideias de coisas para escrever. Nenhuma delas boa e que valha a pena, tal como na maioria das vezes; mas elas existem e não é um problema. E mesmo que não tivesse, era isso que me ia impedir? Quem já leu algo do que aqui publiquei pode atestar que não.

 

Outra coisa tem a ver com esta noção: o medo da página em branco. A página em branco não assusta, aliás, só pode reconfortar, dar segurança...

A página em branco não pode magoar ninguém, não ofende ninguém, não choca ninguém. Enquanto a página estiver vazia, nada acontece, ninguém gosta e ninguém odeia. A página em branco é sem opinião e sem visão, não é um princípio e é sem fim. A página em branco é segurança, porque é sem risco. Enquanto não se fizer nada, nada acontece. A página em branco é sem identidade; é uma não existência e o que não existe não assusta, não pode influenciar nada, não provoca reacção nenhuma e isso é sempre seguro. 

A única altura em que uma página em branco podia assustar seria se chegasse ao supermercado e a lista de compras estivesse em branco e eu ficasse sem saber o que me faltava. Ou se estivesse a fazer uma lista de pessoas que me são queridas e a página permanecesse em branco. Ou se fosse indicado como suspeito num caso de homicídio e a única prova que tivesse para atestar o meu álibi fosse um qualquer documento que, de repente, estava em branco. Isto seriam situações em que compreenderia o medo da página em branco, porque de resto, não nos pode tocar, por isso não há que ter medo, certo?

 

Ou então assusta, mas não por si mesma: por ser uma representação do nosso estado interior, do vazio que nos assola, da falta de identidade e visão, da falta de um princípio, da falta de coragem ou propósito, de um outro medo maior; o de arriscar e falhar. A página em branco é uma lembrança constante do que não temos, do que falta, da extrema segurança e monotonia que se disfarça de conforto, uma constante visual da estagnação.

 

A página escrita, essa, é que assusta. Aí é que está o perigo, as opiniões, os gostos, as ideias, as emoções. A página escrita é que pode ameaçar ou reconfortar, fazer nascer ou quebrar, inspirar e admirar ou delirar. Na página escrita é que há vida em cada palavra, é que provoca reacções, é que existe a possibilidade de ser horrível. É que pode desiludir e fazer cair, ofender e deitar tudo a perder, mas é também ela que conquista. É onde existe o risco, que tem de ser encarado e aceite. É uma queda livre sem saber se o pára-quedas se abre.

 

Sim, a página escrita é que assusta, é a única que tem consequências. 

É aí que está o medo.

Mas o medo é bom. O medo é necessário. O medo é vida. Vai sempre existir.

Uma página em branco não é ameaça, quanto muito é mordaça e, nesse caso, assustaria.

A página em branco é um limbo existencial, não há consequências. Nem positivas nem negativas.

Antes arriscar. Antes ficar assustado. Porque é a página escrita que faz o coração bater mais depressa, é ela que tem algum significado. Não se assustem com uma página em branco: é inofensiva. Preencham-na com palavras e sintam o que houver para sentir. 

 

O que eu não dava por um pudim.

Eu nem sou grande fã de pudins.

Se me derem a escolher entre um pudim ou todas as outras sobremesas do Mundo, sou capaz de escolher o pudim apenas antes dos testículos de boi da Tasmânia.

Não, nunca gostei muito da Tasmânia.

 

Mas a verdade é que, lá de vez em quando, compro pudins, porque o ser humano é contraditório e porque eles até costumam estar baratos.

Foi isso que fiz no outro dia. Comprei pudins e, lá de vez em quando, lá ia um. Só porque sim. Porque achava que o meu corpo precisava de mais uma dose cavalar de açúcar.

 

Ora, há bocado, depois de jantar, tive um dilema: como tinha comprado também uma embalagem de frutos vermelhos, fiquei momentaneamente na dúvida em relação a que sobremesa haveria de comer.

Decidi-me pela fruta. Primeiro porque prefiro, e depois porque o jantar tinha sido algo pesado, e não fazia sentido estar a sobrecarregar ainda mais o estômago, coitado.

E estava tão certo disso que, mesmo na viagem até à cozinha, o meu cérebro dizia-me e voltava a assegurar-me de que era para a fruta que pendia.

 

Chegado ao frigorífico, e por mera curiosidade, olhei na direcção da prateleira onde estariam os pudins, para ver quantos restavam.

Não restava nenhum.

E agora é que vem a parte interessante: é que, não sei por que carga de água, assim que vi que não tinha qualquer pudim, ficou a apetecer-me comer pudins como nunca antes na vida me tinha acontecido.

 

Portanto, que se lixe a fruta, pá, isso é para meninos!

A questão é: onde é que se compra pudins a partir da meia-noite?

Mini-contos (#09)

Todos viram o papel cair do bolso do homem que se afastava a mendigar.

Ninguém se preocupou com isso, mas a sua filha apanhou-o. Aos 4 anos já sabia que não se devia deixar lixo no chão. 

 

Recordava esse momento.

Tudo poderia ser diferente se tivesse ficado com aquela aposta vencedora em vez de a devolver ao sem-abrigo.

 

Que ironia, pensou, enquanto observava aquele mesmo homem, agora tão diferente, que escapava incólume do seu veículo topo de gama, enquanto ele segurava o corpo atropelado e sem vida da sua menina.

Conto do Alfredo e do duche pela manhã.

Alfredo acordou de manhã e deixou-se ficar mais um pouco na cama. Afinal, conseguia ouvir os colegas de casa a tomar duche.

Era sempre assim, de manhã. A competição era feroz, e o duche era só um.

 

Quando despertou completamente, o duche continuava ocupado. Decidiu ir tomar o pequeno-almoço.

Já de barriga cheia, voltou a colocar o ouvido à escuta, mas continuava a ouvir o estalar da água no chão do poliban. Decidiu ir trabalhar, adiantar alguma coisa enquanto esperava.

 

Trabalhou, almoçou, voltou a trabalhar e regressou a casa. E era vê-los, ora uns a sair do duche enquanto ainda esfregavam a farta gedelha, ora outros a entrar de toalha e champô em punho.

Parecia uma linha de montagem, na qual entravam ainda badalhocos e saíam impecáveis a nível da higiene pessoal.

E Afredo sempre sem conseguir tomar duche.

 

Acabou por decidir ir dar uma volta ao parque, para espairecer. Bebeu uma limonada, viu o pôr-do-Sol e regressou a casa. E jantou, porque a casa-de-banho continuava ocupada mas a cozinha, essa, estava livrinha da silva.

E, no dia seguinte, fez tudo de novo, porque ainda por cima a água às vezes esfriava sem ninguém saber porquê e atrasava ainda mais o processo.

 

Consta que, hoje em dia, Alfredo já terá falecido, tendo deixado como herança dois filhos e um neto.

Mas uma coisa é certa: nunca chegou a conseguir tomar duche.

 

Paz à sua alma.

Fui atingido por um "você".

Tenho 25 anos e acabei de ser tratado por você.

E não foi pela funcionária do banco, ou por um polícia na rua. Foi por um colega de trabalho.

 

Já cheguei a uma fase da vida em que os colegas de trabalho infimamente mais novos (ou então sou eu que pareço muito mais velho) me tratam por você. A mim, que saí do mundo das fraldas há pouco tempo e ainda não dei o devido uso a uma lâmina de barbear!

 

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Apresento-vos ao Esteves, o meu pêlo de estimação.

 

E eu não quero isto – o você – na minha vida, pelo amor de Deus…

Não quero que ninguém me trate por você, aliás! “Tu” tem duas letras, é mais simples. “Você” tem quatro e um acento. É demasiada burocracia no tratamento interpessoal.

Chamem-me tu, chamem-me pá, chamem-me “ó palhaço!”, que eu aceito tudo. Só não me chamem você.

 

Estamos entendidos?

Então vá. Adeus, seus palhaços.