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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#09)

Neil Gaiman publica um novo livro e isso, normalmente, é suficiente para me interessar. Ainda para mais quando vejo o título e faço a pré-encomenda, passando os restantes meses de espera a fantasiar, a gerir a expectativa e a pensar em como finalmente vou ficar a saber tudo sobre mitologia equídea.

 

Guia de marteladas históricas

  

Sim, perceberam bem, mitologia equídea. Isto porque, quando vi o anúncio ao livro, o que li foi "Horse Mythology". Fiquei-me por aqui, que não gosto de saber muito mais sobre um livro antes de o ler. Ora, isto para mim foi suficiente para me cativar. Delirei a imaginar todos os segredos e história desta rica mitologia que ainda não conhecia. Calculei que ficaria a saber, por fim, como se formaram os primeiros unicórnios, a lenda do primeiro galopador, os segredos por trás do astuto cavalo que inventou o trote, o Deus maior dos cavalos, o grande Pégaso... Ou, ainda, as origens do conflito de titãs entre cavalos e touros, que segundo consta foi o que deu origem à separação dos continentes, a história do malandro cavalo que se aventurou fora da sua espécie e foi ostracizado e relegado a um pónei como penitência, as magníficas circunstâncias que levaram à criação de ferraduras... E, claro, sem esquecer o fim do mundo, presente em todas as mitologias de valor, que se daria num épico confronto liderado por um pónei revolucionário, cansado de ser motivo de chacota entre os seus e de adoração entre os humanos, a libertação dos touros e a insurreição dos unicórnios.

 

Tinha tudo para ser das melhores obras de sempre, a quem é que isto não interessaria?

No entanto, só quando recebi o livro é que notei que afinal era  "Norse Mythology".

 

Before the beginning there was nothing – no earth, no heavens, no starts, no sky: only the mist world, formless and shapeless, and the fire world, always burning.

 

Neil Gaiman chama a si a tarefa de nos contar os mitos nórdicos, toda a fantasia, e história, que os envolvem. Não são contos de ficção com base na mitologia nórdica, mas sim os contos desta mitologia contados pela voz do autor. No fundo acaba por ser um livro de não-ficção, tanto quanto se pode considerar não ficção os acontecimentos que sustentam toda uma mitologia. 

Esta mitologia sempre esteve presente nos trabalhos do autor, como inspiração ou a popular os seus trabalhos com algumas das suas personagens. Aqui, Gaiman conta-nos o clássico. Com o seu estilo, a sua escrita harmoniosa e sempre poética, abordando os mitos como se estivesse a escrever um conto de ficção, mas sempre com base, apenas, na mitologia nórdica. É o equivalente a passar uma noite com Neil Gaiman ao relento, em que ambos puxamos de um copo de hidromel enquanto no céu se manifesta uma aurora boreal. E, pela sua voz, ele encanta-nos e dá-nos a conhecer estes mitos.

Of course it was Loki. It's always Loki.

 

Tomando como referência apenas os clássicos, o Edda em prosa e o Edda em verso, Neil Gaiman adapta os mitos e partilha a sua história, estruturado como um livro de contos tradicional e não como um manual ou algo enciclopédico. Torna tudo ainda mais apelativo e interessante de conhecer, servindo como ponto de partida e descoberta, uma boa introdução, para toda esta mitologia. A forma acaba por se basear no conhecimento e ponto de vista de três dos principais Deuses nórdicos, e porventura os mais conhecidos Odin, Thor e Loki. São eles a força motriz por trás da maioria dos acontecimentos. Todo o livro se desenvolve como se de um Romance se tratasse, devido à forma como está estruturado. Começando pela criação do mundo, acompanhamos todos os eventos, as relações e interacções entre os Deuses desde a criação de Asgard e sempre num crescendo até ao clímax que é o Ragnarök. Pelo meio, ficamos a saber como é que se construiu o muro à volta de Asgard, ou como os Deuses obtiveram alguns dos seus tesouros, como o martelo do Thor, ou, ainda, as origens da poesia, por exemplo.

 

O livro é bom, "simpático", despreocupado, leve, pautado com muito humor (a parte mais fraca para mim, um bocado inocente, infantil demais), bem estruturado, interessante e informativo. Tem uma aura mítica que rodeia o conto destas hitórias, apoiada pela escrita e estilo do autor, o que só contribuiu para o melhorar. Lê-se de uma assentada, imbuído no espírito e fascínio de toda uma mitologia, da sua história, do que sutenta, ou sustentou, toda uma outra cultura. 

 

The fun comes in telling them yourself—something I warmly encourage you to do, you person reading this. Read the stories in this book, then make them your own

 

A página em branco

Ultimamente não tenho escrito muito, nem aqui nem só para mim. Tal facto não incomoda ninguém a não ser eu próprio, porque gosto de o fazer. Podia listar um sem número de razões para ter acontecido isto, mas a verdade é que a culpada acaba por ser só a preguiça. O que não deixa de ser um contra-senso, pois é algo que me traz satisfação e prazer, algo que estimo. Mas, como em imensas destas situações, mesmo que seja algo que queira muito fazer, acabo por deixar passar por preguiça de começar.

 

Claro que o tempo, ou falta dele, é sempre um factor, mas não é desculpa neste caso. Podiam haver outras razões, como o famigerado medo da página em branco. 

Contudo, ideias não me faltam. Não é para me gabar, mas tenho uma enorme quantidade de ideias de coisas para escrever. Nenhuma delas boa e que valha a pena, tal como na maioria das vezes; mas elas existem e não é um problema. E mesmo que não tivesse, era isso que me ia impedir? Quem já leu algo do que aqui publiquei pode atestar que não.

 

Outra coisa tem a ver com esta noção: o medo da página em branco. A página em branco não assusta, aliás, só pode reconfortar, dar segurança...

A página em branco não pode magoar ninguém, não ofende ninguém, não choca ninguém. Enquanto a página estiver vazia, nada acontece, ninguém gosta e ninguém odeia. A página em branco é sem opinião e sem visão, não é um princípio e é sem fim. A página em branco é segurança, porque é sem risco. Enquanto não se fizer nada, nada acontece. A página em branco é sem identidade; é uma não existência e o que não existe não assusta, não pode influenciar nada, não provoca reacção nenhuma e isso é sempre seguro. 

A única altura em que uma página em branco podia assustar seria se chegasse ao supermercado e a lista de compras estivesse em branco e eu ficasse sem saber o que me faltava. Ou se estivesse a fazer uma lista de pessoas que me são queridas e a página permanecesse em branco. Ou se fosse indicado como suspeito num caso de homicídio e a única prova que tivesse para atestar o meu álibi fosse um qualquer documento que, de repente, estava em branco. Isto seriam situações em que compreenderia o medo da página em branco, porque de resto, não nos pode tocar, por isso não há que ter medo, certo?

 

Ou então assusta, mas não por si mesma: por ser uma representação do nosso estado interior, do vazio que nos assola, da falta de identidade e visão, da falta de um princípio, da falta de coragem ou propósito, de um outro medo maior; o de arriscar e falhar. A página em branco é uma lembrança constante do que não temos, do que falta, da extrema segurança e monotonia que se disfarça de conforto, uma constante visual da estagnação.

 

A página escrita, essa, é que assusta. Aí é que está o perigo, as opiniões, os gostos, as ideias, as emoções. A página escrita é que pode ameaçar ou reconfortar, fazer nascer ou quebrar, inspirar e admirar ou delirar. Na página escrita é que há vida em cada palavra, é que provoca reacções, é que existe a possibilidade de ser horrível. É que pode desiludir e fazer cair, ofender e deitar tudo a perder, mas é também ela que conquista. É onde existe o risco, que tem de ser encarado e aceite. É uma queda livre sem saber se o pára-quedas se abre.

 

Sim, a página escrita é que assusta, é a única que tem consequências. 

É aí que está o medo.

Mas o medo é bom. O medo é necessário. O medo é vida. Vai sempre existir.

Uma página em branco não é ameaça, quanto muito é mordaça e, nesse caso, assustaria.

A página em branco é um limbo existencial, não há consequências. Nem positivas nem negativas.

Antes arriscar. Antes ficar assustado. Porque é a página escrita que faz o coração bater mais depressa, é ela que tem algum significado. Não se assustem com uma página em branco: é inofensiva. Preencham-na com palavras e sintam o que houver para sentir. 

 

Falando de sequelas...

As sequelas são um assunto divisório quando se fala de filmes ou livros. A maioria é desnecessária e impulsionada apenas pela ambição de facturar mais com algo já estabelecido, abdicando, muitas vezes, da qualidade. 

 

Filme com título genérico, número 63, agora só com anões!

 

No entanto, acho que estamos a ser um pouco injustos com as sequelas, Às vezes são bem mais memoráveis que os originais.

Por exemplo, a segunda guerra mundial! Muito melhor que a primeira. Sim, toda a gente se lembra da primeira, mas, sejamos sinceros, quando falamos em guerra falamos logo da segunda. Nem tem comparação. Um bocadinho mais longa, mas aguenta-se bem, não há muitos momentos mortos, mantém-se entusiasmante; uma premissa muito melhor explorada, grande elenco com personagens icónicas e inesquecíveis, uma grande melhoria relativamente à primeira. Momentos memoráveis na sua duração, conflitos inesperados, surpresas atrás de surpresas, acontecimentos que se fazem sentir até hoje e ainda são discutidos até à exaustão. Muito melhores efeitos, se calhar coisas que já queriam fazer na primeira mas ainda não tinham tecnologia para isso. Um prólogo e epílogo que assentam que nem uma luva, uma excelente resolução com um final digno e adequado para as personagens envolvidas; personagens essas que deixaram marca. Um excelente vilão, que ficará para sempre na história, bem como  um vasto leque de personagens reais, nem boas nem más, mas que tentavam fazer aquilo que acreditavam estar certo. 

E o final... o que dizer daquele final? Um clímax de excelência, inesperado, emocionante, bombástico.

 

Arrisco a dizer que será mesmo a melhor sequela de sempre. É verdade que depois disso, e devido a todo o sucesso que alcançou, tentou explorar-se ao máximo o franchise. Vários spin offs foram feitos, mas nenhum com o sucesso e grandiosidade da segunda guerra mundial. E se ao principio ainda conseguiam ter alguma qualidade, esta foi-se perdendo ao longo dos anos. 

 

Também é verdade que durante anos se falou numa possível sequela, numa terceira parte, mas que nunca chegou a ser realizada. Se bem que, pelos rumores que correm, e aproveitando toda esta onda de revivalismo que vivemos, assim como uma falta de ideias generalizada, podemos estar perto de ver a terceira guerra mundial. Quanto a isso, não sei, tenho muitas dúvidas. Penso que seria demais. Acho que o impacto não seria o mesmo...

Até podem tornar tudo muito mais devastador, uma produção maior, mais efeitos e maior alcance, mas penso que não seria uma boa ideia. Nunca iria chegar aos calcanhares da sua antecessora e para quê mexer nos clássicos?

 

Desilusão Planetária

Portanto, parece que a NASA descobriu mais 7 planetas supostamente de dimensões e condições idênticas às da Terra e toda a gente ficou muito entusiasmada com a grande descoberta astronómica do ano até agora.

 

Foto da jogada final da liga dos campeões de berlindes

 

Podem conter água, podem ser habitados, podem albergar a nossa raça num futuro longínquo, grandes esperanças, grandes descobertas...

Para mim é só mais uma enorme desilusão. Sim, isso mesmo. Não passam de mais uns planetas a juntar à lista daqueles com condições semelhantes à Terra e isso não é positivo. A sério? Mais planetas como este? Planetas carregados de gente, de extremistas, de guerra, de fome e doença, de desigualdades sociais e de género, de discriminação, de gente que deita lixo para o chão, de grupos que andam nos passeios  vagarosamente a formar uma linha horizontal que não se desmancha para alguém passar, um planeta carregado de cogumelos... Desculpem-me, mas isto para mim não é motivo para celebração.

 

Porque não podíamos ter encontrado planetas capazes de suportar vida mas fossem completamente diferentes da Terra? Porque têm de ser sempre iguais? 

Sei lá... planetas em que teríamos 3 torneias: água quente, água fria, e uma torneira da qual saía bolo. E qualquer bolo, à escolha. Ou um planeta em que não era possível engordar. Nunca, independentemente do que comêssemos ou do pouco que fizéssemos. Ou, ainda, um planeta em que não existissem cogumelos (são as verrugas do diabo!)!

Um planeta em que toda a gente andava de trapézio. Seria excelente chegar ao trabalho de trapézio.

Um planeta em que pudéssemos ter um tigre como animal de estimação e ele não nos fosse comer a cara à primeira oportunidade. Um planeta em que a fruta nunca apodrecia. Nunca! Imaginem comprar uma mão-cheia de abacates (que não é muito, a menos que tenham mãos gigantes... o que podia ser o caso noutro planeta!) e eles nunca apodrecerem.

 

Não sei, são só umas ideias rápidas, mas ao menos já seria alguma coisa. Mas não, são mais planetas como este em que já estamos e está toda a gente muito contente, como se isto fosse muito perfeito por aqui.

 

Ya, tipo, ser jovem podia ser mais fixe.

A parte mais difícil de se ser jovem é o que (ainda) pensam da juventude.

Os jovens são condenados por serem jovens. Se são jovens, não merecem ser mais nada do que jovens.

Não são levados a sério como profissionais, como potenciais parceiros, como agentes sociais. Porquê? Porque são jovens. E, por conseguinte, não poderão ser nada mais do que isso.

 

Eu próprio ainda sou jovem e, sinceramente, sinto-me mal por ser jovem. Parece que estou a incorrer numa qualquer infracção, tal é a condenação imediata e implícita a que estou permanentemente sujeito.

Vou passar a dizer às pessoas que sou um indivíduo de meia-idade, a ver se me levam mais a sério. Embora digam que a meia-idade seja a altura da crise de identidade… E a velhice também não abona muito a favor de ninguém em termos de consideração social.

 

Raios! Mas há alguma idade que eu possa ter sem que ninguém me chateie?!

Deixem-me falar-vos dos Óscares...

A noite mais glamourosa do ano está a chegar e eu estou em pulgas! Sempre adorei os Óscares, é a noite pela qual mais anseio. Fora isso, só uma noite que vá beber vinho. Todas as noites, portanto. Mas isso é assunto para outro dia.

 

Os Óscares têm uma grande tradição e é claro que não os acompanho desde o princípio. A minha história com os Óscares começou a escrever-se desde que vim morar para esta casa, há 6 anos atrás. Já vi imensos vídeos, ouvi as histórias e delicio-me com os momentos inesperados que aconteceram. Toda a cerimónia tem um encanto especial, quer queiram quer não, e é difícil não ser contagiado pela emoção. Mal posso esperar a noite de domingo para, uma vez mais, participar desta grandiosa cerimónia. Alimentando toda esta expectativa, este ano vou ter a honra de apresentar o vencedor numa categoria!

 

Eu sei, eu sei, alguns de vós já devem estar com alguma inveja, mas isto de participar nos Óscares não é para qualquer um, é só para quem pode.

Já agora, só para esclarecer, eu estou a falar dos Óscares, não dos “Oscars”, ou “Academy Awards”, essa coisa sobre filmes que não tem relevância nenhuma. Falo mesmo dos Óscares, os prémios criados pelo grande Óscar Lima, meu vizinho do 6º direito, para premiar os condóminos deste prédio.

 

Os Óscares são a lou-cu-ra! Assim que forem 21 horas de domingo, vamos todos até ao 6º andar, para casa do Óscar, onde historicamente se realiza a cerimónia. Mal se abrem as portas do elevador já se começa a perceber que será uma noite diferente. Um lindo tapete vermelho adorna a porta de entrada (dizem que é o mesmo tapete pisado por um dos meus heróis – o grande Chico Nelo – responsável pelo abaixo assinado de 2002, que determinou que todas as persianas tinham de ser verdes e pelo movimento “Sim ao corrimão, sem apoio é que não!”, que levou à instalação de corrimãos em todos os lances de escadas). Perto da porta vai estar a nossa fotógrafa. Já andam por aí uns zunzuns que este ano vamos ter roupa da Zara, da H&M, da Primark, mas também da Guess, da Timberland, Ralph Lauren e até da Burberry!  A fotógrafa de serviço vai ser a nossa Márcia Coto, tão crescida que está com os seus 13 anos. Ainda por cima a mãe dela trabalha numa revista “cor-de-rosa”, por isso pode ser que haja divulgação das fotos. Sim, a mãe dela é só a recepcionista do prédio onde está a redacção, mas mesmo assim…

 

A cerimónia vai ser conduzida pelo grande Óscar, como é habitual. Há rumores de que vai haver uma actuação de malabarismo, feita pelos filhos da Clara do 3º direito, e também um número de ilusionismo do Afonso do 8º esquerdo. Como sempre, é de esperar algumas surpresas, como no ano passado, em que a Cristina do 1º esquerdo nos presenteou a todos com a sua dança do ventre. Pelo menos foi o que ela lhe chamou, apesar daquilo para mim ter sido só uma maneira de disfarçar que estava a entrar em trabalho de parto.

 

Quanto aos prémios em si, não sei bem o que esperar. Está tudo tão renhido este ano. A começar logo pelas nomeações: depois da controvérsia que foi o #Oscars So White, este ano temos nomeado para “Melhor novo condómino” um casal inter-racial. As más-línguas dizem que o Tiago só se casou com a Joana por ela ser africana e assim ganhar o prémio, aproveitando-se da polémica e dos votos por simpatia. Eu sou contra esta tese, até porque eles já estão casados há anos e não sabiam da existência destes prémios até se mudarem para aqui, mas uma campanha destas é difícil de travar. Mesmo assim acho que ganham, os outros nomeados são a Júlia e a Júlia, do 2º direito e o Marco do 7º esquerdo. A Júlia e a Júlia são um casal simpático, mas aquele pormenor de terem o mesmo nome confunde as pessoas e não acham assim muita graça; do Marco diz-se que tem um mês de quotas em atraso e mesmo que isso seja mentira é um daqueles rumores com que é difícil ganhar votos.

Temos também o Óscar para melhor banda sonora. Aqui está mesmo renhido e eu estou nomeado! Sinceramente, só o estar nomeado já é um prémio por si só, é uma honra ter o meu trabalho reconhecido e valorizado. Vamos ver se consigo levar o galardão também. Estou nomeado pelo meu silêncio. Sim, o meu silêncio, de ser o condómino mais silencioso que aqui habita, ao ponto de pensarem que este apartamento está desocupado e tudo. Nestas circunstâncias, de habitação num prédio, há quem diga que o silêncio é mesmo a melhor banda sonora. Os outros nomeados são as obras do 2º esquerdo, que fazem uma manhã normal parecer um ataque aéreo durante a segunda guerra mundial, e a Diana, do 9º direito, que mora no último andar e que se faz ouvir perfeitamente sempre que tem sexo, com os seus gritos de êxtase a ecoarem ao longo de todo o prédio. Está tudo muito aberto. A categoria, não a Diana, isso não faço ideia de como está.

 

Muitos outros prémios serão entregues ao longo da noite, como o de “Melhor Contribuidor Externo”, em que estão nomeadas as senhoras da limpeza, o carteiro e senhora que trata do lixo. Acho que esta última será a vencedora. O carteiro não tem falhado, mas já conquistou um grande número de Óscares e penso que a academia (o Óscar) quer atribuir o prémio a sangue novo, e as senhoras da limpeza têm estado um bocado desleixadas.

Também teremos um momento In memoriam, como é normal nestas coisas. Será aqui que será prestada homenagem à grande Magda, do 4º direito, falecida em Janeiro de 2016. Encontrada em Outubro de 2016, quando o enjoo foi suficiente para alarmar o Rui do 4º esquerdo. Teve de vir a polícia, INEM e os bombeiros. Foram encontrar a Magda, ou o que restava da Magda, morta na banheira, e uma dezena de ratos muito bem alimentados que agora tomavam conta da casa. É uma pena, a Magda era boa pessoa, via nela muito potencial para futura vencedor do galardão mais cobiçado (“Melhor Condómino”), num futuro próximo. Parece é que, afinal, não era muito asseada: depois de toda a investigação, concluiu-se que os ratos já lá estavam enquanto a Magda era viva e que, inclusive, foram eles que a mataram, começando por lhe comer os olhos.

 

E é isto, não vos vou estar a maçar mais, nem a provocar-vos mais inveja. É claro que para o final ficará guardado o grande prémio, o de “Melhor Condómino”, e este ano é mesmo impossível prever quem ganhará.

Só espero é que não haja polémicas como há 2 anos, quando o António do 6º esquerdo ganhou o prémio e foi logo acusado de ter comprado votos com queques caseiros, bem como – muito mais grave –, de não assumir as culpas da infiltração que afectava o 5º esquerdo... Quando toda a gente sabe que a culpa é mesmo dele e que instalou um ar-condicionado sem pedir autorização ao condomínio antes! Mas pronto, não interessa, são águas passadas…

 

Que venham depressa, mal posso esperar pelos Óscares!

A Espuma dos Dias

Eu compreendo que filmes e séries de televisão, até mesmo anúncios publicitários, são produtos de ficção e, como tal, requerem um certo nível de suspension of disbelief. Agora, há uma coisa que me tira do sério e arruína um qualquer produto de ficção que se propõe a entreter-me: pessoas a lavar os dentes.

 

Não me interpretem mal, sou a favor da escovagem dos dentes. Não é esse o ponto que me chateia, nada contra a promoção de uma prática saudável de higiene. E também não é nada contra o acto em si ser mostrado. A minha queixa deve-se ao facto de ser retratado de forma extremamente irreal, como se de algo delicado e célere se tratasse. 

 

Para começar, escovar os dentes já é um acto meio estranho por si só. Não há nenhuma outra parte do corpo que requeira tanta atenção específica para ser lavada, nem que envolva uma recomendação de tempo. Depois, é algo tão bruto e animalesco. É pegar numa escova e encavá-la dentro da boca e esfregar e esfregar, rodar, mudar de direcção, esfregar outra vez. É como lavar umas jantes, ou uma mancha de humidade na parede. É um tal esfregar e passar água e voltar a passar uma escova, sempre a esfregar como se os dentes fossem uma raspadinha e nós com pressa de ganhar uns trocos. Lavar e esfregar uma parte que está no interior do corpo. A única que merece este tratamento. Pelo menos diariamente...

Mais do que um fight club, eu formaria um clube de escovagem dental para descarregar as frustrações da vida.

 

Depois, onde é que está a espuma!? É tudo tão limpinho a lavar os dentes na televisão ou cinema, um acto tão gracioso e querido, e sem um único vislumbre de espuma que seja! Sejamos realistas. Eu uso a pasta e escovo os dentes e faço uma esterqueira digna de se ver. Às vezes mais parece que estou a tentar imitar o pai natal. Babo-me que mais parece que me está a dar um avc. E escorre espuma pelos cantos da boca e pela escova e mão, e cuspo para a bacia. Lavar a língua é uma luta diária contra a bulimia.

Qual ciência qual quê, a razão pela qual acredito na evolução das espécies é devido à lavagem de dentes. Nunca estou mais próximo de um macaco que naquela altura.

Isto é bonito de se ver? Não, mas é real e nunca é retratado. Algo tão mundano e sempre mal representado

 

E nos filmes/séries nunca bochecham! Devem pensar que como não fizeram espuma nenhuma nem têm que passar água. No máximo cospem uma coisa qualquer, bebem um copinho de água para disfarçar e vão embora. Errado. Bochechar bem com água e repetir. E lavar a bacia a seguir, porque também não o fazem e devem ficar com aquilo tudo empastado durante anos. Se calhar todas as bacias em filmes/séries são apenas de inox, parecem-se é com porcelana branca devido às centenas de camadas de pasta seca acumulada. Se fosse assim na realidade já não havia um único casamento, descambava tudo em divórcio. No duche usam champô e depois passam água abundantemente para o retirar, mas os dentes lava-se, cospe-se e está a andar. Então passem a usar champô e abarnarem-se que nem cães.

 

Não deve haver nenhum filme que seja aprovado por dentistas. Todos escolhem demonstrar este acto de higiene, mas todos perpetuam uma má representação e estereótipos irreais de um comportamento que nunca conseguimos alcançar, uma banalização de algo que devia ter muito mais importância.

Anseio pelo dia que verei no cartaz de um filme "Aprovado por 3 em cada 4 dentistas". 

 

Ao menos que façam espuma, amigos. Façam espuma!

Os vivos-mortos.

Os mortos-vivos são muito populares, hoje em dia.

Dos vampiros aos zombies, passando pelas incontornáveis múmias, quase toda a gente tem como apogeu da monstruosidade e do grotesco os mortos-vivos. E eu até nem acho isso mal, já que essas figuras míticas são, realmente, bastante assustadoras.

 

Só que há piores...

 

Quem lambe as botas em demasia aos mortos-vivos apenas o faz porque não conhece os vivos-mortos.

Um vivo-morto é muito pior do que um morto-vivo em vários sentidos. Desde logo, porque no caso do último foi apenas o corpo que faleceu, enquanto que no primeiro foi o próprio espírito, a única razão pela qual vale a pena estar vivo.

 

exercise-in-futility-620x340.jpg"Gorete, liberte a minha agenda se faz favor."

 

Um vivo-morto é aquela pessoa que abre os olhos de manhã para ir para o trabalho mas só acorda realmente para a vida à hora de almoço, quando pode dar uma escapadinha do escritório. É aquela pessoa que viaja de Metro não por necessidade, mas apenas para ter uma desculpa para fechar os olhos pelo caminho sem correr o risco de matar alguém.

O vivo-morto passa a vida a fazer coisas de que não gosta durante dois terços da sua vida para que depois, já no último terço, possa fazer tudo aquilo que sempre quis fazer, embora com bastante menos tempo e, até, disponibilidade física e mental. Quer ganhar muito dinheiro para, um dia, talvez, poder gastar muito dinheiro.

Um vivo-morto tem horários definidos e calendários cheios. Tem agendas repletas de coisas para fazer e muito pouca vontade de as concretizar. Encara a família como um trabalho e o trabalho como a única família que lhe resta.

Os cérebros que um vivo-morto procura, tal como fazem os mortos-vivos, são os de pessoas que conseguiram fazer o que eles acham que nunca conseguiriam. Procuram, portanto, os cérebros de cineastas, de escritores, de pintores e de escultores; os cérebros de pessoas que decidiram, por opção própria, não ser vivos-mortos.

 

Tenho medo de mortos-vivos, sim... Mas tenho mais medo de um dia me tornar num vivo-morto.

Por favor, enfiem-me uma estaca no coração se me virem transformar num vivo-morto.

 

Obrigado.