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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Crónica de um dia azarado

Já tive vários dias maus, mas nunca tinha tido um dia como ontem. 

A manhã começou como qualquer outra, com o nascer do sol. Normalmente é assim. Por alguma razão o despertador não tinha tocado e só acordei com um estrondo e um cheiro a queimado. O despertador não tinha tocado nem iria tocar mais, já que o telemóvel tinha acabado de explodir. Saltei rápido da cama, sem tempo para me preocupar com o que se tinha passado, tinha um dia importante pela frente.

Devido ao que se passou com o telemóvel, ligado à corrente, também fiquei sem electricidade. Bem que as torradas não ficavam prontas e eu ainda demorei a perceber. Arranjei-me às pressas e quando vou sair dou com a porta trancada. Nada de muito estranho, mas tinha deixado as chaves no escritório. A minha mulher já tinha saído para ir levar o pequeno à escola e tinha-me deixado trancado em casa. Era só o que me faltava, logo no dia em que tinha uma reunião importante com um cliente que precisava convencer a avançar com o nosso projecto. Falhar nesta tarefa implicava o desperdício de recursos e trabalho de meses, bem como um grande prejuízo que resultaria em despedimentos.

Ora, neste ponto estou eu todo aprumadinho mas atrasado meia hora e fechado num quinto andar sem possibilidade de sair, sem telemóvel nem electricidade. Nem podia comunicar com ninguém. Tinha de sair de casa de alguma maneira, tinha de chegar a tempo à reunião, todo o projecto dependia de mim. Sei bem como funcionava o Macgyver, sabia o que tinha a fazer: fui buscar um ananás, um sapato velho e um isqueiro. Num pedaço de papel escrevi uma rápida mensagem a explicar o que se passava e requisitar ajuda e meti-a dentro do sapato velho. Atirei-o pela janela, sentei-me a comer o ananás, já que não tinha chegado a comer as torradas, e acendi uma vela a nossa Senhora de Fátima, porque uma reza podia ajudar a resolver a situação. Já agora, nunca vi um episódio do Macgyver, se calhar não era bem assim que ele tinha resolvido o problema. Para mim não resultou. Alguém pegou no sapato e atirou-o para o lixo, ignorando os meus apelos da janela, como toda a gente o estava a fazer.

 

Com isto tudo, já estávamos na hora da reunião e eu ainda trancado em minha casa. Posso nunca ter visto o Macgyver, mas o James Bond conheço e sei que não eram 5 andares que o iam derrotar. O plano passava por pendurar-me na janela e deixar-me cair para a varanda do andar de baixo, e assim sucessivamente até chegar ao chão. 

Pequenos pormenores que só me ocorreram quando já estava pendurado na minha janela e sem força para me içar de novo para dentro: as varandas são na parte de trás do apartamento e tenho outra porta, ao lado dessa varanda, que dá acesso a um pátio que tem outra saída para o exterior. Porta essa que tem a chave na fechadura.

Resumindo, eu continuava pendurado, nem para cima nem para baixo. A polícia e os bombeiros apareceram e acabei a amanhã no hospital para avaliação psiquiátrica. Depois de conseguir convencê-los que tudo não passara de um mal entendido, que não tinha tendências suicidas, era só estúpido, deixaram-me sair. Com sorte, nunca tinham conseguido contactar a minha mulher, porque eu não sabia o número de cor, e assim evitava esse embaraço e não lhe causava preocupação.

 

Fui até ao escritório, sem saber ainda como ia explicar tudo aquilo. Já tinha lixado todo o projecto, portanto nem sabia o que esperar. Só quando lá cheguei é que me apercebi de algo que todos vocês já sabem e se aperceberam: ontem era Domingo. Por isso é que o despertador não tinha tocado. Era dia da mãe, e a minha mulher tinha ido tomar o pequeno almoço com a sua. O meu filho devia estar no quarto a dormir. 

A caminho de casa, e maltrapilho como estava, de fato rasgado e com uma postura deformada derivada da hora que passei agarrado ao parapeito, fui confundido por um pedinte e um senhor deu-me uma moedinha. Agradeci, pois sempre me ensinaram a aceitar prendas. Quem não gostou foi mesmo um pedinte que andava ali por perto e ao qual não calhou nada. Veio gritar-me que aquilo era o seu território, para eu arranjar um para mim. Dito isto, deu-me um enxerto de porrada e roubou-me a carteira. 

 

Quando finalmente cheguei a casa, a minha mulher abriu-me a porta. Nem me deixou explicar bem o que se tinha passado, e disse que era bem feita eu ter levado um enxerto de porrada, para aprender a não ser um xoninhas pacifista. Que era por coisas dessas que estava farta de mim e que ia avançar para o divórcio. Além disso, tinha deixado o rapaz sozinho em casa. Eu nem estava a processar bem o que se estava a passar e ela diz-me que vai sair, para espairecer, para eu não deixar o nosso filho sozinho outra vez.

 

Eu só queria dormir, descansar um bocado e perceber o que raio estava a acontecer. Deitei-me no sofá e olhei o aquário que temos na sala. Estava uma nojência, quase que nem se via o peixe. Sempre a mesma coisa, ele nunca limpa o aquário. Chamei o Ramiro e disse-lhe para limpar aquilo, que não era maneira de se ter um peixe assim, para ele lhe tratar da saúde. 

Mal tinha adormecido para a minha sesta quando desperto novamente com repetidos estrondos. Vou rapidamente à cozinha ver o que se passa e dou com o Ramiro a estraçalhar o peixe com o martelo dos bifes. Chorava sem parar enquanto o fazia, mas não parava. Parece que o que aconteceu foi um pequeno erro de comunicação, fui mal interpretado quando lhe ordenei que tratasse da saúde ao peixe. Olhando para trás, talvez tenha sido má ideia fazer uma maratona dos filmes d' O Padrinho com um puto de 6 anos. Eu só queria que ele limpasse o aquário, pela saúde e bem estar do animal.

 

O resto do dia passou-se em silêncio e sem muito a relatar. À noite, antes de me ir deitar, pensei em tomar um duche para relaxar. Quando estava na banheira decidi fazer flexões. Se tivesse em melhor forma física não tinha ficado pendurado na janela, nem tinha apanhado tanta porrada. Além disso, sempre a inovar, um 2 em 1: flexões no duche. Exercício e banho ao mesmo tempo, só aqui estou a aproveitar muito melhor as horas do dia. O que acabou por acontecer foi que o braço escorregou-me bati com a cabeça. Quando voltei a mim, a casa de banho estava inundada, sangue jorrava-me da cabeça, o braço esquerdo não deixava de me apontar para a nuca e o meu filho vinha a caminho com o martelo dos bifes para me tratar da saúde.

 

Vendo bem as coisas, nem se passou muita coisa, o dia não foi mau de todo. Isto podia ter acontecido a qualquer um. Já agora, tendo em conta que estou no hospital desde ontem à noite e conto com um grande número de novas despesas, se alguém estiver a contratar...

Um ou dois livros por mês, só fazia bem a vocês (#09)

Neil Gaiman publica um novo livro e isso, normalmente, é suficiente para me interessar. Ainda para mais quando vejo o título e faço a pré-encomenda, passando os restantes meses de espera a fantasiar, a gerir a expectativa e a pensar em como finalmente vou ficar a saber tudo sobre mitologia equídea.

 

Guia de marteladas históricas

  

Sim, perceberam bem, mitologia equídea. Isto porque, quando vi o anúncio ao livro, o que li foi "Horse Mythology". Fiquei-me por aqui, que não gosto de saber muito mais sobre um livro antes de o ler. Ora, isto para mim foi suficiente para me cativar. Delirei a imaginar todos os segredos e história desta rica mitologia que ainda não conhecia. Calculei que ficaria a saber, por fim, como se formaram os primeiros unicórnios, a lenda do primeiro galopador, os segredos por trás do astuto cavalo que inventou o trote, o Deus maior dos cavalos, o grande Pégaso... Ou, ainda, as origens do conflito de titãs entre cavalos e touros, que segundo consta foi o que deu origem à separação dos continentes, a história do malandro cavalo que se aventurou fora da sua espécie e foi ostracizado e relegado a um pónei como penitência, as magníficas circunstâncias que levaram à criação de ferraduras... E, claro, sem esquecer o fim do mundo, presente em todas as mitologias de valor, que se daria num épico confronto liderado por um pónei revolucionário, cansado de ser motivo de chacota entre os seus e de adoração entre os humanos, a libertação dos touros e a insurreição dos unicórnios.

 

Tinha tudo para ser das melhores obras de sempre, a quem é que isto não interessaria?

No entanto, só quando recebi o livro é que notei que afinal era  "Norse Mythology".

 

Before the beginning there was nothing – no earth, no heavens, no starts, no sky: only the mist world, formless and shapeless, and the fire world, always burning.

 

Neil Gaiman chama a si a tarefa de nos contar os mitos nórdicos, toda a fantasia, e história, que os envolvem. Não são contos de ficção com base na mitologia nórdica, mas sim os contos desta mitologia contados pela voz do autor. No fundo acaba por ser um livro de não-ficção, tanto quanto se pode considerar não ficção os acontecimentos que sustentam toda uma mitologia. 

Esta mitologia sempre esteve presente nos trabalhos do autor, como inspiração ou a popular os seus trabalhos com algumas das suas personagens. Aqui, Gaiman conta-nos o clássico. Com o seu estilo, a sua escrita harmoniosa e sempre poética, abordando os mitos como se estivesse a escrever um conto de ficção, mas sempre com base, apenas, na mitologia nórdica. É o equivalente a passar uma noite com Neil Gaiman ao relento, em que ambos puxamos de um copo de hidromel enquanto no céu se manifesta uma aurora boreal. E, pela sua voz, ele encanta-nos e dá-nos a conhecer estes mitos.

Of course it was Loki. It's always Loki.

 

Tomando como referência apenas os clássicos, o Edda em prosa e o Edda em verso, Neil Gaiman adapta os mitos e partilha a sua história, estruturado como um livro de contos tradicional e não como um manual ou algo enciclopédico. Torna tudo ainda mais apelativo e interessante de conhecer, servindo como ponto de partida e descoberta, uma boa introdução, para toda esta mitologia. A forma acaba por se basear no conhecimento e ponto de vista de três dos principais Deuses nórdicos, e porventura os mais conhecidos Odin, Thor e Loki. São eles a força motriz por trás da maioria dos acontecimentos. Todo o livro se desenvolve como se de um Romance se tratasse, devido à forma como está estruturado. Começando pela criação do mundo, acompanhamos todos os eventos, as relações e interacções entre os Deuses desde a criação de Asgard e sempre num crescendo até ao clímax que é o Ragnarök. Pelo meio, ficamos a saber como é que se construiu o muro à volta de Asgard, ou como os Deuses obtiveram alguns dos seus tesouros, como o martelo do Thor, ou, ainda, as origens da poesia, por exemplo.

 

O livro é bom, "simpático", despreocupado, leve, pautado com muito humor (a parte mais fraca para mim, um bocado inocente, infantil demais), bem estruturado, interessante e informativo. Tem uma aura mítica que rodeia o conto destas hitórias, apoiada pela escrita e estilo do autor, o que só contribuiu para o melhorar. Lê-se de uma assentada, imbuído no espírito e fascínio de toda uma mitologia, da sua história, do que sutenta, ou sustentou, toda uma outra cultura. 

 

The fun comes in telling them yourself—something I warmly encourage you to do, you person reading this. Read the stories in this book, then make them your own

 

O que eu não dava por um pudim.

Eu nem sou grande fã de pudins.

Se me derem a escolher entre um pudim ou todas as outras sobremesas do Mundo, sou capaz de escolher o pudim apenas antes dos testículos de boi da Tasmânia.

Não, nunca gostei muito da Tasmânia.

 

Mas a verdade é que, lá de vez em quando, compro pudins, porque o ser humano é contraditório e porque eles até costumam estar baratos.

Foi isso que fiz no outro dia. Comprei pudins e, lá de vez em quando, lá ia um. Só porque sim. Porque achava que o meu corpo precisava de mais uma dose cavalar de açúcar.

 

Ora, há bocado, depois de jantar, tive um dilema: como tinha comprado também uma embalagem de frutos vermelhos, fiquei momentaneamente na dúvida em relação a que sobremesa haveria de comer.

Decidi-me pela fruta. Primeiro porque prefiro, e depois porque o jantar tinha sido algo pesado, e não fazia sentido estar a sobrecarregar ainda mais o estômago, coitado.

E estava tão certo disso que, mesmo na viagem até à cozinha, o meu cérebro dizia-me e voltava a assegurar-me de que era para a fruta que pendia.

 

Chegado ao frigorífico, e por mera curiosidade, olhei na direcção da prateleira onde estariam os pudins, para ver quantos restavam.

Não restava nenhum.

E agora é que vem a parte interessante: é que, não sei por que carga de água, assim que vi que não tinha qualquer pudim, ficou a apetecer-me comer pudins como nunca antes na vida me tinha acontecido.

 

Portanto, que se lixe a fruta, pá, isso é para meninos!

A questão é: onde é que se compra pudins a partir da meia-noite?

Conto do Alfredo e do duche pela manhã.

Alfredo acordou de manhã e deixou-se ficar mais um pouco na cama. Afinal, conseguia ouvir os colegas de casa a tomar duche.

Era sempre assim, de manhã. A competição era feroz, e o duche era só um.

 

Quando despertou completamente, o duche continuava ocupado. Decidiu ir tomar o pequeno-almoço.

Já de barriga cheia, voltou a colocar o ouvido à escuta, mas continuava a ouvir o estalar da água no chão do poliban. Decidiu ir trabalhar, adiantar alguma coisa enquanto esperava.

 

Trabalhou, almoçou, voltou a trabalhar e regressou a casa. E era vê-los, ora uns a sair do duche enquanto ainda esfregavam a farta gedelha, ora outros a entrar de toalha e champô em punho.

Parecia uma linha de montagem, na qual entravam ainda badalhocos e saíam impecáveis a nível da higiene pessoal.

E Afredo sempre sem conseguir tomar duche.

 

Acabou por decidir ir dar uma volta ao parque, para espairecer. Bebeu uma limonada, viu o pôr-do-Sol e regressou a casa. E jantou, porque a casa-de-banho continuava ocupada mas a cozinha, essa, estava livrinha da silva.

E, no dia seguinte, fez tudo de novo, porque ainda por cima a água às vezes esfriava sem ninguém saber porquê e atrasava ainda mais o processo.

 

Consta que, hoje em dia, Alfredo já terá falecido, tendo deixado como herança dois filhos e um neto.

Mas uma coisa é certa: nunca chegou a conseguir tomar duche.

 

Paz à sua alma.