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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Mini-contos (#09)

Todos viram o papel cair do bolso do homem que se afastava a mendigar.

Ninguém se preocupou com isso, mas a sua filha apanhou-o. Aos 4 anos já sabia que não se devia deixar lixo no chão. 

 

Recordava esse momento.

Tudo poderia ser diferente se tivesse ficado com aquela aposta vencedora em vez de a devolver ao sem-abrigo.

 

Que ironia, pensou, enquanto observava aquele mesmo homem, agora tão diferente, que escapava incólume do seu veículo topo de gama, enquanto ele segurava o corpo atropelado e sem vida da sua menina.

Atrapalhos no campo de batalha.

     - ATACAR! – Gritou o comandante.

     Era de manhã, cedíssimo. Os pássaros ainda espreguiçavam as suas asas e as hienas preparavam-se para cear gazela à Gomes de Sá. Porque não podiam perder mais tempo, os soldados já se encontravam em posição para investir contra o inimigo, que ainda estava a vestir-se. Foi Torão quem reparou primeiro:

     - Espere, nosso comandante… Eles estão a vestir a nossa roupa?

     Os soldados inimigos estavam, realmente, a vestir uma farpela praticamente idêntica à deles. As riscas brancas por cima do fundo vermelho estavam até na mesma posição diagonal e tudo. O comandante, exasperado, chamou:

     - Mas como é que… Rotler, andaste a fornecer o inimigo com as nossas roupas?!

     Ouviu-se o barulho das folhas secas enquanto os cavalos abriam espaço para Rotler passar. Uma figura pequena, quase corcunda, toda suja. Assegurou:

     - Não, meu comandante! Nada disso, toda a roupa extra está ali guardada debaixo de uma árvore!

     - Então como é que… – Indagou o comandante, dirigindo a sua voz para o outro lado do campo de batalha. – Eh, ó vocês aí!

     O comandante das tropas inimigas levantou a cabeça, ainda abotoando as calças. Quando finalmente percebeu o que se passava, ficou impávido.

     - Como é que vocês conseguiram as nossas roupas? – Gritou o primeiro comandante.

     - Não conseguimos, pá! Esta é a nossa roupa alternativa, tivemos outra batalha há pouco tempo e a roupa principal ainda está a lavar. – Respondeu o comandante do outro lado.

     - Ah, pois… As nódoas de sangue são sempre lixadas de sair. Mas olhem, é que isto assim não dá jeito nenhum para combater!

     - Tem toda a razão, meu caro. Mas já estive aqui a dar um discurso motivacional às minhas tropas, não posso desfazer tudo agora… E onde é que eu iria encontrar agora cinco mil camisolas de outra cor?

     - Pois, realmente é difícil… – Concordou o primeiro comandante. – Podemos, sei lá, combater em tronco nu?

     Uma voz grave e rouca ecoou do meio da formação:

     - Eh pá, isso não, que é demasiado homoerótico! E eu ainda tenho algumas dúvidas acerca da minha identidade sexual.

     - Ah, pronto. Desculpa, Groghl. – Disse o comandante, acrescentando – Então olhe, caro camarada, não vejo qualquer outra solução além de adiarmos esta raiva e espírito combativo e de sacrifício para amanhã.

     - Pois, ‘tá bem então… – Concordou o comandante das tropas meio-vestidas. – Amanhã à mesma hora, então?

     - Sim, amanhã à mesma hora. – Disse o primeiro comandante, ordenando às suas tropas que começassem a dar a volta. – Aquele abraço!

     - Grande abraço a todos! – Respondeu a voz rouca, do lado de lá.

Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Completo.

Como somos pessoas fixes e até de algum interesse (puramente pessoal, não económico), deixamos aqui um compêndio de todos os capítulos do segundo episódio da "Escrituríssima Trindade", para a vossa organização futura.

Sim, porque ai de vocês que não leiam isto aos vossos netos!

 

Cá vai, seus marotos:

 

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

Capítulo IV

Capítulo V

Capítulo VI

Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. VI

     A viagem de carro fora longa e silenciosa. Kotes teve tempo para pensar em tudo o que lhe acabara de acontecer, mas não era capaz de encontrar lógica em tudo o que vira e ouvira. Hoje acordara com o único objectivo de esperar pela boleia da morte e acabou com uma dádiva de vida inesperada. Estaria o destino a pregar-lhe uma cruel partida? Estaria ele a sonhar tudo isto?

     Estes gajos pareciam completamente insanos, não sabia se iria realmente se reencontrar com o seu pai, não sabia se estava seguro. Mas ainda há umas horas Kotes estava a encarar a morte nos olhos e agora estava preocupado com a sua saúde? "Bem, numa coisa têm razão", pensou o homem, "quando não me restava nada, pude libertar toda a frustração que demorei uma vida inteira a acumular. Com a força que nunca tive não me sinto prisioneiro das regras de ninguém". Olhava para os seus captores com outros olhos quando o carro abrandava num semáforo.

     Os dois homens pareciam nem pestanejar, durante os primeiros trinta minutos da viagem nunca tiraram os olhos de Kotes, nunca falaram entre eles nem com o condutor. Um perfeito silêncio que incomodava o homem rejuvenescido, mas não ao ponto de este se manifestar até agora. Não, Kotes tinha mais em que pensar. Finalmente, muitos minutos depois, decidiu falar:

     - Sabem, estive a pensar e acho que têm toda a razão - disse enquanto distribuía olhares para ambos os capangas.
     Os homens trocaram olhares em silêncio, e quando o da direita se preparava para falar, Kotes interrompeu:
     - Quer dizer, faz sentido. As coisas não podem correr sempre bem, as pessoas precisam de motivação, de um objectivo - O carro voltou a andar a meio do seu diálogo - Eu por exemplo não tinha nada para alcançar hoje de manhã antes de vocês aparecerem, acho que todos os truques mágicos e pistolas me fizeram bem. 
     Um sorriso começava a delinear-se no seu rosto, algo que não passou despercebido aos dois homens. Um deles finalmente disse respondeu com um "muito bem, senhor". 
     - O seu pai vai ficar muito contente de saber que está connosco, que abraçou o seu destino - disse o segundo homem com a cicatriz.
     Kotes dedicou especial atenção ao último homem a falar. 
     - Sim, finalmente percebo o que me faltava, porque sentia que a minha vida não era o que eu queria. Agora acho que nunca mais vou ter o mesmo problema. Obrigado por me terem explicado tudo - o olhar de Kotes desviou-se para a zona entre o condutor e o banco de trás enquanto o carro voltava a abrandar - Aquilo alí é para beber? Acham que me podem fazer o favor de me dar uma garrafa? Quase falecer deixa um  gajo cheio de sede sabem?
     O homem da cicatriz era perspicaz o suficiente para desconfiar da súbita mudança de atitude do homem, mas o seu colega não parecia partilhar da mesma capacidade. Enquanto este se chegava à frente para abrir o compartimento das bebidas a situação no carro mudou. Um segundo fora suficiente para que Kotes esticasse a sua mão esquerda e tirasse a arma que se encontrava exposta na parte e trás das calças de um dos homens. Apontou rapidamente a arma ao seu antigo dono e o outro homem sacou duma pistola dele. 
     - Não pares em nenhuma luz vermelha - gritou o homem da cicatriz para o condutor - segue para o apartamento, rápido!  
     - Não lhe acertes Jimmy! - disse calmamente o outro homem - não podes... 
     A hesitação foi mais do que suficiente para um homem que não tem tempo a perder. Kotes disparou dois tiros sucessivos contra o homem que se encontrava á sua frente e o carro fez uma brusca curva à direita. Olhou rapidamente para o homem à sua direita e viu que estava pronto para retribuir o fogo mas outro solavanco na condução fez o homem falhar tremendamente. Ambos olharam para a frente e o condutor, também ele vítima de uma bala perdida, tombava para cima da manete das mudanças enquanto o carro se conduzia a si próprio para aquilo que parecia ser morte certa.
     A parede chegou rápido e com ainda mais força do que ele esperava. O carro parecia ser agora três vezes mais baixo e Kotes não tinha bem a certeza para que lado estava virado. Abriu a porta do carro com esforço e rastejou para fora. As ruas não tinham mais que três pessoas na proximidade mas parecia que apenas uma delas corria na sue direcção para ajudar. Do outro lado do carro a porta tinha desaparecido e uma figura rastejava para fora na direcção da sua arma de fogo. Kotes pegou na pesada arma e disparou sem hesitar. 
     Afastou-se calmamente da cena do acidente para não levantar suspeitas. A sua roupa estava em mau estado mas não parecia ter qualquer ferimento grave, tirando uma forte dor de cabeça. 
     Sentou-se na primeira paragem para autocarros que encontrou e esperou por um que o levasse a casa enquanto pensava sobre os loucos acontecimentos do dia. 
     "Espalha-ódio... bem pelo menos fizeram um bom trabalho em fazer-me odiá-los" pensou. Kotes nunca deixou que alguém o controlasse a vida toda e certamente não iria ser o seu pai ou umas cópias baratas que iriam mudar isso. Certamente queria encontrar o velhote mais tarde ou mais cedo, mas hoje não. Ainda tinha muito para fazer até lá, e parece que não iria ter limitações algumas. Hoje acordou pronto para morrer e acabou o dia com uma vida nova, quem diria? 
     Ainda lhe restavam muitas perguntas por responder. Quem eram, ao certo, os dois homens? Aquela tal de Susanne parecia saber quase tão pouco como ele... Estaria a ser manipulada pelos homens misteriosos a cargo do seu pai? E que raio de experiências têm este tipo de resultados? Parece que a solução seria encontrar a única pessoa que tinha todas as respostas... Mas só quando ele estivesse pronto, afinal, relações entre pais e filhos são sempre complicadas. E, neste caso, ainda mais. Não saberia como ia reagir na sua presença. Aliás, agora que sabia que podia matar qualquer pessoa que o incomodasse, o que o impediria de matar o homem por detrás de tantos problemas na sua vida? E o que o impedia de matar qualquer outra pessoa, por falar nisso? Mas nada disso parecia interessar, pelo menos para já...
     O autocarro chegou e Kotes sentou-se no banco de trás, ao lado de um menino que parecia ter os seus oito anos, muito entretido a comer um gelado cor-de-rosa. As sirenes ouviam-se à distância e, quando cruzaram a cena do crime, já uma multidão se juntava à volta do carro destruído. A sua atenção virou-se para o pequeno rapaz, quando este disse, entusiasmado:
     - Sabe, senhor, hoje são os meus anos! Recebi montes de presentes, um bolo na escola e um gelado! Este está a ser o melhor dia de sempre!
     Kotes olhou pelo vidro do autocarro, enquanto as nuvens se dissipavam no céu e o Sol forte voltava a brilhar.
     - Está mesmo. - Disse, sem olhar para a criança. - Até agora, não houve melhor.
 
 
FIM

Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. V

     - O oposto dela? Que querem dizer com isso? - Perguntou Kotes - São uns "espalha-ódio"?

     - Suponho que nos possa chamar isso. Embora, não seja propriamente o ódio que nos move, sendo mais como uma missão de restabelecer o balanço emocional. - Respondeu um dos homens, que já não prestava muita atenção a Kotes, estando a dirigir-se ao cadáver ali disposto. 

     - Sr. Kotes, venha connosco, por favor. Vai perceber tudo não tarda nada. - Disse o homem com a cicatriz na cara, ao mesmo tempo que procurava algo nos bolsos do casaco.

     Kotes ficou onde estava, a ver um dos homens pegar no corpo de Susanne e atirá-lo do penhasco. O outro, o da cicatriz, acendia agora um cigarro que lhe conferia um aspecto ainda mais abominável que antes, com o fumo a ser, em parte, expelido pela zona meio cicatrizada do nariz. Kotes aproveitou esta distracção para se virar para o homem de costas para si, na beira da penhasco, e caminhou na sua direcção. Olhou de relance para o da cicatriz e reparou que continuava alheado da situação. Ainda não compreendia o que se estava a passar consigo, mas sabia que não ia abdicar desta sua saúde recuperada nem ia arriscar aqueles dois estragarem o que quer que fosse.

    Devagar, Kotes avançou com a intenção de empurrar o suposto cientista que ainda se encontrava no limite de terra firme, a ver o resultado do que tinha acabado de fazer. A menos de um metro do homem, Kotes levantou as mãos à altura do peito, mas, antes que pudesse concretizar o feito, a voz do outro cientista ecoou na pequena clareira.

     - Sr. Kotes! 

    O mais normal dos dois homens olhou por cima do ombro e sobressaltou-se ao ver Kotes a centímetros de si. Reagiu depressa e rodou para a direita, atacando antes que este pudesse recuperar a posição. Com a mão direita agarrou Kotes pelo colarinho e aplicou uma joelhada nas costelas que o vergou. Voltou a agarrar Kotes pelo colarinho e pelo braço esquerdo, mas este desferiu-lhe uma cotovelada no peito, mandando-o a cambalear para trás. O cientista levou uma mão ao peito e levantou a outra a tentar proteger-se, mas Kotes esmurrou-o na cara por duas vezes e deitou-o abaixo. Kotes parou um segundo a recuperar o fôlego e preparou-se para agarrar o homem agora postrado a seus pés e de nariz partido. Um enorme estrondo fez-se ouvir, fazendo Kotes parar e olhar na direcção do homem da cicatriz, que se encontrava agora de arma em punho e apontada a ele.

     - Já chega, Sr. Kotes. Teve oportunidade de desanuviar um pouco, agora vai respeitar-me. Já teve oportunidade de ver que eu não falho nenhum alvo, portanto não queira arriscar.

     O outro homem levantava-se agora do chão, ainda a cambalear e cuspiu para o chão. Tinha sangue a cobrir-lhe a cara, que começou a limpar com um lenço tirado do bolso. - Porquê que não o paraste antes? - Perguntou, deparando-se com um pequeno sorriso do seu colega. - Ele ia matar-me!

     - Não ia deixar que chegasse a esses termos, mas mereceste o que aconteceu, por isso deixei. Sabes bem com quem estamos a lidar e mesmo assim viraste as costas aqui ao nosso amigo. 

     Kotes permanecia imobilizado no local onde estava, agora mantido sob controlo entre os dois homens e com a arma ainda apontada a si. 

     - Sim, sim - Respondeu o homem, agora a apalpar o nariz e verificando que estava partido. - Vamos mas é embora daqui. Já disparaste esse revolver duas vezes, sem dúvida que não tardará a aparecer aqui alguém. Sr. Kotes, venha connosco, por favor. Não queria ter que o fazer obedecer recorrendo a outros modos, se é que me percebe.

     - Não me parece que vá fazer seja o que for. Nem me parece que ali o seu amigo vá usar aquela arma. - Disse Kotes. - Já tiveram oportunidade de me matar e não o fizeram. Mesmo agora, foram muito contidos comigo, o que me faz querer que, seja lá o que for que querem de mim, não me vão fazer mal. Pelo menos por agora. Precisam de mim de alguma forma. Além disso, o meu pai sempre me disse para não aceitar boleias de estranhos.

     Os dois homens trocaram um olhar e um sorriso entre si. - Muito bem, Sr. Kotes, - anuiu o homem da cicatriz, baixando a arma - nós precisamos de si. Tem toda a razão. E não lhe vamos fazer mal. E como o meu colega acabou de referir, não tardará a aparecer aqui alguém. Faríamos bem em evitar mais danos colaterais do que aqueles que já ocorreram. Portanto, peço-lhe, outra vez, que nos acompanhe.

     - Eu estou-me a lixar para os danos colaterais ou para o que vocês querem. Querem que vá convosco? Sim senhor. Mas então vão responder-me a umas perguntas primeiro. Depois, veremos.

     - Epá, já estou farto desta palhaçada! Levamo-lo de arrasto e pronto. Não temos tempo para isto. - Disse um dos homens, o de nariz partido, claramente já sem paciência para a situação e ressentido com os acontecimentos.

     - Está calado. Sabes que temos ordens para não o magoar. - Argumentou o homem da cicatriz, antes de prosseguir - Sr. Kotes, perceba uma coisa. Nós estamos aqui para o ajudar. Se o que tivermos de fazer para isso é responder a algumas perguntas antes, posso conceder-lhe essa vontade. Mas, no final, vai acompanhar-nos. E aí sim, tudo será compreendido. É para o seu próprio bem. 

     - Ok. Combinado. - Respondeu Kotes, concordando com os termos propostos. Nesta altura não tinha outra escolha. Tudo o que se estava a passar era estranho e não fazia sentido. Tinha de tentar compreender. Mesmo que fosse verdade e estes homens não estivessem ali para lhe fazer mal, alguma coisa queriam e não iam ser detidos facilmente. A sua única opção era cooperar até saber o que lhe estava a acontecer, nem que para isso tivesse de os acompanhar. - Então digam-me, o que raio se passou comigo?

     - Não lhe posso responder a isso. Não que não queira, mas porque não sei. Daí que seja positivo para todos se nos acompanhar, porque no final vai ter a resposta a essa sua pergunta. - Respondeu o homem da cicatriz. O outro, tinha ido a bufar e protestar sentar-se numa rocha enquanto se debruçava, uma vez mais, sobre o seu nariz. Não mostrava qualquer intenção de participar nesta sessão de inquérito.

     - Vou ter alguma resposta a algo que pergunte, então? - Indagou Kotes, visivelmente irritado. 

   - Depende das perguntas, Sr. Kotes. Por certo compreenderá. Tudo o que não puder responder agora, será devidamente explicado mais tarde, se for determinado que é relevante. - Respondeu o único outro homem a participar nesta conversa. 

      - Suponho, então, que vou continuar sem saber quem são vocês, para quem trabalham, como me encontraram... - Kotes continuava irritado com a falta de informação que obtivera até agora, enquanto o homem da cicatriz sorria e confirmava com a cabeça todas as afirmações que ouvia. - Bem, o que fazem vocês, afinal? Espalha-ódio, que raio é isso?

     - Como o nome indica, Sr. Kotes, espalhamos o ódio. A desconfiança, o ultraje, a negatividade, o desespero, a infelicidade, a maldade...

     - Mas porquê? Para quê, com que fim? - Interrompeu Kotes.

     - Ora, Sr. Kotes... Para manter o mundo a girar. - Respondeu o homem com uma gargalhada seca. - Para que haja progresso. Diga-me, já alguma vez a humanidade evoluiu com base no amor? Nunca. Precisamos do ódio, da inveja, da intolerância. Se todos nos déssemos bem, concordássemos, se houvesse paz e harmonia, estávamos desgraçados! O mundo precisa de discórdia. Precisa de tristeza, precisa de caos, precisa de morte. Isso é que nos faz lutar, evoluir. O amor é o pior inimigo que temos. É imbatível e destruidor por direito. Veja, Sr. Kotes. Com amor, não há mais nada a procurar. Se tudo estivesse bem no mundo, se toda a gente amasse, tudo feliz, que mais havia a fazer? Que problemas para resolver, que crises a evitar, que objectivo de vida a procurar? Amor não é a resposta. Amor é motivação. A sua constante procura, a procura da felicidade e da paz, é a motivação. Por isso cabe-nos a nós impedir que esse estado seja alguma vez atingido. Porque só se pode procurar a felicidade e o amor quando estes ainda não existem. E essa procura é que nos leva à evolução, ao progresso. É o que mantém o mundo em ordem.

     Kotes não sabia como reagir após esta resposta, por isso deixou-se ficar em silêncio durante um momento. O colega do homem da cicatriz continuava sentado numa rocha, mas agora ouvia atentamente a conversa.

     - O que querem comigo? O que é que estavam a dizer quando disseram que me queriam tornar um de vós? - Perguntou Kotes, a lutar por encontrar palavras e descortinar o que se estava a passar.

     - Sr. Kotes, diga-me, porque é que tentou matar a menina Susanne? Será porque é aquela a sua natureza? A sua vontade? É inexplicável? Provavelmente conjurou algum motivo na sua cabeça que lhe permitia justificar essa acção. E tem sido assim toda a sua vida, não é verdade? Inúmeros actos que praticou ao longo da vida. Tentou sempre encontrar uma justificação, mas no final sabe bem porque o fazia, não sabe? Porque lhe parecia bem. Porque era o que sentia correcto. 

    - Acabe com o engonho! Conheço muito bem o meu passado e tudo o que fiz. Sei muito bem o que sentia. Não preciso de análises da sua parte. O que quer dizer com isso tudo? Que eu sou um talento inato para espalhar o ódio? Que me querem recrutar para a vossa organização e, por isso, fizeram algo que causou a regeneração do meu corpo?

    - Sr. Kotes, não é a questão de ser um talento natural. É mais do que isso. Você é a nossa origem. Digamos que é uma espécie de paciente zero.

    - Eu sou a origem? O que raio querem dizer com isso? 

     -Sabe o que é que costumava ser este lugar há muitos, muitos anos atrás?

    - Sei. - Respondeu Kotes, engolindo em seco. - Era o laboratório do meu pai.

     - Muito bem. Era o laboratório do seu pai. Arrisco a dizer que sabe isso, mas não sabe muito mais. Arriscava a dizer mesmo que não se lembra de muita coisa da sua infância. Pelo menos até à morte da sua família e a ter-se mudado para o orfanato. Deixe de olhar com espanto para mim, Sr. Kotes, não interessa como sei isto tudo. O que interessa é que sei. E você também. E que o que lhe digo é a verdade. - O homem parou de falar por instantes e olhou o relógio que trazia ao pulso. Olhou em volta para o colega sentado na rocha e fez-lhe sinal com a cabeça. Estavam a ficar sem tempo, era bom que se despachassem. - Faça um exercício de imaginação comigo. Imagine um homem brilhante, cientista à frente do seu tempo. Imagine que este tem um laboratório privado que desenvolve todo o tipo de experiências, muitas delas não aceites pela comunidade cientifica da época. Agora imagine que esse mesmo homem tem um filho. E que a certa altura, muito cedo na vida da criança, o pai nota que algo de especial se passa com ela. Que a criança não é como todos os outros meninos, que não apresenta qualquer evidência de alegria, satisfação, amor... Também não era um psicopata, nem nada conhecido. Porque ao contrário disso, esta criança, imaginemos, sentia um ódio constante, que contagiava toda uma sala, mesmo sem esta criança saber ainda falar. Era detentora de tanta negatividade que trazia infelicidade a tudo o que encontrava. Agora lembre-se de que estamos a imaginar que o pai dessa criança é um brilhante cientista. Como génio que é, e preocupado com o bem-estar do filho e de toda a gente que o rodeia, decide começar a estudar o ADN da criança. Já lhe tinha dito que era um homem à frente do seu tempo, não se esqueça. Vamos imaginar que se passaram alguns anos de estudo e que, a certa altura, o homem chega a uma conclusão. Ora bem, este brilhante cientista consegue, através do seus genes, isolar componentes que codificam a felicidade. Imaginemos que isto era possível. Imaginemos, também, que, de alguma forma, esses componentes são inseridos na criança. Agora imaginemos que, um dia, este laboratório, com pai, mãe e filho como seus únicos ocupantes, explode. Só a criança é encontrada viva e levada para um orfanato. Essa criança cresce e nunca é feliz. Não é capaz, nem se interessa em ser capaz. Todas as experiências levadas a cabo pelo pai têm como único efeito, na criança, um ténue sentimento de culpa, um sentimento que as suas más acções têm de ser justificadas de alguma maneira, mesmo que não seja por algo real, de forma a esta criança, agora adulto, conseguir prosseguir com a sua vida e as suas acções e não se mostrar arrependido de forma alguma. 

    Kotes estava petrificado e lívido, incapaz de pensar claramente e de processar aquilo que estava a ouvir. Permanecia ali, ao sol, como se estivesse frente a frente com Deus a ouvir o relato da criação do universo.

     - Continuando este nosso exercício, Sr. Kotes, imaginemos que aquele brilhante cientista, afinal, não tinha morrido. E que seguia com atenção, mas mantendo a sua distância, a vida desta sua criação orgânica. E que, vendo a luta e as dificuldades causadas ao filho pelas suas experiências, conclui que este era perfeito antes de ter sido submetido a uma suposta cura. Que a sua condição inicial era algo mais que especial, era o destino da humanidade. Era uma revolução. Imaginemos que este cientista, munido ainda de várias amostras com o ADN do filho, dedica toda a sua vida a estudar duas coisas: a primeira sendo uma forma de prolongar a vida; a segunda, uma recriação e implementação das condições do filho. Espalhar o ódio, digamos, por outros seres humanos. Isto, ao mesmo tempo que tenta encontrar uma cura para a condição que ele próprio acabara por dotar à criança. 

    Kotes continuava pálido, sentia as pernas a falhar e todo o corpo a tremer. Estava a transpirar mas cheio de frio, não obstante o Sol abrasador que se fazia sentir já há bocado. Permaneceu neste estado, a olhar o chão, até a voz do homem sentado na rocha o despertar para a realidade.

     - Está bom? Podemos ir, finalmente? Já estou farto desta merda. E é bom que nos vamos embora depressa, estou já a ver gente no fundo da estrada. Não é que esteja aqui algo à vista que nos pudesse trazer chatices, mas vamos evitar olhares ao máximo.

    O homem da cicatriz concordou com a palavra do colega e esperou que este se levantasse e atirasse as bicicletas do penhasco. Tinham sido só um pretexto, tinham um carro parado ali perto. Dirigiram-se os dois para o trilho de terra batida e seguiram caminho por ali fora até chegarem ao carro parado na berma da estrada, do outro lado do calçadão, após a curva que este descrevia e de onde já não dava para visualizar a clareira na beira do penhasco. Nem um nem o outro se tinham preocupado em olhar para trás ou em tomar alguma precaução para ver se Kotes os tinha seguido. Não precisavam. Sabiam que depois do que tinha sido dito, ele iria atrás deles. Daí não ter havido nenhuma surpresa na cara de nenhum dos homens quando, após uns minutos de espera ao pé do carro, Kotes apareceu, com a cara ainda sem cor, num estado quase letárgico.

     O homem com a cara normal sorriu e abriu uma das portas traseiras do carro.

     - Faça favor, Sr. Kotes. O seu pai está à sua espera.

 

(Próximo capítulo: Mr. Fro)

Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. IV

     - Alto! – Exclamou um dos ciclistas, ainda a desmontar da bicicleta. Agora que estavam mais perto, Susanne reparou que os dois homens não tinham, de todo, trajes de desportista.

     Analisando-os de baixo para cima, os sapatos de camurça castanhos eram seguidos de umas calças de ganga cinzentas e rasgadas na zona da bainha, como se fossem ligeiramente compridas em demasia para a altura deles. Ambas as t-shirts, de um tom amarelado – fosse por causa do suor, fosse por efeito dos raios de Sol abrasadores –, tinham em cima de si um casaco de cabedal vermelho, de aspecto pesado. Dava a impressão de serem dois extraterrestres, que nunca antes se haviam vestido sozinhos no mundo dos humanos.

     Mas o mais impressionante de tudo é que eram a fotocópia quase perfeita um do outro, em termos de aparência, estatura e altura. Ambos os homens tinham o cabelo negro e ondulado cortado pelos ombros, enquadrando caras tão magras que quase se tornavam gretadas. Pareciam esqueletos ambulantes – principalmente um deles, o que não falara, que, sendo quase igual ao seu parceiro, tinha a particularidade de ter a zona superior direita da cara completamente rasgada, desde a cana do nariz até à orelha, passando pelo que antes deveria ter sido um olho e que agora era só um monte de carne cozido em duas pontas. Apesar de já estar cicatrizada, a ferida alargada não deixava de ser medonha.

     - Alto, nem mais um movimento! – Reiterou o mais normal dos dois homens.

     - Quem são vocês? – Disse o antigo idoso, agora homem de meia-idade, virando-se para os encarar de frente. – O que estão aqui a fazer?

     - Nós? Estamos a passear, isto ainda é um espaço público. Pelo menos há muitos anos que o é. – Deu uma gargalhada irónica e prosseguiu. – Quanto a nós, somos… Digamos que somos cientistas.

     - Cientistas? De bicicleta? – Questionou o homem.

     - E então? Os cientistas não podem andar de bicicleta?

     A paciência do quarentão esgotou-se. Voltou a virar-se para Susanne, novamente decidido a atirá-la do penhasco abaixo. Depois lidaria com os dois ciclistas… Afinal, não seria a primeira vez que teria de se livrar de alguns empecilhos.

     Enquanto levantava Susanne novamente pelos ombros, ouviu um estrondo. Era um tiro! Reparou que uma substância vermelha havia respingado por cima do seu corpo, e julgou ter sido atingido pela bala. Ao baixar o corpo da mulher, olhou para a cara dela e viu o buraco avermelhado que tinha na testa, por onde ainda jorrava algum sangue. O tiro tinha acertado nela!

     - Qua… o que… – tentou balbuciar o homem, com os músculos ainda rígidos dos nervos. Tinha largado o corpo da mulher, que jazia agora ao calhas no chão.

     - Peço desculpa, – disse o ciclista com metade da cara destruída, ainda com o revólver em punho; a sua voz era exactamente igual à do colega – foi para o seu próprio bem.

     - O que você tinha consigo, – continuou o colega, num tom eloquente de quem está a dar uma palestra – era aquilo a que nós chamamos de uma “espalha-amor”.

     - Uma espalha-amor? – Perguntou o antigo aleijado, ainda perplexo.

     - Isso mesmo, uma espalha-amor! Um ser humano que abdicou da faceta negra que todo o verdadeiro ser humano deve ter e que dedica o resto da sua vida a tentar converter outros ao seu modo de vida. Tipo um vegetariano, mas do espírito!

     Ambos os homens riram-se. Um riso seco e gutural, cessado de imediato quando o homem perguntou:

     - Então e porque foi que a alvejaram? Porque não me deixaram matá-la, se era isso que queriam?

     - Porque você nunca iria conseguir fazê-lo, por muito que tentasse. Porque as espalha-amor, meu caro, não conseguem ser mortas por pessoas que ainda mantêm intacta a dicotomia do espírito, pessoas capazes de sentir tanto alegria como tristeza, pessoas por vezes positivas e outras vezes mais negativas. – Fez uma pequena pausa, antes de rematar: – Pessoas como você, senhor Kotes.

     O homem estremeceu ao ouvir novamente o seu nome. O seu verdadeiro nome, não aquele que a gente da cidade havia inventado para ele. Henry Kotes – o “velho assassino de Sta. Helena”, como era hoje conhecido, embora nada tivesse sido provado.

     - Como eu? Acha que eu ainda tenho alguma réstia de alegria e de pensamentos positivos dentro de mim? – Questionou, ironicamente.

     - Muito poucos, mas tem. Acredite! Aliás, foi por isso que nós aqui viemos, para o ajudar a expulsar essa réstia de bondade e a tornar-se num de nós. Apanhar uma espalha-amor foi apenas um bónus. – Explicou o ciclista.

     - E quem são vocês?

     - Nós? Bem, Sr. Kotes… Nós somos o exacto oposto da menina Susanne.

 

(Próximo capítulo: Vasco Barcelos)

Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. III

     "É a ultima vez que dou ouvidos a alguém.", pensou a mulher. "Maldito lugar."

     Ainda há menos de 6 meses tinha estado perto daquela falésia, sem saber para onde ir nem o que fazer. A sua vida era um vazio impossível de sustentar, já não lhe restavam amigos nem família; aquele lugar parecia tão bom como qualquer outro para fazer o que tinha a fazer. Estivera mais de uma hora a contemplar a vista e a pensar na eficácia da queda que se apresentava à sua frente. Diziam que naquele exacto lugar houvera um laboratório nos anos 50 e, embora este tivesse sido fechado há décadas e não houvesse qualquer vestígio de um edifício ali, pouca gente se aproximava da plataforma. Aliás, era a primeira vez que via alguém desde o seu encontro com a mulher misteriosa.

     Regressou ao presente quando o homem tentou levantá-la acima da cabeça mais uma vez, mas a sua recente força não lhe parecia servir de muito agora. Os seus olhos cruzaram-se com os da mulher, e ele parecia agora mais confuso do que furioso. Largou-a mesmo à beira da falésia e não realizou qualquer outra acção, esperando que fosse a mulher a falar. Mas esta parecia não estar lá. A sua passividade irritava-o mas, sem saber porquê, sentia-se compelido a aguardar uma explicação.
 
     Há tantos meses atrás, a vida da mulher havia mudado, mas lembrava-se dos acontecimentos diariamente. Tinha estado focada no horizonte, a contemplar a vida que levara até ali. A presença daquela estranha incomodava-a.
     - Que fazes aqui? Aconselhava um sítio mais seguro para passear, menina - a mulher falava com um sorriso de uma avó carinhosa na cara.
     - O que quiser. Ponha-se a andar, você! - A frieza não pareceu convencer a mulherzinha a afastar-se.
     - Como te chamas, querida?
     - Susanne. Já pode ir agora?
     - Susanne... deves ter alguém preocupado contigo neste exacto momento... acho que és tu quem devia ir.
     Um leve sorriso cresceu na cara da mulher mais jovem. Mas sorria apenas pela ironia da suposição. Ninguém a esperava em casa, e ainda bem. Dois dos seus namorados haviam falecido nos últimos dois anos, ambos os seus pais foram vítimas de um acidente de viação e a sua irmã desaparecera desde Abril. Susanne era a má sorte ambulante e nenhum sucesso profissional fora alguma vez suficiente para dar importância à sua vida. Não podia aproximar-se de ninguém sem ter a sensação de que lhe estragaria a vida, de uma maneira ou outra. 
     - Não há nada nem ninguém para mim aqui - Disse, num tom calmo. - Ajudo mais se não estiver cá. 
     A pequena senhora estava três metros mais perto quando voltou a olhar para Susanne. Agarrou a sua mão direita e olhou-a directamente nos olhos.
   - Podes sempre tentar, só mais uma vez - Disse, entre um sorriso aberto. - Acredita em mim, não há cá sorte nem azar, estas coisas mudam quando menos esperamos. O truque está em não desistir. O universo dá sempre alguma coisa a quem tem a paciência de esperar e a vontade de procurar.
     A mulher não disse mais e afastou-se. "Que estúpida," - pensou Susanne - "pensava que aquelas palavras iriam dissuadir alguém de fazer seja o que for? Não é qualquer cliché que vai mudar a minha vida!". E, no entanto, viu-se a afastar-se do lugar. Olhou para trás e já não viu ninguém. Ao afastar-se do penhasco, fugia também da negatividade que a levara até ali. Pensou que nada podia mudar a sua sorte por magia, era ela própria que não se podia conformar com as cartas que o universo lhe deu.
     Nos meses que se seguiram Susanne não fugiu das pessoas, antes pelo contrário: todo e qualquer problema dos que a rodeavam era o seu problema. A sua dedicação para fugir das dificuldades foi reaproveitada para oferecer tudo o que podia para ajudar os outros. Ela era agora incapaz de ignorar alguém em sofrimento, fosse essa pessoa conhecida ou estranha. E, tal como a estranha senhora fizera com ela, parecia que todos ouviam o que tinha a dizer. Era como se fosse uma super-heroína e o seu super-poder consistisse em fazer os outros ouvir a razão.
     Mas naquela manhã calorosa, algo não estava a funcionar bem. O homem não queria ouvi-la, queria matá-la. Estava pronta para convencer esta pobre alma a contar-lhe tudo. Quem era e o que estava exactamente ali a fazer.
     E era o que o homem lhe teria dito, não fosse pela interrupção dos dois ciclistas que apareceram por detrás deles.
 

(Próximo capítulo: (Exmo.) Diogo Ourique)

 

Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. II

     - O que é que me está a acontecer? O QUE É QUE ME FIZESTE?! – Gritou o homem, assustado. A sua voz estava agora mais forte, mais sonante. Na sua cara, as imensas brechas que anteriormente simbolizavam as dezenas de anos que já levava na bagagem começavam a dissipar-se. Parecia estar a rejuvenescer.

     - Eu não... Só tentei ajudar, mas… – tentou explicar a rapariga. Também ela estava assustada, sem conseguir manter um fluxo de pensamento coeso.

     O antigo velhote, que agora aparentava ser um homem na casa dos quarenta anos – não mais do que isso – estava a redescobrir a sua mobilidade ao nível nas pernas. Levantava ora uma, ora outra, parecendo estar a marchar sem nunca sair do sítio. Avaliou o resto do seu físico – incluindo a sua masculinidade, claro – e puxou alguns dos seus agora mais bastos e escurecidos fios de cabelo.

     - Quem é você, afinal?! – Perguntou ele, quando se voltou a lembrar de que não estava sozinho.

     - Eu sou… Bem, isso não interessa, agora. Você está bem? – Perguntou a mulher, ainda meio confusa.

     - Se estou bem?! Minha cara, não podia estar melhor! – O medo já se tinha dissipado em grande parte, e dava agora lugar ao entusiasmo puro de um miúdo que acabara de receber uma consola de jogos pelo Natal. – Olhe para isto!

     O homem deu um pontapé com toda a força na cadeira de rodas, para mostrar a sua força, e esta deslizou, ainda de lado, pela pouca encosta que ainda restava até cair do precipício. A mulher ainda fez uma investida para tentar resgatá-la, mas no fundo sabia que nunca iria chegar a tempo e por isso manteve-se sentada.

     - Deixa-a ir, pelos vistos já não vai ser necessária. – Disse ele num tom frio, mas algo divertido.

     Ficaram ambos, por alguns momentos, à espera de ouvir o “clanque” que a cadeira deveria fazer ao embater na superfície rochosa lá em baixo, mas a altura da falésia era tal que o som nunca lhes chegou.

     - Dificilmente voltamos a ver algum vestígio de alguma coisa que caia por ali abaixo, – adiantou o homem, como que a materializar através de palavras aquilo em que ambos estavam a pensar – por isso é que escolhi este sítio para as minhas… “experiências”, há muitos anos atrás.

     A mulher sentiu, de súbito, o seu corpo a ficar gelado, apesar do Sol abrasador. Aquelas palavras deixaram-na nervosa, como se viessem confirmar algo de que ela, no fundo, já suspeitava. Teriam todas as histórias que ouvira sobre aquele homem algum fundamento?

     - P-p-porque é que me está a dizer isso? – Gaguejou ela, começando finalmente a levantar-se do chão, muito devagar, com o intuito de sair dali pé ante pé, quase como se ele não a conseguisse ver.

     - Porque sei que isto não vai sair daqui. – Respondeu ele, e a firmeza da sua resposta provocou ainda mais calafrios na mulher. – Já percebi quem tu és! Não és a morte, não senhor… És uma representação física do meu passado, que veio para me atormentar.

     Ela não respondeu; parecia confusa. O homem continuou:

     - Há bocado falaste em Deus... Serás um anjo? Mas, mais importante do que isso: será que consegues voar?

     O quarentão ainda não tinha acabado esta última frase e já se dirigia a passo largo na direcção da mulher para a agarrar. Pegou nela pelos ombros, levantou-a do chão – o que até não era difícil, com a sua renovada força – e levou-a para a beira do precipício. Depois olhou-a nos olhos, porque queria apreciar a sua reacção quando a atirasse dali abaixo. Mas o que viu na cara dela, olhando de volta, fê-lo mudar de ideias.

     Acobardou-se, no fundo. E isso, eventualmente, iria custar-lhe caro.

 

(Próximo capítulo: Mr. Fro)

Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. I

     Dúvida e curiosidade coabitavam enquanto avançava, cautelosa, pelo estreito trilho de terra batida que se estendia por entre as silvas, com marcas de cadeira de rodas bem vincadas, em direcção ao homem na beira do penhasco. Uma aragem pegajosa varreu o ar, mas não ajudou em nada a dissipar um pouco do calor que se fazia sentir. O dia estava quente, como sempre, apesar de o Sol se esconder atrás de uma cortina de nuvens que conferiam um ar sombrio àquela manhã. A mulher chegou ao fim do trilho e entrou na pequena clareira ali formada.

     A olhar o precipício estava um homem de aspecto cansado e derrotado, na companhia de uma garrafa de whisky meio vazia, mantendo-se impávido na sua cadeira de rodas. O pouco cabelo que ainda apresentava caía-lhe branco e esparso abaixo das orelhas, deixando ver os rasgos que tinha na cara. O corpo, magro e frágil de todo o abuso sofrido e falta de cuidado, fazia prever que arrastar-se naquela cadeira não era tarefa fácil. Todo este conjunto fazia-o parecer mais velho do que aquilo que realmente era. 

     Com os pés a arrastar no chão, de forma a emitir ruído e não sobressaltar o homem, ela aproximou-se quase até seu lado. O homem permaneceu imóvel, sem tirar os olhos do mar à sua frente.

     - Tenho estado à tua espera. - A voz do homem saiu rouca, como se estivesse a falar pela primeira vez em muito tempo. A mulher olhou para ele com apreensão e sem saber o que responder. Segundos passaram, arrastados por mais uma aragem peganhenta.

     - O senhor não me esperava. Não sabe quem sou. - Soava viva e confiante, com os olhos a fazer transparecer um certo fascínio pela situação.

     O homem atirou a cabeça para trás e virou-a, lentamente, na direcção dela. - És a morte.

     Desta vez não houve tempo para o silêncio se instalar, a mulher soltou um audível "ah" e virou-se na direcção do trilho de terra batida, pronta a ir embora. Deu dois passos em frente e hesitou. Voltou atrás, ficando, de novo, a olhar a expressão intrépida do homem. Notava-se nela uma curiosidade cada vez maior e uma vontade desafiante de responder à altura.

     - Por muito que gostasse de ter um título oficial tão pomposo quanto esse, não me parece que seja a mim que espera. - O homem sorriu ao ouvir esta resposta, com as cicatrizes na sua cara a montar o seu próprio espectáculo. Os olhos brilhavam, naquilo que parecia ser a primeira vez, com entusiasmo verdadeiro pela conversa que se fazia prever.

     - O que fazes aqui, então? - disse ele.

     A mulher usou o pé para varrer o chão ao pé da cadeira de rodas e sentou-se cruzando as pernas. - Todas as manhãs saio de casa e desço a rua. Passo pelo pequeno café que fica no canto onde se reúnem os pescadores depois de concluírem os seus negócios diários e sigo até ao pequeno porto que dá acesso ao calçadão. Faço um pequeno aquecimento e começo a correr. Todas as manhãs, durante uma hora. E de todas as vezes, sempre que passo pela pequena entrada no muro que dá acesso ao trilho de terra batida, consigo vê-lo, aqui, nesta clareira, sozinho. Durante essa hora, passo por ali uma média de cinco vezes, e em todas elas pergunto-me porquê. Porque é que está aqui, o que está aqui a fazer? Porque é que está sempre sozinho? - Parou de falar por um momento e encarou o homem.  - Não sei... hoje decidi parar. E vir aqui. E saber esses porquês. E saber quem era.

     Com dificuldade, o homem manobrou a cadeira até ficar virado na direcção daquela mulher sentada no chão. Inclinou-se um pouco para a frente e pôs a garrafa no chão. Olhou para ela directamente e ela pôde notar, pela primeira vez, que apesar do sentimento de prazer e entusiasmo que emanava anteriormente, o olhar dele era frio e distante. 

     - Sabes bem quem eu sou. Toda a gente neste maldito lugar sabe. - Manteve o olhar fixo no dela, que depressa baixou os olhos para o chão.

     - E é mesmo tudo verdade? Tudo o que contam acerca de si? - Perguntou.

   - Tudo verdade. E, de certeza, que ainda muito fica por contar. - Voltou a manobrar a cadeira em direcção ao precipício à sua frente. 

     - Então porque é que está aqui? Se eu fosse a si, não voltava a este sítio.

     - Já lho disse, menina. Estou à espera da morte. E que melhor sítio para a encontrar, que aqui? - Disse ele, com uma pequena gargalhada abafada, seguida da tosse. - Todos os dias arrasto-me como posso, nesta maldita cadeira, até aqui. Todos os dias quero atirar-me daqui de cima e sentir algo que não dor.

     - Não pode fazer isso! - Levantou-se num pulo e pôs-se à frente da cadeira, agarrando-a. - A vida é preciosa, não interessa o que lhe aconteceu ou aquilo por que passou. Nada justifica que se mate. Deus deu-nos vida por uma razão, que de certeza não era para a podermos acabar por nossa vontade. Há muito mais por que viver.

     - Não me fales do que não sabes, mulher. - ripostou ele, afastando-a da frente com as mãos. - Nem me venhas falar no significado na vida. Além disso, já estou a morrer.

     - E não estamos todos, desde que nascemos?

     - A diferença é que eu sinto-o.

    Ficaram os dois a fitar-se por instantes, ela à procura de palavras que servissem para demover o homem de prosseguir com as suas intenções. - Se é assim, - disse ela, finalmente - se todos os dias fica aqui a pensar acabar com a sua vida, se sente isso tudo, porque é que nunca o fez? 

     - Já lhe disse, menina - falou o homem, com o tom de voz e o tratamento a voltar à forma inicial - O momento não era o indicado. Estava à sua espera.

     - Já lhe disse que não sou a morte.

    - Aí é que se engana, menina. - A mulher olhava para ele sem compreender o que ele estava a dizer - A morte só tem significado se for sentida. A morte só é real se for vivida por alguém. Só precisava que alguém parasse. Que alguém sentisse. Para mim, a menina é a morte. - Ao mesmo tempo que acabava de dizer estas palavras, o homem empurrou as rodas, fazendo a cadeira avançar a toda a velocidade que conseguia em direcção ao precipício à sua frente. 

    Ela demorou a reagir, mostrava-se abalada pelas palavras dele e quando avançou para travar a sua investida foi tarde. Foi a correr atrás da cadeira e lançou-se contra ela. Sentiu o corpo a bater na estrutura metálica e ouviu barulho de algo a cair, mas recusou-se a olhar. Mantinha-se prostrada no chão, da forma como tinha caído, até que ouviu a voz do homem.

    - Merda! Merda, merda, merda! Porquê? Porque é que interferiste? - Ela ganhou coragem e levantou os olhos. À sua frente estava o homem, fora da cadeira e caído no chão ainda a alguma distância daquilo que teria sido uma queda fatal. O esgar de raiva presente na sua cara era perceptível por entre as lágrimas. 

    A mulher levantou-se, tinha-se magoado no braço, mas nada que merecesse atenção. Ia ao encontro da cadeira de rodas para levá-la ao homem e ajudá-lo a voltar para ela, quando o movimento dele lhe fez deter o passo. Um olhar de incredulidade tomou-lhe conta do rosto ao ver o homem a erguer-se, com espanto e confusão, lentamente, nas suas duas pernas.

 

(Próximo capítulo(Exmo.) Diogo Ourique)