Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em finos.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em finos.

Não há gente como a gente - O Segundo

Com um pequeno atraso na divulgação devido a motivos, aqui fica o segundo episódio de Não Há Gente Como a Gente.

 

 

O Segundo

Interpretação de sonhos, malucos no hospício, cegos e cães-guia no ginásio e o duche dos deficientes.

asf23.png 

                         iTunesAndroidYouTubeDownloadRSS Feed

 

Podcast criado e falado por Diogo Ourique e Vasco Barcelos.

Música de Myrica Faya.

 

O retorno: Diogo Ourique e Vasco Barcelos - Não Há Gente Como a Gente.

Vamos por partes (mas se quiserem já saber o que interessa - temos um podcast, vão para o fim do post):

 

O retorno - chamem-nos zombies, fénix, ou, até, fénix zombies, mas estamos de volta. Podia dizer que tínhamos renascido das cinzas, ou que estávamos sedentos ou esfaimados de sangue e escrita, mas não. Na realidade, melhor e mais acertada analogia é um urso. Hibernámos. Bastante. Mesmo bastante. Acordámos, mas, como em qualquer boa hibernação, a preguiça ainda era muita, então continuámos aninhadinhos. A certa altura começou a tornar-se desconfortável, dores no corpo, já não tínhamos posição. Sendo assim, como tudo o que é bom tem de acabar (dizem-me, eu discordo, mas isto agora não interessa), estamos de volta. Com um bocadinho de fome, ainda ensonados, enferrujados, cabeludos, cheios de remelas e trapalhões. Lá está, nada de novo, somos uns ursos.

Portanto, vamos reinserir-nos neste mundo, mas com calma, que isto do sol incomoda os olhos. Principalmente a mim, que deixei uns três textos por acabar, mas será tudo resolvido.

Outro efeito desta hibernação é que temos muito a dizer. Imenso. Ou não. Isso nunca interessou, não seria agora que ia passar a contar.

 

Agora a novidade: a acompanhar este regresso vem um novo projecto. Decidimos criar um podcast e partilhar/mostrar a todos os graves problemas que temos. É de humor, claro. "Não há gente como a gente" é o nome e o primeiro episódio já está disponível. Podem ouvi-lo aqui, fazer download directamente, subscrever no iTunes ou na grande maioria das outras apps de podcasts. Também estamos no YouTube. Oiçam, comentem, subscrevam. Ou não, que eu não mando em ninguém, mas estejam à vontade e sintam-se encorajados para o fazerem.

 

 

O Primeiro

Apresentação, pica-paus, omeletes gigantes e ovo-lacto psicopatas.

asf23.png

                         iTunesAndroidYouTubeDownloadRSS Feed

 

A minha experiência com um Danoninho.

Uma das minhas comidas-fetiche, em miúdo, era o Danoninho. Essa pequena espécie de iogurte um bocado amaricado era, para mim, uma utopia.

Isto porque, apesar de o ver todos os dias na televisão, em anúncios que estrelavam uma espécie de dinossauro muito estranho e crianças demasiado contentes em relação a um bocado de leite fermentado, raramente o consumia. É que os meus pais, pessoas espertas, preferiam comprar iogurtes decentes, mais grandotes, que realmente alimentassem uma pessoa. Principalmente uma mini-pessoa, ainda em crescimento. Se quem consumia Danoninho tinha "um bocadinho assim", eu tinha "um bocadão assado". E não falo da minha pila...

Além disso, o preço daquelas coisas é uma coisinha parva. Sei-o agora porque, aqui há dias, já adulto (mais ou menos, vá), comprei uma pequena caixinha daquelas coisas, para vingar os sonhos de criança que raramente cheguei a realizar. Pensei que o custo alto do produto podia ser fundamentado, que se calhar aquele era realmente o melhor conjunto de bactérias bolorentas que existe e que eu simplesmente já não me lembrava.

Fiz de tudo: comi directamente do frasquinho cor-de-rosa, meti em cereais, molhei produtos vários e até fiz gelados com aquilo, como mostravam na televisão nos meus tempos de maior impressionabilidade. Tudo para aproveitar o produto até ao último tostão que este custou.

Como tem acontecido bastantes vezes ao longo da vida, tive de dar novamente razão aos meus pais: há coisas que valem mais a pena comprar, como mordaças e chibatas.

 

Eles nunca me falaram nessas duas coisas em específico, mas eu percebi que era isso que eles queriam dizer.

A ver se isto ainda trabalha.

Cá está, mais um daqueles hiatos giros como só nós sabemos fazer... O que até dá muito jeito, porque, em termos de sustentabilidade de um blogue, é mesmo isto que se quer, não é? Meses e meses de pausa?

Pronto, não é, sejam do contra, então.

 

Olá, de novo.

E até já. (Prometemos).

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. III

     - Esteves, alguma novidade? – perguntaram-lhe pelo walkie-talkie.

     - Ainda nada, chefe – respondeu o Esteves.

     - Continua à procura, então.

     Manuel Esteves ainda não tinha a certeza do que queriam que encontrasse. Tinham-lhe pedido para rever as cassetes de segurança daquele dia, particularmente a do corredor do quarto 59. E ele bem que procurava, mas não via mais ninguém a entrar naquele quarto para além de uma enfermeira de meia-idade cujo nome agora não se lembrava bem e, a dada altura, vários enfermeiros e médicos que corriam na direcção do quarto, como se uma emergência tivesse ocorrido. Era tudo o que as cassetes daquele corredor lhe mostravam para aquele dia, mas parecia não ser suficiente para os seus superiores.

     Mas foi isso que lhes disse.

     - Senhor, continuo sem ver mais do que aquilo que lhe disse há pouco. Tudo normal até à altura do incidente.

     - Certo, Esteves, vamos analisar a situação por aqui. Continua atento – ordenou-lhe o chefe da segurança do hospital.

     Manuel recostou-se nas costas da cadeira. Estava cansado de tudo. Aquele novo trabalho não era especialmente difícil ou exigente, mas acordar cedo todos os dias para ir para a monotonia do cubículo escuro ver ecrãs a preto e branco o dia inteiro não era propriamente uma fonte de entusiasmo e de adrenalina. Sentia-se como uma pessoa que, quanto mais dorme, mais quer dormir – embora não dormisse mais do que o tempo necessário todos os dias.

     A situação só melhorava quando partilhava o dia de trabalho com o Sousa, que, embora lhe ocupasse algum espaço no cubículo, sempre era uma companhia, e era um tipo divertido. Mas o pai do Sousa tinha morrido, e o rapaz estava de licença.

     «Continua atento», tinham-lhe pedido. Mas Esteves já tinha tido atenção suficiente por um dia, e sabia que pouco mais tinha para fazer, a menos que alguém lhe desse uma enxada para a mão ou lhe fizessem mais algum pedido pelo rádio. E, nessa altura, acordaria.

     Fechou os olhos e tentou dormir, mas, ao abri-los novamente para uma última análise ao ambiente que o rodeava, viu muito perto dele duas bolas amarelas e ameaçadoras. Foi a última coisa que viu, embora conseguisse sentir enquanto esquartejavam os seus quatro membros de uma só vez.

 

***

 

     Tomás Sousa estava de licença, era verdade. Mas sentia-se culpado por ter deixado o Esteves sozinho naquele cubículo nos últimos dias. Como ia regressar ao trabalho logo no dia seguinte, decidiu surpreender o colega e levar-lhe um quiche vegetariano feito pela mulher, com alguns vegetais que o próprio colega havia colhido e lhe havia oferecido como forma de lhe dar os sentimentos. Além disso, conversar com o Esteves fora do contexto do trabalho ia fazer-lhe bem.

     Contudo, quando abriu a porta da garagem onde estava o cubículo das câmaras de vigilância e olhou para dentro, não viu nada para além de manchas de sangue nos vidros e de um rasto da mesma substância no chão, que desaparecia completamente alguns metros mais à frente. Os ecrãs continuavam ligados e a cadeira do colega estava caída de costas, mas não havia sinal do Esteves.

     Tomás carregou num botão da mesa e falou para o microfone, pedindo ajuda.

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. II

     Sonhava. Com os campos, com a terra fresca, com a neblina matinal que gelava os ossos e humedecia as enxadas; sonhava com o sol do meio-dia e a brisa que lhe secava o suor quando se recostava numa faia. Sempre sonhara apenas com o que conhecia, pois imaginação era uma das coisas que também nunca tinha tido e a sua visão do mundo sempre fora ordinária e restrita ao que o rodeava.

    Entretanto, apercebeu-se que não sonhava, mas que lembrava. O cérebro convalescia em memórias enquanto se mantinha num estado de subconsciência. A cacofonia que ouvia era a orquestra de enfermeiros e médicos, o tilintar de pequenos objectos de metal; sentia o frio nas costas e uma dor na perna. Ou onde devia estar uma perna, já não tinha a certeza de nada. Não sabia quanto tempo passara, onde se encontrava, ou o que estava a acontecer exactamente, mantinha-se naquele limbo existencial entre memórias e presente.

     Uma vez tinham-lhe dito que antes de morrer toda a vida nos passava pelos olhos em imagens. Luís nunca ligou nenhuma a essa informação, mas agora pensava se não seria isso que estava a acontecer. Estaria ele a ver o filme da sua vida, o presente de despedida que Deus nos confere? Não tinha vontade de viver nem de morrer, não tinha vontade de nada. Sempre aceitara que viveria enquanto tivesse que ser e morreria quando chegasse a hora. Entregou-se às memórias que continuavam a mostrar-se e abandonou a pequena noção que tinha recuperado do mundo real.

     Via coisas que não sabia que estavam guardadas na sua mente, via coisas das quais se lembrava de maneira diferente. A realidade não é tudo o que parece e as certezas da memória não passam de percepção, mas Luís não o compreendia totalmente. Só estava contente por se ver criança a correr.

     Em consciência não se lembrava de tudo o que agora revia, mas era assim que as coisas tinham sido. Era o que lhe diziam as memórias agora desbloqueadas. Reviu o dia em que faleceu o pai. O dia em que, com os seus tenros catorze anos, saiu pela alvorada para lavrar a terra, naquele que seria o primeiro dia do resto da sua vida. Nunca mais tinha pensado nisso desde que aconteceu. Parecia tudo novo, seria possível ter revelações sobre as próprias vivências? Ao fim da manhã, meras horas após a terra ter assentado em volta do caixão do pai, parou para merendar. Sentado ao abrigo de uma faia, não ouvia vivalma. Foi, por isso, com surpresa que notou no homem a aproximar-se dele, que se prostrou à sua frente tapando o sol. Como podia ter esquecido aquele homem e a involuntária inquietação que ele o fez sentir?

     Por embaraço, ou cautela, não tinha dito muito, limitando-se a responder. A vida não é mais que isto, dizia-lhe o homem, que só a terra provia. Desde que continuasse nos seus afazeres, que se dedicasse à terra, nada lhe faltaria. As couves seriam sempre verdes e as batatas não faltariam, era uma garantia pessoal. Era só o que preocupava Luís naquela altura e ali estava um estranho a assegurar que desde que se mantivesse focado na terra, viveria com sustento e sem preocupação. Isso e apertar-lhe a mão, dizia o homem, assegurava essa fertilidade e futuro. E trabalho, sempre muito trabalho. Da escravidão do trabalho não se safava, como o pai tinha feito, disse-lhe o homem, era uma troca justa, acrescentou. Luís não percebia, mas certo é que apertou a mão ao homem. Fitou os seus olhos amarelos enquanto o fazia, ardentes, ansiou por recolher a mão que fervia, mas não conseguia desviar o olhar. No final, venho buscar-te, bocado a bocado, disse o homem.

     Luís abriu os olhos numa ânsia sôfrega, zonzo e com a mão a escaldar. Notou que estava amarrado à cama.

 

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. I

     Luís Fagundes nunca teve filhos. Também nunca teve uma família, nem sequer uma casa. Luís Fagundes, bem vistas as coisas, nunca teve nada. Agora, naquele lar para onde tinha sido transportado após a morte da irmã, também não tinha uma perna. Pelo menos já não a sentia. Aparentemente, iam cortá-la por causa de uma doença qualquer que Luís mal sabia o que era, mas que lhe diziam que tinha. E ele, como sempre fora uma pessoa conformada, anuía. Mas talvez não o tivesse feito se soubesse que, como consequência, lhe iriam retirar um dos seus quatro instrumentos de trabalho – os seus membros.

     Toda a vida Luís tinha trabalhado a terra. Tinha sido o seu único sustento e contribuição (embora mínima) para a casa da irmã e do marido dela, onde sempre residira após a morte dos pais. Apesar de tudo, não era um inquilino especialmente incomodativo. De manhã à noite, tendo o cuidado de levar algumas merendas consigo para não ter de ter o trabalho desnecessário de parar de trabalhar, ficava nos campos e plantava um pouco de tudo, mas com especial destaque para as batatas.

     Ninguém sabe bem o porquê de Luís não ter dado um pontapé mais a fundo na sua própria vida – nem sequer o próprio. Mas, ao que tudo levava a crer, tinha sido feliz de enxada na mão e em longas conversas com os outros homens da freguesia num banquinho que havia no adro da igreja. Ali, falava-se principalmente de agricultura – pelo menos quando passava alguém, porque toda a gente sabe que os homens falam de muita coisa quando estão sozinhos.

     No entanto, cavar a terra ao pé-coxinho ainda não é, nos tempos de hoje, factível. Existem demasiadas condicionantes; e Luís, embora tivesse alguns indícios de demência e estivesse ainda meio zonzo por causa da medicação, sabia-o.

     Começou a chorar, mas sem derramar qualquer lágrima. Habituara-se a chorar para si mesmo ao longo de toda a vida. Era capaz de entrar e sair de um longo estado de depressão sem alguém notar, mesmo a família, até porque nada disso alguma vez o impedira de continuar a trabalhar e a seguir com a sua vida.

     A sua auto-comiseração foi interrompida por uma das enfermeiras que costumava visitá-lo. Não era bonita nem feia, mas Luís também nunca tinha tido grande apreço por essas questões de beleza. Só tinha tido uma namorada e não durara muito tempo, até porque fora naquela altura em que pouco tempo de namoro não dava direito a muitas trocas afectivas – não como hoje em dia, achava ele.

     A enfermeira pediu para entrar e, ao olhar para a cama de Luís, deu um grito. Apressou-se a pedir ajuda na direcção geral do corredor e a lançar-se para o armário das toalhas. Luís só teve tempo de a ver despejar uma grande quantidade de toalhas brancas em cima da cama que, ao serem levantadas, tornavam-se avermelhadas. Não sabia o que se estava a passar, mas sentia-se cada vez mais zonzo; e já não tinha a certeza de ser da medicação.

     Adormeceu.