Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

O começo de um novo dia

Acordei. O corpo ainda ressentido da inactividade; em passo dormente vou abrir a persiana, aproveitando para ir esticando os músculos. Mais uma manhã se prenuncia através do vidro, a hesitante luz solar invade o quarto e dilata-me as pupilas que agora observam a neblina matinal a assentar.

 

Mais um dia, mais do mesmo. Não há tempo para contemplações, o tempo está contado, a rotina está em marcha. Avanço morosamente pela casa, enquanto arrepios me atacam o corpo. Recordo com saudade o tempo que passou. As poucas mas gloriosas horas em que estive protegido do mundo e de mim mesmo, a quentura afectuosa que me cobria; desespero pelo tempo que falta até voltar àquele local de felicidade. Dizem que não devemos voltar onde já fomos felizes, mas eu discordo, até porque se assim não fosse, onde é que iria dormir hoje? É que cama só tenho uma e é nela que penso. É nela e com ela que sonho. O meu olhar capta uma aparência esgazeada no espelho da casa de banho e volto a despertar para o presente, deixando de lado as memórias de uma noite e os desejos do dia.

 

Pouco a pouco os olhos vão-se habituando à luminosidade, a temperatura corporal vai subindo e a mente relaxa. Mais um dia, mais do mesmo. Ou será? Não. Hoje não. Hoje é diferente.

Uma metamorfose espiritual começa a tomar forma, a pele avermelha e agora estou quente. Quente como há muito já não estava, desimpedido. Hoje tudo muda. Eu tenho confiança, mais do que alguma vez tive. Invade-me, caída de cima e a chocar com força. Respiro fundo e olho em frente: hoje é o dia! Eu sou capaz, eu tenho valor. Sinto que tenho as respostas todas neste momento de lucidez espontânea.

 

O ritmo cardíaco acelera, a excitação aumenta. Um sorriso desenha-se no rosto. Respiro fundo e abro os braços. Aceito a responsabilidade que coloquei em mim próprio. Nunca mais serei o mesmo. Verso e rimo. Tenho ânimo e é assim que o exprimo. Resolvo problemas e tomo decisões, tenho ideias, tenho respostas. Sei o que quero, sei o que fazer. Nada me vai abrandar, a decisão está tomada. Porquê hoje? Porque não? Já pensei o mesmo de outras vezes mas nunca se materializou. Hoje é diferente, hoje é o dia. Estou solto, livre, feliz. Sou capaz e sinto-me capaz, guerras serão travadas, batalhas serão ganhas. Homens irão à luta por mim, morrerão por mim. Sem medo, sem vergonha, sou uma inspiração, um exemplo. Continuo, estóico. Sou a revolução.

 

Culmino de braços no ar, cabeça erguida. Extasiante, rejuvenescido.

 

Em dois segundos tudo muda. Braços caídos, cabeça baixa, vergonha aterra no corpo. Os olhos humedecidos voltam a focar a realidade. Fechei uma torneira e o peso de toda a minha existência voltou a brotar.

 Acabou o duche.

Ponho um pé fora da banheira e depois o outro. Débil, encarquilhado, vergado. As gotas assentes na pele vão invadindo o meu interior, esfriando todo o meu ímpeto. O corpo treme enquanto procura a toalha, atabalhoado. Agora sim é tudo real. Como que acabado de nascer, sozinho, indefeso. De certa forma, nasci agora para este dia. Parado, nu, toalha por cima dos ombros, sob os escombros de uma guerra interior. Mais uma derrota. Enxugo-me, mas as gotas frias já se interpuseram na pele; já me gelaram o interior.

 

Raios de sol, pequenos tentáculos de luz, penetram o interior da casa de banho. O mundo está a girar, tudo continua. Eu estou na mesma. Tento recordar o que senti, o que pensei. Não consigo. Nada resta dos momentos climáticos antes do meu nascimento matinal, como sempre acontece. Hoje é apenas mais um dia.

Aos poucos a gravidade vai ficando mais fácil de tolerar. Os pensamentos entram em ordem, atinge-se um meio-termo. Mais logo há cama outra vez. Amanhã volto aqui, atravessar para esta realidade alternativa que só é possível com um duche quentinho. Amanhã vou ganhar. Amanhã é o dia.

Escape Rooms - Uma experiência

Fui experimentar algo que já me apetecia fazer há algum tempo: uma escape room.

 

Vou ser honesto quanto à minha experiência e dizer que não gostei muito. Não é que não tenham havido bons momentos, mas no geral... Pronto, se calhar o meu juízo está toldado e é só o meu rancor a vir ao de cima, a ferida no meu orgulho. Isto, claro, porque não consegui escapar no tempo estipulado. 

 

Não foi por falta de tentativas, fui lá todos os dias da semana passada, por exemplo. Ontem também já lá fui tentar a minha sorte, outra vez, sempre sem sucesso. É óbvio que vou lá voltar hoje, amanhã e as vezes que for preciso até conseguir resolver todos aqueles enigmas e todas aquelas tarefas. Ainda por cima já ouvi falar da recompensa que se tem quando se consegue completar o jogo com sucesso e só aguçou a minha vontade de o conseguir.

 

Clamam que neste tipo de jogo a tua capacidade física não interessa, que tens de depender da tua sagacidade, destreza mental e até imaginação para te safares, mas não se fiem nisso. Pela experiência que tenho, a capacidade física conta e muito; não é nada fora do comum chegar lá e o elevador estar avariado ou repleto de gente e ter de subir vários lances de escadas até alcançar a sala onde se vai desenrolar o jogo. E quando lá chego, a maior parte das vezes ainda tenho que fazer muita ginástica, muita correria de um lado ao outro, mais escadas para subir e descer ao longo do tempo estipulado. 

O realismo é de salutar. Eu e as dezenas de pessoas que todos os dias tentam vergar este desafio chegamos a uma sala que foi decorada com aspecto de um qualquer escritório. Lá encontramos diversas secretárias, computadores, ficheiros, armários... E começa o jogo! Não há tempo para descansar, temos de começar logo a tentar resolver o puzzle e ver se conseguimos sair dali antes do tempo acabar. 

Até agora só presenciei uma mão cheia de gente que conseguiu fazê-lo, e outros tantos que acabaram por desistir. É verdade que escolhi uma escape room de elevada dificuldade, uma em que o progresso se torna cada vez mais difícil pela adição de várias side quests, outros objectivos portanto, mini-jogos. Confere todo um maior nível de imersão à coisa, parece que temos um mundo inteiro a explorar. 

 

Começamos logo a trabalhar em equipa, temos uma pequena reunião e depois de definidas as prioridades e a estratégia de como vamos abordar o jogo, avançamos. É neste ponto que normalmente entra o game master e aumenta consideravelmente a dificuldade do desafio, lançando novas pistas, enigmas e tarefas que temos de realizar para conseguirmos escapar da sala. 

Lá vamos nós, navegando pela panóplia de documentos, artigos, emails, sempre procurando uma pista, algo que nos ajude a descodificar o mistério e a sairmos mais cedo. Falhamos redondamente, de todas as vezes. Aliás, nem sei bem o que estamos à procura, nem como escapar. Quando parece que estamos a conseguir alcançar algum objectivo, o game master volta a comunicar e a elevar o jogo. Mais pistas aparecem, mais documentos, mais tarefas que temos de realizar; tudo actividades que nos atrasam o verdadeiro objectivo: fugir daquela sala.

Desço escadas, pensando que estou a avançar no jogo, a descobrir alguma pista secreta. Dou com o arquivo, falo com o sr. Manuel, um infiltrado do game master, só pode, que me atrasa e dificulta as descobertas. Recebo comunicações da minha equipa, estamos a progredir. Tudo para nos puxarem o tapete quando já quase conseguimos destrancar a porta, fazendo-nos ver que afinal a resposta não é aquela, tudo o que pensamos estava errado. Ainda nem sabemos que enigma é suposto resolver para encontrar a resposta que nos levará à fuga. Chega o meio-dia e eu estou derrotado. O game master concede-nos uma pequena pausa para almoço e diz que nos deixa voltar durante a tarde, para irmos tentando novamente, já que somos clientes fiéis. 

 

Aqui entram vários dos mini-jogos que nos esperam e distraem do objectivo principal. A começar por o grande mistério de quem aqueceu uma sandes de ovo no microondas e cagou aquela merda toda? Seguido por o, ainda maior, mistério das pêras a apodrecer no frigorífico. Romances nascem e acabam, mexericos perpetuam-se, discussões resolvem-se ou agravam-se; a divisão na equipa começa a ser evidente. Formam-se grupos, cada um a tentar escapar primeiro que o outro.

 

O ciclo repete-se à tarde: mais emails, mais reuniões, mais documentos, mais coisas para resolver, tudo sem fim à vista, sem avançar no jogo, em nenhum momento mais próximo de encontrar a saída. Chega-se às cinco da tarde. Toca o alarme, quase que nos leva de novo aos tempos da primária. Acabou o tempo. Fizemos muito, tentámos de tudo, mas não conseguimos encontrar a resposta, não conseguimos vencer este desafio. Fica o esforço, novamente. Juramos voltar no dia seguinte, mesmo que este jogo já comece a perder a piada, mas agora a teimosia já comanda e vamos conseguir cantar vitória, nem que para isso tenhamos que voltar às mesmas tarefas inócuas, dia após dia, até encontrarmos a solução; até sairmos em ombros, vitoriosos, congratulados por amigos e pelo game master pela nossa mestria neste jogo e com um prémio por o termos derrotado. Pontualmente o game master deve sentir pena de nós, mas também sempre nos avisou que esta sala não era para principiantes, não era pêra doce. E realmente o sabor que nos fica é o de maçã reineta, mesmo quando ele nos propõe ficarmos depois da hora, a tentar resolver todo este puzzle, a tentar encontrar a solução: nem temos de pagar mais por isso! É pelo prazer do jogo. E é claro que ficamos, o sonho comanda a vida. Neste caso o sonho é escapar daqui o mais depressa possível. Pela maneira como as coisas têm corrido, diria que só devo encontrar a solução para este jogo quando tiver uns sessenta e seis anos, mais mês menos mês. Oh, mas vou encontrá-la, isso garanto, e vou usufruir da recompensa que vou receber.

 

E ainda dizem que isto das escape rooms é giro e está na moda? Chiça, que isto está a dar cabo de mim.

O último dia de trabalho.

Hoje é o meu último dia de trabalho.

Não apenas no meu emprego actual, mas na vida. No geral. Decidi que estava bom de trabalhar, que já basta de horários a cumprir, de tarefas a realizar e de dinheiro a receber.

 

Decidi também deixar de aparar os pêlos e de pôr desodorizante. Já não irei cuidar mais da minha alimentação nem me dignarei, sequer, a tomar banhos regulares.

 

Ainda nessa onda, e por falar em onda, vou deixar de andar na terra e vou passar a viver no mar, sendo que, a dada altura, me vão nascer guelras e outros aparelhos anatómicos úteis que tais.

 

Eventualmente, passarei a ser apenas um átomo.

E, nessa altura, só nessa altura, quando já tiver retrocedido o suficiente na cadeia evolutiva e já não contribuir com nada para a sociedade, poderei finalmente dizer:

 

Estes imigrantes, pá! Só vêm para cá roubar os nossos trabalhos!

O síndrome do empregado de limpeza.

Os empregados de limpeza da casa-de-banho do meu local de trabalho têm uns tiques curiosos. Uns tremem com a pálpebra do olho direito. Outros, têm espasmos nos dedos das mãos. Outros, ainda, não sabem escolher timings apropriados para fazer o seu trabalho.

É um tique estranho, este, de não saber escolher a altura ideal para fazer o nosso trabalho... Ainda só o tinha apreciado verdadeiramente em cães e Testemunhas de Jeová.

 

Sink-In.jpg

 

Mas parece que os serviços de limpeza aqui da empresa também padecem desta condição.

E porquê, perguntam Vossas Excelências? Porque eles escolhem sempre trabalhar nas horas em que uma pessoa mais precisa de ir à casa-de-banho. Nomeadamente, depois da hora de almoço.

Já não é a primeira nem a vigésima quarta vez que me dirijo ao respeitável trono depois de um cuidado almoço e, mal me sento na real loiça esbranquiçada, ouço baterem à porta. Não à porta do cubículo, porque isso seria estranho, mas à porta geral da casa-de-banho.

Quando isto acontece, sou obrigado a gritar qualquer coisa, para dar a entender à empregada de limpeza (sim, costuma ser mulheres, o que ainda se torna mais estranho) que ainda não é completamente seguro realizar o seu trabalho.

Mas o quê, Virgem Santíssima?! O que é que eu vou gritar a plenos pulmões a outro ser humano, com o meu gostoso rabo sentado numa sanita e à espera que a Natureza faça o seu trabalho?

"Tem gente!"?

"Ei, 'tá quieto!"?

"Olá, como vai você e a sua família?"?

 

portfolio-3.jpg "Já investigou esse sinal no seu pénis, senhor? Parece perigoso..."

 

Pior, até aposto que, se eu trabalhasse à noite, os empregados de limpeza também fariam o mesmo depois da hora de jantar!

Uma pessoa ainda estava na sobremesa e já estavam eles a testar os esguichos e de esfregona em punho, prontos para interromper o momento em que o rabo quentinho da pessoa se encontrasse novamente com a fria loiça.

 

Enfim.

Isto dos direitos do trabalhador é tudo muito giro mas, infelizmente, não consagra o direito a usar o quartinho das necessidades em paz.

Porque isto assim não pode continuar, no próximo dia 1 de Maio espero estar a celebrar a consagração da Lei n.º XX/XXXX de Abolição das Interrupções na Hora da Retrete.

De garfo e caca.

Encontrei hoje um garfo solitário na casa-de-banho do meu local de trabalho.

20160418_162135.jpg

 

Não sei o que pensar sobre isto, mas pairam-me várias questões:

 

- Terá sido um sinal divino?;

- Será que alguém se esqueceu daquele objecto ali?;

- E, se sim, porquê?;

- Haverá quem almoce sentado na sanita do trabalho? (Na de casa ainda se percebe, agora, na do trabalho?!);

 

Ou será, por outro lado, uma mensagem encriptada dirigida especialmente a mim?

O que me quer você dizer, misterioso colega do garfo? Que não me ando a alimentar o suficiente? Que vou morrer hoje com um garfo espetado na nuca? Que tenho de comer mais verduras?

 

Prevejo uma noite sem sono.

Odeio mistérios de talheres!