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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Muito mais que uma prenda

Desde criança que sempre quis ser um pirata. Não no sentido sério do crime sem escrúpulos e selvajaria que acompanha a profissão, mas pelo sentimento de aventura e liberdade, de luta contra o sistema, da anarquia de viver com emoção e adrenalina; tudo num sentimento romantizado da época dourada da pirataria. Tive espadas e mosquetes, pequenos navios, fascínio pelo mar. Aprendi sobre eles e sonhei. Vivi nessa fantasia, através dela. Ainda hoje o faço, por vezes. 

 

Já vivi muitas vidas e fantasias.

 

Não passava de uma criança a contemplar as estantes carregadas de livros do avô. Desejando por algo que pudesse ler, que percebesse e fosse adequado. A aguardar uma idade em que pudesse lê-los a todos, a expectativa daqueles mundos por descobrir, excitado pelas possibilidades de futuro. Já não sei como nem porquê, mas escolhi (ou foi-me escolhido) um livro de Emilio Salgari: "O Corsário Negro". E foi assim que começou, com um livro. Seguiram-se saltos em cima da cama, com estocadas imaginárias do meu sabre (e, pela primeira vez: não, isto não é um eufemismo), proclamação de revoluções e sanguinários feitos heróicos. Os restantes livros da série continuavam na estante, e fui-lhes agarrando um a um; acho que até hoje não me foi dada permissão para tal, mas também nunca me foi negada. Este acto não passou despercebido, e os livros desapareceram do seu lugar. A pouco e pouco foram-me sendo oferecidos, sempre que a ocasião o justificava, com uma pequena inscrição no seu interior. Se calhar o meu avô julgou que seriam ainda mais poderosos sendo uma prenda. Com alguma razão, é certo. A verdade é que foram muito mais que uma prenda.

 

Às pessoas especiais quero dar sempre mais. Não em quantidade, mas algo característico, com significado. Às pessoas especiais quero dar tudo, quero dar o mundo. Não posso. Por isso dou-lhes todo um universo, e mais. Dou-lhes um livro.

Um livro não é só um passatempo, uma ocupação; não é só uma história ou entretenimento.

Quando oferecemos um livro estamos a dar muito mais que isso. Um livro é uma vida, um pedaço de alma, uma experiência, uma viagem. É sentimento. 

Ao darmos um livro estamos a dar muito mais. O inatingível por outro meio, toda uma outra vida. Um sem número delas.

 

Este é o meu universo

 

Possui o poder de nos transformar, curar, inspirar. É um instrumento como nenhum outro, capaz de nos fazer imaginar, apaixonar, sorrir, acreditar. Muda o que pensamos, ensina-nos. 

Transforma-se em algo orgânico, é vida pulsante em caracteres. É sonho e esperança. 

Pode ser devastador, mas é sentimento. É aprendizagem.

 

É mais que viajar. É um portal mágico que nos leva para outro mundo. Deixa-nos viver outra vida, sermos o que quisermos. É tão real que o sentimos fisicamente. Somos detectives, guerreiros, ditadores, inventores, ferreiros, pilotos... Não há limites. 

Literatura existe para excitar, espantar ou deslumbrar; para ensinar e relatar. Choramos e rimos, mas nunca seremos iguais. 

Desde que existem livros que andamos a viajar. Passado ou futuro, realidade ou ficção, deixam de ser obstáculos a ter em conta. O bilhete é eterno e a viagem infinita. 

Vidas são mudadas e influenciadas, escolhas são tomadas. Somos aquelas personagens, reais ou não. Pelas palavras de alguém transformamo-nos, e, connosco, o mundo. Imaginamos o impossível e tentamos replicá-lo. Assim fomos evoluindo como sociedade, como espécie. Foi escrito num livro, foi lido, foi imaginado, foi alcançado. Ultrapassar o limite da imaginação é a nossa meta.

 

Evoluímos porque imaginamos.

Um livro é imaginação.

Tudo isto, e mais, é o que estamos realmente a oferecer.

É muito mais que uma prenda. 

 

The greatest art offers us images by which to image our lives. And once the imagination has been awakened, it is procreative: through it we can give more than we were given, say more than we had to say.

 

Lewis Hyde ("The Gift: Creativity and the Artist in the Modern World")

 

A literatura é muito isto.

Uma frase? Só isso?

Sim, uma frase. Para mim, a literatura começa a sê-lo a partir de uma frase.

Uma frase bem construída, que faça sentido quando lida e que transmita uma ideia, já é, para mim, literatura.

 

Uma única palavra é só estúpido. Não existe literatura na própria palavra "literatura", por exemplo. Pelo menos não quando essa palavra está sozinha.

Ah, e tem de estar acompanhada por outras palavras!

A seguinte frase, por exemplo, é só estúpida: "Literatura literatura, literatura, literatura literatura literatura literatura."

 

hamlet.jpg "... literatura."

 

Ora, para que é que interessa tudo isto?

Para nada. Para absolutamente nada. A literatura deve ser o que cada pessoa quiser que ela seja, e não aquilo que me apetece.

Só que desafiaram-me a escrever um texto que começasse com a frase "Uma frase? Só isso?", e, ou era isto, ou era uma conversa entre duas morsas numa aula de português.

 

Pensando bem, se calhar ainda escrevo essa história...

Respeitem os alarmes

Estás sentado à secretária. É apenas mais um dia de trabalho, mas, de repente, ouves um som alto e repetitivo que te desconcentra e faz levantar os olhos da tarefa em mãos. Trocas olhares com todos os teus colegas e começas a rir. Piadas são feitas à medida que todos pensam no mesmo: "porra de alarme, disparou outra vez. Sempre igual.". O barulho continua, os desejos para que alguém desligue o alarme aumentam. Por fim, o silêncio é alcançado. Agradeces por isso, podes agora voltar ao trabalho. Cinco minutos depois estás a viver os teus últimos momentos, enquanto as labaredas tomam contam de todo o edifício e o fumo te intoxica. Não há sobreviventes.

Conheçam o Al Arme. Parece inofensivo, mas grita que se farta.

 

Estás a preparar o jantar e os teus filhos fazem os trabalhos de casa. São todos interrompidos pelo barulho excruciante emitido pelo alarme de segurança. Atravessas a casa enquanto suspiras irritado com o acontecimento. Vais à porta, desligas o alarme, atendes a chamada da central de segurança e voltas aos preparativos do jantar enquanto praguejas por, de vez em quando, o alarme disparar sem razão. Os filhos, há muito já silenciosos, de volta ao quarto. Acabas o jantar e vais chamá-los para a mesa. Entras no quarto e deparas-te com um mar de sangue. Os miúdos jazem degolados no chão. É essa a imagem que fica gravada na tua retina para a posterioridade, ao mesmo tempo que uma lâmina manejada por uma rápida mão, vinda não sabes de onde, te desenha um sorriso ao longo do pescoço. Não há sobreviventes.

 

Alarme contrafeito. Números ao contrário. Há que poupar...

 

 A noite já vai longa e estás a tentar adormecer faz tempo. Por mais que uma vez estiveste quase, mas foste sempre despertado pelo alarme de algum carro. A dor de cabeça torna o pensamento difícil de formular, a irritação aumenta e os alarmes dos carros continuam a ecoar na tua cabeça, mesmo quando já dormes. Levantas-te de manhã, até estás bem disposto. Sais à rua, pronto para mais um dia de trabalho e levas com a luz do sol no olhos, reflectida no capô de um carro da polícia. Vês vizinhos que conheces de passagem e notas que o lugar do teu carro encontra-se vazio. Vários carros foram furtados nessa madrugada. Soaram alarmes, mas ninguém ligou. 

 

 

Sabia que devia ter parado no 30. Onde é que tenho a bicicleta...

 

Eu posso ter inventado estes cenários, ou posso não o ter feito. São todos credíveis. Demais. E porquê? Porque apesar de nós, como seres que vivem em sociedade, insistirmos em ter alarmes em tudo, para protecção e segurança, escolhemos ignorar o som por eles produzidos em cerca de 96.248% das vezes. 

Pensem em quantas vezes ouviram o soar de um alarme e reagiram de acordo com a norma? Raríssimas vezes. Porque assumimos, automaticamente, que a culpa é do próprio alarme. Que disparou por uma razão qualquer que não aquela que leva à sua existência. Sim, é verdade, isso acontece porque já fomos enganados vezes demais. Já perdemos a conta às vezes que soou um alarme e não era nada digno de registo. Ou passava-se nada ou, aquilo que era, não era merecedor daquele som alarmante emitido pelo dispositivo criado para aumentar a nossa segurança.

 

Mas, mesmo que em cada cem vezes que toque o alarme, apenas uma seja uma ameaça real, não deveríamos reagir a todas de forma concordante? Porque àquela centésima vez pode ser real. Podemos estar em perigo de vida. Acho que vale a pena arriscar. Vamos tratar todos os alarmes como merecem!

 

Pelos vistos as ovelhas estavam a ensaiar a sua participação numa marcha...

 

Parece que estamos constantemente a recriar alguma versão de "O jovem pastor e o Lobo", mas com os alarmes. Aquilo que ninguém entende, e que eu desde muito pequeno sempre entendi e tentava convencer a minha avó, só para levar uma vassourada na espinha, é o verdadeiro significado da história do Pastor e o Lobo. Ao contrário do que pensam, não é sobre a mentira, a importância de dizer a verdade e isso tudo. Não. É o retrato perfeito das nossas fraquezas como espécie, retrato de rancor, de mesquinhez e de ignorar as nossas responsabilidades apenas porque não tivemos uma recompensa instantânea à primeira vez.

 

Passa-se o mesmo com os alarmes. Não foi à primeira, não foi à segunda, então pronto. Acabou-se o cuidado, acabou-se a prevenção, acabou-se a rápida reacção e tentativa de resolução de um problema. 

Um grande homem inventou o alarme para nossa protecção. Um grande homem, que não pediu nada em troca sem ser o respeito e a segurança de toda uma raça (liberdades criativas podem ter sido tomadas ao inventar esta história) – E foi um homem. Só pode ter sido. Não por ser melhor que uma mulher, mas porque só o homem não ia confiar na capacidade de uma mulher dar o alerta ou ser capaz de resolver a situação, preferindo achar-se superior e necessário, querendo que algum dispositivo o avisasse se algum problema estava a decorrer, para poder acorrer e, provavelmente, ser o primeiro de todos a morrer. Sei lá.

 

No entanto, decidimos ignorar os desejos desse grande homem e condenar o alarme a um papel quase irrelevante e decorativo. 

Imaginem que sempre que soava o alarme do despertador, vocês não ligavam. Ou desligavam o alarme sem prestar atenção a mais nada, só porque era um alarme a tocar e não merecem atenção de todas as vezes. Não ia dar muito certo, não é? Iam perder o emprego e desgraçar a vida toda, descambar para uma vida de crime que vos levava à cadeia (porque a meio de um assalto ignoraram o alarme e não fugiram...) e acabavam a ser violados analmente com a prótese de perna do vosso companheiro de cela. Tudo por ignorarem um alarme.

 

Preparem-se que isto vai tudo de uma vez só.
Vamos lá com jeitinho...

 

 

Não ignorem os alarmes. Respeitem os alarmes.

 

FURA! FURA! FURA! FURA!

"Frente Unida pelo Respeito ao Alarme"

 

 

Migalhas

Há um problema grave a assolar a humanidade. Sim, mais do que um, mas isso fica para outro dia. O que estou a falar é do óbvio, da obsessão colectiva que toma conta das nossas vidas. As migalhas.

Não há um único individuo neste planeta que não seja obcecado com migalhas. Por tudo o que isto envolve. Ao comer pão, bolachas, cone de gelado, partir queijo, um bolo... Migalhas. Migalhas por todo o lado. Ninguém deixa uma migalha passar em claro. As que ficam na mesa ou as que cobrem o casaco e nos fazem sacudir como cães com pulgas, como se aquele fragmento insignificante nos fosse arruinar o dia. 

 

É que até os animais. As formigas, por exemplo, vêem as migalhas como dádiva de Deus e partem em romaria à procura do seu Santo Graal, aquele minúsculo pedaço que se soltou da tosta que comias ao pequeno almoço enquanto tentavas adiantar o trabalho para esse dia. Arriscar a vida por uma migalha. 

 

Nós não somos melhores. Discussões e relações acabadas por causa desta obsessão. Porque não conseguimos conviver com a noção de um fragmento de comida se soltar de um pedaço maior e ir depositar-se numa superfície qualquer, que muitas vezes se torna uma espécie de No Man's Land. Sim, porque a partir do momento que cai uma migalha ela deixa de ser responsabilidade de alguém. Parece que toda a gente evita clamar a migalha como sua. Se caísse a fatia de pão inteira, sim, aí já tinha dono e culpado. As migalhas, no entanto, há sempre um argumento para contestar a sua origem e/ou culpabilidade. 

Quem nunca ouviu coisas como "olha que estás a sujar isso tudo"; "vê a porcaria que estás a fazer"; "vai buscar um prato!"; "não comas isso aí"? Todos. E tudo por umas míseras migalhas. Se estiverem a beber água no sofá, não vão ouvir nenhum aviso para terem cuidado ou ameaças de trabalhos de limpeza forçados caso derramem tudo. Pelo menos se não forem uma criança ou sofrerem de Parkinson. Agora experimentem comer um biscoitinho e vão ver os problemas que isso traz. Como se umas migalhas fossem algo mais trágico que um sofá encharcado de Vodka (sim, eu sei que tinha dito água, mas... vamos enganar quem?). Esta obsessão por migalhas está a arruinar vidas.

 

Fora isso, há a acrescentar o impulso quase obsessivo compulsivo de aproveitar todas as migalhas, não desperdiçando aquelas insignificâncias quase que sob pena de prisão. As migalhas são uma droga que faz mais vítimas que qualquer outra. Pessoas de todas as idades não resistem à visão de pequenas migalhas que ainda estejam ao alcance, molhando os dedos para conseguir agarrar todas as partículas que ficaram no fundo do saco das batatas, por exemplo, e passando-os pela gengiva, como se de cocaína se tratasse. 

 

Mas as pessoas teimam em não perceber e continuam a sucumbir ao efeito das migalhas, condenando toda a nossa raça à extinção. É uma droga perigosa e que conta com a conivência de todos nós, que actuamos como dealers e viciados em simultâneo.

O problema maior? O problema é a direcção final deste vício. Qual esquema vilanesco digno de um filme da Disney, quanto mais obcecamos com migalhas mais vamos dando continuidade à metamorfose que está a acabar com a raça humana. Gradualmente, e sem nos darmos por isso, não passamos de um pombo a vaguear pela cidade à procura de mais uma migalha. Só mais uma migalha. E assim será o final da humanidade. Transformados em pássaros ínuteis devido a migalhas. Pássaros ínuteis que vendem o corpo por uma migalha, numa busca constante. Just another fix, man... 

 

 

 

Olha que ler este título faz-te mal...

Há uma moda, que já o é desde sempre, ou, no mínimo, desde que tenho consciência das minhas acções, em que toda a gente pensa saber o que devias ou não devias fazer. Não o digo em relação a casos de dúvida, uma opinião sincera, um conselho sobre alguma coisa, ou a uma simples opinião a pedido, por exemplo: "se eu acho que devias comprar esse casaco? Não. Faz-te parecer um urso polar com lepra ou uma poltrona meia estofada que foi vomitada em cima por um sem-abrigo que tinha comido uma papaia estragada". Não, falo em coisas muito mais óbvias que isto e que carecem de opinião, coisas triviais, do conhecimento de toda a gente no mundo, práticas e comportamentos a ter ou evitar, conselhos inócuos. Já agora, neste caso, se gostas do casaco compra o casaco, só me pediste opinião e disse o que achava. Mas, faz o que quiseres. E é isto o que muita gente parece não perceber ou aceitar.

 

Geralmente são das pessoas mais irritantes que existem. Não porque gostam/praticam aquilo que te aconselham, mas pelo fanatismo e achar que tudo tem de ser como eles e que se não o és é porque não sabes as consequências e só podes ser muito estúpido. Também não falo das pessoas que, genuinamente, se preocupam contigo e tentam fazer-te mudar/adaptar certos comportamentos. Falo exclusivamente daquelas que o fazem só porque sim. Porque devem achar que não sabes os perigos. 

 

O quê? Levar um estilo de vida sedentário é mau para a minha saúde? Quem diria, não fazia ideia. ainda bem que me informas. Comer só "porcaria" vai-me prejudicar? Que surpresa! Não sabia mesmo, obrigado pela informação, vou já alterar todos os meus hábitos. Só nunca o fiz por falta de conhecimento. Porque isso não são coisas que toda a gente sabe! São segredos da vida, que só vocês descodificaram. Ainda bem que passam a mensagem. Vou já a correr para um ginásio, e tratar da minha saúde porque me informaste que não o fazer era mau para mim. Dedicar todos os minutos da minha vida a exercitar-me e a comer bem para poder viver mais tempo e ser saudável e assim ter mais tempo para continuar neste ciclo. Porque é só isso que posso fazer, se quiser viver. Portanto, vou transformar a minha vida numa missão para viver mais tempo. Com isso não consigo fazer mais nada, só tenho uma preocupação: viver mais tempo. Para fazer o quê? Mais nada, que não há tempo. Tenho de continuar neste ciclo para poder viver. 

 

Ah, não comas muita carne vermelha, tem cuidado com os doces, isso está cheio de alimentos processados não o devias comer... A sério? E eu aqui na ignorância. Não sabia disso nem nada. Se o escolhi fazer não pode ter sido na posse desse conhecimento, não é? Tem cuidado a escalar essa estrutura, podes cair e magoar-te... Mais uma vez, ainda bem que me avisam. Não acham que toda a gente sabe? Eu sei as coisas que me fazem mal, o que não devia fazer, aquilo que devia. Eu sei que se ficar muito tempo desprovido de oxigénio morro, não é necessário lembrares-me disso, tal como sei que se me fosse drogar isso seria mau para mim. Eu sei isso tudo. Eu e toda a gente! O que eu não sei, é o que tens tu a ver com isso e o porquê de mo vires dizer como se eu tivesse acabado de nascer. Não sou uma criança que tens de dizer para não molhar os dedos e os ir enfiar nas tomadas, ou para não meteres as mãos no fogo que te vais queimar.

 

O que é que acham? Acham que se forem ter com um viciado em heroína e lhe disserem para não comprar aquela dose e não a injectar mais, que ele, subitamente, vai olhar para vocês e perceber que aquilo era um mau hábito? Acham que ele não sabe? Que não o sabia desde sempre, desde a primeira vez? Que vai largar a seringa e dizer que não fazia ideia que era aquilo que lhe estava a fazer mal, que ainda bem que lhe deram aquela informação? Não. E sim, é um exemplo um bocado extremista e sem muito sentido - e não estou a dizer para não se tentar ajudar essas pessoas, uma coisa não tem nada a ver com a outra - mas é só para ilustrar que as pessoas sabem o que estão a fazer. Parem de achar que não.

 

O que digo é que somos responsáveis pelas nossas acções. Temos o conhecimento, se eu o quiser fazer na mesma, faço. E não percebo o porquê de não o entenderes ou isso te chatear e incomodar. Se corre mal... corre mal. Selecção natural. Continua a não ter nada a ver contigo. Eu sei o que faço. Eu e toda a gente. A única excepção, é quando aquilo que faço interfere com o que tu fazes, aí sim tens todo o direito de falar e tomar alguma acção. De resto, é só comigo. 

 

Sim, eu durmo pouco. Por vezes como em excesso, como carne, como fritos, bebo álcool, não faço exercício suficiente, já olhei directamente para o sol, já saí à rua sem casaco quando estava frio. Já fiz festas a um cão que encontrei na rua. Faz-me tudo mal. Eu sei. Perfeitamente. Todos o aprendemos muito cedo nas nossas vidas. Não é o facto de chegares ao pé de mim e me dares essa informação como se eu nunca tivesse concebido essa ideia, que o vai mudar. 

 

Não comas isso, não faças aquilo, não digas isso, não penses assim, não fumes, não bebas, não te drogues... isso vai matar-te lentamente. Excelente! Não tenho pressa nenhuma para morrer. Lentamente é como gosto. Pelo caminho, deixem-me em paz. 

Pratos e pratinhos

Não sei se é da idade ou se é mesmo alguma predisposição genética, mas parece que toda a gente chega a um ponto na vida que converge para o mesmo tipo de decoração. 

Eu não percebo o apelo, mas não é nada raro ver móveis e móveis cheios de porcelana, de vários pratinhos e jarras e chávenas. E porquê? Pela beleza? Sim, muito giro, aquele prato de porcelana foi concebido com um padrão. Parabéns. Encher uma sala com este tipo de coisas é assim tão giro? É assim tão reconfortante? Parecer que estamos nalguma loja para comprar um serviço de jantar em que nada é igual. Eu não percebo e espero que essa mania não me apanhe nunca.

 

Sem falar em todos os cuidados associados a este hábito, porque para além de passarem por um monge isolado nalguma remota localização, a vossa decoração não tem sentido prático nenhum. Não se pode tocar, cuidado para não partir, é o local preferido para acumular pó e todo o trabalho que daí advém. Além disso, por mais limpo que esteja, confere sempre um ar pré histórico a toda a divisão e parece que automaticamente gera um cheiro a mofo. Também me dá logo uma impressão de que são pessoas chatas. Porque não conheço ninguém interessante que mantenha quilos de porcelana inútil pelas paredes de casa. Até o podem ser, mas a partir do momento que vejo toda aquela loiça, a minha opinião está formada e não há volta a dar.

 

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Ainda consigo perceber ter quadros. Sim, a nível prático também não têm muito sentido, mas conferem um outro ar a toda uma divisão. É uma forma de arte interessante e bonita de se ver. Ninguém quer saber da porcelana. Só serve para acumular pó. Um quadro ainda desbloqueia conversa, mostra o teu gosto, confere personalidade a uma divisão. Porcelana é só... manifestação física de aborrecimento.

 

Além disso, não é como se os pudessem usar. Não. Parece que toda a gente que é dono deste tipo de decoração confere-lhe mais protecção que qualquer quadro no Louvre. Eu ainda me lembro que se me levantasse da mesa sem levantar o prato ia levar com a porra, mas, pelos vistos, se deixasse o prato em cima de uma prateleira no meio da sala já não ia ter problema nenhum. E ainda temos o caso das toalhas e toalhinhas na casa de banho que não se pode usar para secar as mãos, sob pena de cadeia caso não se cumpra com esse requesito, mas isso fica para outro dia.

 

Ok, eu sei que posso não ser a pessoa mais indicada para falar disto, ou de outra coisa qualquer, até porque o meu sentido de decoração manifesta-se em paletes de roupa espalhada por qualquer superfície e livros a ocupar qualquer espaço livre que encontro pelo caminho.

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 Mas pensem nisso, enquanto a porcelana não interessa a ninguém nem serve para nada, toda a minha roupa espalhada pode sempre ser vestida a qualquer momento. Quanto aos livros, espalhados por todas as divisões e superfícies, têm imenso uso. Posso usá-los como quiser: para lê-los a qualquer altura e nunca estar aborrecido, se precisar urgentemente de papel, arma de arremesso ou, em último caso, como combustível para queimar toda a casa quando o primeiro pratinho de porcelana assentar numa prateleira minha.

 

  

De boas interpretações está o inferno cheio.

A pontuação, tempos verbais, semântica, ortografia, etc., é um tema já amplamente discutido por toda a gente, nada de novo a acrescentar sobre isso, nem é essa a minha intenção. Todos sabemos da sua importância, aqui só quero partilhar a minha última experiência pessoal com base neste tema.

 

Estava eu todo contente a meio do meu passeio e vejo uma mulher a segurar um pedaço de cartão com a seguinte mensagem:

Ajudem!

5 filhos para comer.

Ri-me.

Sim, a senhora precisa de ajuda e passa por necessidades, mas, ignorando esse pormenor, teve graça. Instantaneamente veio-me à cabeça a ideia que esta mulher, a passar por tantas dificuldades e com tantos filhos a seu cuidado, tinha encontrado a solução perfeita: livrar-se dos filhos. Garantindo que, assim, a vida ficava mais fácil, tendo só a si própria com que se preocupar. Inclusive, tinha arranjado uma solução diferente e criativa para resolver o seu problema. E eu achei graça a isto, a esta interpretação literal do que estava escrito. Ei, a culpa é dela...

 

 

Não me julguem ainda, sem ter lido o texto todo. Não sou um monstro, ok? Fiquei sensibilizado e fui ajudar a senhora. Posso gozar com uma situação e inventar alguma história na minha cabeça, mas isso não muda quem realmente sou ou aquilo que faço e acredito. Uma coisa não tem a ver com a outra.

Numa coisa a senhora tinha razão, é mesmo preciso ajuda!

 

É que ainda falta comer 2 e eu já não posso mais. Estou cheio até às orelhas, portanto se alguém ainda não tiver jantado e quiser aproveitar...

 

 

 

 

Tema do Dia - Substituições (#03)

Muito bem, substituições... Vamos começar pelas SN2, penso que são as mais simples de perceber. 

 

 

Esperem, se calhar não é este tipo de substituições que é suposto falar. Às vezes confundo as coisas.

 

Ora bem, voltando à estupidez então. Pensei sobre o que havia de falar a respeito deste tema e cheguei à única conclusão que havia: eu substituiria o meu casaco e o meu carro por um par de asas. 

Percebam uma coisa, eu com um par de asas, que podia pôr e tirar consoante a minha vontade, óbvio, dispensava um casaco. Pode não ser a opcção mais clara, mas bastava envolver-me nas minhas reluzentes penas e todas as funções de um casaco estavam cumpridas. Com o carro é mais simples de perceber, pois com as asas tinha meio de transporte assegurado. Além disso, com as asas não pagava estacionamento, não gastava dinheiro em manutenção e combustível nem apanhava trânsito nenhum à conta de todos os pombos preferirem passar o seu tempo a passear calmamente pelo chão (sim, são muito estúpidos).

 

 

Isto ia ser muito giro, mas não deixa de ser redutor. 

Se eu tivesse asas nunca mais pagava por comida. Podia substituir esse hábito ao voar pacificamente por cima de uma qualquer esplanada à espera da minha presa e, quando esta se apresentasse, mergulhar a pique e deliciar-me com uma qualquer iguaria. "Ó Vasco, mas isso é só roubar comida, não precisas de asas para isso." Sim, é verdade, mas assim eu descia dos céus e roubava o prato à minha presa num piscar de olhos, não havia risco nenhum de ser impedido, apanhado ou identificado. Isto também ia funcionar com sacos de compras, portanto mais uma actividade que era trocada (sinónimos também conta). É certo que isso envolveria todo o tipo de compras e que tinha de me sujeitar ao escolhido por outra pessoa, mas valia o risco. Só não podia era substituir produto nenhum caso não me agradasse. Quer dizer, se o recibo estivesse no saco...

 

Não ia usar os meus fabulosos apêndices só para o mal, usava para chatear as outras pessoas também. Coisas do género de atravessar uma passadeira o mais devagar possível e, depois, quase a chegar ao outro lado, levantar voo só para mostrar que o podia ter feito logo à partida. 

Ou então, encontrar duas pessoas a passear juntas e esperar por um momento de distracção de uma delas. Assim que esse momento ocorresse, descia a pique, agarrava numa delas e deixava-a do outro lado da rua. Deixava a confusão e incredulidade instalarem-se e, quando o momento fosse certo, voltava a repor o que havia desfeito, aumentando a confusão e instalando a dúvida na pessoa que não tinha sido por mim agarrada e que não percebia como o amigo(a) de repente tinha aparecido do outro lado da rua para, segundos depois, estar de novo ao pé dela. Já que é óbvio que ninguém ia acreditar na palavra da minha vítima, que fora movida por um homem voador, essa pessoa ia cair em desgraça e ser queimada como bruxa, mas isso é conversa para outro dia.

 

 

 

Tema do Dia - Cortinas de Duche (#01)

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A cortina do duche serve de... nem sei para que serve. Tecnicamente acho que serve como barreira ou protecção, tanto para a água como para privacidade. Aquilo que sei, por experiência própria, é que dá muito jeito para ajudar a desfazer de um corpo, mas essa história fica para outro dia. 

 

Agora, sempre que penso neste assunto, vem-me à cabeça o meu sonho mais antigo: Cobrir as seis janelas da minha sala de estar com cortinas de duche. Não só seriam indiscutivelmente mais baratas que cortinas normais, como iriam passar a ideia aos meus vizinhos de que tinha a maior banheira que alguma vez já tinham visto e que ninguém se banhava com tamanha opulência quanto eu.