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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#04)

Mais uma vez desiludido. Não percebo porque é que isto me continua a acontecer... 

Antes de prosseguir, deixem-me só esclarecer: esta desilusão nada tem a ver com a qualidade do livro sobre o qual vou escrever, "A Vida no Céu" de José Eduardo Agualusa, mas sim porque escolho o livro convencido que vou ler sobre uma coisa e afinal não é nada disso. 

 

Leio o título "A Vida no Céu" e imediatamente penso que vou ler e aprender sobre a vida de Deus. Aquilo que faz no seu tempo livre, o que faz quando está em casa descontraído, se tem de ir aos correios e às finanças como nós ou se não é necessário, se briga com Jesus para este ir levar o lixo à rua e arrumar o quarto.. Sei lá, coisas assim. Coisas da vida, mas no céu. Podia ficar, finalmente, a saber se Deus aceitava o estilo do filho ou se preferia que fizesse a barba e calçasse uns sapatos decentes, nem que seja quando tivessem companhia, que tipo de alpista come o Espírito Santo ao pequeno almoço, se Maria ainda é virgem... As questões são imensas. 

Não tive nada disto, com muita pena minha.

Tenho mesmo de parar de escolher livros apenas pelo título. E de os interpretar com base nisso...

 

Eiii!! Esqueceram-se de mim!

 

 

Aquilo que tive foi, sem dúvida, uma bela história.

Quando peguei no livro achei que era pequeno demais; com a história que apresenta, pensei, à partida, que a ideia era interessantíssima e que havia tanto para explorar, porém, o livro conta com poucas páginas. Como é que em 186 páginas vai ser descrito, explicado, mostrado e desenvolvido um mundo num futuro distópico em que a superfície do planeta está completamente coberta por água e com temperaturas intoleráveis que só permitem a sobrevivência no céu, em dirigíveis, balsas e balões voadores?

 

"Esperança: é o nome que damos às nuvens quando nos falta a água."

 

Bem, digo-vos que é possível fazer isso neste pequeno número de folhas, e é possível por causa do autor. José Eduardo Agualusa escreve com uma simplicidade e uma magia em cada palavra que é cativante. Para mim, marca de um grande escritor, consegue dizer tanto com tão pouco. Chegado ao fim, sinto que sei o que preciso de saber sobre este mundo e que isso basta. Podia ser diferente, podia ser mais, mas não é preciso. Uma pequena história, uma pequena aventura. Não chegamos totalmente a conhecer as personagens e ao mesmo tempo conhecemo-las perfeitamente.

Escrito na primeira pessoa, embarcamos nesta viagem juntamente com Carlos, na busca pelo seu pai. As várias personagens que se vão juntando e cruzando o seu caminho dão-nos a conhecer este novo mundo e conseguem o seu espaço para crescer ou resolverem-se. Não esperem grandes surpresas ou grandes desenvolvimentos, não é necessário para a mensagem que quer passar. É uma viagem. Por vários países e culturas, mesmo nas nuvens.

De leitura rápida e sem nunca perder o foco, sem paragens para grandes descrições ou explicações, sem uma análise a um futuro distópico e negro; é antes uma história sobre a descoberta, sobre identidade, de saudade e esperança, dos velhos e dos nascidos nas nuvens. Acima de tudo é uma aventura, é a procura de um sonho.

 

Identidade.Não tem a ver com o lugar onde nascemos, pois no céu tudo é movimento, e sim com os lugares por onde passamos. Identidade é o que a viagem faz de nós enquanto continua. Só os mortos, os que deixaram de viajar, possuem uma identidade bem definida.