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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#07)

Imaginem que têm de atravessar um país de uma ponta à outra. Percorrer uma estrada, sem nenhuma ajuda nem sítio onde parar, a depender apenas de vocês próprios. Levavam um livro para se entreterem, não? Claro que levavam. Mas, por favor, não levem "A Estrada" de Cormac McCarthy.

A sério, pode parecer o livro adequado para levarem nas vossas peregrinações, algo como um manual para saberem o que esperar, no entanto, a menos que queiram morrer de aborrecimento, adormecer no meio da estrada até algum camião vos passar por cima, ou atirarem-se de uma ponte porque não aguentam mais a companhia daquele livro, não o aconselho para tal empreitada.

 

Preferia ter de andar por incontáveis estradas, que ler isto outra vez.

 

Lá de vez em quando pego num livro que é adorado por muitos, que ganhou prémios, e leio-o com entusiasmo e expectativa. Lá de vez em quando, também acontece eu odiar esse livro. Este foi um caso destes. Acho que o livro tem aquele título porque é tão penoso e doloroso como ter de atravessar toda uma estrada a pé e sem mantimentos.

Se calhar odiar é uma palavra demasiado forte, mas o que é certo é que não gostei nada. Sim, venham explicar-me toda a profundidade, intelectualidade, sentimentalismo, etc. O que quiserem. A resposta será sempre a mesma: que nada de livro. Eu já li Cormac McCarthy, percebo o seu estilo, até aprecio por vezes. Daí que continue a ler. Mas não aqui. Nunca aqui. 

 

"A Estrada" é a história de pai e filho a atravessar a América, em busca da costa, em busca de alguma esperança, num mundo devastado. E é isto, se leram esta descrição leram o livro. Porque nada mais acontece. Não é que tenha forçosamente de acontecer, mas alguma coisinha dava jeito. Nem que fosse para manter os olhos abertos.

É suposto importarmo-nos com aquele pai e filho, compreender a sua relação, a dor daquele pai e o fantástico esforço para sobreviver e manter o filho a salvo. É suposto, mas eu não me podia ter importado menos. 

Acho que é propositado, a escrita despida de emoção, crua e dura. A mostrar o vazio do mundo, a total falta de esperança. Percebo isso, não me importo., mas mostrem-me algo. Não há nenhum desenvolvimento, nada. As personagens são aquilo à partida e não mostram mais nada. Os diálogos...

 

O que se passa?

Nada.

Tens de falar comigo.

Eu falo.

Não estás a falar.

Estou a falar agora.

Está bem.

Está bem.

Está bem

 

São mais ou menos assim. Não foi uma transcrição (pelo menos propositada, mas se o fosse não me admirava nada), mas é basicamente isto, sem mais nada.

Segundo McCarthy, esta é a história de um pai e filho, da sua relação, da sua jornada na estrada. Nada mais. Podem tirar as vossas conclusões, mas é isto. E realmente não passa disto, mas nem isto é interessante. Sim, eles são o mundo um do outro, aquele pai faz tudo pelo filho, é a sua única razão de viver, a sua única esperança, o seu único objectivo. E eu só desejava que, no principio do livro, ele usasse as duas balas que ainda tinha e acabasse com o meu sofrimento. A relação deles nunca muda, nunca evolui, não cresce, não leva a lado nenhum. 

 

A escrita varia entre dois estilos, sem nada que os una. Por um lado, uma narrativa crua e directa, a avançar a acção, mostrar os horrores daquele mundo. Isso devia ter impacto, provavelmente teve para a maioria, para mim não resultou. Sim, este mundo estava de pantanas, horrores estão a acontecer, a criança vê cadáveres e assusta-se ou já nem reage. Devia ter impacto, não tem.

Por outro lado, uma escrita forjada e mais adornada que uma prostituta rasca desesperada por mais clientela. Eu não preciso de três linhas para descrever e caracterizar os cabos pendurados num poste. Atrás de algum simbolismo que nunca se encontra, menos para aqueles que muito o querem.

 

O meu problema não é com a falta de esperança ou alegria daquele mundo. Eu posso apreciar a constante frieza e dura realidade de uma história, mas preciso de algo mais a complementar. E não estou a pedir por um final feliz, ou algo do género. Só... alguma coisa.

Também não tenho nenhum problema com finais depressivos, ou infelizes, abertos, ou de que tipo for. E, neste caso, quase que nem há final. Simplesmente pára, acabou ali a parte que nós seguimos a história. Nem é aberto nem fechado, é só um fim. Se o próprio autor diz que nem fazia ideia para onde ia, do que iria escrever, e isso nota-se, porque é que tenho de ser eu a saber?