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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#09)

Neil Gaiman publica um novo livro e isso, normalmente, é suficiente para me interessar. Ainda para mais quando vejo o título e faço a pré-encomenda, passando os restantes meses de espera a fantasiar, a gerir a expectativa e a pensar em como finalmente vou ficar a saber tudo sobre mitologia equídea.

 

Guia de marteladas históricas

  

Sim, perceberam bem, mitologia equídea. Isto porque, quando vi o anúncio ao livro, o que li foi "Horse Mythology". Fiquei-me por aqui, que não gosto de saber muito mais sobre um livro antes de o ler. Ora, isto para mim foi suficiente para me cativar. Delirei a imaginar todos os segredos e história desta rica mitologia que ainda não conhecia. Calculei que ficaria a saber, por fim, como se formaram os primeiros unicórnios, a lenda do primeiro galopador, os segredos por trás do astuto cavalo que inventou o trote, o Deus maior dos cavalos, o grande Pégaso... Ou, ainda, as origens do conflito de titãs entre cavalos e touros, que segundo consta foi o que deu origem à separação dos continentes, a história do malandro cavalo que se aventurou fora da sua espécie e foi ostracizado e relegado a um pónei como penitência, as magníficas circunstâncias que levaram à criação de ferraduras... E, claro, sem esquecer o fim do mundo, presente em todas as mitologias de valor, que se daria num épico confronto liderado por um pónei revolucionário, cansado de ser motivo de chacota entre os seus e de adoração entre os humanos, a libertação dos touros e a insurreição dos unicórnios.

 

Tinha tudo para ser das melhores obras de sempre, a quem é que isto não interessaria?

No entanto, só quando recebi o livro é que notei que afinal era  "Norse Mythology".

 

Before the beginning there was nothing – no earth, no heavens, no starts, no sky: only the mist world, formless and shapeless, and the fire world, always burning.

 

Neil Gaiman chama a si a tarefa de nos contar os mitos nórdicos, toda a fantasia, e história, que os envolvem. Não são contos de ficção com base na mitologia nórdica, mas sim os contos desta mitologia contados pela voz do autor. No fundo acaba por ser um livro de não-ficção, tanto quanto se pode considerar não ficção os acontecimentos que sustentam toda uma mitologia. 

Esta mitologia sempre esteve presente nos trabalhos do autor, como inspiração ou a popular os seus trabalhos com algumas das suas personagens. Aqui, Gaiman conta-nos o clássico. Com o seu estilo, a sua escrita harmoniosa e sempre poética, abordando os mitos como se estivesse a escrever um conto de ficção, mas sempre com base, apenas, na mitologia nórdica. É o equivalente a passar uma noite com Neil Gaiman ao relento, em que ambos puxamos de um copo de hidromel enquanto no céu se manifesta uma aurora boreal. E, pela sua voz, ele encanta-nos e dá-nos a conhecer estes mitos.

Of course it was Loki. It's always Loki.

 

Tomando como referência apenas os clássicos, o Edda em prosa e o Edda em verso, Neil Gaiman adapta os mitos e partilha a sua história, estruturado como um livro de contos tradicional e não como um manual ou algo enciclopédico. Torna tudo ainda mais apelativo e interessante de conhecer, servindo como ponto de partida e descoberta, uma boa introdução, para toda esta mitologia. A forma acaba por se basear no conhecimento e ponto de vista de três dos principais Deuses nórdicos, e porventura os mais conhecidos Odin, Thor e Loki. São eles a força motriz por trás da maioria dos acontecimentos. Todo o livro se desenvolve como se de um Romance se tratasse, devido à forma como está estruturado. Começando pela criação do mundo, acompanhamos todos os eventos, as relações e interacções entre os Deuses desde a criação de Asgard e sempre num crescendo até ao clímax que é o Ragnarök. Pelo meio, ficamos a saber como é que se construiu o muro à volta de Asgard, ou como os Deuses obtiveram alguns dos seus tesouros, como o martelo do Thor, ou, ainda, as origens da poesia, por exemplo.

 

O livro é bom, "simpático", despreocupado, leve, pautado com muito humor (a parte mais fraca para mim, um bocado inocente, infantil demais), bem estruturado, interessante e informativo. Tem uma aura mítica que rodeia o conto destas hitórias, apoiada pela escrita e estilo do autor, o que só contribuiu para o melhorar. Lê-se de uma assentada, imbuído no espírito e fascínio de toda uma mitologia, da sua história, do que sutenta, ou sustentou, toda uma outra cultura. 

 

The fun comes in telling them yourself—something I warmly encourage you to do, you person reading this. Read the stories in this book, then make them your own

 

Muito mais que uma prenda

Desde criança que sempre quis ser um pirata. Não no sentido sério do crime sem escrúpulos e selvajaria que acompanha a profissão, mas pelo sentimento de aventura e liberdade, de luta contra o sistema, da anarquia de viver com emoção e adrenalina; tudo num sentimento romantizado da época dourada da pirataria. Tive espadas e mosquetes, pequenos navios, fascínio pelo mar. Aprendi sobre eles e sonhei. Vivi nessa fantasia, através dela. Ainda hoje o faço, por vezes. 

 

Já vivi muitas vidas e fantasias.

 

Não passava de uma criança a contemplar as estantes carregadas de livros do avô. Desejando por algo que pudesse ler, que percebesse e fosse adequado. A aguardar uma idade em que pudesse lê-los a todos, a expectativa daqueles mundos por descobrir, excitado pelas possibilidades de futuro. Já não sei como nem porquê, mas escolhi (ou foi-me escolhido) um livro de Emilio Salgari: "O Corsário Negro". E foi assim que começou, com um livro. Seguiram-se saltos em cima da cama, com estocadas imaginárias do meu sabre (e, pela primeira vez: não, isto não é um eufemismo), proclamação de revoluções e sanguinários feitos heróicos. Os restantes livros da série continuavam na estante, e fui-lhes agarrando um a um; acho que até hoje não me foi dada permissão para tal, mas também nunca me foi negada. Este acto não passou despercebido, e os livros desapareceram do seu lugar. A pouco e pouco foram-me sendo oferecidos, sempre que a ocasião o justificava, com uma pequena inscrição no seu interior. Se calhar o meu avô julgou que seriam ainda mais poderosos sendo uma prenda. Com alguma razão, é certo. A verdade é que foram muito mais que uma prenda.

 

Às pessoas especiais quero dar sempre mais. Não em quantidade, mas algo característico, com significado. Às pessoas especiais quero dar tudo, quero dar o mundo. Não posso. Por isso dou-lhes todo um universo, e mais. Dou-lhes um livro.

Um livro não é só um passatempo, uma ocupação; não é só uma história ou entretenimento.

Quando oferecemos um livro estamos a dar muito mais que isso. Um livro é uma vida, um pedaço de alma, uma experiência, uma viagem. É sentimento. 

Ao darmos um livro estamos a dar muito mais. O inatingível por outro meio, toda uma outra vida. Um sem número delas.

 

Este é o meu universo

 

Possui o poder de nos transformar, curar, inspirar. É um instrumento como nenhum outro, capaz de nos fazer imaginar, apaixonar, sorrir, acreditar. Muda o que pensamos, ensina-nos. 

Transforma-se em algo orgânico, é vida pulsante em caracteres. É sonho e esperança. 

Pode ser devastador, mas é sentimento. É aprendizagem.

 

É mais que viajar. É um portal mágico que nos leva para outro mundo. Deixa-nos viver outra vida, sermos o que quisermos. É tão real que o sentimos fisicamente. Somos detectives, guerreiros, ditadores, inventores, ferreiros, pilotos... Não há limites. 

Literatura existe para excitar, espantar ou deslumbrar; para ensinar e relatar. Choramos e rimos, mas nunca seremos iguais. 

Desde que existem livros que andamos a viajar. Passado ou futuro, realidade ou ficção, deixam de ser obstáculos a ter em conta. O bilhete é eterno e a viagem infinita. 

Vidas são mudadas e influenciadas, escolhas são tomadas. Somos aquelas personagens, reais ou não. Pelas palavras de alguém transformamo-nos, e, connosco, o mundo. Imaginamos o impossível e tentamos replicá-lo. Assim fomos evoluindo como sociedade, como espécie. Foi escrito num livro, foi lido, foi imaginado, foi alcançado. Ultrapassar o limite da imaginação é a nossa meta.

 

Evoluímos porque imaginamos.

Um livro é imaginação.

Tudo isto, e mais, é o que estamos realmente a oferecer.

É muito mais que uma prenda. 

 

The greatest art offers us images by which to image our lives. And once the imagination has been awakened, it is procreative: through it we can give more than we were given, say more than we had to say.

 

Lewis Hyde ("The Gift: Creativity and the Artist in the Modern World")

 

Serviços Literários

Há um problema muito comum que assola todas as pessoas que gostam de ler: a ganância.

 

Em conversa com amigos ou qualquer pessoa que mantenha hábitos regulares de leitura, bem como uma visita por todos os blogs em que se fala de livros, há sempre uma coisa que salta à vista: queremos sempre mais. Queremos mais livros, novas histórias, novas descobertas, novas personagens. Não é que não estejamos contentes com aquilo que temos, simplesmente ansiamos por mais. É incontrolável; o desejo ardente de descobrir novas obras que nos fascinem e apaixonem. 

São recorrentes as promessas de não comprar mais livros até ler todos os que habitam a estante. Promessas essas que são feitas à mesma velocidade com que se aproveita mais umas promoções e se traz para casa uma saca de livros qual Pai Natal tipográfico. Esta é também uma das razões para aquelas rugas já tão características que vos torneiam a cara, as mesmas que dão origem a uma expressão de incompreensão e desprezo sempre que alguém vem com a ladainha do "mais livros para quê? Já tens tantos... Nunca mais os lês a todos." 

 

Daí a ganância. A ganância literária, do saber, do conhecer. Porque há sempre novos, e antigos, livros que nos interessam, novas histórias e assuntos a explorar. Até aqui não há nenhum problema. O problema é o tempo; a falta de tempo.

 

Inventamos estratégias e inovamos nos nossos hábitos, para tentar compensar essa falta de tempo e mitigar essa ganância que nos invade. Lemos nos transportes, nos telemóveis, tentamos tornar todo um aparelho à prova de água para ouvirmos um audiobook durante a natação... E, invariavelmente, acidentes acontecem, o livro acaba na panela de sopa a ferver, chateamo-nos com o cônjuge porque nem durante o parto largaram o livro, etc. Pelo meio, a vida continua a intrometer-se e não é possível dedicar todo o tempo desejado à leitura, fazendo com que a lista de interesses continue a crescer e nunca seja reduzida, aumentando a mágoa que sentimos porque nunca iremos conseguir ler tudo aquilo que queremos.

 

E se eu vos dissesse que tenho a solução para tal problema? Uma solução em que ganham todos: vocês e eu. Mais uma vez munido do meu espírito empreendedor, posso resolver esse problema de forma rápida e que vos deixará a todos satisfeitos. Por uma pequena quantia, a negociar conforme o livro requerido, bem como uma cópia física do livro em questão, eu leio os livros que querem ler e não têm tempo para o fazer e conto-vos o que se passa! Num tempo que pode ir de dez minutos a uma hora (mediante o pagamento) eu conto-vos o livro todo. Todo o enredo esmiuçado, tal como se fossem vocês mesmos a tê-lo feito. 

 

Um serviço literário personalizado com o qual em poucos minutos despacham livro atrás de livro. É ver essas listas de livros lidos por ano a subir exponencialmente, obras despachadas, conhecimento sem fim; tudo sem esforço nenhum. Podem agora descansar e fazer a vossa vidinha normalmente, dar longos passeios, socializar, não queimar o jantar, pintar o quarto, ver os filhos a crescer, adoptar um papagaio... Tudo isso com o conforto e satisfação de que estão a ler um livro ao mesmo tempo. Deixem para mim os calos nos dedos e cortes de papel, a mantinha por cima das pernas, as copiosas quantidades de chá ou café, os óculos na cara devido à visão desgastada; deixem-me fazer o trabalho pesado e ler todos os livros.

 

A sério, pensem nisso...

 

 

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#08)

Depois do marasmo que foi "A Estrada", precisava de algo que me fizesse sentir algo. Optei por "Batalha" de David Soares.

 

Às Armas!

 

 

Descobri este livro, e autor, completamente ao acaso, mas ainda bem que o fiz: estava a divorciar-me e o meu advogado chamava-se David Soares - agora chama-se Elisa - e eu à procura do contacto dele na Internet descobri este livro. Pensei que era o mesmo David Soares, com uma obra de nome "Batalha" em que, provavelmente, descrevia algum caso legal, alguma batalha travada e ganha. Comprei-o e li com interesse, julgando que me fosse ajudar em todo o meu processo. Aliás, até despedi o advogado e tratei eu próprio de tudo, como já tinha este livro a preparar-me para a vindoura batalha. Escusado será dizer que me enganei e acabei por perder tudo. Quer dizer, tudo menos este livro; o que foi bom, sempre me ajudou a distrair, até porque o adorei. 

 

Uma fábula religiosa e existencialista, acompanhamos Batalha, uma ratazana à procura de si mesma e à descoberta do sentido da vida e seu propósito.

Num fantástico cruzamento entre fábula e história, realidade e fantástico, conhecemos Batalha ainda bebé e partimos nesta viagem com ela. Pela voz dos animais que dão corpo ao texto, mas não só, presenciamos todos os acontecimentos de vida desta ratazana, uma personagem fascinante, na sua aprendizagem e desenvolvimento, a sua força e pensamento. Sentimos por ela, e por aqueles com que se cruza, a sua dor e as suas dúvidas. Porque, no final, estamos todos à procura do mesmo, todos sentimos o mesmo. 

 

"Às vezes, há quem nos queira fazer mal, mas se fizermos mal porque nos fizeram mal, isso... Isso quebrar-nos-á o coração"

 

Dotada de muita inocência e vontade de aprender, de compreender a si e ao mundo, coragem e lucidez, Batalha embarca numa viagem filosófica que lhe levará ao local de construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória. As suas interacções com outras personagens, pautadas pelos excelentes diálogos de David Soares, dão sentido a esta alegoria e mostram-nos muito sobre nós, humanos. Todos temos um lugar no mundo, por mais pequena que seja a nossa contribuição.

 

"Porque enquanto nós existimos, a morte não existe, (...) E quando ela existe, quem não existe somos nós."

 

 

 "As palavras certas encolhem o tempo"

 

As considerações sobre religião, vida e morte, e, principalmente, sobre o medo, são um triunfo. Já há muito tempo que não retirava tantas citações, que não relia muitos dos diálogos. A objectividade de um mundo visto pelos animais, simplista, uma reflexão profunda sobre a condição humana. Tudo isto num espírito muito próprio, por vezes ingénuo, sempre fantástico, mas tão real. 

 

"Esse é que era, sem dúvida, o único deus que existia - e o único que valia a pena existir -, o único que, de facto, fazia falta.

A imaginação"

 

"Essa é que era a verdadeira razão de viver: não era o mundo que tinha que dar sentido à vida, mas era ela que tinha que dar sentido ao mundo."

 

Nunca tinha lido nada de David Soares, conhecia a sua fama, do tipo de vocabulário usado, por exemplo. Só posso dizer que adorei, tal como tudo nesta obra. As palavras mais fora do comum que são utilizadas amiúde conferem uma certa aura ao texto, adequam-se e decoram-no com excelência, aparecem naturalmente. Todo o estilo do autor me agradou, a leitura fez-se num ápice. Até as músicas, quadras, apresentadas por uma das personagens, são dignas de nota e eu, geralmente, nunca gosto deste tipo de coisas num livro.

 

"(...) achava que basear um estilo de vida no medo era uma coisa nociva. Nada era mais elementar que o medo. Nada era mais essencial.

Mas também nada era mais valetudinário.

Mais tóxico."

 

Todas estas reflexões sobre a religião e o medo ganham uma enorme dimensão à luz de todos os acontecimentos que se desenrolam no mundo actualmente. Viver com base no medo é perigoso, é a nossa derrota.

 

"O medo ajuda-nos a ver as coisas com mais clareza. Ele... Ele coloca as coisas em perspectiva.

Mas também nos obriga a fazer coisas más"

 

Foi um dos livros que mais prazer me deu nos últimos tempos, recomendo vivamente e vou, sem dúvida, ler mais do autor.

 

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Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#07)

Imaginem que têm de atravessar um país de uma ponta à outra. Percorrer uma estrada, sem nenhuma ajuda nem sítio onde parar, a depender apenas de vocês próprios. Levavam um livro para se entreterem, não? Claro que levavam. Mas, por favor, não levem "A Estrada" de Cormac McCarthy.

A sério, pode parecer o livro adequado para levarem nas vossas peregrinações, algo como um manual para saberem o que esperar, no entanto, a menos que queiram morrer de aborrecimento, adormecer no meio da estrada até algum camião vos passar por cima, ou atirarem-se de uma ponte porque não aguentam mais a companhia daquele livro, não o aconselho para tal empreitada.

 

Preferia ter de andar por incontáveis estradas, que ler isto outra vez.

 

Lá de vez em quando pego num livro que é adorado por muitos, que ganhou prémios, e leio-o com entusiasmo e expectativa. Lá de vez em quando, também acontece eu odiar esse livro. Este foi um caso destes. Acho que o livro tem aquele título porque é tão penoso e doloroso como ter de atravessar toda uma estrada a pé e sem mantimentos.

Se calhar odiar é uma palavra demasiado forte, mas o que é certo é que não gostei nada. Sim, venham explicar-me toda a profundidade, intelectualidade, sentimentalismo, etc. O que quiserem. A resposta será sempre a mesma: que nada de livro. Eu já li Cormac McCarthy, percebo o seu estilo, até aprecio por vezes. Daí que continue a ler. Mas não aqui. Nunca aqui. 

 

"A Estrada" é a história de pai e filho a atravessar a América, em busca da costa, em busca de alguma esperança, num mundo devastado. E é isto, se leram esta descrição leram o livro. Porque nada mais acontece. Não é que tenha forçosamente de acontecer, mas alguma coisinha dava jeito. Nem que fosse para manter os olhos abertos.

É suposto importarmo-nos com aquele pai e filho, compreender a sua relação, a dor daquele pai e o fantástico esforço para sobreviver e manter o filho a salvo. É suposto, mas eu não me podia ter importado menos. 

Acho que é propositado, a escrita despida de emoção, crua e dura. A mostrar o vazio do mundo, a total falta de esperança. Percebo isso, não me importo., mas mostrem-me algo. Não há nenhum desenvolvimento, nada. As personagens são aquilo à partida e não mostram mais nada. Os diálogos...

 

O que se passa?

Nada.

Tens de falar comigo.

Eu falo.

Não estás a falar.

Estou a falar agora.

Está bem.

Está bem.

Está bem

 

São mais ou menos assim. Não foi uma transcrição (pelo menos propositada, mas se o fosse não me admirava nada), mas é basicamente isto, sem mais nada.

Segundo McCarthy, esta é a história de um pai e filho, da sua relação, da sua jornada na estrada. Nada mais. Podem tirar as vossas conclusões, mas é isto. E realmente não passa disto, mas nem isto é interessante. Sim, eles são o mundo um do outro, aquele pai faz tudo pelo filho, é a sua única razão de viver, a sua única esperança, o seu único objectivo. E eu só desejava que, no principio do livro, ele usasse as duas balas que ainda tinha e acabasse com o meu sofrimento. A relação deles nunca muda, nunca evolui, não cresce, não leva a lado nenhum. 

 

A escrita varia entre dois estilos, sem nada que os una. Por um lado, uma narrativa crua e directa, a avançar a acção, mostrar os horrores daquele mundo. Isso devia ter impacto, provavelmente teve para a maioria, para mim não resultou. Sim, este mundo estava de pantanas, horrores estão a acontecer, a criança vê cadáveres e assusta-se ou já nem reage. Devia ter impacto, não tem.

Por outro lado, uma escrita forjada e mais adornada que uma prostituta rasca desesperada por mais clientela. Eu não preciso de três linhas para descrever e caracterizar os cabos pendurados num poste. Atrás de algum simbolismo que nunca se encontra, menos para aqueles que muito o querem.

 

O meu problema não é com a falta de esperança ou alegria daquele mundo. Eu posso apreciar a constante frieza e dura realidade de uma história, mas preciso de algo mais a complementar. E não estou a pedir por um final feliz, ou algo do género. Só... alguma coisa.

Também não tenho nenhum problema com finais depressivos, ou infelizes, abertos, ou de que tipo for. E, neste caso, quase que nem há final. Simplesmente pára, acabou ali a parte que nós seguimos a história. Nem é aberto nem fechado, é só um fim. Se o próprio autor diz que nem fazia ideia para onde ia, do que iria escrever, e isso nota-se, porque é que tenho de ser eu a saber?

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#06).

Desta vez, quero falar-vos de uma obra que me diz muito, porque sem ela eu dificilmente conseguiria sobreviver neste Mundo.

Não, não estou a exagerar. Se não a tivesse lido, provavelmente eu já nem estaria aqui a escrever-vos e a dizer aquilo que me vai na alma.

 

Falo-vos daquela que, para mim, foi a Bíblia; que me fez encontrar o caminho da salvação, encontrar-me a mim próprio e mais não sei quê: a bula do medicamento para a tosse Oxotrepmiróide.

 

bula-de-remedios.png

 

Eu sei que vocês não conseguem perceber. Acham estúpido que eu deposite tanto sentimento no que julgam ser apenas uma folha A4 dobrada em doze e com termos técnicos que não interessam a ninguém.

Mas a verdade é que, se não tivesse lido a bula do Oxotrepmiróide, eu hoje já não estaria aqui, porque tive uma tosse lixada quando era pequeno e que não me passava por nada, nem com o xarope de cenoura e de calda de açúcar que a minha mãe fazia.

 

A bula do Oxotrepmiróide não tem uma história definida, só tem dicas para não morrermos de tosse. E já é bom.

Parece simples, e realmente é-o, mas sem ser simplista. A área dos sintomas, por exemplo, é a que mais suspense cria porque leva mesmo aquele leitor mais saudávelzão a pensar: "Espera lá, será que tenho mesmo esta doença?".

 

Sim, eu sei que a bula do Oxotrepmiróide nunca vai ganhar um Prémio Nobel nem vai ser adaptado para cinema. Mas também sei que não precisa, porque é uma obra que vale por si só e que é capaz de resistir ao teste do tempo.

 

Quer dizer, pelo menos até aparecer outro medicamento mais eficaz.

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#05)

Estive de férias e decidi viajar. Não o costumo fazer muitas vezes, por não me ser possível, mas desta vez aventurei-me.

Fui, então, passar uns dias a Jerusalém.

 

Como nem pesquisei nada sobre a cidade de antemão, não sabia o que haveria de fazer ou ver, tirando o óbvio. Como sempre preferi guias turísticos em papel, arranjei um no aeroporto. Comprei o "Jerusalém" de Gonçalo M. Tavares. 

 

 

Para começar, só tenho a dizer que foi uma péssima decisão. Vagueei pela cidade à procura do Hospício Georg Rosenberg, de uma igreja que correspondesse à que aparecia no livro, fui à biblioteca tentar ler a obra de  Theodor Busbeck... Nada! Nada do que estava neste guia podia ser encontrado; até parece que nem existiam. Como guia turístico, é dos piores que já vi.

 

Como não tinha ideia do que fazer durante a minha estadia, já que não se aproveitava nada do guia, sentei-me à sombra a ler o livro. Como guia pode não prestar, mas como o romance que é, aí o caso é outro. 

Foi o primeiro livro que li do autor e gostei da escrita de Gonçalo M. Tavares. Cativante e envolvente, lê-se de uma assentada. Depois é que vem a reflexão, e, aí, ainda não cheguei a nenhuma conclusão. Talvez não seja para mim. Talvez seja. Não sei. Já passou um mês desde que terminei esta leitura e ainda não sei o que achei do livro. 

Uma mulher, um assassino, um médico, um menino, uma prostituta e um louco. E uma noite.

 

Não sei bem o que dizer; ao mesmo tempo que não me tirou a vontade de ler outros livros do autor, também não me fez sentir a necessidade de os procurar.

Em teoria, tem tudo para que me agrade. Personagens interessantes, bem vincadas, se bem que demasiado literárias, por vezes. As personagens são aquilo que são à partida e parecem esculpidas para aquele propósito e mais nenhum. Há uma história a seguir, uma noite, em que todas as personagens acabam por se cruzar e influenciar umas às outras. Ao mesmo tempo, não se passa nada. Aquela noite é simples e fácil de seguir, não contém muitas surpresas. É verdade que não é esse o objectivo, e por isso digo que em teoria tinha tudo para que gostasse.

As estranhas personagens, os estranhos acontecimentos, o mundo próprio que habitam, o sem sentido de tudo, as divagações pelo passado e vida dos que habitam as páginas de "Jerusalém", as implicações filosóficas, a procura de Deus como base para a sanidade, a ciência em contraste com irracional, a loucura e a razão, o horror e suas consequências, uma enciclopédia do Mal, a desgraça constante e o inevitável de toda a violência e maldade.

 

Sim, tudo para gostar. Para adorar mesmo. E se calhar gostei bastante, mas ainda não sei. Racionalizando todo o livro, tudo o que apresenta, aprecio-o e gostei. Mas, o sentimento que deixou quando o acabei, a emoção que fica ao pensar nele sem o analisar, o prazer que tive ao lê-lo... foi-me indiferente. 

 

Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita.

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#04)

Mais uma vez desiludido. Não percebo porque é que isto me continua a acontecer... 

Antes de prosseguir, deixem-me só esclarecer: esta desilusão nada tem a ver com a qualidade do livro sobre o qual vou escrever, "A Vida no Céu" de José Eduardo Agualusa, mas sim porque escolho o livro convencido que vou ler sobre uma coisa e afinal não é nada disso. 

 

Leio o título "A Vida no Céu" e imediatamente penso que vou ler e aprender sobre a vida de Deus. Aquilo que faz no seu tempo livre, o que faz quando está em casa descontraído, se tem de ir aos correios e às finanças como nós ou se não é necessário, se briga com Jesus para este ir levar o lixo à rua e arrumar o quarto.. Sei lá, coisas assim. Coisas da vida, mas no céu. Podia ficar, finalmente, a saber se Deus aceitava o estilo do filho ou se preferia que fizesse a barba e calçasse uns sapatos decentes, nem que seja quando tivessem companhia, que tipo de alpista come o Espírito Santo ao pequeno almoço, se Maria ainda é virgem... As questões são imensas. 

Não tive nada disto, com muita pena minha.

Tenho mesmo de parar de escolher livros apenas pelo título. E de os interpretar com base nisso...

 

Eiii!! Esqueceram-se de mim!

 

 

Aquilo que tive foi, sem dúvida, uma bela história.

Quando peguei no livro achei que era pequeno demais; com a história que apresenta, pensei, à partida, que a ideia era interessantíssima e que havia tanto para explorar, porém, o livro conta com poucas páginas. Como é que em 186 páginas vai ser descrito, explicado, mostrado e desenvolvido um mundo num futuro distópico em que a superfície do planeta está completamente coberta por água e com temperaturas intoleráveis que só permitem a sobrevivência no céu, em dirigíveis, balsas e balões voadores?

 

"Esperança: é o nome que damos às nuvens quando nos falta a água."

 

Bem, digo-vos que é possível fazer isso neste pequeno número de folhas, e é possível por causa do autor. José Eduardo Agualusa escreve com uma simplicidade e uma magia em cada palavra que é cativante. Para mim, marca de um grande escritor, consegue dizer tanto com tão pouco. Chegado ao fim, sinto que sei o que preciso de saber sobre este mundo e que isso basta. Podia ser diferente, podia ser mais, mas não é preciso. Uma pequena história, uma pequena aventura. Não chegamos totalmente a conhecer as personagens e ao mesmo tempo conhecemo-las perfeitamente.

Escrito na primeira pessoa, embarcamos nesta viagem juntamente com Carlos, na busca pelo seu pai. As várias personagens que se vão juntando e cruzando o seu caminho dão-nos a conhecer este novo mundo e conseguem o seu espaço para crescer ou resolverem-se. Não esperem grandes surpresas ou grandes desenvolvimentos, não é necessário para a mensagem que quer passar. É uma viagem. Por vários países e culturas, mesmo nas nuvens.

De leitura rápida e sem nunca perder o foco, sem paragens para grandes descrições ou explicações, sem uma análise a um futuro distópico e negro; é antes uma história sobre a descoberta, sobre identidade, de saudade e esperança, dos velhos e dos nascidos nas nuvens. Acima de tudo é uma aventura, é a procura de um sonho.

 

Identidade.Não tem a ver com o lugar onde nascemos, pois no céu tudo é movimento, e sim com os lugares por onde passamos. Identidade é o que a viagem faz de nós enquanto continua. Só os mortos, os que deixaram de viajar, possuem uma identidade bem definida.