Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#08)

Depois do marasmo que foi "A Estrada", precisava de algo que me fizesse sentir algo. Optei por "Batalha" de David Soares.

 

Às Armas!

 

 

Descobri este livro, e autor, completamente ao acaso, mas ainda bem que o fiz: estava a divorciar-me e o meu advogado chamava-se David Soares - agora chama-se Elisa - e eu à procura do contacto dele na Internet descobri este livro. Pensei que era o mesmo David Soares, com uma obra de nome "Batalha" em que, provavelmente, descrevia algum caso legal, alguma batalha travada e ganha. Comprei-o e li com interesse, julgando que me fosse ajudar em todo o meu processo. Aliás, até despedi o advogado e tratei eu próprio de tudo, como já tinha este livro a preparar-me para a vindoura batalha. Escusado será dizer que me enganei e acabei por perder tudo. Quer dizer, tudo menos este livro; o que foi bom, sempre me ajudou a distrair, até porque o adorei. 

 

Uma fábula religiosa e existencialista, acompanhamos Batalha, uma ratazana à procura de si mesma e à descoberta do sentido da vida e seu propósito.

Num fantástico cruzamento entre fábula e história, realidade e fantástico, conhecemos Batalha ainda bebé e partimos nesta viagem com ela. Pela voz dos animais que dão corpo ao texto, mas não só, presenciamos todos os acontecimentos de vida desta ratazana, uma personagem fascinante, na sua aprendizagem e desenvolvimento, a sua força e pensamento. Sentimos por ela, e por aqueles com que se cruza, a sua dor e as suas dúvidas. Porque, no final, estamos todos à procura do mesmo, todos sentimos o mesmo. 

 

"Às vezes, há quem nos queira fazer mal, mas se fizermos mal porque nos fizeram mal, isso... Isso quebrar-nos-á o coração"

 

Dotada de muita inocência e vontade de aprender, de compreender a si e ao mundo, coragem e lucidez, Batalha embarca numa viagem filosófica que lhe levará ao local de construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. As suas interacções com outras personagens, pautadas pelos excelentes diálogos de David Soares, dão sentido a esta alegoria e mostram-nos muito sobre nós, humanos. Todos temos um lugar no mundo, por mais pequena que seja a nossa contribuição.

 

"Porque enquanto nós existimos, a morte não existe, (...) E quando ela existe, quem não existe somos nós."

 

 

 "As palavras certas encolhem o tempo"

 

As considerações sobre religião, vida e morte, e, principalmente, sobre o medo, são um triunfo. Já há muito tempo que não retirava tantas citações, que não relia muitos dos diálogos. A objectividade de um mundo visto pelos animais, simplista, uma reflexão profunda sobre a condição humana. Tudo isto num espírito muito próprio, por vezes ingénuo, sempre fantástico, mas tão real. 

 

"Esse é que era, sem dúvida, o único deus que existia - e o único que valia a pena existir -, o único que, de facto, fazia falta.

A imaginação"

 

"Essa é que era a verdadeira razão de viver: não era o mundo que tinha que dar sentido à vida, mas era ela que tinha que dar sentido ao mundo."

 

Nunca tinha lido nada de David Soares, conhecia a sua fama, do tipo de vocabulário usado, por exemplo. Só posso dizer que adorei, tal como tudo nesta obra. As palavras mais fora do comum que são utilizadas amiúde conferem uma certa aura ao texto, adequam-se e decoram-no com excelência, aparecem naturalmente. Todo o estilo do autor me agradou, a leitura fez-se num ápice. Até as músicas, quadras, apresentadas por uma das personagens, são dignas de nota e eu, geralmente, nunca gosto deste tipo de coisas num livro.

 

"(...) achava que basear um estilo de vida no medo era uma coisa nociva. Nada era mais elementar que o medo. Nada era mais essencial.

Mas também nada era mais valetudinário.

Mais tóxico."

 

Todas estas reflexões sobre a religião e o medo ganham uma enorme dimensão à luz de todos os acontecimentos que se desenrolam no mundo actualmente. Viver com base no medo é perigoso, é a nossa derrota.

 

"O medo ajuda-nos a ver as coisas com mais clareza. Ele... Ele coloca as coisas em perspectiva.

Mas também nos obriga a fazer coisas más"

 

Foi um dos livros que mais prazer me deu nos últimos tempos, recomendo vivamente e vou, sem dúvida, ler mais do autor.

 

fim.jpg