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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

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Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. I

     Luís Fagundes nunca teve filhos. Também nunca teve uma família, nem sequer uma casa. Luís Fagundes, bem vistas as coisas, nunca teve nada. Agora, naquele lar para onde tinha sido transportado após a morte da irmã, também não tinha uma perna. Pelo menos já não a sentia. Aparentemente, iam cortá-la por causa de uma doença qualquer que Luís mal sabia o que era, mas que lhe diziam que tinha. E ele, como sempre fora uma pessoa conformada, anuía. Mas talvez não o tivesse feito se soubesse que, como consequência, lhe iriam retirar um dos seus quatro instrumentos de trabalho – os seus membros.

     Toda a vida Luís tinha trabalhado a terra. Tinha sido o seu único sustento e contribuição (embora mínima) para a casa da irmã e do marido dela, onde sempre residira após a morte dos pais. Apesar de tudo, não era um inquilino especialmente incomodativo. De manhã à noite, tendo o cuidado de levar algumas merendas consigo para não ter de ter o trabalho desnecessário de parar de trabalhar, ficava nos campos e plantava um pouco de tudo, mas com especial destaque para as batatas.

     Ninguém sabe bem o porquê de Luís não ter dado um pontapé mais a fundo na sua própria vida – nem sequer o próprio. Mas, ao que tudo levava a crer, tinha sido feliz de enxada na mão e em longas conversas com os outros homens da freguesia num banquinho que havia no adro da igreja. Ali, falava-se principalmente de agricultura – pelo menos quando passava alguém, porque toda a gente sabe que os homens falam de muita coisa quando estão sozinhos.

     No entanto, cavar a terra ao pé-coxinho ainda não é, nos tempos de hoje, factível. Existem demasiadas condicionantes; e Luís, embora tivesse alguns indícios de demência e estivesse ainda meio zonzo por causa da medicação, sabia-o.

     Começou a chorar, mas sem derramar qualquer lágrima. Habituara-se a chorar para si mesmo ao longo de toda a vida. Era capaz de entrar e sair de um longo estado de depressão sem alguém notar, mesmo a família, até porque nada disso alguma vez o impedira de continuar a trabalhar e a seguir com a sua vida.

     A sua auto-comiseração foi interrompida por uma das enfermeiras que costumava visitá-lo. Não era bonita nem feia, mas Luís também nunca tinha tido grande apreço por essas questões de beleza. Só tinha tido uma namorada e não durara muito tempo, até porque fora naquela altura em que pouco tempo de namoro não dava direito a muitas trocas afectivas – não como hoje em dia, achava ele.

     A enfermeira pediu para entrar e, ao olhar para a cama de Luís, deu um grito. Apressou-se a pedir ajuda na direcção geral do corredor e a lançar-se para o armário das toalhas. Luís só teve tempo de a ver despejar uma grande quantidade de toalhas brancas em cima da cama que, ao serem levantadas, tornavam-se avermelhadas. Não sabia o que se estava a passar, mas sentia-se cada vez mais zonzo; e já não tinha a certeza de ser da medicação.

     Adormeceu.

O que eu não dava por um pudim.

Eu nem sou grande fã de pudins.

Se me derem a escolher entre um pudim ou todas as outras sobremesas do Mundo, sou capaz de escolher o pudim apenas antes dos testículos de boi da Tasmânia.

Não, nunca gostei muito da Tasmânia.

 

Mas a verdade é que, lá de vez em quando, compro pudins, porque o ser humano é contraditório e porque eles até costumam estar baratos.

Foi isso que fiz no outro dia. Comprei pudins e, lá de vez em quando, lá ia um. Só porque sim. Porque achava que o meu corpo precisava de mais uma dose cavalar de açúcar.

 

Ora, há bocado, depois de jantar, tive um dilema: como tinha comprado também uma embalagem de frutos vermelhos, fiquei momentaneamente na dúvida em relação a que sobremesa haveria de comer.

Decidi-me pela fruta. Primeiro porque prefiro, e depois porque o jantar tinha sido algo pesado, e não fazia sentido estar a sobrecarregar ainda mais o estômago, coitado.

E estava tão certo disso que, mesmo na viagem até à cozinha, o meu cérebro dizia-me e voltava a assegurar-me de que era para a fruta que pendia.

 

Chegado ao frigorífico, e por mera curiosidade, olhei na direcção da prateleira onde estariam os pudins, para ver quantos restavam.

Não restava nenhum.

E agora é que vem a parte interessante: é que, não sei por que carga de água, assim que vi que não tinha qualquer pudim, ficou a apetecer-me comer pudins como nunca antes na vida me tinha acontecido.

 

Portanto, que se lixe a fruta, pá, isso é para meninos!

A questão é: onde é que se compra pudins a partir da meia-noite?

Conto do Alfredo e do duche pela manhã.

Alfredo acordou de manhã e deixou-se ficar mais um pouco na cama. Afinal, conseguia ouvir os colegas de casa a tomar duche.

Era sempre assim, de manhã. A competição era feroz, e o duche era só um.

 

Quando despertou completamente, o duche continuava ocupado. Decidiu ir tomar o pequeno-almoço.

Já de barriga cheia, voltou a colocar o ouvido à escuta, mas continuava a ouvir o estalar da água no chão do poliban. Decidiu ir trabalhar, adiantar alguma coisa enquanto esperava.

 

Trabalhou, almoçou, voltou a trabalhar e regressou a casa. E era vê-los, ora uns a sair do duche enquanto ainda esfregavam a farta gedelha, ora outros a entrar de toalha e champô em punho.

Parecia uma linha de montagem, na qual entravam ainda badalhocos e saíam impecáveis a nível da higiene pessoal.

E Afredo sempre sem conseguir tomar duche.

 

Acabou por decidir ir dar uma volta ao parque, para espairecer. Bebeu uma limonada, viu o pôr-do-Sol e regressou a casa. E jantou, porque a casa-de-banho continuava ocupada mas a cozinha, essa, estava livrinha da silva.

E, no dia seguinte, fez tudo de novo, porque ainda por cima a água às vezes esfriava sem ninguém saber porquê e atrasava ainda mais o processo.

 

Consta que, hoje em dia, Alfredo já terá falecido, tendo deixado como herança dois filhos e um neto.

Mas uma coisa é certa: nunca chegou a conseguir tomar duche.

 

Paz à sua alma.

Fui atingido por um "você".

Tenho 25 anos e acabei de ser tratado por você.

E não foi pela funcionária do banco, ou por um polícia na rua. Foi por um colega de trabalho.

 

Já cheguei a uma fase da vida em que os colegas de trabalho infimamente mais novos (ou então sou eu que pareço muito mais velho) me tratam por você. A mim, que saí do mundo das fraldas há pouco tempo e ainda não dei o devido uso a uma lâmina de barbear!

 

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Apresento-vos ao Esteves, o meu pêlo de estimação.

 

E eu não quero isto – o você – na minha vida, pelo amor de Deus…

Não quero que ninguém me trate por você, aliás! “Tu” tem duas letras, é mais simples. “Você” tem quatro e um acento. É demasiada burocracia no tratamento interpessoal.

Chamem-me tu, chamem-me pá, chamem-me “ó palhaço!”, que eu aceito tudo. Só não me chamem você.

 

Estamos entendidos?

Então vá. Adeus, seus palhaços.