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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Crónica de um dia azarado

Já tive vários dias maus, mas nunca tinha tido um dia como ontem. 

A manhã começou como qualquer outra, com o nascer do sol. Normalmente é assim. Por alguma razão o despertador não tinha tocado e só acordei com um estrondo e um cheiro a queimado. O despertador não tinha tocado nem iria tocar mais, já que o telemóvel tinha acabado de explodir. Saltei rápido da cama, sem tempo para me preocupar com o que se tinha passado, tinha um dia importante pela frente.

Devido ao que se passou com o telemóvel, ligado à corrente, também fiquei sem electricidade. Bem que as torradas não ficavam prontas e eu ainda demorei a perceber. Arranjei-me às pressas e quando vou sair dou com a porta trancada. Nada de muito estranho, mas tinha deixado as chaves no escritório. A minha mulher já tinha saído para ir levar o pequeno à escola e tinha-me deixado trancado em casa. Era só o que me faltava, logo no dia em que tinha uma reunião importante com um cliente que precisava convencer a avançar com o nosso projecto. Falhar nesta tarefa implicava o desperdício de recursos e trabalho de meses, bem como um grande prejuízo que resultaria em despedimentos.

Ora, neste ponto estou eu todo aprumadinho mas atrasado meia hora e fechado num quinto andar sem possibilidade de sair, sem telemóvel nem electricidade. Nem podia comunicar com ninguém. Tinha de sair de casa de alguma maneira, tinha de chegar a tempo à reunião, todo o projecto dependia de mim. Sei bem como funcionava o Macgyver, sabia o que tinha a fazer: fui buscar um ananás, um sapato velho e um isqueiro. Num pedaço de papel escrevi uma rápida mensagem a explicar o que se passava e requisitar ajuda e meti-a dentro do sapato velho. Atirei-o pela janela, sentei-me a comer o ananás, já que não tinha chegado a comer as torradas, e acendi uma vela a nossa Senhora de Fátima, porque uma reza podia ajudar a resolver a situação. Já agora, nunca vi um episódio do Macgyver, se calhar não era bem assim que ele tinha resolvido o problema. Para mim não resultou. Alguém pegou no sapato e atirou-o para o lixo, ignorando os meus apelos da janela, como toda a gente o estava a fazer.

 

Com isto tudo, já estávamos na hora da reunião e eu ainda trancado em minha casa. Posso nunca ter visto o Macgyver, mas o James Bond conheço e sei que não eram 5 andares que o iam derrotar. O plano passava por pendurar-me na janela e deixar-me cair para a varanda do andar de baixo, e assim sucessivamente até chegar ao chão. 

Pequenos pormenores que só me ocorreram quando já estava pendurado na minha janela e sem força para me içar de novo para dentro: as varandas são na parte de trás do apartamento e tenho outra porta, ao lado dessa varanda, que dá acesso a um pátio que tem outra saída para o exterior. Porta essa que tem a chave na fechadura.

Resumindo, eu continuava pendurado, nem para cima nem para baixo. A polícia e os bombeiros apareceram e acabei a amanhã no hospital para avaliação psiquiátrica. Depois de conseguir convencê-los que tudo não passara de um mal entendido, que não tinha tendências suicidas, era só estúpido, deixaram-me sair. Com sorte, nunca tinham conseguido contactar a minha mulher, porque eu não sabia o número de cor, e assim evitava esse embaraço e não lhe causava preocupação.

 

Fui até ao escritório, sem saber ainda como ia explicar tudo aquilo. Já tinha lixado todo o projecto, portanto nem sabia o que esperar. Só quando lá cheguei é que me apercebi de algo que todos vocês já sabem e se aperceberam: ontem era Domingo. Por isso é que o despertador não tinha tocado. Era dia da mãe, e a minha mulher tinha ido tomar o pequeno almoço com a sua. O meu filho devia estar no quarto a dormir. 

A caminho de casa, e maltrapilho como estava, de fato rasgado e com uma postura deformada derivada da hora que passei agarrado ao parapeito, fui confundido por um pedinte e um senhor deu-me uma moedinha. Agradeci, pois sempre me ensinaram a aceitar prendas. Quem não gostou foi mesmo um pedinte que andava ali por perto e ao qual não calhou nada. Veio gritar-me que aquilo era o seu território, para eu arranjar um para mim. Dito isto, deu-me um enxerto de porrada e roubou-me a carteira. 

 

Quando finalmente cheguei a casa, a minha mulher abriu-me a porta. Nem me deixou explicar bem o que se tinha passado, e disse que era bem feita eu ter levado um enxerto de porrada, para aprender a não ser um xoninhas pacifista. Que era por coisas dessas que estava farta de mim e que ia avançar para o divórcio. Além disso, tinha deixado o rapaz sozinho em casa. Eu nem estava a processar bem o que se estava a passar e ela diz-me que vai sair, para espairecer, para eu não deixar o nosso filho sozinho outra vez.

 

Eu só queria dormir, descansar um bocado e perceber o que raio estava a acontecer. Deitei-me no sofá e olhei o aquário que temos na sala. Estava uma nojência, quase que nem se via o peixe. Sempre a mesma coisa, ele nunca limpa o aquário. Chamei o Ramiro e disse-lhe para limpar aquilo, que não era maneira de se ter um peixe assim, para ele lhe tratar da saúde. 

Mal tinha adormecido para a minha sesta quando desperto novamente com repetidos estrondos. Vou rapidamente à cozinha ver o que se passa e dou com o Ramiro a estraçalhar o peixe com o martelo dos bifes. Chorava sem parar enquanto o fazia, mas não parava. Parece que o que aconteceu foi um pequeno erro de comunicação, fui mal interpretado quando lhe ordenei que tratasse da saúde ao peixe. Olhando para trás, talvez tenha sido má ideia fazer uma maratona dos filmes d' O Padrinho com um puto de 6 anos. Eu só queria que ele limpasse o aquário, pela saúde e bem estar do animal.

 

O resto do dia passou-se em silêncio e sem muito a relatar. À noite, antes de me ir deitar, pensei em tomar um duche para relaxar. Quando estava na banheira decidi fazer flexões. Se tivesse em melhor forma física não tinha ficado pendurado na janela, nem tinha apanhado tanta porrada. Além disso, sempre a inovar, um 2 em 1: flexões no duche. Exercício e banho ao mesmo tempo, só aqui estou a aproveitar muito melhor as horas do dia. O que acabou por acontecer foi que o braço escorregou-me bati com a cabeça. Quando voltei a mim, a casa de banho estava inundada, sangue jorrava-me da cabeça, o braço esquerdo não deixava de me apontar para a nuca e o meu filho vinha a caminho com o martelo dos bifes para me tratar da saúde.

 

Vendo bem as coisas, nem se passou muita coisa, o dia não foi mau de todo. Isto podia ter acontecido a qualquer um. Já agora, tendo em conta que estou no hospital desde ontem à noite e conto com um grande número de novas despesas, se alguém estiver a contratar...

Falando de sequelas...

As sequelas são um assunto divisório quando se fala de filmes ou livros. A maioria é desnecessária e impulsionada apenas pela ambição de facturar mais com algo já estabelecido, abdicando, muitas vezes, da qualidade. 

 

Filme com título genérico, número 63, agora só com anões!

 

No entanto, acho que estamos a ser um pouco injustos com as sequelas, Às vezes são bem mais memoráveis que os originais.

Por exemplo, a segunda guerra mundial! Muito melhor que a primeira. Sim, toda a gente se lembra da primeira, mas, sejamos sinceros, quando falamos em guerra falamos logo da segunda. Nem tem comparação. Um bocadinho mais longa, mas aguenta-se bem, não há muitos momentos mortos, mantém-se entusiasmante; uma premissa muito melhor explorada, grande elenco com personagens icónicas e inesquecíveis, uma grande melhoria relativamente à primeira. Momentos memoráveis na sua duração, conflitos inesperados, surpresas atrás de surpresas, acontecimentos que se fazem sentir até hoje e ainda são discutidos até à exaustão. Muito melhores efeitos, se calhar coisas que já queriam fazer na primeira mas ainda não tinham tecnologia para isso. Um prólogo e epílogo que assentam que nem uma luva, uma excelente resolução com um final digno e adequado para as personagens envolvidas; personagens essas que deixaram marca. Um excelente vilão, que ficará para sempre na história, bem como  um vasto leque de personagens reais, nem boas nem más, mas que tentavam fazer aquilo que acreditavam estar certo. 

E o final... o que dizer daquele final? Um clímax de excelência, inesperado, emocionante, bombástico.

 

Arrisco a dizer que será mesmo a melhor sequela de sempre. É verdade que depois disso, e devido a todo o sucesso que alcançou, tentou explorar-se ao máximo o franchise. Vários spin offs foram feitos, mas nenhum com o sucesso e grandiosidade da segunda guerra mundial. E se ao principio ainda conseguiam ter alguma qualidade, esta foi-se perdendo ao longo dos anos. 

 

Também é verdade que durante anos se falou numa possível sequela, numa terceira parte, mas que nunca chegou a ser realizada. Se bem que, pelos rumores que correm, e aproveitando toda esta onda de revivalismo que vivemos, assim como uma falta de ideias generalizada, podemos estar perto de ver a terceira guerra mundial. Quanto a isso, não sei, tenho muitas dúvidas. Penso que seria demais. Acho que o impacto não seria o mesmo...

Até podem tornar tudo muito mais devastador, uma produção maior, mais efeitos e maior alcance, mas penso que não seria uma boa ideia. Nunca iria chegar aos calcanhares da sua antecessora e para quê mexer nos clássicos?

 

O Aniversário do Blog

Há uma semana foi o aniversário aqui do blog e pensamos em fazer uma grande festa para celebrar. No entanto, havia um pequeno problema: coincidia com os óscares. Como muitas das mesmas celebridades que participaram na cerimónia queriam marcar presença na nossa festa, decidimos adiar a nossa celebração por uma semana, para os óscares não ficarem à rasca sem nenhuma celebridade lá presente.

 

Uma multidão magnífica, enorme, maior que qualquer outra agregação de gente em Lisboa, cobriu o Parque Eduardo VII. Dava para ser visto do espaço, tamanha a grandiosidade da nossa festa. É a verdade, podem perguntar aos astronautas da estação espacial internacional, que estavam a acompanhar lá de cima tudo o que se passava e tiveram via streaming um grande discurso de agradecimento dedicado a nós.

Foi uma loucura no geral. Foram erguidos monumentos e estátuas nossas, árvores plantadas que ficarão durante séculos enraizadas nesta bela terra, abençoadas pelo papa (sim, o papa estava lá). Aliás, o papa teve um discurso lindíssimo e queria canonizar-nos, mas achámos que era injusto que isso acontecesse já; ficou a palavra dele que iria iniciar o processo, para quando morrêssemos já estar tudo tratado.

Estava lá toda a gente, de todos os cantos do mundo. Desde as personalidades mais conhecidas às pessoas comuns. Pessoas que venderam todas as suas posses para poderem estar ali presentes, gente que vendeu órgãos no mercado negro. Houve até um homem que veio a nado desde a Austrália, porque não tinha dinheiro para nada mais, mas era o quanto isto significava para ele. Ele não chegou a estar na festa, morreu, claro. Mas foi um bonito gesto, apesar de inconsequente, e, para coisas dessas, mais vale não fazerem nada.

Alimentámos um monte de gente, ficámos muito mais perto de acabar com a fome mundial, assim como estamos muito mais perto de paz no mundo. A quantidade de líderes mundiais que se uniu por nós, para nos celebrar… Conseguiram até pôr de lado as suas diferenças quando se aperceberam daquilo que todos têm em comum: o amor por nós os dois e pelo nosso blog.

 

Actuámos, também. Fizemos várias coisas, mas lembro-me daquele momento fantástico que aconteceu antes do presidente da câmara de Lisboa nos entregar as chaves da cidade, em que o Diogo estava a fazer o mais extraordinário solo de violino de sempre, enquanto eu fazia um assombroso solo de guitarra e, depois, trocamos os instrumentos entre os dois, a meio voo, enquanto saltávamos de um avião e descíamos em queda livre em direcção ao palco ao mesmo tempo que recomeçávamos mais dois excepcionais solos antes de aterrar como dois anjos e o céu se inundar no mais espantoso espectáculo visual: uma aurora boreal que veio até cá de propósito para nos agraciar com a sua beleza.

Ainda fomos agraciados com o Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República, pelo serviço público que aqui prestamos, para depois David Bowie e Prince ressuscitarem por uma noite e darem, em conjunto, um memorável concerto que só quem lá esteve consegue atingir o quão incrível foi, até eles os dois ascenderem de novo aos céus e Deus Nosso Senhor aproveitar a abertura para espreitar cá para baixo e fazer-nos o seu sinal de aprovação.

 

Que festa. Inesquecível. Da minha parte, e falando pelo Diogo também, só podemos agradecer a todos os envolvidos. É uma honra ser recebido assim e ver a vossa demonstração de afecto e carinho, o vosso entusiasmo e agradecimento por nós termos este blog. Para o ano há mais.

Deixem-me falar-vos dos Óscares...

A noite mais glamourosa do ano está a chegar e eu estou em pulgas! Sempre adorei os Óscares, é a noite pela qual mais anseio. Fora isso, só uma noite que vá beber vinho. Todas as noites, portanto. Mas isso é assunto para outro dia.

 

Os Óscares têm uma grande tradição e é claro que não os acompanho desde o princípio. A minha história com os Óscares começou a escrever-se desde que vim morar para esta casa, há 6 anos atrás. Já vi imensos vídeos, ouvi as histórias e delicio-me com os momentos inesperados que aconteceram. Toda a cerimónia tem um encanto especial, quer queiram quer não, e é difícil não ser contagiado pela emoção. Mal posso esperar a noite de domingo para, uma vez mais, participar desta grandiosa cerimónia. Alimentando toda esta expectativa, este ano vou ter a honra de apresentar o vencedor numa categoria!

 

Eu sei, eu sei, alguns de vós já devem estar com alguma inveja, mas isto de participar nos Óscares não é para qualquer um, é só para quem pode.

Já agora, só para esclarecer, eu estou a falar dos Óscares, não dos “Oscars”, ou “Academy Awards”, essa coisa sobre filmes que não tem relevância nenhuma. Falo mesmo dos Óscares, os prémios criados pelo grande Óscar Lima, meu vizinho do 6º direito, para premiar os condóminos deste prédio.

 

Os Óscares são a lou-cu-ra! Assim que forem 21 horas de domingo, vamos todos até ao 6º andar, para casa do Óscar, onde historicamente se realiza a cerimónia. Mal se abrem as portas do elevador já se começa a perceber que será uma noite diferente. Um lindo tapete vermelho adorna a porta de entrada (dizem que é o mesmo tapete pisado por um dos meus heróis – o grande Chico Nelo – responsável pelo abaixo assinado de 2002, que determinou que todas as persianas tinham de ser verdes e pelo movimento “Sim ao corrimão, sem apoio é que não!”, que levou à instalação de corrimãos em todos os lances de escadas). Perto da porta vai estar a nossa fotógrafa. Já andam por aí uns zunzuns que este ano vamos ter roupa da Zara, da H&M, da Primark, mas também da Guess, da Timberland, Ralph Lauren e até da Burberry!  A fotógrafa de serviço vai ser a nossa Márcia Coto, tão crescida que está com os seus 13 anos. Ainda por cima a mãe dela trabalha numa revista “cor-de-rosa”, por isso pode ser que haja divulgação das fotos. Sim, a mãe dela é só a recepcionista do prédio onde está a redacção, mas mesmo assim…

 

A cerimónia vai ser conduzida pelo grande Óscar, como é habitual. Há rumores de que vai haver uma actuação de malabarismo, feita pelos filhos da Clara do 3º direito, e também um número de ilusionismo do Afonso do 8º esquerdo. Como sempre, é de esperar algumas surpresas, como no ano passado, em que a Cristina do 1º esquerdo nos presenteou a todos com a sua dança do ventre. Pelo menos foi o que ela lhe chamou, apesar daquilo para mim ter sido só uma maneira de disfarçar que estava a entrar em trabalho de parto.

 

Quanto aos prémios em si, não sei bem o que esperar. Está tudo tão renhido este ano. A começar logo pelas nomeações: depois da controvérsia que foi o #Oscars So White, este ano temos nomeado para “Melhor novo condómino” um casal inter-racial. As más-línguas dizem que o Tiago só se casou com a Joana por ela ser africana e assim ganhar o prémio, aproveitando-se da polémica e dos votos por simpatia. Eu sou contra esta tese, até porque eles já estão casados há anos e não sabiam da existência destes prémios até se mudarem para aqui, mas uma campanha destas é difícil de travar. Mesmo assim acho que ganham, os outros nomeados são a Júlia e a Júlia, do 2º direito e o Marco do 7º esquerdo. A Júlia e a Júlia são um casal simpático, mas aquele pormenor de terem o mesmo nome confunde as pessoas e não acham assim muita graça; do Marco diz-se que tem um mês de quotas em atraso e mesmo que isso seja mentira é um daqueles rumores com que é difícil ganhar votos.

Temos também o Óscar para melhor banda sonora. Aqui está mesmo renhido e eu estou nomeado! Sinceramente, só o estar nomeado já é um prémio por si só, é uma honra ter o meu trabalho reconhecido e valorizado. Vamos ver se consigo levar o galardão também. Estou nomeado pelo meu silêncio. Sim, o meu silêncio, de ser o condómino mais silencioso que aqui habita, ao ponto de pensarem que este apartamento está desocupado e tudo. Nestas circunstâncias, de habitação num prédio, há quem diga que o silêncio é mesmo a melhor banda sonora. Os outros nomeados são as obras do 2º esquerdo, que fazem uma manhã normal parecer um ataque aéreo durante a segunda guerra mundial, e a Diana, do 9º direito, que mora no último andar e que se faz ouvir perfeitamente sempre que tem sexo, com os seus gritos de êxtase a ecoarem ao longo de todo o prédio. Está tudo muito aberto. A categoria, não a Diana, isso não faço ideia de como está.

 

Muitos outros prémios serão entregues ao longo da noite, como o de “Melhor Contribuidor Externo”, em que estão nomeadas as senhoras da limpeza, o carteiro e senhora que trata do lixo. Acho que esta última será a vencedora. O carteiro não tem falhado, mas já conquistou um grande número de Óscares e penso que a academia (o Óscar) quer atribuir o prémio a sangue novo, e as senhoras da limpeza têm estado um bocado desleixadas.

Também teremos um momento In memoriam, como é normal nestas coisas. Será aqui que será prestada homenagem à grande Magda, do 4º direito, falecida em Janeiro de 2016. Encontrada em Outubro de 2016, quando o enjoo foi suficiente para alarmar o Rui do 4º esquerdo. Teve de vir a polícia, INEM e os bombeiros. Foram encontrar a Magda, ou o que restava da Magda, morta na banheira, e uma dezena de ratos muito bem alimentados que agora tomavam conta da casa. É uma pena, a Magda era boa pessoa, via nela muito potencial para futura vencedor do galardão mais cobiçado (“Melhor Condómino”), num futuro próximo. Parece é que, afinal, não era muito asseada: depois de toda a investigação, concluiu-se que os ratos já lá estavam enquanto a Magda era viva e que, inclusive, foram eles que a mataram, começando por lhe comer os olhos.

 

E é isto, não vos vou estar a maçar mais, nem a provocar-vos mais inveja. É claro que para o final ficará guardado o grande prémio, o de “Melhor Condómino”, e este ano é mesmo impossível prever quem ganhará.

Só espero é que não haja polémicas como há 2 anos, quando o António do 6º esquerdo ganhou o prémio e foi logo acusado de ter comprado votos com queques caseiros, bem como – muito mais grave –, de não assumir as culpas da infiltração que afectava o 5º esquerdo... Quando toda a gente sabe que a culpa é mesmo dele e que instalou um ar-condicionado sem pedir autorização ao condomínio antes! Mas pronto, não interessa, são águas passadas…

 

Que venham depressa, mal posso esperar pelos Óscares!

A coisa mais difícil da minha vida

Vivo no limite, no fio da navalha, à beira do abismo.  

 

Sou uma pessoa aventureira, preciso adrenalina, requeiro dopamina, sou viciado em cafeína, mas não me meto na metanfetamina, fico-me pela endorfina a dar com um pau.

Corro riscos e não me deixo abater. Vivo a vida ao máximo, um dia de cada vez, nunca estou de pé atrás, nem que a vaca tussa. Hakuna Matata, Carpe diem.

Ando de BMX, BTT e skate, tudo ao mesmo tempo. Faço escalada, slide e rappel, de olhos fechados e com uma perna às costas. Surf, kitesurf mas também windsurf, com o mesmo vento com que a minha asa é delta. Passeio de parapente, salto de aviões, desafio avalanches. No paintball sou general.

Ando sem guarda-chuva, com roupa por engomar, com a camisa por fora das calças. Questiono crenças comuns e populares, julgo livros pela capa e a capa pelos livros, derramo leite e não choro, aconselho-me na noite.

Faço trinta por uma linha, procuro agulhas num palheiro, passo tudo a pente fino, separo o trigo do joio. Não fico a ver navios, atiro-me de cabeça, ponho lanças em África, vou até ao cu de Judas e penteio macacos.

 

Tenho pêlo na venta, ponho as barbas de molho, as mãos à obra e os pontos nos is.

Sou advogado do diabo, coloco as mãos no fogo, ponho o dedo na ferida, as mãos na massa. Arregaço as mangas, parto a loiça toda. Levanto a cabeça, abro os olhos, acerto agulhas e vai tudo a eito. Sou bom de boca, tenho a pulga atrás da orelha, as costas quentes e quebro o gelo.

Vou com a corda toda, vou a fundo, de pé firme, ando na linha, agarro com unhas e dentes, movo montanhas, dou a volta por cima, ponho a bola para a frente e deixo a bola rolar. Vou à luta, deito lenha na fogueira, arrisco a pele, tenho sangue na guelra.

Agarro a vida pelos cornos, grito a plenos pulmões. Tenho a cabeça nas nuvens e os pés bem assentes no chão. Tenho as costas largas e o peito feito, faço das tripas coração.

Lanço os dados, desafio a morte, tenho a faca e o queijo na mão.

 

 Vivo no limite, no fio da navalha, à beira do abismo.  

 

No entanto, não há nada que seja mais difícil, nada que custe mais e me derrote tão facilmente que levantar-me de manhã, sempre que toca o despertador para ir trabalhar. Há coisas mesmo difíceis de fazer.

Propostas Revolucionárias

As notícias sobre uma descriminalização, até certo ponto e mediante certos parâmetros, dos casos de agressão familiar na Rússia têm gerado muita controvérsia. Passando a ser uma infracção administrativa, punida com multa e apenas alguns dias de prisão ou trabalho comunitário, considera-se que porá em causa a protecção contra a violência doméstica. Ninguém fica indiferente a tal proposta, que trivializa um acto de violência e retira responsabilidade criminal desde que as agressões não sejam graves e as marcas não passem de arranhões ou hematomas, por exemplo, e desde que seja um caso isolado e não um acto recorrente.

 

Mais do que qualquer comentário sobre esta medida há que retirar ideias e capitalizar neste momento. Com informações que fui apurando junto das minhas fontes estou em condições de adiantar certas propostas que serão discutidas na assembleia da república à boleia das ideias russas.

 

Fonte de informação confidencial

Uma das minhas fontes, junto da qual obtive estas informações

 

  • Uma vez por ano será permitido trincar a ponta do dedo de um fiscal da emel (ou de alguém com responsabilidade equivalente) na porta do carro, mesmo que não haja qualquer motivo para tal. Se houver motivo que o justifique, pode esmagar até quatro dedos de uma vez, desde que não os parta;
  • De dois em dois anos será permitido, com reduzidas contrapartidas, a todos os cidadãos roubar uma única coisa. Se o valor do furto ultrapassar os 2000€ o estado tem direito a 35% do seu valor;
  • Agredir um árbitro de futebol por ano, desde que não o deixe incapacitado de exercer a sua função;
  • Poderá optar entre passar um sinal vermelho a cada seis meses ou circular em excesso de velocidade uma vez a cada 18 meses sem nenhuma penalização legal;
  • Crimes de ódio passam a ser aceites se não passarem de um acto isolado num período de um ano e que não causem mazelas psicológicas à vítima por um período superior a três meses;
  • Ser apanhado a copiar ou com cábulas em algum exame deixará de ser motivo para penalização, caso seja a primeira vez no ano lectivo e não um acto recorrente;
  • Se não passar de um acto isolado num espaço de três anos a violação é descriminalizada, desde que não exceda os 75 segundos de duração nem deixe marcas físicas;
  • Mesmo se se provar ser acto recorrente, fazer batota no monopólio será permitido caso contribua para um fim mais rápido do jogo.

 

Oração Natalícia (Ode ao Consumismo)

 

Pai Natal que estais na Lapónia,

Vê na lista o meu nome.   

Venham a mim as vossas prendas.

Seja feita a minha vontade, tanto nos livros como nos discos.

Bons presentes para cada dia me dêem hoje;

Perdoai quem nada me dá, assim como eu perdoo quem me dá meias.

E não me deixeis cair na má disposição, se me deres o que gosto não ficarei mal.

A mim!

Casa Abençoada

Já todos vimos os filmes e ouvimos as histórias sobre casas assombradas; nada de novo nesse tema. Família muda-se para uma nova casa, coisas estranhas, sobrenaturais, começam a acontecer e ninguém se muda de casa. Eventualmente, mortes acontecem, fantasmas aparecem, espíritos revelam-se. Um padre entra na figura, chamam-se os caça-fantasmas, acende-se uma vela e no final resolve-se o problema. E se fosse isto que se tivesse a passar comigo, tudo bem, nem estávamos aqui a ter esta conversa. 

 

O problema é outro e muito maior. Além disso, muito pouco falado. É que em vez de uma casa assombrada, eu acho que a minha casa está abençoada.

 

Não, não estou a brincar. E desengane-se quem acha que isto é uma coisa boa. É que uma casa abençoada assusta-me muito mais que uma assombrada. Os efeitos são muito mais perturbadores, sem bem que agradáveis ao mesmo tempo. 

Ao contrário de todos aqueles filmes de terror, eu não me mudei recentemente para esta casa. Estou aqui há três anos. E até há cerca de uma semana atrás, nunca se tinha passado nada de estranho.

 

É que não conseguem perceber o meu stress... Não é a nenhuma bênção religiosa que me refiro, também. Comecei a notar pequenas coisas ao inicio, como a roupa arrumada na gaveta em vez de estar espalhada por cima da cadeira e da secretária, ou a loiça arrumada no armário.

Com o passar dos dias, coisas ainda mais estranhas foram acontecendo. A roupa começou a aparecer lavada e engomada, arrumada por cores e estilo. Pó? Nem vê-lo. Cama feita todos os dias, almofadas confortáveis apareceram no sofá. E não se ficou por aqui, quando já entrava em casa a medo, devido a toda esta estranheza, noto que houve mudanças na disposição da mobília, tornando a casa mais acolhedora, espaçosa e prática. Por esta altura já andava com suores frios e sempre com toalhas cheirosas para me enxugar. 

 

Estou aterrorizado, todos os dias vão havendo novas situações e eu estou com um nervosismo constante. Não entendo o que se está a passar. Já ouvi falar num poltergeist, agora num benfeitorgeist nunca. Estou a pensar em vender a casa, viver assim está a matar-me. Sempre à espera que aconteça algo de bom de repente, sem explicação. Já viram o terrível que isto é? O prazer de algo bom aliado ao terror do inesperado e inexplicável. Não aguento muito mais.

 

Nos últimos dias tudo piorou ainda mais. O jantar começou a aparecer feito, delicioso. Toda a casa cheira terrivelmente bem, uma fragrância como nunca aqui pairava antes, que até nos relaxa. Isto tudo numa semana só! Ontem trouxe cá um padre, para ver se podia dar um jeitinho. Mal entrámos fomos invadidos pelo delicioso aroma de uma fornada de deliciosas bolachas acabadas de sair do forno. Um fumegante bule de chá repousava em cima da mesa da sala, iluminada e aquecida pelas labaredas crepitantes da lareira. Isto tudo sem explicação. O sacana do padre sentou-se, descalçou-se e empaturrou-se de bolachas e chá. Ainda me bebeu um conhaque que nem sabia que tinha e me disse que tinha imensa sorte na vida, para a estimar bem, antes de ir embora. E eu fiquei na mesma, com uma situação cada vez mais grave para gerir.

 

O pior de tudo é que a minha namorada mudou-se cá para casa há uma semana, também. Estou com receio que isto possa vir a afectar a nossa relação. Até agora ela ainda não deu por nada, tenho sabido esconder bem esta situação toda, mas não sei durante quanto mais tempo consigo...

Escape Rooms - Uma experiência

Fui experimentar algo que já me apetecia fazer há algum tempo: uma escape room.

 

Vou ser honesto quanto à minha experiência e dizer que não gostei muito. Não é que não tenham havido bons momentos, mas no geral... Pronto, se calhar o meu juízo está toldado e é só o meu rancor a vir ao de cima, a ferida no meu orgulho. Isto, claro, porque não consegui escapar no tempo estipulado. 

 

Não foi por falta de tentativas, fui lá todos os dias da semana passada, por exemplo. Ontem também já lá fui tentar a minha sorte, outra vez, sempre sem sucesso. É óbvio que vou lá voltar hoje, amanhã e as vezes que for preciso até conseguir resolver todos aqueles enigmas e todas aquelas tarefas. Ainda por cima já ouvi falar da recompensa que se tem quando se consegue completar o jogo com sucesso e só aguçou a minha vontade de o conseguir.

 

Clamam que neste tipo de jogo a tua capacidade física não interessa, que tens de depender da tua sagacidade, destreza mental e até imaginação para te safares, mas não se fiem nisso. Pela experiência que tenho, a capacidade física conta e muito; não é nada fora do comum chegar lá e o elevador estar avariado ou repleto de gente e ter de subir vários lances de escadas até alcançar a sala onde se vai desenrolar o jogo. E quando lá chego, a maior parte das vezes ainda tenho que fazer muita ginástica, muita correria de um lado ao outro, mais escadas para subir e descer ao longo do tempo estipulado. 

O realismo é de salutar. Eu e as dezenas de pessoas que todos os dias tentam vergar este desafio chegamos a uma sala que foi decorada com aspecto de um qualquer escritório. Lá encontramos diversas secretárias, computadores, ficheiros, armários... E começa o jogo! Não há tempo para descansar, temos de começar logo a tentar resolver o puzzle e ver se conseguimos sair dali antes do tempo acabar. 

Até agora só presenciei uma mão cheia de gente que conseguiu fazê-lo, e outros tantos que acabaram por desistir. É verdade que escolhi uma escape room de elevada dificuldade, uma em que o progresso se torna cada vez mais difícil pela adição de várias side quests, outros objectivos portanto, mini-jogos. Confere todo um maior nível de imersão à coisa, parece que temos um mundo inteiro a explorar. 

 

Começamos logo a trabalhar em equipa, temos uma pequena reunião e depois de definidas as prioridades e a estratégia de como vamos abordar o jogo, avançamos. É neste ponto que normalmente entra o game master e aumenta consideravelmente a dificuldade do desafio, lançando novas pistas, enigmas e tarefas que temos de realizar para conseguirmos escapar da sala. 

Lá vamos nós, navegando pela panóplia de documentos, artigos, emails, sempre procurando uma pista, algo que nos ajude a descodificar o mistério e a sairmos mais cedo. Falhamos redondamente, de todas as vezes. Aliás, nem sei bem o que estamos à procura, nem como escapar. Quando parece que estamos a conseguir alcançar algum objectivo, o game master volta a comunicar e a elevar o jogo. Mais pistas aparecem, mais documentos, mais tarefas que temos de realizar; tudo actividades que nos atrasam o verdadeiro objectivo: fugir daquela sala.

Desço escadas, pensando que estou a avançar no jogo, a descobrir alguma pista secreta. Dou com o arquivo, falo com o sr. Manuel, um infiltrado do game master, só pode, que me atrasa e dificulta as descobertas. Recebo comunicações da minha equipa, estamos a progredir. Tudo para nos puxarem o tapete quando já quase conseguimos destrancar a porta, fazendo-nos ver que afinal a resposta não é aquela, tudo o que pensamos estava errado. Ainda nem sabemos que enigma é suposto resolver para encontrar a resposta que nos levará à fuga. Chega o meio-dia e eu estou derrotado. O game master concede-nos uma pequena pausa para almoço e diz que nos deixa voltar durante a tarde, para irmos tentando novamente, já que somos clientes fiéis. 

 

Aqui entram vários dos mini-jogos que nos esperam e distraem do objectivo principal. A começar por o grande mistério de quem aqueceu uma sandes de ovo no microondas e cagou aquela merda toda? Seguido por o, ainda maior, mistério das pêras a apodrecer no frigorífico. Romances nascem e acabam, mexericos perpetuam-se, discussões resolvem-se ou agravam-se; a divisão na equipa começa a ser evidente. Formam-se grupos, cada um a tentar escapar primeiro que o outro.

 

O ciclo repete-se à tarde: mais emails, mais reuniões, mais documentos, mais coisas para resolver, tudo sem fim à vista, sem avançar no jogo, em nenhum momento mais próximo de encontrar a saída. Chega-se às cinco da tarde. Toca o alarme, quase que nos leva de novo aos tempos da primária. Acabou o tempo. Fizemos muito, tentámos de tudo, mas não conseguimos encontrar a resposta, não conseguimos vencer este desafio. Fica o esforço, novamente. Juramos voltar no dia seguinte, mesmo que este jogo já comece a perder a piada, mas agora a teimosia já comanda e vamos conseguir cantar vitória, nem que para isso tenhamos que voltar às mesmas tarefas inócuas, dia após dia, até encontrarmos a solução; até sairmos em ombros, vitoriosos, congratulados por amigos e pelo game master pela nossa mestria neste jogo e com um prémio por o termos derrotado. Pontualmente o game master deve sentir pena de nós, mas também sempre nos avisou que esta sala não era para principiantes, não era pêra doce. E realmente o sabor que nos fica é o de maçã reineta, mesmo quando ele nos propõe ficarmos depois da hora, a tentar resolver todo este puzzle, a tentar encontrar a solução: nem temos de pagar mais por isso! É pelo prazer do jogo. E é claro que ficamos, o sonho comanda a vida. Neste caso o sonho é escapar daqui o mais depressa possível. Pela maneira como as coisas têm corrido, diria que só devo encontrar a solução para este jogo quando tiver uns sessenta e seis anos, mais mês menos mês. Oh, mas vou encontrá-la, isso garanto, e vou usufruir da recompensa que vou receber.

 

E ainda dizem que isto das escape rooms é giro e está na moda? Chiça, que isto está a dar cabo de mim.

Os malefícios dos benefícios

Há pouco tempo deparei-me com mais um artigo dentro dos milhares que existem sobre os benefícios da cerveja. Ora, eu como grande apreciador desta "águinha de nosso senhor" não preciso de saber os benefícios ou as suas vantagens para a beber. Mas já agora fui ver. E sim senhor, tudo muito bem. Agora, o que ninguém fala é dos malefícios de alguns destes benefícios, ou as falhas de alguns destes benefícios. 

 

 

Vejamos:

  • Minerais fortalecem os ossos

         Sim, sim, os minerais presentes na cerveja fortalecem os ossos. Muito bem. Mas há que ver que se beberem muita cerveja a probabilidade de uma queda é maior. Muito maior. Imaginem que estão num bar a emborcar litros de cerveja; quando vão a descer as escadas para se irem embora trocam os pés e só param quando derem com a cabeça na calçada da rua, um braço a apontar para o lado errado, como se fosses uma suástica humana, e e um joelho a tocar na nuca. Portanto, não se fiem nesta técnica de fortalecer os ossos, porque o mais provável é acabarem com eles desfeitos.

  • Protecção do coração

        Consumo moderado de cerveja é benéfico para o coração. Mas será que é mesmo? É que depois de beber umas cervejinhas, finalmente se arranja a coragem para partilhar todos os sentimentos que nutrimos por aquela pessoa especial. Vamos à chuva até casa dela, com o coração protegido pela cerveja, e confessamos tudo. Todo o amor que sentimos sai-nos pelos poros só para depois repararmos na sua cara incrédula, no suor que lhe abunda o corpo seminu e o parceiro bem dotado que se pavoneia por trás dela. Embaraçada mas um pouco divertida, ela diz-te que não sente nada por ti, mas que estima muito a tua amizade. Vais para casa desolado, de coração partido e sem nenhuma esperança de futuro. 

  • Protecção pós-enfarte

        Esta está relacionada com a anterior. Agora que estão com o coração desfeito, é o mesmo que terem sofrido um enfarte. Portanto, voltam a recorrer à cerveja para ver se recuperam. Como já se viu, em termos de protecção deixa a desejar e aqui não é excepção. A solidão instala-se e cais numa espiral de destruição. Todos os dias é um tal virar cerveja atrás de cerveja, sempre em busca da recuperação. No entanto, o que acontece, é que nunca chegas a recuperar e te transformas num alcoólico. Três meses depois estás a prostituir-te num qualquer bairro problemático em troca de mais uma dose de heroína, tudo para tentar reparar o coração que a cerveja era suposto proteger.

  • Fonte de bom colesterol

       A cerveja em si até pode ser uma fonte de bom colesterol, se bem que tratando-se de fontes, prefiro-as com água. Ou cerveja mesmo. Além disso, vou beber uma cervejinha, vou petiscando um amendoim, um tremoço e de repente estou que nem alarve a lamber os dedos depois de ter sorvido um ou dois hamburgers, meio quilo de batatas fritas e a tentar despachar-me porque um dos meus amigos conhece um gajo que nos vai servir leitão assado a esta hora. No final desta empreitada, bem que bebi cerveja, mas a nível de colesterol a coisa não está nada famosa.

  • Mais nutritiva que outras bebidas alcoólicas

     A querer perder algum peso, mas sem querer cortar nas necessidades nutricionais nem abdicar do prazer de beber cerveja, embarco numa dieta de consumo exclusivo desta bebida. Já que é assim tão nutritiva. Pois claro que a única coisa que me traz é o vício do alcoolismo e o problema acrescido de uma anorexia. 

  • Activa o funcionamento dos rins

    Portanto, estão a noite toda no bar constantemente a receber cervejas de graça. Já topaste o moço ou a moça que tos anda a mandar, mas ainda ninguém veio falar contigo. Claro que com tanto funcionamento de rins, dás por ti a ir incontáveis vezes para a casa de banho. Numa dessas vezes acabas por ir sozinho, já que só te estão a pagar bebida a ti e ninguém está aflito como tu. A última coisa que te lembras é de veres a pessoa que te estava a mandar cerveja atrás de cerveja a entrar na casa de banho com um sorriso maroto e um olhar voraz. Quando voltas a ti, apercebes-te que estás nu numa banheira cheia de gelo e que estás com 3,2% de défice; ou seja lá que percentagem for que um rim ocupa no teu corpo. Pois claro, aquele estranho misterioso só te estava a cuidar dos rins para depois se aproveitar deles e garantir o seu bom funcionamento.

  • Reforça o sistema imunitário

     Ao lado da banheira que acabaste de acordar com menos um rim, está uma caixa de cerveja. Imediatamente te recordas que a cerveja reforça o sistema imunitário e não hesitas em mamar metade da caixa e despejar sobre a tua ferida a outra metade. Quando contavas com um boost do teu sistema imunitário proporcionado pela mágica da cerveja, acabaste só por te embebedar e infectar aquela merda toda. Além de que perdeste tempo para ligar à emergência médica e acabas por te afogar no gelo derretido enquanto tentas curar a ressaca. 

  • Melhor ressaca

     É a melhor ressaca comparado com quê? Certamente é melhor estar a ressacar da cerveja do que o corpo a ressacar de um rim, suponho. Mas, pessoalmente, prefiro a ressaca de sumo de romã.

  • Aumenta a confiança

      E desde quando é que isto é uma coisa boa? Ficar com a confiança nos píncaros é sinal que só vais estragar tudo. O teres muita confiança é o que te permite apostares com os teus amigos que consegues deitar abaixo a parede do bar só com uma cabeçada. E como já demonstrei no inicio, os teus ossos não estão assim tão protegidos pela cerveja como pensas. O único resultado do teu excesso de confiança é uma cabeça partida e uma conta bancária mais pobre. Pronto, a alegria provocada aos amigos conta como ponto positivo.

Também foi por causa deste aumento de confiança que te partiram o coração e que foste despedido por seres um incompetente alcoólico, que disse que conseguia acabar aquele enorme projecto de milhões sozinho e dentro do prazo e acabaste por estragar tudo. 

Com tanta confiança que sentias, decidiste ir para o meio da pista dançar. O que se seguiu foi tão horrível que o teu próprio grupo de amigos decidiu partir-te as pernas para assegurar que aquilo nunca mais acontecia.

  • Diminui o risco de diabetes tipo 2

     E em relação ao tipo 1? Pois, não faz nada, incompetente. Além de que após ter comido hamburgers e batatas fritas e o tal leitão, ainda mamei uns 2 quilos de gelado, cerca de 140 bolachas e meio bolo de casamento. Até que ponto é que o meu risco de diabetes tipo 2 vais estar diminuído? É porque só fiz isto tudo por estar inebriado devido a tanta cerveja. Penso que demonstrei, claramente, que tem é o efeito oposto.

  • A cerveja é menos calórica do que um sumo de laranja

     E depois? A cerveja também é menos calórica que uma refeição completa e equilibrada, mas isso não quer dizer que ganha esta ronda. Aliás, já vimos o que acontece se se optar por uma dieta só de cerveja. É o mesmo que me dizerem que um T0 é mais pequeno que uma mansão. Sim senhor, tem as suas vantagens, mas eu tenho uma família de nove...

  • Aumenta a criatividade

      E, claro, a cerveja aumenta a criatividade. Até aqui não há problema nenhum, o que sucede é que não há nenhuma consequência prática deste aumento. Acabei de beber uma enorme de quantidade de cerveja, estou mais criativo que o Salvador Dalí sob o efeito de ácido, mas também estou todo bêbedo. E não encontro o meu caderno, não me lembro da password do computador, não sei onde pus as minhas tintas. A criatividade transborda de mim, mas o que crio não corresponde, nem de longe, àquilo que imagino. A dor só aumenta quando me passa a excelente ressaca e sei que tive ideias fantásticas, que a minha criatividade atingiu níveis históricos, mas que não me lembro de nada. E ia ser a melhor criação que este mundo já viu. Mas não me lembro. Além disso, tenho mais com que me preocupar. Estou com metade dos ossos partidos, falta-me um rim, estou a sofrer por amor e a precisar comer, mesmo que ainda me sinta enfartado...

 

 

E pronto, era isto. Só para terem as coisas em atenção e alguma perspectiva. Há sempre que considerar os malefícios que nos trazem os benefícios, não nos podemos fiar neles à maluca. E agora vou, que esta cerveja não se bebe sozinha.