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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Crónica de um dia azarado

Já tive vários dias maus, mas nunca tinha tido um dia como ontem. 

A manhã começou como qualquer outra, com o nascer do sol. Normalmente é assim. Por alguma razão o despertador não tinha tocado e só acordei com um estrondo e um cheiro a queimado. O despertador não tinha tocado nem iria tocar mais, já que o telemóvel tinha acabado de explodir. Saltei rápido da cama, sem tempo para me preocupar com o que se tinha passado, tinha um dia importante pela frente.

Devido ao que se passou com o telemóvel, ligado à corrente, também fiquei sem electricidade. Bem que as torradas não ficavam prontas e eu ainda demorei a perceber. Arranjei-me às pressas e quando vou sair dou com a porta trancada. Nada de muito estranho, mas tinha deixado as chaves no escritório. A minha mulher já tinha saído para ir levar o pequeno à escola e tinha-me deixado trancado em casa. Era só o que me faltava, logo no dia em que tinha uma reunião importante com um cliente que precisava convencer a avançar com o nosso projecto. Falhar nesta tarefa implicava o desperdício de recursos e trabalho de meses, bem como um grande prejuízo que resultaria em despedimentos.

Ora, neste ponto estou eu todo aprumadinho mas atrasado meia hora e fechado num quinto andar sem possibilidade de sair, sem telemóvel nem electricidade. Nem podia comunicar com ninguém. Tinha de sair de casa de alguma maneira, tinha de chegar a tempo à reunião, todo o projecto dependia de mim. Sei bem como funcionava o Macgyver, sabia o que tinha a fazer: fui buscar um ananás, um sapato velho e um isqueiro. Num pedaço de papel escrevi uma rápida mensagem a explicar o que se passava e requisitar ajuda e meti-a dentro do sapato velho. Atirei-o pela janela, sentei-me a comer o ananás, já que não tinha chegado a comer as torradas, e acendi uma vela a nossa Senhora de Fátima, porque uma reza podia ajudar a resolver a situação. Já agora, nunca vi um episódio do Macgyver, se calhar não era bem assim que ele tinha resolvido o problema. Para mim não resultou. Alguém pegou no sapato e atirou-o para o lixo, ignorando os meus apelos da janela, como toda a gente o estava a fazer.

 

Com isto tudo, já estávamos na hora da reunião e eu ainda trancado em minha casa. Posso nunca ter visto o Macgyver, mas o James Bond conheço e sei que não eram 5 andares que o iam derrotar. O plano passava por pendurar-me na janela e deixar-me cair para a varanda do andar de baixo, e assim sucessivamente até chegar ao chão. 

Pequenos pormenores que só me ocorreram quando já estava pendurado na minha janela e sem força para me içar de novo para dentro: as varandas são na parte de trás do apartamento e tenho outra porta, ao lado dessa varanda, que dá acesso a um pátio que tem outra saída para o exterior. Porta essa que tem a chave na fechadura.

Resumindo, eu continuava pendurado, nem para cima nem para baixo. A polícia e os bombeiros apareceram e acabei a amanhã no hospital para avaliação psiquiátrica. Depois de conseguir convencê-los que tudo não passara de um mal entendido, que não tinha tendências suicidas, era só estúpido, deixaram-me sair. Com sorte, nunca tinham conseguido contactar a minha mulher, porque eu não sabia o número de cor, e assim evitava esse embaraço e não lhe causava preocupação.

 

Fui até ao escritório, sem saber ainda como ia explicar tudo aquilo. Já tinha lixado todo o projecto, portanto nem sabia o que esperar. Só quando lá cheguei é que me apercebi de algo que todos vocês já sabem e se aperceberam: ontem era Domingo. Por isso é que o despertador não tinha tocado. Era dia da mãe, e a minha mulher tinha ido tomar o pequeno almoço com a sua. O meu filho devia estar no quarto a dormir. 

A caminho de casa, e maltrapilho como estava, de fato rasgado e com uma postura deformada derivada da hora que passei agarrado ao parapeito, fui confundido por um pedinte e um senhor deu-me uma moedinha. Agradeci, pois sempre me ensinaram a aceitar prendas. Quem não gostou foi mesmo um pedinte que andava ali por perto e ao qual não calhou nada. Veio gritar-me que aquilo era o seu território, para eu arranjar um para mim. Dito isto, deu-me um enxerto de porrada e roubou-me a carteira. 

 

Quando finalmente cheguei a casa, a minha mulher abriu-me a porta. Nem me deixou explicar bem o que se tinha passado, e disse que era bem feita eu ter levado um enxerto de porrada, para aprender a não ser um xoninhas pacifista. Que era por coisas dessas que estava farta de mim e que ia avançar para o divórcio. Além disso, tinha deixado o rapaz sozinho em casa. Eu nem estava a processar bem o que se estava a passar e ela diz-me que vai sair, para espairecer, para eu não deixar o nosso filho sozinho outra vez.

 

Eu só queria dormir, descansar um bocado e perceber o que raio estava a acontecer. Deitei-me no sofá e olhei o aquário que temos na sala. Estava uma nojência, quase que nem se via o peixe. Sempre a mesma coisa, ele nunca limpa o aquário. Chamei o Ramiro e disse-lhe para limpar aquilo, que não era maneira de se ter um peixe assim, para ele lhe tratar da saúde. 

Mal tinha adormecido para a minha sesta quando desperto novamente com repetidos estrondos. Vou rapidamente à cozinha ver o que se passa e dou com o Ramiro a estraçalhar o peixe com o martelo dos bifes. Chorava sem parar enquanto o fazia, mas não parava. Parece que o que aconteceu foi um pequeno erro de comunicação, fui mal interpretado quando lhe ordenei que tratasse da saúde ao peixe. Olhando para trás, talvez tenha sido má ideia fazer uma maratona dos filmes d' O Padrinho com um puto de 6 anos. Eu só queria que ele limpasse o aquário, pela saúde e bem estar do animal.

 

O resto do dia passou-se em silêncio e sem muito a relatar. À noite, antes de me ir deitar, pensei em tomar um duche para relaxar. Quando estava na banheira decidi fazer flexões. Se tivesse em melhor forma física não tinha ficado pendurado na janela, nem tinha apanhado tanta porrada. Além disso, sempre a inovar, um 2 em 1: flexões no duche. Exercício e banho ao mesmo tempo, só aqui estou a aproveitar muito melhor as horas do dia. O que acabou por acontecer foi que o braço escorregou-me bati com a cabeça. Quando voltei a mim, a casa de banho estava inundada, sangue jorrava-me da cabeça, o braço esquerdo não deixava de me apontar para a nuca e o meu filho vinha a caminho com o martelo dos bifes para me tratar da saúde.

 

Vendo bem as coisas, nem se passou muita coisa, o dia não foi mau de todo. Isto podia ter acontecido a qualquer um. Já agora, tendo em conta que estou no hospital desde ontem à noite e conto com um grande número de novas despesas, se alguém estiver a contratar...

A página em branco

Ultimamente não tenho escrito muito, nem aqui nem só para mim. Tal facto não incomoda ninguém a não ser eu próprio, porque gosto de o fazer. Podia listar um sem número de razões para ter acontecido isto, mas a verdade é que a culpada acaba por ser só a preguiça. O que não deixa de ser um contra-senso, pois é algo que me traz satisfação e prazer, algo que estimo. Mas, como em imensas destas situações, mesmo que seja algo que queira muito fazer, acabo por deixar passar por preguiça de começar.

 

Claro que o tempo, ou falta dele, é sempre um factor, mas não é desculpa neste caso. Podiam haver outras razões, como o famigerado medo da página em branco. 

Contudo, ideias não me faltam. Não é para me gabar, mas tenho uma enorme quantidade de ideias de coisas para escrever. Nenhuma delas boa e que valha a pena, tal como na maioria das vezes; mas elas existem e não é um problema. E mesmo que não tivesse, era isso que me ia impedir? Quem já leu algo do que aqui publiquei pode atestar que não.

 

Outra coisa tem a ver com esta noção: o medo da página em branco. A página em branco não assusta, aliás, só pode reconfortar, dar segurança...

A página em branco não pode magoar ninguém, não ofende ninguém, não choca ninguém. Enquanto a página estiver vazia, nada acontece, ninguém gosta e ninguém odeia. A página em branco é sem opinião e sem visão, não é um princípio e é sem fim. A página em branco é segurança, porque é sem risco. Enquanto não se fizer nada, nada acontece. A página em branco é sem identidade; é uma não existência e o que não existe não assusta, não pode influenciar nada, não provoca reacção nenhuma e isso é sempre seguro. 

A única altura em que uma página em branco podia assustar seria se chegasse ao supermercado e a lista de compras estivesse em branco e eu ficasse sem saber o que me faltava. Ou se estivesse a fazer uma lista de pessoas que me são queridas e a página permanecesse em branco. Ou se fosse indicado como suspeito num caso de homicídio e a única prova que tivesse para atestar o meu álibi fosse um qualquer documento que, de repente, estava em branco. Isto seriam situações em que compreenderia o medo da página em branco, porque de resto, não nos pode tocar, por isso não há que ter medo, certo?

 

Ou então assusta, mas não por si mesma: por ser uma representação do nosso estado interior, do vazio que nos assola, da falta de identidade e visão, da falta de um princípio, da falta de coragem ou propósito, de um outro medo maior; o de arriscar e falhar. A página em branco é uma lembrança constante do que não temos, do que falta, da extrema segurança e monotonia que se disfarça de conforto, uma constante visual da estagnação.

 

A página escrita, essa, é que assusta. Aí é que está o perigo, as opiniões, os gostos, as ideias, as emoções. A página escrita é que pode ameaçar ou reconfortar, fazer nascer ou quebrar, inspirar e admirar ou delirar. Na página escrita é que há vida em cada palavra, é que provoca reacções, é que existe a possibilidade de ser horrível. É que pode desiludir e fazer cair, ofender e deitar tudo a perder, mas é também ela que conquista. É onde existe o risco, que tem de ser encarado e aceite. É uma queda livre sem saber se o pára-quedas se abre.

 

Sim, a página escrita é que assusta, é a única que tem consequências. 

É aí que está o medo.

Mas o medo é bom. O medo é necessário. O medo é vida. Vai sempre existir.

Uma página em branco não é ameaça, quanto muito é mordaça e, nesse caso, assustaria.

A página em branco é um limbo existencial, não há consequências. Nem positivas nem negativas.

Antes arriscar. Antes ficar assustado. Porque é a página escrita que faz o coração bater mais depressa, é ela que tem algum significado. Não se assustem com uma página em branco: é inofensiva. Preencham-na com palavras e sintam o que houver para sentir. 

 

A coisa mais difícil da minha vida

Vivo no limite, no fio da navalha, à beira do abismo.  

 

Sou uma pessoa aventureira, preciso adrenalina, requeiro dopamina, sou viciado em cafeína, mas não me meto na metanfetamina, fico-me pela endorfina a dar com um pau.

Corro riscos e não me deixo abater. Vivo a vida ao máximo, um dia de cada vez, nunca estou de pé atrás, nem que a vaca tussa. Hakuna Matata, Carpe diem.

Ando de BMX, BTT e skate, tudo ao mesmo tempo. Faço escalada, slide e rappel, de olhos fechados e com uma perna às costas. Surf, kitesurf mas também windsurf, com o mesmo vento com que a minha asa é delta. Passeio de parapente, salto de aviões, desafio avalanches. No paintball sou general.

Ando sem guarda-chuva, com roupa por engomar, com a camisa por fora das calças. Questiono crenças comuns e populares, julgo livros pela capa e a capa pelos livros, derramo leite e não choro, aconselho-me na noite.

Faço trinta por uma linha, procuro agulhas num palheiro, passo tudo a pente fino, separo o trigo do joio. Não fico a ver navios, atiro-me de cabeça, ponho lanças em África, vou até ao cu de Judas e penteio macacos.

 

Tenho pêlo na venta, ponho as barbas de molho, as mãos à obra e os pontos nos is.

Sou advogado do diabo, coloco as mãos no fogo, ponho o dedo na ferida, as mãos na massa. Arregaço as mangas, parto a loiça toda. Levanto a cabeça, abro os olhos, acerto agulhas e vai tudo a eito. Sou bom de boca, tenho a pulga atrás da orelha, as costas quentes e quebro o gelo.

Vou com a corda toda, vou a fundo, de pé firme, ando na linha, agarro com unhas e dentes, movo montanhas, dou a volta por cima, ponho a bola para a frente e deixo a bola rolar. Vou à luta, deito lenha na fogueira, arrisco a pele, tenho sangue na guelra.

Agarro a vida pelos cornos, grito a plenos pulmões. Tenho a cabeça nas nuvens e os pés bem assentes no chão. Tenho as costas largas e o peito feito, faço das tripas coração.

Lanço os dados, desafio a morte, tenho a faca e o queijo na mão.

 

 Vivo no limite, no fio da navalha, à beira do abismo.  

 

No entanto, não há nada que seja mais difícil, nada que custe mais e me derrote tão facilmente que levantar-me de manhã, sempre que toca o despertador para ir trabalhar. Há coisas mesmo difíceis de fazer.

Devaneios Irrelevantes da Imaginação

Tenho estado a tentar corrigir a minha falta de participação no blog, a tentar voltar, mas não tem sido fácil. Sei que isto não interessa a ninguém, mas não deixa de ser um ponto de honra. Mas então porque é que não o tenho feito, se o quero assim tanto? Não é propriamente por falta de conteúdo, porque há sempre alguma tolice a passear-me pela cabeça capaz de me entreter; podia dizer que a vida se meteu no caminho, que era devido ao trabalho, a isto ou aquilo, mas a verdade é que não é nada disso.

Quero fazê-lo, tenho ideias, tenho vontade de escrever alguma coisa, tenho tempo… No entanto, não tenho produzido nada. O problema é que acontece sempre alguma coisa quando tento escrever.

 

Sento-me confortavelmente, com o computador à frente e a secretária devidamente organizada de forma obsessiva compulsiva, com as distâncias entre as canetas e o bloco de notas cuidadosamente calculadas, alguns papéis soltos a dar a impressão de um projecto em curso e uma iluminação que me permite a melhor fotografia inspiradora que já passou pelo instagram.

 

Os dedos começam a dançar pelo teclado e dou por mim a perguntar-me o porquê de isso acontecer. Porque é que os meus dedos estão a dançar uma valsa por cima do teclado, não faz sentido nenhum. Assim nunca mais começo a escrever. Continuo a observar, fascinado, enquanto as minhas mãos se entrelaçam num fabuloso tango de teatro dedal. Do nada, a mão esquerda cai desamparada. Clara sabotagem por parte da mão direita, que assim custou o primeiro lugar neste concurso de dança manual. Todas as minhas canetas olham incrédulas para esta falha, e no seu papel de juízes dão uma nota baixíssima. As mãos afastam-se do teclado, abatidas e distantes uma vez mais. A mão esquerda não se contém e começa um ataque feroz à mão direita, metendo unhas ao barulho e tudo. A direita bem se tenta defender, mas a ferocidade da esquerda não amansa. Acusações de sabotagem começam a ser proferidas, as canetas já vieram todas ver o que se passava, eu contínuo fascinado, o cachecol pendurado nas costas da cadeira começa a meter-se, sem dúvida a ver que escândalo era este que não o deixava repousar calmamente. Descobre-se que a mão direita estava cansada de ter de fazer a grande maioria do trabalho, estoirada do seu papel dominante nesta relação e a incriminar a mão esquerda de ser uma mandriona, que nem tem jeito para nenhuma actividade. Todo este alvoroço culmina na revelação que a mão direita mantém uma relação amorosa duradoura com outra parte do meu corpo, órgão que a mão esquerda tão bem conhece mas nunca foi muito próxima. Saltam as tampas às canetas, o cachecol recolhe-se nas costas da cadeira e eu acabo por separar as mãos e pôr fim ao espectáculo, que isto de me meter em assuntos pessoais não é para mim.

 

Passada esta hora e meia, sem que nada para o blog tivesse sido criado, olho para o computador determinado a escrever aquilo que queria. É nesse momento que reparo na estranha mensagem que ocupa todo o ecrã, num fundo vermelho berrante umas letras garrafais brancas ferem-me a visão. Pior que isso é a sua mensagem:

 

Vasco: és a causa das vitórias do senhor Trump.

 

As pernas tremem-me e só não caio porque estou sentado. O meu computador, alvo de algum ataque informático para extorsão, talvez só para ameaça, mostra que alguém sabe a verdade, que alguém conhece o meu maior segredo. Aumenta o meu nervosismo e paranóia, sinto o batimento cardíaco na língua e fico intrigado: será que estou mesmo a sentir o batimento cardíaco na língua? Ponho os dedos da mão esquerda na língua e tento encontrá-lo. Pressiono e percorro toda a língua, mas nunca consigo realmente sentir o batimento cardíaco ali. Começo a ficar preocupado, será que estou morto? Levanto-me num salto e abro a porta do guarda-roupa para me ver ao espelho que tem numa das portas. Qual não é o meu espanto quando não vejo o meu reflexo! Já desconfiava, depois de não conseguir sentir o batimento cardíaco na língua. Não passo de um fantasma. Não sei quando morri, se sempre estive morto todos estes anos. É ao mesmo tempo que estou a colocar toda a minha existência em causa que volto a ficar demasiado ansioso e a sentir que estou com um ritmo cardíaco muito acelerado. Caio em mim e na estupidez do que estou a fazer, apercebendo-me que estava a tentar encontrar pulsação na língua. Olho com atenção para a porta do guarda-roupa e continuo sem ver o meu reflexo, mas agora percebo porquê. Não é este o guarda-roupa que tem o espelho na porta, é o outro. Dou uma boa gargalhada e preparo-me para voltar à minha vida quando me lembro do que realmente se estava a passar. A mensagem no meu computador! Alguém sabia a verdade e era preciso resolver este assunto de uma vez por todas. Esta informação não podia ser divulgada.

 

Olho com atenção para a frase que me enche o ecrã e de repente tudo faz sentido. E se vocês olharem com atenção também vão perceber. É uma mensagem codificada, criada com aquele conteúdo chocante para me fazer despertar. É muito fácil de perceber, é só reordenar as letras todas daquela frase e ficamos com a mensagem verdadeira:

 

Vasco, és cá um parvo. Tu estás só a sonhar.

DRDII

 

Tudo não passou de uma forma do meu cérebro me trazer de volta à realidade, de me despertar destas fantasias inconsequentes. DRDII (Departamento Real dos Devaneios Irrelevantes da Imaginação) é a sigla dessa secção do meu cérebro, como todos sabemos.

 

Assim que percebo a verdadeira mensagem acordo para o mundo. Nada disto se passou, continuo sentado à minha secretária com o editor de texto aberto e em branco. Finalmente despertei desta fantasia, mais uma de muitas. Agora estou demasiado alterado para escrever o que quer que seja para o blog, hei-de fazê-lo noutra altura.

 

A sério, eu bem que tento, mas continuam a acontecer coisas destas. Assim fica difícil.

Muito mais que uma prenda

Desde criança que sempre quis ser um pirata. Não no sentido sério do crime sem escrúpulos e selvajaria que acompanha a profissão, mas pelo sentimento de aventura e liberdade, de luta contra o sistema, da anarquia de viver com emoção e adrenalina; tudo num sentimento romantizado da época dourada da pirataria. Tive espadas e mosquetes, pequenos navios, fascínio pelo mar. Aprendi sobre eles e sonhei. Vivi nessa fantasia, através dela. Ainda hoje o faço, por vezes. 

 

Já vivi muitas vidas e fantasias.

 

Não passava de uma criança a contemplar as estantes carregadas de livros do avô. Desejando por algo que pudesse ler, que percebesse e fosse adequado. A aguardar uma idade em que pudesse lê-los a todos, a expectativa daqueles mundos por descobrir, excitado pelas possibilidades de futuro. Já não sei como nem porquê, mas escolhi (ou foi-me escolhido) um livro de Emilio Salgari: "O Corsário Negro". E foi assim que começou, com um livro. Seguiram-se saltos em cima da cama, com estocadas imaginárias do meu sabre (e, pela primeira vez: não, isto não é um eufemismo), proclamação de revoluções e sanguinários feitos heróicos. Os restantes livros da série continuavam na estante, e fui-lhes agarrando um a um; acho que até hoje não me foi dada permissão para tal, mas também nunca me foi negada. Este acto não passou despercebido, e os livros desapareceram do seu lugar. A pouco e pouco foram-me sendo oferecidos, sempre que a ocasião o justificava, com uma pequena inscrição no seu interior. Se calhar o meu avô julgou que seriam ainda mais poderosos sendo uma prenda. Com alguma razão, é certo. A verdade é que foram muito mais que uma prenda.

 

Às pessoas especiais quero dar sempre mais. Não em quantidade, mas algo característico, com significado. Às pessoas especiais quero dar tudo, quero dar o mundo. Não posso. Por isso dou-lhes todo um universo, e mais. Dou-lhes um livro.

Um livro não é só um passatempo, uma ocupação; não é só uma história ou entretenimento.

Quando oferecemos um livro estamos a dar muito mais que isso. Um livro é uma vida, um pedaço de alma, uma experiência, uma viagem. É sentimento. 

Ao darmos um livro estamos a dar muito mais. O inatingível por outro meio, toda uma outra vida. Um sem número delas.

 

Este é o meu universo

 

Possui o poder de nos transformar, curar, inspirar. É um instrumento como nenhum outro, capaz de nos fazer imaginar, apaixonar, sorrir, acreditar. Muda o que pensamos, ensina-nos. 

Transforma-se em algo orgânico, é vida pulsante em caracteres. É sonho e esperança. 

Pode ser devastador, mas é sentimento. É aprendizagem.

 

É mais que viajar. É um portal mágico que nos leva para outro mundo. Deixa-nos viver outra vida, sermos o que quisermos. É tão real que o sentimos fisicamente. Somos detectives, guerreiros, ditadores, inventores, ferreiros, pilotos... Não há limites. 

Literatura existe para excitar, espantar ou deslumbrar; para ensinar e relatar. Choramos e rimos, mas nunca seremos iguais. 

Desde que existem livros que andamos a viajar. Passado ou futuro, realidade ou ficção, deixam de ser obstáculos a ter em conta. O bilhete é eterno e a viagem infinita. 

Vidas são mudadas e influenciadas, escolhas são tomadas. Somos aquelas personagens, reais ou não. Pelas palavras de alguém transformamo-nos, e, connosco, o mundo. Imaginamos o impossível e tentamos replicá-lo. Assim fomos evoluindo como sociedade, como espécie. Foi escrito num livro, foi lido, foi imaginado, foi alcançado. Ultrapassar o limite da imaginação é a nossa meta.

 

Evoluímos porque imaginamos.

Um livro é imaginação.

Tudo isto, e mais, é o que estamos realmente a oferecer.

É muito mais que uma prenda. 

 

The greatest art offers us images by which to image our lives. And once the imagination has been awakened, it is procreative: through it we can give more than we were given, say more than we had to say.

 

Lewis Hyde ("The Gift: Creativity and the Artist in the Modern World")

 

Casa Abençoada

Já todos vimos os filmes e ouvimos as histórias sobre casas assombradas; nada de novo nesse tema. Família muda-se para uma nova casa, coisas estranhas, sobrenaturais, começam a acontecer e ninguém se muda de casa. Eventualmente, mortes acontecem, fantasmas aparecem, espíritos revelam-se. Um padre entra na figura, chamam-se os caça-fantasmas, acende-se uma vela e no final resolve-se o problema. E se fosse isto que se tivesse a passar comigo, tudo bem, nem estávamos aqui a ter esta conversa. 

 

O problema é outro e muito maior. Além disso, muito pouco falado. É que em vez de uma casa assombrada, eu acho que a minha casa está abençoada.

 

Não, não estou a brincar. E desengane-se quem acha que isto é uma coisa boa. É que uma casa abençoada assusta-me muito mais que uma assombrada. Os efeitos são muito mais perturbadores, sem bem que agradáveis ao mesmo tempo. 

Ao contrário de todos aqueles filmes de terror, eu não me mudei recentemente para esta casa. Estou aqui há três anos. E até há cerca de uma semana atrás, nunca se tinha passado nada de estranho.

 

É que não conseguem perceber o meu stress... Não é a nenhuma bênção religiosa que me refiro, também. Comecei a notar pequenas coisas ao inicio, como a roupa arrumada na gaveta em vez de estar espalhada por cima da cadeira e da secretária, ou a loiça arrumada no armário.

Com o passar dos dias, coisas ainda mais estranhas foram acontecendo. A roupa começou a aparecer lavada e engomada, arrumada por cores e estilo. Pó? Nem vê-lo. Cama feita todos os dias, almofadas confortáveis apareceram no sofá. E não se ficou por aqui, quando já entrava em casa a medo, devido a toda esta estranheza, noto que houve mudanças na disposição da mobília, tornando a casa mais acolhedora, espaçosa e prática. Por esta altura já andava com suores frios e sempre com toalhas cheirosas para me enxugar. 

 

Estou aterrorizado, todos os dias vão havendo novas situações e eu estou com um nervosismo constante. Não entendo o que se está a passar. Já ouvi falar num poltergeist, agora num benfeitorgeist nunca. Estou a pensar em vender a casa, viver assim está a matar-me. Sempre à espera que aconteça algo de bom de repente, sem explicação. Já viram o terrível que isto é? O prazer de algo bom aliado ao terror do inesperado e inexplicável. Não aguento muito mais.

 

Nos últimos dias tudo piorou ainda mais. O jantar começou a aparecer feito, delicioso. Toda a casa cheira terrivelmente bem, uma fragrância como nunca aqui pairava antes, que até nos relaxa. Isto tudo numa semana só! Ontem trouxe cá um padre, para ver se podia dar um jeitinho. Mal entrámos fomos invadidos pelo delicioso aroma de uma fornada de deliciosas bolachas acabadas de sair do forno. Um fumegante bule de chá repousava em cima da mesa da sala, iluminada e aquecida pelas labaredas crepitantes da lareira. Isto tudo sem explicação. O sacana do padre sentou-se, descalçou-se e empaturrou-se de bolachas e chá. Ainda me bebeu um conhaque que nem sabia que tinha e me disse que tinha imensa sorte na vida, para a estimar bem, antes de ir embora. E eu fiquei na mesma, com uma situação cada vez mais grave para gerir.

 

O pior de tudo é que a minha namorada mudou-se cá para casa há uma semana, também. Estou com receio que isto possa vir a afectar a nossa relação. Até agora ela ainda não deu por nada, tenho sabido esconder bem esta situação toda, mas não sei durante quanto mais tempo consigo...

O começo de um novo dia

Acordei. O corpo ainda ressentido da inactividade; em passo dormente vou abrir a persiana, aproveitando para ir esticando os músculos. Mais uma manhã se prenuncia através do vidro, a hesitante luz solar invade o quarto e dilata-me as pupilas que agora observam a neblina matinal a assentar.

 

Mais um dia, mais do mesmo. Não há tempo para contemplações, o tempo está contado, a rotina está em marcha. Avanço morosamente pela casa, enquanto arrepios me atacam o corpo. Recordo com saudade o tempo que passou. As poucas mas gloriosas horas em que estive protegido do mundo e de mim mesmo, a quentura afectuosa que me cobria; desespero pelo tempo que falta até voltar àquele local de felicidade. Dizem que não devemos voltar onde já fomos felizes, mas eu discordo, até porque se assim não fosse, onde é que iria dormir hoje? É que cama só tenho uma e é nela que penso. É nela e com ela que sonho. O meu olhar capta uma aparência esgazeada no espelho da casa de banho e volto a despertar para o presente, deixando de lado as memórias de uma noite e os desejos do dia.

 

Pouco a pouco os olhos vão-se habituando à luminosidade, a temperatura corporal vai subindo e a mente relaxa. Mais um dia, mais do mesmo. Ou será? Não. Hoje não. Hoje é diferente.

Uma metamorfose espiritual começa a tomar forma, a pele avermelha e agora estou quente. Quente como há muito já não estava, desimpedido. Hoje tudo muda. Eu tenho confiança, mais do que alguma vez tive. Invade-me, caída de cima e a chocar com força. Respiro fundo e olho em frente: hoje é o dia! Eu sou capaz, eu tenho valor. Sinto que tenho as respostas todas neste momento de lucidez espontânea.

 

O ritmo cardíaco acelera, a excitação aumenta. Um sorriso desenha-se no rosto. Respiro fundo e abro os braços. Aceito a responsabilidade que coloquei em mim próprio. Nunca mais serei o mesmo. Verso e rimo. Tenho ânimo e é assim que o exprimo. Resolvo problemas e tomo decisões, tenho ideias, tenho respostas. Sei o que quero, sei o que fazer. Nada me vai abrandar, a decisão está tomada. Porquê hoje? Porque não? Já pensei o mesmo de outras vezes mas nunca se materializou. Hoje é diferente, hoje é o dia. Estou solto, livre, feliz. Sou capaz e sinto-me capaz, guerras serão travadas, batalhas serão ganhas. Homens irão à luta por mim, morrerão por mim. Sem medo, sem vergonha, sou uma inspiração, um exemplo. Continuo, estóico. Sou a revolução.

 

Culmino de braços no ar, cabeça erguida. Extasiante, rejuvenescido.

 

Em dois segundos tudo muda. Braços caídos, cabeça baixa, vergonha aterra no corpo. Os olhos humedecidos voltam a focar a realidade. Fechei uma torneira e o peso de toda a minha existência voltou a brotar.

 Acabou o duche.

Ponho um pé fora da banheira e depois o outro. Débil, encarquilhado, vergado. As gotas assentes na pele vão invadindo o meu interior, esfriando todo o meu ímpeto. O corpo treme enquanto procura a toalha, atabalhoado. Agora sim é tudo real. Como que acabado de nascer, sozinho, indefeso. De certa forma, nasci agora para este dia. Parado, nu, toalha por cima dos ombros, sob os escombros de uma guerra interior. Mais uma derrota. Enxugo-me, mas as gotas frias já se interpuseram na pele; já me gelaram o interior.

 

Raios de sol, pequenos tentáculos de luz, penetram o interior da casa de banho. O mundo está a girar, tudo continua. Eu estou na mesma. Tento recordar o que senti, o que pensei. Não consigo. Nada resta dos momentos climáticos antes do meu nascimento matinal, como sempre acontece. Hoje é apenas mais um dia.

Aos poucos a gravidade vai ficando mais fácil de tolerar. Os pensamentos entram em ordem, atinge-se um meio-termo. Mais logo há cama outra vez. Amanhã volto aqui, atravessar para esta realidade alternativa que só é possível com um duche quentinho. Amanhã vou ganhar. Amanhã é o dia.

Escape Rooms - Uma experiência

Fui experimentar algo que já me apetecia fazer há algum tempo: uma escape room.

 

Vou ser honesto quanto à minha experiência e dizer que não gostei muito. Não é que não tenham havido bons momentos, mas no geral... Pronto, se calhar o meu juízo está toldado e é só o meu rancor a vir ao de cima, a ferida no meu orgulho. Isto, claro, porque não consegui escapar no tempo estipulado. 

 

Não foi por falta de tentativas, fui lá todos os dias da semana passada, por exemplo. Ontem também já lá fui tentar a minha sorte, outra vez, sempre sem sucesso. É óbvio que vou lá voltar hoje, amanhã e as vezes que for preciso até conseguir resolver todos aqueles enigmas e todas aquelas tarefas. Ainda por cima já ouvi falar da recompensa que se tem quando se consegue completar o jogo com sucesso e só aguçou a minha vontade de o conseguir.

 

Clamam que neste tipo de jogo a tua capacidade física não interessa, que tens de depender da tua sagacidade, destreza mental e até imaginação para te safares, mas não se fiem nisso. Pela experiência que tenho, a capacidade física conta e muito; não é nada fora do comum chegar lá e o elevador estar avariado ou repleto de gente e ter de subir vários lances de escadas até alcançar a sala onde se vai desenrolar o jogo. E quando lá chego, a maior parte das vezes ainda tenho que fazer muita ginástica, muita correria de um lado ao outro, mais escadas para subir e descer ao longo do tempo estipulado. 

O realismo é de salutar. Eu e as dezenas de pessoas que todos os dias tentam vergar este desafio chegamos a uma sala que foi decorada com aspecto de um qualquer escritório. Lá encontramos diversas secretárias, computadores, ficheiros, armários... E começa o jogo! Não há tempo para descansar, temos de começar logo a tentar resolver o puzzle e ver se conseguimos sair dali antes do tempo acabar. 

Até agora só presenciei uma mão cheia de gente que conseguiu fazê-lo, e outros tantos que acabaram por desistir. É verdade que escolhi uma escape room de elevada dificuldade, uma em que o progresso se torna cada vez mais difícil pela adição de várias side quests, outros objectivos portanto, mini-jogos. Confere todo um maior nível de imersão à coisa, parece que temos um mundo inteiro a explorar. 

 

Começamos logo a trabalhar em equipa, temos uma pequena reunião e depois de definidas as prioridades e a estratégia de como vamos abordar o jogo, avançamos. É neste ponto que normalmente entra o game master e aumenta consideravelmente a dificuldade do desafio, lançando novas pistas, enigmas e tarefas que temos de realizar para conseguirmos escapar da sala. 

Lá vamos nós, navegando pela panóplia de documentos, artigos, emails, sempre procurando uma pista, algo que nos ajude a descodificar o mistério e a sairmos mais cedo. Falhamos redondamente, de todas as vezes. Aliás, nem sei bem o que estamos à procura, nem como escapar. Quando parece que estamos a conseguir alcançar algum objectivo, o game master volta a comunicar e a elevar o jogo. Mais pistas aparecem, mais documentos, mais tarefas que temos de realizar; tudo actividades que nos atrasam o verdadeiro objectivo: fugir daquela sala.

Desço escadas, pensando que estou a avançar no jogo, a descobrir alguma pista secreta. Dou com o arquivo, falo com o sr. Manuel, um infiltrado do game master, só pode, que me atrasa e dificulta as descobertas. Recebo comunicações da minha equipa, estamos a progredir. Tudo para nos puxarem o tapete quando já quase conseguimos destrancar a porta, fazendo-nos ver que afinal a resposta não é aquela, tudo o que pensamos estava errado. Ainda nem sabemos que enigma é suposto resolver para encontrar a resposta que nos levará à fuga. Chega o meio-dia e eu estou derrotado. O game master concede-nos uma pequena pausa para almoço e diz que nos deixa voltar durante a tarde, para irmos tentando novamente, já que somos clientes fiéis. 

 

Aqui entram vários dos mini-jogos que nos esperam e distraem do objectivo principal. A começar por o grande mistério de quem aqueceu uma sandes de ovo no microondas e cagou aquela merda toda? Seguido por o, ainda maior, mistério das pêras a apodrecer no frigorífico. Romances nascem e acabam, mexericos perpetuam-se, discussões resolvem-se ou agravam-se; a divisão na equipa começa a ser evidente. Formam-se grupos, cada um a tentar escapar primeiro que o outro.

 

O ciclo repete-se à tarde: mais emails, mais reuniões, mais documentos, mais coisas para resolver, tudo sem fim à vista, sem avançar no jogo, em nenhum momento mais próximo de encontrar a saída. Chega-se às cinco da tarde. Toca o alarme, quase que nos leva de novo aos tempos da primária. Acabou o tempo. Fizemos muito, tentámos de tudo, mas não conseguimos encontrar a resposta, não conseguimos vencer este desafio. Fica o esforço, novamente. Juramos voltar no dia seguinte, mesmo que este jogo já comece a perder a piada, mas agora a teimosia já comanda e vamos conseguir cantar vitória, nem que para isso tenhamos que voltar às mesmas tarefas inócuas, dia após dia, até encontrarmos a solução; até sairmos em ombros, vitoriosos, congratulados por amigos e pelo game master pela nossa mestria neste jogo e com um prémio por o termos derrotado. Pontualmente o game master deve sentir pena de nós, mas também sempre nos avisou que esta sala não era para principiantes, não era pêra doce. E realmente o sabor que nos fica é o de maçã reineta, mesmo quando ele nos propõe ficarmos depois da hora, a tentar resolver todo este puzzle, a tentar encontrar a solução: nem temos de pagar mais por isso! É pelo prazer do jogo. E é claro que ficamos, o sonho comanda a vida. Neste caso o sonho é escapar daqui o mais depressa possível. Pela maneira como as coisas têm corrido, diria que só devo encontrar a solução para este jogo quando tiver uns sessenta e seis anos, mais mês menos mês. Oh, mas vou encontrá-la, isso garanto, e vou usufruir da recompensa que vou receber.

 

E ainda dizem que isto das escape rooms é giro e está na moda? Chiça, que isto está a dar cabo de mim.