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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

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Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#03)

Como é óbvio, eu baseio toda a minha escolha de livros única e exclusivamente com base no título. Acho que faz todo o sentido. Por exemplo, um dos últimos livros que li foi o "We Have Always Lived In The Castle" de Shirley Jackson ("Sempre Vivemos No Castelo" na sua versão em português, publicada pela Cavalo de Ferro).

 

Esta é a capa da edição que tenho.

 

Ora, baseado apenas no título, esperava encontrar aqui o relato de alguém que sempre viveu num castelo. E isso interessava-me, porque eu sempre vivi num castelo. E sinto que as pessoas não convivem bem com isso, sinto muita inveja alheia. Nem posso estar descansado a publicar no instagram todas as fotos do meu castelo e as suas grandiosas salas e tapeçarias, passagens secretas, os banquetes que organizo, a faxina dos meus 43 criados...
Peguei então neste livro, convencido de que iria encontrar algumas palavras animadoras, alguém que passe pelo mesmo que eu e com quem me pudesse relacionar, que compreendesse o meu sofrimento diário. Mas não. Não podia estar mais enganado, nem um castelo que seja existe na história aqui contada. Que vergonha. Que desilusão. 

 

Ok, se forem ler este livro por outros motivos, como, sei lá... A narrativa, então sim. Fazem bem. Porque vale a pena. É um excelente livro, uma história curta e envolvente que em nada desilude e com uma fantástica escrita. 
Shirley Jackson, conhecida por histórias de fantasmas, apresenta aqui um trabalho sem elementos do fantástico, o que torna tudo mais aterrador. Sem divulgar muito o argumento, toda a leitura é acompanhada de um sentimento de antecipação e que nos deixa, de certa forma, desconfortáveis. Não pelo mistério que paira desde o primeiro parágrafo - pois nem as personagens estão interessadas nele -, mas pelo que fica por dizer. Decorre num passado muito mais recente do que aquilo que nos faz imaginar, dado o seu estilo gótico, personagens cativantes logo à partida, estranho e com um sentimento claustrofóbico, que contrasta com uma espécie de agorafobia das personagens centrais. A solidão, o medo dos outros, o medo que provocas aos outros, preconceito, ansiedade social e uma relação fantástica e, ao mesmo tempo, perturbadora, quando conhecidas as circunstâncias do mistério que rodeia aquela família. Tudo isto e mais, nas cerca de 200 páginas que compõem este livro.

 

Ah, e tem um gato chamado Jonas. Portanto, é um livro adequado para tricampeões!

 

«Chamo-me Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e vivo com a minha irmã Constance. É frequente pensar que se tivesse tido um pouco de sorte poderia ter nascido lobisomem, porque o anular e o dedo médio das minhas mãos têm o mesmo comprimento, mas tive de me contentar com aquilo que tenho. Não gosto de me lavar, nem de cães ou barulho. Gosto da minha irmã Constance, de Ricardo Coração de Leão e do Amanita phalloides, o cogumelo da morte. Todas as outras pessoas da minha família estão mortas.»


Assim inicia Shirley Jackson o seu último romance, de 1962, considerado pela crítica uma das obras-primas da literatura norte-americana. Neste, atinge o auge a sua perícia narrativa de tornar real ao leitor um mundo inverosímil, conseguindo ao mesmo tempo  convencê-lo de que a loucura e o mal habitam os cenários mais comuns.

 

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