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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. II

     Sonhava. Com os campos, com a terra fresca, com a neblina matinal que gelava os ossos e humedecia as enxadas; sonhava com o sol do meio-dia e a brisa que lhe secava o suor quando se recostava numa faia. Sempre sonhara apenas com o que conhecia, pois imaginação era uma das coisas que também nunca tinha tido e a sua visão do mundo sempre fora ordinária e restrita ao que o rodeava.

    Entretanto, apercebeu-se que não sonhava, mas que lembrava. O cérebro convalescia em memórias enquanto se mantinha num estado de subconsciência. A cacofonia que ouvia era a orquestra de enfermeiros e médicos, o tilintar de pequenos objectos de metal; sentia o frio nas costas e uma dor na perna. Ou onde devia estar uma perna, já não tinha a certeza de nada. Não sabia quanto tempo passara, onde se encontrava, ou o que estava a acontecer exactamente, mantinha-se naquele limbo existencial entre memórias e presente.

     Uma vez tinham-lhe dito que antes de morrer toda a vida nos passava pelos olhos em imagens. Luís nunca ligou nenhuma a essa informação, mas agora pensava se não seria isso que estava a acontecer. Estaria ele a ver o filme da sua vida, o presente de despedida que Deus nos confere? Não tinha vontade de viver nem de morrer, não tinha vontade de nada. Sempre aceitara que viveria enquanto tivesse que ser e morreria quando chegasse a hora. Entregou-se às memórias que continuavam a mostrar-se e abandonou a pequena noção que tinha recuperado do mundo real.

     Via coisas que não sabia que estavam guardadas na sua mente, via coisas das quais se lembrava de maneira diferente. A realidade não é tudo o que parece e as certezas da memória não passam de percepção, mas Luís não o compreendia totalmente. Só estava contente por se ver criança a correr.

     Em consciência não se lembrava de tudo o que agora revia, mas era assim que as coisas tinham sido. Era o que lhe diziam as memórias agora desbloqueadas. Reviu o dia em que faleceu o pai. O dia em que, com os seus tenros catorze anos, saiu pela alvorada para lavrar a terra, naquele que seria o primeiro dia do resto da sua vida. Nunca mais tinha pensado nisso desde que aconteceu. Parecia tudo novo, seria possível ter revelações sobre as próprias vivências? Ao fim da manhã, meras horas após a terra ter assentado em volta do caixão do pai, parou para merendar. Sentado ao abrigo de uma faia, não ouvia vivalma. Foi, por isso, com surpresa que notou no homem a aproximar-se dele, que se prostrou à sua frente tapando o sol. Como podia ter esquecido aquele homem e a involuntária inquietação que ele o fez sentir?

     Por embaraço, ou cautela, não tinha dito muito, limitando-se a responder. A vida não é mais que isto, dizia-lhe o homem, que só a terra provia. Desde que continuasse nos seus afazeres, que se dedicasse à terra, nada lhe faltaria. As couves seriam sempre verdes e as batatas não faltariam, era uma garantia pessoal. Era só o que preocupava Luís naquela altura e ali estava um estranho a assegurar que desde que se mantivesse focado na terra, viveria com sustento e sem preocupação. Isso e apertar-lhe a mão, dizia o homem, assegurava essa fertilidade e futuro. E trabalho, sempre muito trabalho. Da escravidão do trabalho não se safava, como o pai tinha feito, disse-lhe o homem, era uma troca justa, acrescentou. Luís não percebia, mas certo é que apertou a mão ao homem. Fitou os seus olhos amarelos enquanto o fazia, ardentes, ansiou por recolher a mão que fervia, mas não conseguia desviar o olhar. No final, venho buscar-te, bocado a bocado, disse o homem.

     Luís abriu os olhos numa ânsia sôfrega, zonzo e com a mão a escaldar. Notou que estava amarrado à cama.

 

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. I

     Luís Fagundes nunca teve filhos. Também nunca teve uma família, nem sequer uma casa. Luís Fagundes, bem vistas as coisas, nunca teve nada. Agora, naquele lar para onde tinha sido transportado após a morte da irmã, também não tinha uma perna. Pelo menos já não a sentia. Aparentemente, iam cortá-la por causa de uma doença qualquer que Luís mal sabia o que era, mas que lhe diziam que tinha. E ele, como sempre fora uma pessoa conformada, anuía. Mas talvez não o tivesse feito se soubesse que, como consequência, lhe iriam retirar um dos seus quatro instrumentos de trabalho – os seus membros.

     Toda a vida Luís tinha trabalhado a terra. Tinha sido o seu único sustento e contribuição (embora mínima) para a casa da irmã e do marido dela, onde sempre residira após a morte dos pais. Apesar de tudo, não era um inquilino especialmente incomodativo. De manhã à noite, tendo o cuidado de levar algumas merendas consigo para não ter de ter o trabalho desnecessário de parar de trabalhar, ficava nos campos e plantava um pouco de tudo, mas com especial destaque para as batatas.

     Ninguém sabe bem o porquê de Luís não ter dado um pontapé mais a fundo na sua própria vida – nem sequer o próprio. Mas, ao que tudo levava a crer, tinha sido feliz de enxada na mão e em longas conversas com os outros homens da freguesia num banquinho que havia no adro da igreja. Ali, falava-se principalmente de agricultura – pelo menos quando passava alguém, porque toda a gente sabe que os homens falam de muita coisa quando estão sozinhos.

     No entanto, cavar a terra ao pé-coxinho ainda não é, nos tempos de hoje, factível. Existem demasiadas condicionantes; e Luís, embora tivesse alguns indícios de demência e estivesse ainda meio zonzo por causa da medicação, sabia-o.

     Começou a chorar, mas sem derramar qualquer lágrima. Habituara-se a chorar para si mesmo ao longo de toda a vida. Era capaz de entrar e sair de um longo estado de depressão sem alguém notar, mesmo a família, até porque nada disso alguma vez o impedira de continuar a trabalhar e a seguir com a sua vida.

     A sua auto-comiseração foi interrompida por uma das enfermeiras que costumava visitá-lo. Não era bonita nem feia, mas Luís também nunca tinha tido grande apreço por essas questões de beleza. Só tinha tido uma namorada e não durara muito tempo, até porque fora naquela altura em que pouco tempo de namoro não dava direito a muitas trocas afectivas – não como hoje em dia, achava ele.

     A enfermeira pediu para entrar e, ao olhar para a cama de Luís, deu um grito. Apressou-se a pedir ajuda na direcção geral do corredor e a lançar-se para o armário das toalhas. Luís só teve tempo de a ver despejar uma grande quantidade de toalhas brancas em cima da cama que, ao serem levantadas, tornavam-se avermelhadas. Não sabia o que se estava a passar, mas sentia-se cada vez mais zonzo; e já não tinha a certeza de ser da medicação.

     Adormeceu.

A página em branco

Ultimamente não tenho escrito muito, nem aqui nem só para mim. Tal facto não incomoda ninguém a não ser eu próprio, porque gosto de o fazer. Podia listar um sem número de razões para ter acontecido isto, mas a verdade é que a culpada acaba por ser só a preguiça. O que não deixa de ser um contra-senso, pois é algo que me traz satisfação e prazer, algo que estimo. Mas, como em imensas destas situações, mesmo que seja algo que queira muito fazer, acabo por deixar passar por preguiça de começar.

 

Claro que o tempo, ou falta dele, é sempre um factor, mas não é desculpa neste caso. Podiam haver outras razões, como o famigerado medo da página em branco. 

Contudo, ideias não me faltam. Não é para me gabar, mas tenho uma enorme quantidade de ideias de coisas para escrever. Nenhuma delas boa e que valha a pena, tal como na maioria das vezes; mas elas existem e não é um problema. E mesmo que não tivesse, era isso que me ia impedir? Quem já leu algo do que aqui publiquei pode atestar que não.

 

Outra coisa tem a ver com esta noção: o medo da página em branco. A página em branco não assusta, aliás, só pode reconfortar, dar segurança...

A página em branco não pode magoar ninguém, não ofende ninguém, não choca ninguém. Enquanto a página estiver vazia, nada acontece, ninguém gosta e ninguém odeia. A página em branco é sem opinião e sem visão, não é um princípio e é sem fim. A página em branco é segurança, porque é sem risco. Enquanto não se fizer nada, nada acontece. A página em branco é sem identidade; é uma não existência e o que não existe não assusta, não pode influenciar nada, não provoca reacção nenhuma e isso é sempre seguro. 

A única altura em que uma página em branco podia assustar seria se chegasse ao supermercado e a lista de compras estivesse em branco e eu ficasse sem saber o que me faltava. Ou se estivesse a fazer uma lista de pessoas que me são queridas e a página permanecesse em branco. Ou se fosse indicado como suspeito num caso de homicídio e a única prova que tivesse para atestar o meu álibi fosse um qualquer documento que, de repente, estava em branco. Isto seriam situações em que compreenderia o medo da página em branco, porque de resto, não nos pode tocar, por isso não há que ter medo, certo?

 

Ou então assusta, mas não por si mesma: por ser uma representação do nosso estado interior, do vazio que nos assola, da falta de identidade e visão, da falta de um princípio, da falta de coragem ou propósito, de um outro medo maior; o de arriscar e falhar. A página em branco é uma lembrança constante do que não temos, do que falta, da extrema segurança e monotonia que se disfarça de conforto, uma constante visual da estagnação.

 

A página escrita, essa, é que assusta. Aí é que está o perigo, as opiniões, os gostos, as ideias, as emoções. A página escrita é que pode ameaçar ou reconfortar, fazer nascer ou quebrar, inspirar e admirar ou delirar. Na página escrita é que há vida em cada palavra, é que provoca reacções, é que existe a possibilidade de ser horrível. É que pode desiludir e fazer cair, ofender e deitar tudo a perder, mas é também ela que conquista. É onde existe o risco, que tem de ser encarado e aceite. É uma queda livre sem saber se o pára-quedas se abre.

 

Sim, a página escrita é que assusta, é a única que tem consequências. 

É aí que está o medo.

Mas o medo é bom. O medo é necessário. O medo é vida. Vai sempre existir.

Uma página em branco não é ameaça, quanto muito é mordaça e, nesse caso, assustaria.

A página em branco é um limbo existencial, não há consequências. Nem positivas nem negativas.

Antes arriscar. Antes ficar assustado. Porque é a página escrita que faz o coração bater mais depressa, é ela que tem algum significado. Não se assustem com uma página em branco: é inofensiva. Preencham-na com palavras e sintam o que houver para sentir. 

 

Apontamentos de sabedoria

Eu sou uma pessoa muito sábia, e tanta sabedoria não pode ser contida; tem de ser armazenada para dar espaço a nova sabedoria. É por isso que vou tirando várias notas.

 

Ora, eu sou muito bom a tomar nota de coisas. Sou rápido e eficaz, anotando apenas o essencial, mas com pormenor suficiente para me relembrar de tudo mais tarde. Pelo menos é isso que penso sempre que releio o que acabei de escrever. Por vezes questiono se o irei mesmo entender mais tarde, mas chego sempre à conclusão que sim. Invariavelmente, o que acaba por acontecer é eu não perceber um corno do que escrevi. Por todas as vezes que já me aconteceu tal coisa, eu ainda não aprendi que no momento ache que vou entender aquilo posteriormente porque acabei de o escrever; logo, ainda tenho o conteúdo na cabeça e só por isso é que consigo descortinar aqueles gatafunhos que tento passar por letras e palavras. Podem passar apenas cinco minutos e já não sou capaz de o perceber, porque aí já fui invadido por uma catrefada de outros pensamentos que me fazem não ser capaz de recordar o que pensei antes. E depois já não consigo ler o que lá está. Às vezes também acontece, após muito esforço e dedicação, desvendar o mistério que escondem os meus rabiscos, mas isso acarreta outro problema. É aquilo não me servir de nada. Não me recordar em que contexto é que tive aquele pensamento/ideia, e ficar atónito com aquilo que lá está.

 

Ou é uma lista de compras ou a a descrição da cura para o cancro...

 

O que retirei de todas estas conclusões é que afinal não sou muito bom a tomar notas. Podia incluir algum tipo de contexto, para quando voltasse àquela ideia saber exactamente o que queria? Podia, mas assim não era desafio nenhum.

Com isto tudo, passei a tomar nota de todas as coisas no telemóvel. Resolvi logo um dos problemas: consigo perceber tudo o que escrevo. No entanto, o problema de isso não adiantar nada mantém-se, porque continuo sem explicar muito mais ou incluir algum contexto.

 

Aventurando-me pelas notas armazenadas no meu telemóvel (só uma pequeníssima amostra das mais recentes), podem encontrar-se coisas do género:

 

17:12; 17:28; 17:46; 17:59 – Pronto, esta é simples: é claro que isto são horas. Algum intervalo de tempo para alguma coisa, ou algo parecido. Pelo menos é o que penso, porque não sei. Os meus conhecimentos sobre isto são tantos como os vossos. Sei é que isto está anotado e que nunca recorri a esta informação, talvez porque não faça ideia o que seja. Podem ser as horas que vi alguém a entrar e sair de um prédio que serve de abrigo a um negócio de prostituição animal? Pode, mas eu não me lembro de estar a fazer trabalho de detective privado, nem penso que negócios de prostituição animal existam;

 

Se os homens engravidassem, todos os partos teriam de ser por cesariana – Esta é muito fácil de perceber. É pura capacidade de observação. E foi registada às 4:13, uma excelente hora para quem procura abordar cenários hipotéticos de forma muito prática;

 

Eu odeio gente feliz – Esta também é muito clara na mensagem que transmite. À partida, claro, porque as minhas notas não são assim tão simplistas. São sempre parte de algo mais, ser apenas só uma afirmação é algo redutor. É sempre uma ideia ou um conceito, algo para me lançar para algo. Qual é essa ideia a explorar e extrapolar daqui? Não faço ideia. Não me lembro de nada. Se calhar só odeio gente feliz e precisava de um apontamento para mo relembrar;

 

“Posso pedir-lhe 30 segundos da sua simpatia?”

“Desculpe, mas não. Só disponho de cerca de 1 min de simpatia por dia e já gastei a maior parte a comer uma sandes de frango com a boca fechada” – Sim, isto é toda uma nota que tenho para aqui guardada. Porquê?;

 

Uma espécie de dilema tipo do ovo e da galinha: Inventou-se primeiro os edifícios altos ou o elevador? – É que isto é tão estúpido que eu já nem…;

 

A quem se confessa o papa? – Ok, esta é interessante…;

 

“Foi uma decisão pouco unânime” O que é “pouco unânime?” Ou é ou não é. – Eu não sei de onde surgiu esta minha exaltação nem o porquê de a ter anotado, mas eu disse-vos que era muito sábio;

 

Começar uma briga.

Encontrar uma mulher morta num carro. – Ok, para começar deixem-me dizer que isto não é uma To Do List; espero eu. Ou se calhar era, num dia em que estava mais aborrecido e queria ver se criava algum entretenimento. Ou uma versão alternativa das coisas que gostava de fazer até aos 30 anos;

 

Um problema é um problema e outro problema é outro problema – Pura sabedoria.

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. IV

     - Vai pela sombra! – disse Afonso ao enfermeiro. Seriam as últimas palavras que trocariam um com o outro, e ambos sabiam disso; embora não pela razão correcta.

     Já era tarde. Bastante tarde, aliás, para um homem de quase sessenta anos. Leonor deveria estar preocupadíssima com ele, com o seu papá, como o homem que lhe servia tanto de saco de boxe como de Muro das Lamentações pueris, próprias da idade. Mas tinha de fazer o que fez, não havia volta a dar. Já tinha esperado demasiados anos. A coragem ia-lhe e vinha-lhe, como o oxigénio nos seus já cansados pulmões. Se num dia achava que estava na altura de fazer alguma coisa em relação ao assunto, no outro já não era invadido pela mesma adrenalina da antecipação de se ver a cravar uma estaca no coração de Raquel, ou algum ritual do género que é próprio de se fazer aos monstros. Porque Raquel era um monstro, efectivamente, e Afonso sabia-o! Acreditava na sua condição mental de criança assustada, pois claro que sim, mas tinha para si que aquela era uma personagem criada pelo seu sentimento de culpa pelo que havia feito àquelas crianças; nas quais se incluía a sua irmã, Matilde Pureza.

     Matilde era a irmã mais velha de Afonso Pureza. Tinha estado no aglomerado de miúdos que tinha tudo para ser uma festa, mas que acabou por ser a maior tragédia da vida daquela pacata cidade. Futuros doutores, engenheiros, advogados e até empregados de limpeza e marceneiros não passavam agora de pequenos sacos de ossos no cemitério municipal. E Matilde era um desses saquinhos. A criança feliz e atenciosa que era, nunca tendo sequer dado a entender o mínimo sinal de desagrado quando nascera o seu irmãozinho mais novo, já não existia. Deixara de existir de repente, ainda Afonso aprendia a dar os primeiros e atrapalhados passos na Terra, a mesma que ainda dava abrigo a Raquel Adarga, embora ele não percebesse bem porquê. Achava que, depois do que ela fizera, Raquel deveria ter sido erradicada do próprio planeta.

     Mas tal não acontecera, e agora Afonso, um homem que valorizava a família acima de tudo e que tinha visto a sua ser desfeita pelas mãos de Raquel, queria exercer a sua cláusula de vingança, que achava existir desde que aquela assassina havia assinado um contrato com veneno. Mais do que isso: queria vingar-se também de todas aquelas pessoas que, durante anos, haviam dado guarida a Raquel Adarga. Daquele hospício onde tantas vezes tinha entrado com o objectivo de visitar Raquel, percebê-la a ela e o porquê de ter feito o que fez, mas de onde havia sido sempre barrado pelos adoradores fardados daquela assassina. Por isso, fizera o que fez. Ou o que Abel tinha começado, mas que ele iria terminar assim que apanhasse Raquel Adarga cá fora…

     Deixou Abel no sítio onde tinham combinado, longe do hospício e da confusão que ambos sabiam que se iria instalar, e seguiu viagem novamente. Não parava de pensar em Raquel. As rugas que via de ano a ano nos jornais atormentavam-lhe frequentemente os sonhos, punham-no doente no Inverno e mal-disposto no Verão. Poderia apenas esperar mais uns anos até que o velhinho corpo de Raquel Adarga cedesse, com o peso da idade? É claro que podia, e nem tinha de se chatear. Só que não sabia quantos anos de idade ainda restavam àquele monstro, e achava que ele não merecia ter o privilégio de morrer de velhice. Era uma questão de justiça!

     Arrancou novamente na direcção do hospício, mas deu a volta por trás a alguns quarteirões de distância. Não queria, de todo, envolver-se a si nem ao Opel Corsa alugado a não ser que tivesse mesmo de ser; a não ser que fosse procurado após matar o corpo e a alma – as duas almas, aliás – de Raquel Adarga.

     Estacionou o carro a uma distância considerável do edifício e saiu para a rua. O ar estava pesado e húmido, mas corria uma leve brisa que provocava as folhas das árvores ao longo da rua. Deu por isso que se tinha esquecido de uma coisa importante – muito importante – e voltou a entrar no carro para retirar a pistola de dentro do porta-luvas. Deixou ficar o coldre, porque assim era mais fácil escondê-la por entre a roupa caso desse de caras com alguém.

     Voltou a sair do carro. Desta vez, já tinha tudo consigo, incluindo a pequena lanterna que trazia sempre no porta-chaves, embora nunca lhe tivesse dado uso. Agora, aquele pequeno aparelho ia ter uma estreia em grande! Foi-se afastando do Opel enquanto olhava em volta, para se assegurar de que não era visto, e reparou que a rua estava deserta. Talvez demasiado deserta, mas isso podia ser impressão sua e do seu crescente estado de ansiedade; afinal, já era tarde para haver transeuntes. Percorreu as ruas silenciosas como um monge percorre os claustros do seu mosteiro. Reflectiu como um monge, também, embora estivesse certo de que um religioso que tivesse os pensamentos macabros, vingativos e angustiantes que ele havia tido nos últimos tempos não podia ser lá muito bom religioso.

     Enquanto percorria a terceira rua que lhe faltava para chegar até ao emaranhado de vegetação que ficava nas traseiras do Hospício Padre Cabral Correia, e que desconfiava ter sido o sítio para onde uma assustada Raquel Adarga se tinha dirigido, Afonso olhou em frente e estremeceu. O que viu, uma figura negra e oscilante que parecia mover-se ao sabor do vento – embora a brisa nocturna soprasse na direcção contrária –, fê-lo deter-se quase instantaneamente, como um animal que não quer alertar o seu predador para a sua presença. A sombra foi-se tornando gradualmente mais pequena e Afonso percebeu porquê: não estava a diminuir em tamanho, estava era cada vez mais longe. Parecia subir a colina que dava para o bosque, levitando um pouco acima do solo mas nunca a mais de um metro. Era como ver uma pequena nuvem, carregadíssima de más e chuvosas intenções, a percorrer um pequeno trilho pedestre a vinte quilómetros por hora. Só quando deixou de ver aquela pseudo-entidade por completo, e teve tempo suficiente para garantir a si próprio que afinal não vira nada e que aquilo não passava de um jogo de sombras nocturnas provocado pelo perverso sentido de humor do acaso, é que resolveu retomar o seu caminho, com o seu estado de ansiedade um pouco mais aguçado.

     De repente, começou a ouvir, cada vez mais próximo, o barulho de sirenes. Várias sirenes. Depois, muitas sirenes! O pânico abriu de rompante a porta que separava o seu cérebro da irracionalidade e começou a correr a toda a velocidade – ou ao máximo de velocidade que conseguia, com a sua idade – na direcção do bosque.

     “Os filhos da puta descobriram-me! O sacana do enfermeiro desbocou-se!”, pensou Afonso. Só que, enquanto corria, percebeu que deixava cada vez mais para trás o barulho das sirenes. Virou-se para trás e viu – juntamente com as portas e janelas das várias casas que se iam abrindo para que os seus inquilinos pudessem tentar perceber o que se passava – que as luzes azuis e vermelhas tinham parado, não nas traseiras do hospício onde ele se encontrava, mas na porta da frente. A silhueta escura do edifício fantasmagórico recortava os clarões bicolores e de alternação rápida que brilhavam no céu, como um grupo de faróis sob o efeito acelerador de anfetaminas.

     Virou-se novamente, enfrentando a escuridão da vegetação que se estendia à sua frente e que contrastava com o cenário que se perfilava nas suas costas, e voltou a caminhar naquela direcção. Estava certo de que todo aquele aparato de homens fardados estava à procura dele – dele e de Raquel Adarga, caso ela já tivesse escapado –, só deviam era estar a procurar no sítio errado.

 

***

 

     Leonor estava ofegante, mas não tanto como Luís. Apesar do seu aspecto relativamente jovem, o avançar da idade do psiquiatra já não lhe dava muitas mais benesses. Se bem que a culpa não era inteiramente dele. A encosta do bosque começava algo ligeira, mas tornava-se mais e mais íngreme à medida que se ia subindo. Principalmente ao passo apressado em que subiam ambos. À sua volta, as árvores abanavam ligeiramente como se estivessem a dançar um slow, e Leonor sentia-se quase enojada por estar agora a consumir a largos goles o mesmo ar putrefacto que ainda há bocado, no carro de Luís, a tinha impedido de abrir a janela.

     O ar pesado, suportado pelo ambiente também pesado em que se encontravam e apenas pontuado pelos seus passos, pelo agitar das folhas ou pelo lamento de algum pássaro nocturno mais desassossegado, foi cortado pelo som da voz ofegante de Luís:

     - L-liga a tua lanterna, se fazes o favor. – pediu o médico a Leonor, fazendo o mesmo com o seu aparelho. – O caminho só vai ficar mais escuro a partir daqui.

     Tinha razão. Tendo ambos estado, até então, relativamente iluminados pela luz das sirenes e do burburinho popular que se instalara à volta do hospício – e não querendo atrair as atenções de toda essa gente para dois pontos brilhantes no meio da vegetação que costumava estar embrulhada na penumbra –, era agora altura de aclararem o seu percurso recorrendo aos seus próprios meios.

     Com as duas lanternas em riste, e os kits de primeiros-socorros às costas, Luís e Leonor pareciam dois pequenos escuteiros perdidos numa floresta. Percorreram enquanto puderam o caminho de ervas secas que ainda parecia existir no chão, apesar do grave estado de abandono em que se encontrava o bosque. Quando o trilho desapareceu e as ervas voltaram a esverdear, andaram mais alguns minutos naquela direcção à espera de finalmente encontrar algo.

     E encontraram. Leonor julgava já ter visto aquelas calças de ganga bege em algum lugar. Também pensava estar relativamente familiarizada com aquele pólo azul-escuro. Mas só quando viu os poucos cabelos eriçados na parte de trás da cabeça daquele indivíduo é que percebeu quem se tratava:

     - Pai! – gritou a jovem, dilacerando o silêncio que teimava em fazer-se ouvir. Correu para aquela figura deitada no chão e Luís seguiu-a, olhando em volta. O silêncio podia já não existir por completo, mas a penumbra, toda aquela que não era iluminada pelas suas lanternas, mantinha-se.

     A poça de sangue que contornava o chão à volta da cabeça de Afonso não fazia prever boa coisa, mas, mesmo assim, Leonor virou-o e, mais uma vez, os seus gritos – agora quase de desespero – inundaram aquele tenebroso lugar. Quando Luís se aproximou e conseguiu ver o mesmo cenário que Leonor, não conseguiu evitar fazer uma careta de repulsa. A cara daquele corpo, fora ela qual fosse, tinha sido cavada da própria cabeça como se por uma concha de gelado gigante, existindo agora apenas um buraco côncavo no seu lugar. A metade do cérebro que restara ainda estava teimosamente colada ao crânio, cujos ossos mal eram visíveis no meio de tanto sangue, ainda fresco.

     Enquanto Leonor gritava e chorava, de raiva e de dor, de confusão e de desespero, agarrada àquele corpo, Luís arrependia-se de tudo aquilo, mas já tentava retirar algumas conclusões. “Quem fez isto não deve andar muito longe”, pensou. Depois, agarrou com força o farrapo de ser humano em que estava transformada a sua mais recente estagiária e tentou consolá-la o máximo que podia, naquelas circunstâncias.

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. III

    Leonor lutava contra a informação que lhe avassalava o cérebro. Quase nem se conseguia concentrar com o martelar do seu ritmo cardíaco que lhe dilacerava os ouvidos, vívido de forma invulgar, tão forte que sentia a cabeça dilatar e a garganta a aferrolhar. Queria acreditar que era uma partida, uma praxe de alguma forma. Meterem-se com a estagiária, afugentarem a inocência que nela podia residir. Iriam todos rir-se deste acontecimento anos mais tarde. Leonor via-se a contar esta história no primeiro dia do novo semestre aos amigos enquanto trocavam impressões acerca do Verão e das suas primeiras experiências e contactos com o mundo de trabalho; deu por si a relatar aquela noite num primeiro encontro, para quebrar o gelo; a partilhar histórias dos tempos de estudante, enquanto socializava numa qualquer conferência médica; recontar aquela experiência anos mais tarde, como sendo uma inspiração que lhe fez focar estudos num certo fenómeno, no início do seu discurso sobre uma importante descoberta científica que ajudara a alcançar; como um momento de humor no meio da sua história de vida, partilhado durante uma conversa com alunos de medicina na sua antiga universidade num qualquer evento em que seria convidada. Aquela história de que os filhos se iam fartar e os netos ansiar ouvir repetidamente.

    Não era nenhuma partida, infelizmente. Sabia, sentia, que o que Luís lhe contara após tê-la arrancado do conforto uterino do lar era a verdade. Sentia-o através do ar que lhe era difícil inspirar dado a sua garganta virtualmente fechada pelo horror que lhe fora relatado. Este tipo de coisas acontecia nos filmes, não na realidade. Não a ela, ou na sua proximidade. Mas lá estava ele, aquele sentimento de inevitabilidade, escoltado pelo apregoar do seu coração, manifestação física do nervosismo que lhe assolava e lhe dizia que não haveria filhos ou netos, conferências e grandes descobertas. Não, aquela noite estava apenas a começar e Leonor já a queria esquecer.

    O carro resvalava, vibrante, pelas ruas da cidade, lançado em direcção do hospício. O peso da grande bigorna da existência fez Leonor soluçar à procura de oxigénio. Absorveu todo o ónus que o ar carregava, e, de pulmões cheios, abordou o que andara a censurar na sua mente.

     – Fui eu? Foi por causa de mim qu…

     – Não, nada disso – cortou Luís. – Mas tenho as minhas suspeitas.

    – Suspeitas? Mas acha que foi propositado? – Perguntou Leonor, de olhar arrebitado.

    – Tenho a certeza – respondeu ele, dando uma guinada ao volante e enveredando por uma ruela apertada. – Disso não tenha dúvidas, Leonor. Alguém destrancou a porta propositadamente. Alguém queria que Raquel Adarga saísse daquele quarto. Como e porquê, não sei.

    Leonor desviou o olhar. Observou, pensativa, enquanto o contorno dos prédios ia arquitectando o horizonte atrás deles. Luís conduzia com a urgência que a situação parecia requerer, mas Leonor ainda não percebera que peça era ela neste intrincado tabuleiro. 

     As suas mãos irrequietas percorreram a porta e encontraram a pequena protuberância que faria descer o vidro, caso pressionada. Leonor pensou em abrir a janela, o café com leite saltitava-lhe no estômago e não pediria licença para se ausentar de lá. Acabou por não fazer nada, pensou que iria conseguir cheirar a chacina, saborear o seu sangue; achou que não aguentava o putrefacto vento daquela noite. O corpo pressionava agora a porta do carro, como que numa reacção fisiológica de fuga. Não tinha nada a ver com isto, era só uma estagiária. Só uma estudante. Só queria estar em casa, partilhar as suas experiências com o pai e perder-se na minúcia própria da sua juventude; ainda mal era adulta, apesar da sua atitude.

     Este ar de insegurança foi notório para Luís que se apercebeu, talvez pela primeira vez, que Leonor ainda não passava de uma adolescente. Por mais despachada e confiante que fosse, por mais adulta que agisse, e que se estava a tornar, Leonor era uma miúda assustada e atirada sem arma nem escudo para o meio desta arena em que os leões dominavam.

    – Desculpa, Leonor – disse Luís. – Eu não te devia ter envolvido nisto. Não é nada contigo, muito menos aquilo que te peço para fazeres. É só porque… – Luís hesitava por continuar – Nada. Vou levar-te de volta a casa.

    – Não – balbuciou Leonor. – Eu quero ajudar. Eu só… Eu só não compreendo. E devíamos era ir à polícia, falar com eles. Eles é que têm de ajudar… eu não compreendo, olhei-lhe nos olhos. Eu vi o que ela era. Não acredito… não consigo…

    O telemóvel de Luís estremecia pela quinta vez no suporte que o sustentava no tablier do carro; letras brilhantes anunciavam que lhe ligavam do hospício, mas nem um nem outro fizeram caso de tal ocorrência.

    – Não foi ela. Não penses nisso, nem acredites no que ouvires. A Raquel é uma criança, tu viste-o. É uma criança num corpo que não lhe obedece como queria. Não, algo se passa, mas não é o que pensas, nem o que estão a tentar fazer parecer – proferiu Luís.

    A cordialidade tinha sido abandonada e tratava-a como a um igual. Leonor sentia o pesar na voz de Luís. E como não? Há anos que cuidava de Raquel. Não lhe interessava o que quer que ela tivesse feito no passado, era apenas a sua paciente. E uma paciente que o encarava como um pai, que esperava dele esse tratamento e que o obtinha. É claro que Luís se afeiçoara àquela mulher, mas como não ver as evidências? Ele próprio lhe tinha contado o que se passara nas poucas horas desde que tinham saído do hospício. O envolvimento da polícia e a sua exoneração por parte dele deviam ser motivos suficientes para ela não estar envolvida, para não estar num carro a altas horas da noite a caminho de um local de crime. Já havia uma operação de busca a ser montada, a polícia estava encarregue de todas as diligências. Percebia que Luís se encaminhasse para lá, se dedicasse a tentar encontrar Raquel Adarga, estivesse lá quando ela fosse capturada. Na qualidade de médico responsável por ela, e pelo hospício, a sua presença era necessária. Mas Leonor não tinha responsabilidade nenhuma no caso. Queria ajudar Luís, esse sentimento era verdadeiro. O doutor parecia-lhe um homem bom e genuinamente preocupado e convencido da inocência da sua paciente nos acontecimentos da noite. Contudo, continuava sem entender plenamente o que esperava dela e como podia ajudar a encontrar Raquel.

    À sua frente erguia-se o hospício, envolto numa labareda sombria e imponente. Como lhe parecia diferente aquela visão a esta hora e a que teve ao princípio da tarde quando lá se apresentara, pensou Leonor. A súbita mudança de direcção levando a viatura a contornar a entrada do hospício, vestida com as brilhantes luzes e aparato policial, sobressaltou e confundiu, ainda mais, Leonor.

    – Mas… onde vamos? O que se passa? – Perguntou.

    – Procurar a Raquel – disse Luís, sem tirar os olhos da estrada e ignorar por completo o arraial que se tornara a entrada do seu local de trabalho. – Não confio na polícia, Leonor. Há muita coisa enraizada nesta comunidade e o interesse por Raquel Adarga é uma dessas raízes. Uma raiz grossa e extensa, que vai buscar o seu sustento ao imaginário comum, sugando o medo e o ódio que vive na cabeça de cada um e lhe dá forma, retira deles todos os nutrientes e dá corpo ao mito. Raquel é uma espécie de bicho papão, a história que se usa para assustar as crianças a comer a sopa antes que ela lhes venha apanhar; é o monstro debaixo das suas camas à noite. Não, a polícia não vai ajudar. Há um sentimento de injustiça e desconfiança que sempre paira em redor deste assunto. Por eles está decidido, o que ocorreu aqui foi obra dela e mais nada há a saber. Preciso de encontra-la antes deles. Vão abatê-la como a um animal selvagem e dar um fim à sua história. Vão cantar justiça e versar sobre a lenda.

    » Não posso deixar que isso aconteça. Não há mais ninguém em quem possa confiar, todos os outros têm os seus alicerces assentes sobre as raízes do mito de Raquel Adarga, mas tu não.  Confio em ti e vi como ficaste quando a viste hoje ao início da noite. Tu viste para lá do acto, viste a pessoa, a criança lá aprisionada. Diz-me, Leonor, não achas que aquela mulher já foi castigada pela atrocidade que cometeu? Mais de cinquenta anos passados numa custódia médica, e na condição em que se encontra? Achas que está a fingir? Não, és inteligente demais para isso. Ninguém aguentaria cinquenta anos num fingimento como aquele, em condições daquelas. Nem enganaria um sem número de médicos e estudiosos. Não, Raquel Adarga foi, e continua, castigada pelo erro que perpetrou, seja por Deus ou pela sapiência da biologia.

    Luís parou o carro na base de uma colina. Adjacente ao hospício e nas traseiras do jardim, crescia uma enorme zona arborizada. Conflitos sobre a sua pertença duravam há vários anos, entre a luta do município para anexar aquela área e diversas entidades privadas que clamavam direito ao seu quinhão. Envolvido neste imbróglio legal, prosperava aquele bosque urbano.  Como a sombra que originamos, sempre presente e nunca notada, erguia-se furtivo e esquecido à vista de todos.

    – A polícia considera que a Raquel teve alguma coisa a ver com isto. Estão a montar todo um contingente com base nessa assumpção. Estão focados na saída principal do hospício e na sua ligação ao jardim. Vão partir para a busca a partir daí e avançar nessa direcção, seguindo o rasto dos corpos – disse Luís. – Mas ela não está envolvida nisto dessa forma. Sei que não. Alguém está a puxar cordelinhos e a ver as peças cair nos lugares pretendidos. Raquel não passa de uma menina assustada que se viu abandonada de repente. Não iria fugir para a confusão, iria tentar esconder-se o melhor possível. Resguardar-se até alguma solução lhe parecer viável. Não ia tentar fugir, nem ia pela direcção que acham que foi. Sei-o. Sinto-o. Temos de chegar primeiro a ela, temos de a proteger de algum desvairado sentido de justiça e assegurar um tratamento honroso. Ajudas-me, Leonor?

    Aí estava, o momento de decisão. Sempre fora decidida e assertiva, mas o peso que esta tarefa acarretava podia ser demais para ela, para o seu futuro. À partida não estava a fazer nada de mal, nada contra a lei, isso sabia-o. Mas estava a escolher um lado, e podia não ser o lado certo. Estava a depositar toda a esperança na palavra de um homem que conhecera horas antes, assentar toda a sua fé na sua certeza de que aquela mulher era uma vítima neste cenário e precisava protecção. E se a encontrassem? O que fariam? Se a polícia estava decidida a culpar Raquel pela carnificina registada, de nada serviria encontra-la primeiro. Ia Luís escondê-la? Mantê-la fechada num quarto em sua casa, cuidando dela como se de um animal ferido encontrado na estrada? Leonor não sabia, mas agora não era tempo para se preocupar com detalhes. Era tempo de agir, e ela, para o bem e para o mal, tomara a sua decisão quando se candidatara ao estágio de Verão do Hospício Padre Cabral Correia.

    – Sim, claro – respondeu Leonor.

   Ajudou Luís a retirar duas grandes lanternas da bagageira, bem como dois kits de primeiros socorros. Apressaram-se, os dois, para o interior sombrio do pandemónio arborizado.

   Leonor ainda não sabia se tinha tomado a decisão correcta. Pensou no pai. Não lhe tinha dito nada havia horas, mas nem ele devia estar em casa ainda. Lançara olhares frequentes ao telemóvel que se mantivera imperturbável. Para onde tinha ido o pai? O que se passava com ele? Sentiu uma pontada de dor saudosista a espetar-se no seu âmago. E se Luís estivesse errado? E se ela estivesse a caminhar alegremente para os braços do seu carrasco? E se Luís até estivesse parcialmente certo, mas fosse ele em conluio com Raquel? O seu pensamento divagava por estes tópicos, evocando o sentimento de pavor. Duas enfermeiras esfaqueadas, três seguranças degolados, um enfermeiro desaparecido… Mas continuava a avançar, guiada pelo toque taciturno da florestação.  O som de um corvo caía do éter úmbrico da noite, como se a natureza lhes estivesse a avisar, fazendo uso dos seus pássaros da desgraça.

 

***

 

    Raquel prosseguia caminho, em fuga por entre as árvores, com dificuldade que não compreendia.

   Tinha saído para a luz, inundada pelo seu calor. Caminhara com dificuldade e apreensão, chamara pelo pai. Ninguém aparecera e ela continuara. Dera com aquelas duas mulheres. Lembrava-se delas. Gostava delas. Sempre tinham sido simpáticas consigo, uma delas até lhe dava doces quando ia sozinha ao quarto de Raquel. Chamara por ela, mas ficou sem resposta. Pareciam que dormiam, resplandecentes sob a forte luz branca daquele corredor que percorria sozinha pela primeira vez. Tocou numa delas, na simpática, mas ela não reagira. Abanou-a com mais força, sem compreender o que se passava. Nem quando o corpo sem vida da enfermeira simpática deslizou da cadeira onde estava disposto para o chão, cobrindo Raquel de uma viscosidade doentia, um sangue tão avermelhado que magoava a retina, ela compreendeu. Sentiu as lágrimas a chegar e o medo a formar-se. Iam brigar com ela, iam pô-la de castigo. Não devia ter saído do seu quarto e, agora, a enfermeira simpática estava coberta de sangue. Começou a chorar e foi nesse estado que tentara voltar, encontrar o seu refúgio que agora lhe parecia perdido. Queria o pai, queria alguém. Mas não podia ficar ali, não sabia até quando ia haver luz, não podia estar ali quando chegassem as pessoas más. Fugira, então, pela primeira porta que viu. Despoletando o chinfrim audível de um alarme, Raquel embrenhara-se na mata que só ela parecia ver, a mesma mata que bailava de fora da sua janela durante as tardes que passava na sua pequena mesinha a colorir.

    Andara e andara, com sangue a manchar-lhe o pijama e lama a entranhar-se nos pés; o corpo titubeava pelo solo irregular. E agora prosseguia, por entre as árvores tentava fugir das sombras que estava convencida que lhe queriam magoar, mas estas eram mais rápidas que o seu pensamento e esperavam por ela, ameaçadoras, atrás de cada ramo. Tinha de se esconder, esperar pelo pai. Ele punha sempre tudo bem, ele sabia cuidar dela. Ele não se ia chatear.

   Raquel avançava, uma criança perdida a fugir do medo e para o medo, uma figura abominável a desviar-se das sombras que agora chamavam o nome dela. A angústia subia de tom e ela tentava correr, mas os pés não lhe obedeciam e o corpo chiava. As trevas vinham na sua direcção, clamar a alma dela para no abismo inflamar-se, num pensamento que não compreendia. Sentia o aperto do abraço obscuro da noite, envolvida nas sombras que lhe atormentavam o espírito, o seu pavor tomava forma física e vinha no seu encalço a chamar por ela, rindo-se. Tentava escapar, mas as pernas não planeavam o mesmo que ela. Escorregou e deixou-se ficar jazida no volutabro que serviria de sua sepultura. Viu a sombra envolver o ar e, numa forma cada vez mais corpórea, surgiu uma silhueta que lhe atiçava e apavorava.

 

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. II

     Sentado e à espera. Era assim que Afonso estava. Afinal, era a única coisa que lhe restava fazer naquela altura. Tudo o que tinha para fazer – sozinho – já havia feito. Agora, já não estava só nas suas mãos.

     Ali, naquela rua relativamente escura, apenas iluminada pelas já cansadas lâmpadas dos postes da luz feitos em madeira, o Opel Corsa que Afonso alugara estava acompanhado apenas por mais três carros, todos estacionados do outro lado. Afinal, era daquele lado da rua que ficava o jardim municipal, e toda a gente sabe o que acontece nos jardins municipais à noite…

     Só que, para Afonso, o que interessava não era os desvarios dos jovens, mas sim aquilo que se situava no lado da rua em que se encontrava: o hospício. Já tantas vezes havia estacionado ali – embora com o seu carro particular, não com um carro alugado – que admirava-se por a estrada ainda não ter as quatro marcas dos seus pneus.

     Dentro do carro, Frank Sinatra cantava-lhe – como que ao ouvido – sobre dois estranhos na noite que trocavam olhares, e que, eventualmente, acabariam por partilhar o amor. “Tretas!”, pensou Afonso. “Esse amor não existe, não pode existir!”. Para Afonso, o amor entre duas pessoas que não partilham quaisquer genes era uma farsa. O único amor que existia era entre familiares; esse sim, era verdadeiro e imaculado.

     Também não ajudava o facto de Afonso se ter casado três vezes, duas delas tendo acabado desastrosamente mal. Tinha desenvolvido umas espécies de anticorpos em relação ao amor conjugal.

     Era por isso que ele ali estava: alguém tinha perturbado o seu amor familiar, o único que realmente valia a pena. E, agora, era finalmente altura de vingar esse amor.

     Perdido nos seus pensamentos, voltou a olhar o hospício. Era um edifício curioso… Durante o dia, parecia uma instituição de saúde como qualquer outra, com traços até modernos. Durante a noite, tornava-se sinistro e parecia envolver-se em sombras, como um buraco negro que suga a felicidade de tudo o que o rodeia. Se calhar era só impressão dele, se calhar todos os hospícios, hospitais e outros lugares que tais têm essa aura nocturna. Ou, se calhar, era por saber o que lá havia dentro. Ou quem lá estava dentro.

     Algum tempo depois, quando Sinatra já se calara e dera lugar a um DJ qualquer que prometia “animar as noites” dos ouvintes, viu sair por uma das muitas portas para funcionários do hospício uma figura totalmente vestida de branco.

     “Pronto, está feito!”, pensou. Rodou a chave e o carro começou a fazer-se ouvir.

 

***

 

     O autocarro parou e Leonor saiu, pela porta do meio. Mal saiu, procurou logo pelo carro do pai, que costumava estar estacionado naquela zona. Estava em pulgas para lhe contar como havia sido o seu primeiro dia de estágio, e ver o Fiat Punto do pai ali parado veio aumentar-lhe ainda mais essa excitação alegre, esse nervoso miudinho; como quando temos vontade de urinar e, ao aproximarmo-nos de uma sanita, parece que a vontade aumenta ainda mais. Só que sabia que não lhe podia contar tudo, porque o pai nunca iria aceitar se soubesse que estava a estagiar naquele lugar e não na ala de psiquiatria do Hospital Gama de Freitas, como lhe tinha dito.

     Atravessou a rua e dirigiu-se à porta de entrada do prédio. Olhou para cima, para o andar do seu apartamento, e admirou-se por ver tudo fechado àquela hora. Sim, era tarde, mas o pai costumava ficar na sala a ver televisão e a dormitar quase até de madrugada, até finalmente decidir que se calhar era melhor ir para a cama de vez.

     Rodou a chave na fechadura, empurrou a pesada porta de madeira e entrou em casa. A única luz que via era a da campainha, electrónica, e nada mais. Passou o dedo pelo interruptor que ficava à direita e atirou as chaves para a mesinha da entrada à esquerda, como era seu hábito. O seu pai sempre lhe dissera para não fazer aquilo, porque as chaves riscavam a madeira da mesa, mas ela encarara aquele aviso como um conselho, daqueles pequenos, que os pais dão durante toda a vida mas sabem perfeitamente que os filhos nunca vão cumprir. Por causa disso, o tampo da mesinha escura estava cheio de pequenos riscos bege, que apontavam num caos de várias direcções.

     Chamou:

     - Pai?

     Não obteve resposta e tentou mais alto. Como continuou a falar sozinha, calou-se. Atravessou o corredor, em direcção à cozinha, e perguntou-se onde poderia estar o raio do homem a uma hora daquelas. Fez o seu café com leite, que bebia sempre antes de ir dormir – o café não lhe tirava o sono – e foi bebericá-lo para a sala. Quando se ia sentar no sofá, viu um bilhete em cima da mesinha cuja única função era segurar os comandos da televisão e os pés de quem quer que estivesse sentado no sofá. Pegou no bilhete e leu-o:

 

Filhota, fui dar uma volta para espairecer e não tardo em casa.

Deixei um resto de ervilhas guisadas do jantar no frigorífico, serve-te à vontade.

Do teu ‘belhote’,

Afonso.

 

     Leonor ficou um pouco mais descansada depois de ler o bilhete, mas continuava perplexa. O pai nunca fizera aquilo antes. Dar um passeio nocturno? Ainda por cima àquela hora? E o carro, na entrada? Teria ido a pé, sujeito a ser assaltado – ou pior – naquele bairro?

     Pensou em ligar-lhe, mas decidiu esperar mais alguns minutos. Afinal, o pai não devia estar muito longe de chegar. Se calhar tinha-se perdido nas horas, num café qualquer. E, se assim fosse, ainda bem, pensava Leonor, porque só Deus sabia o quanto ele estava a precisar de arejar a cabeça. A mais recente separação do seu pai tinha-lhe deixado marcas profundas, e o ‘belhote’ andava muito alterado ultimamente.

     Ligou a televisão, e continuou a bebericar o seu café com leite. Fez um pouco de zapping, embora soubesse que não se ia conseguir concentrar em programa nenhum – não depois de um dia excitante daqueles –, e, quando achou que já era altura mais do que suficiente, pegou no telemóvel com o intuito de ligar ao pai.

     Ouviu alguém bater à porta do apartamento. Ou isso, ou algum pica-pau especialmente irritante tinha-se afeiçoado à sua porta, porque ela não parava de fazer barulho. Gritou um “Já vai, já vai!”, mas quem quer que fosse parecia não ter ouvido.

     Atravessou o corredor e olhou pelo visor da porta. Não podia ser… Abriu-a e nem teve tempo para cumprimentos. Luís disse-lhe:

     - Aconteceu algo de muito grave e preciso de toda a ajuda possível. Vamos! Explico-te pelo caminho.

     Leonor não disse nada. Limitou-se a pegar nas chaves e a sair. A televisão, que antes ainda tinha um ser humano a fazer-lhe alguma companhia, falava agora completamente sozinha.

 

***

 

     Abel entrou no carro, com pouco fôlego.

     - Está feito! Arranca! – gritou, como conseguiu, para Afonso.

     - Calma, rapaz. – respondeu o condutor num tom calmo, talvez até motivado pela voz suave de Sinatra. – Apenas abriste uma porta, ainda vai demorar algum tempo até que algo aconteça.

     Ainda assim, fez-se à estrada. Não falaram durante largos minutos, Afonso e Abel, até porque não tinham assunto. Não se conheciam e apenas tinham falado a propósito daquela tarefa. Agora, que estava concluída, não havia muito mais a dizer. Ainda assim, Abel achava que ainda havia muito mais a dizer, por isso perguntou:

     - Porquê?

     Afonso arqueou a sobrancelha.

     - Porque é que fizemos isto? – continuou o enfermeiro.

     - Já te disse, é uma questão pessoal. É justiça. Não precisas de saber mais nada.

     - Ai não? E se me vierem a implicar no assunto?! – questionou Abel.

     - Paguei-te o suficiente para não me chateares com essas questões, não paguei? Fizeste-o de livre vontade, agora não podes voltar atrás.

     Era verdade. Já não dava para voltar atrás. Mas, se Abel pudesse, fazia-o. Não o disse a Afonso, como é óbvio, mas oh, se o fazia! O que ia ser daquela gente, com quem lidava diariamente já há três anos? O que ia ser até daquela mulher, que, apesar de não merecer compaixão, parecia provocá-la na maior parte das pessoas?

     De repente, lembrou-se de Leonor. A estagiária. Tinham estado muito pouco tempo juntos, mas é claro que tinha reparado nela! Aquele hospital parecia um lar de meia-idade, por isso, ver uma jovem beldade daquelas entrar pelas portas duplas adentro era sempre um prazer. Um prazer que se ia repetindo de ano a ano, sempre que chegavam mais estagiários de Verão. “Provavelmente, serão os últimos.”, pensou Abel para si próprio.

     - O que se passa? – perguntou Afonso ao pendura.

     - Nada, estava só a pensar na coincidência que foi isto ter acontecido no mesmo dia em que entraram os novos estagiários de Verão.

     - Foi propositado. Fi-lo porque hoje é também o primeiro dia de estágio da minha filha, e ficava com tempo para isso. Não é costume ter tempo livre no Verão, quando ela cá está.

     - Pois, percebo… – respondeu o enfermeiro.

     Nenhum dos homens se apercebeu de que estavam ambos a falar acerca da mesma pessoa.

     Mas agora, como Afonso bem dissera, já não se podia voltar atrás.

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. I

    As sombras dançavam delirantes no pequeno quarto, expandindo-se à leva do vento e tomando de assalto todas as superfícies. A fraca luz da lua fazia com que os ramos das árvores se manifestassem ameaçadores, chicoteando o ar em redor da janela. Raquel estava sentada no chão, encostada entre a cama e a parede, aterrorizada com este bailado soluçante. Assustava-se com o escuro e temia as crepitantes mãos dos tentáculos sombrios que avançavam pelo espaço para a alcançar. Agarrada a um dinossauro de peluche balançava-se, tentando escapar àquela emboscada nocturna.

     Lançou um rápido olhar para o resto do quarto, só para ver que as sombras já tinham clamado mais soldados. Duas das suas bonecas pertenciam, agora, ao exército da noite. Agigantadas na parede oposta à que estava, tremeluziam e progrediam na busca por algo substancial, a única matéria viva daquele quarto, Raquel.

     Continuavam a mover-se com leveza e Raquel desabou num choro compulsivo. Ansiava pelo pai ou mãe, só eles sabiam como parar as sombras; mas ninguém veio, nunca vinha. Chorou até colapsar do cansaço, envolvida pela infantaria incorpórea das trevas.

 

***

 

     Luís espremia a caixa de sumo, tentando retirar dela todo o seu conteúdo. Este hábito sempre irritara a mulher, que não suportava o som sôfrego do sorver prolongado que Luís fazia sempre que bebia algo. Mas aqui não havia ninguém para se incomodar com ele, portanto Luís aproveitou todo o potencial da sua caixinha de sumo de maçã, até ficar sem mais um milímetro quadrado de espaço nos pulmões para o ar e expirar profusamente, deixando cair os ombros e rolando a cabeça contra o peito.

   Àquela hora não havia ninguém na copa e o silêncio imperava. Luís nunca gostara de comer junto a outras pessoas. Não gostava da observação que sentia, da conversa de circunstância, ou do jeito que cada um exibia ao comer. Preferia almoçar sozinho, podendo beber pela palhinha todo o seu sumo, até à caixa não passar de uma amálgama de cartão e alumínio desfigurada; revirar a sua carne guisada no prato sem ninguém lhe apontar que estava a brincar com a comida ou a querer saber porque debicava todas as ervilhas primeiro. Além disso, gostava de se manter afastado dos restantes empregados em situações sociais, ou quási sociais. Afinal, era o responsável e considerava que para haver uma boa liderança e respeito, teria que haver uma certa distância; as pessoas tinham de saber o seu lugar.

    Absorto nos seus pensamentos, levantou-se e dirigiu-se ao lava-loiça de inox que ficava ao pé do frigorífico, para passar o seu prato por água e arrumar o resto dos seus pertencentes na lancheira. Moveu-se morosamente, agastado pelo calor. O ar condicionado estava ligado, mas ali tinha de ser controlado e só dava para manter uma temperatura amena, enquanto ele preferia que estivesse mais fresco, muito mais fresco. Com as costas voltadas à porta, não deu pela aproximação tímida mas, ao mesmo tempo, assertiva de uma esbelta silhueta feminina.

     – Dr. Costa?

    Luís sobressaltou-se com aquela voz e deixou cair os talheres com estardalhaço no chão.

    – E-e-eu peço desculpa, não era minha intenção assustar-lhe. Pensei que me tinha ouvido a bater na porta… – disse a rapariga, com um ar de apreensão estampado no rosto.

   Ele virou-se de sorriso aberto e fez um gesto com a mão a retirar importância ao sucedido. Voltando a focar a realidade que estava posta de parte enquanto prosseguia com os seus afazeres, Luís foi em direcção à rapariga, de mão estendida.

    – Boa tarde. Dr. Luís Costa, muito prazer. Suponho que seja a Leonor, certo?

   – Boa tarde. O prazer é todo meu – disse, apertando a mão dele. – Sim, sou a Leonor Pureza, a apresentar-me ao serviço ­ – concluiu, arreganhando a boca num enorme sorriso.

    Luís recolheu as informações que lhe invadiam o cérebro, construindo o pequeno puzzle de uma primeira impressão. A miúda parecia-lhe simpática e ansiosa por começar a justificar a sua presença. Tinha um olhar curioso e determinado, mas algo mais vivia por trás daquela camada, não era tão superficial como o aspecto poderia dar a entender. Vestia um top com alças, cor-de-rosa, e uma saia curta que deixava à mostra umas pernas de tez clara, elegantes e bem torneadas; Luís não conseguiu evitar um olhar de relance e logo se arrependeu dos seus olhos o terem traído desta forma. O longo cabelo volumoso caía-lhe sobre os ombros, onde também repousava a alça de uma mochila recheada.

  – Espero que não haja problema de ter entrado assim vestida – disse Leonor, após notar o olhar cobiçoso que adornara a vista do bom doutor. – Quando me reuni com a Dra. Rita, dos recursos humanos, ela disse-me que podia vir vestida de forma casual e entrar pela porta de serviço, que aqui me iriam dar um uniforme e um espaço no balneário.

   – Ainda não lhe atribuíram um cacifo e um espaço no balneário? – Questionou Luís, perante o olhar impávido de Leonor. – Não fique assim, a culpa não é sua. Não há nenhum problema, já chamo alguém para lhe mostrar os cantos à casa. Depois pode ir até ao meu escritório, para nos conhecermos e eu lhe explicar o que vai fazer durante o seu estágio. Hoje será só um dia para reconhecimento, digamos assim. E claro que não há nenhum problema em vir assim vestida, é mesmo só para entrar e ir direita até ao balneário. Enquanto estiver aqui a estagiar, e dentro das instalações, irá usar sempre o uniforme que disponibilizamos. Terá sempre vários à disposição no seu cacifo e, acredite, irá usá-los todos, muitas vezes a ter de trocá-los durante o dia. Acidentes acontecem – arrematou Luís, com um pequeno riso.

    Leonor olhava intensamente para Luís e anuiu com um gesto de cabeça. Tinha assumido uma expressão mais dura e uma postura direita. Luís reparou nesta atitude e ficou curioso. Aquilo que tinha dito era só uma pequena piada, para descontrair e revelar que o trabalho não seria facilitado só por ela não passar de uma estagiária de Verão. Que iria trabalhar a sério e não só ficar a observar. Mas Luís percebeu que não tinha sido esse o motivo da aparente mudança de atitude. Ela simplesmente já se tinha apresentado e, agora, começara o seu serviço. Mostrava seriedade e respeito por ele e pelo trabalho. Este pensamento, e análise, confortou Luís e fê-lo sentir uma proximidade a Leonor, como que um certo orgulho paternal. Encarou com boas perspectivas o tempo que iria contar com a sua assistência.

 

     Contrariamente ao que tinha planeado no início, Luís delegou as suas tarefas para aquela tarde e serviu ele próprio de guia e orientador de Leonor. Levou-a aos balneários, onde ela se mudou e vestiu o uniforme e a bata, aos espaços comuns, às salas de tratamento, ao seu escritório, aos diferentes pisos e instalações do Hospício Padre Cabral Correia. Nunca gostara de estagiários, e já lhe tinham passado muitos pelas mãos, mas eram-lhe impingidos pela administração. Ao longo dos anos tinha ficado cada vez mais impaciente com os estagiários que lhe acompanhavam no Verão, mas esta, Leonor, era diferente. Sempre atenta, respeitadora, interessada. Não se deixava impressionar, era uma pessoa forte e com vontade de aprender. Andara toda a tarde a tomar notas num pequeno caderno e a inundá-lo com perguntas pertinentes. Luís continuava a sentir um orgulho crescente, uma vontade de a ajudar e aconselhar.

    A tarde passara a correr e o ponteiro do relógio aproximava-se velozmente das nove da noite, lá fora começava a escurecer. Já tinha passado da sua hora de saída, mas estava habituado a permanecer para lá do seu horário, normalmente a acabar papelada ou nalguma consulta que se prolongara. Leonor tinha pedido se podia continuar a acompanhá-lo até à sua saída, estava a gostar da experiência e do que estava a aprender. Enquanto Luís estava sentado à secretária, com Leonor sentada na outra ponta a aprender sobre todo o trabalho administrativo que também teria que realizar, Abel, um dos enfermeiros da noite, bateu efusivamente à porta.

    Falou apressadamente e com urgência. Soube que o Dr. Luís ainda se encontrava no edifício, então tinha vindo à sua procura. Uma das suas pacientes – a paciente mais famosa que alguma vez tinha tido e que, provavelmente, teria – estava a armar confusão. Como o doutor tinha dado ordens específicas para não lhe ser administrado nenhum calmante, nem nenhuma medida restritiva, sem antes ser consultado, viera a correr chamá-lo. Luís assentiu o chamamento e disse que já lá iria para resolver a situação.

     Luís fez sinal a Leonor para que esta lhe acompanhasse e começaram a atravessar o corredor.

     – Ouve bem, Leonor. Esta paciente não é como os outros, se bem que já tiveste contacto com vários casos difíceis neste dia – disse Luís, falava com calma e uma autoridade reforçada. – Sei bem que sabes de quem estou a falar, toda a gente sabe que esta paciente está ao meu cuidado há largos anos. Podes achar que não é nada de mais, mas não estás tão preparada para isto como pode parecer. É uma situação que não estás à espera e é difícil de se envolver. Peço que não interfiras e apenas observes com atenção. Lembra-te que, no fundo, não passa de uma criança assustada.

     Leonor não reagiu, manteve-se impávida perante o discurso de Luís, mas este notou um brilho diferente que lhe tripudiava nos olhos, como que uma curiosidade mórbida quando encontramos pela primeira vez o cadáver de um pássaro morto na estrada.

    Chegaram ao destino, numa ala que Leonor não tinha visitado antes, e deram com Abel ladeado por mais duas enfermeiras e de seringa a postos. A voar pela porta entreaberta, Leonor foi atingida pelo som de um choro tão terrível que mais se assemelhava a um grunhido de um animal ferido.

     – Guarde a seringa e afastem-se, se for preciso chamo por vós – ordenou Luís. – Leonor, entre atrás de mim e não faça nada.

     Avançaram os dois, cautelosos, para o interior do quarto.

    – Shhh, shh. Está tudo bem, Raquelinha, estou aqui. Está tudo bem – Luís falava num sussurro meigo e gentil.

    Leonor sabia o que ia encontrar, tal como Luís lhe dissera. E, tal como Luís lhe dissera, não estava preparada para a visão que se revelou perante o seu olhar. Entraram num quarto do hospício, igual a todos os outros, mas marcado pelo tempo. Era como entrar noutra dimensão, em que a porta funcionava como portal mágico. Aquele quarto tinha uma atmosfera especial.

    No centro de um quarto infantil, muito mais infantil que todos os quartos da ala das crianças, estava uma mulher. Idosa e com aspecto disso. Leonor sabia que aquela mulher, Raquel Adarga, tinha setenta e seis anos. Mas, como já sabia e Luís lhe avisara, era uma criança. Uma visão que lhe esmagava o coração e impregnava a retina, uma idosa sentada no chão, rodeada de brinquedos, desde bonecas a lápis de cera e livros para colorir, berrava copiosamente num sofrimento desmedido. A mente de uma criança de seis anos aprisionada num corpo apodrecido, com pele flácida e descaída, olhos enrugados cheios de lágrimas. Leonor deixou cair o caderno, sem reacção do corpo. Raquel, Raquelinha como era tratada por Luís, que era visto como o pai por aquela mente inocente, começava a acalmar-se, sendo envolvida e aninhada nos braços daquele homem. Aos soluços e com um discurso balbuciado e pouco coerente, contou a sua versão dos acontecimentos. Enquanto era embalada nos braços de Luís, Raquel descrevia as sombras que lhe tentaram consumir na noite anterior e o terror que sentia, o medo que tinha em fechar os olhos, de novo, naquele quarto.

    Leonor continuou sem reacção durante os poucos minutos que passou naquele quarto, ao ver Luís a assegurar Raquel de que as persianas tinham sido arranjadas e que nada a podia magoar ali dentro. As sombras não voltariam para a acossar, podia pegar no seu peluche e voltar para a cama. Leonor sentia-se dividida emocionalmente. Por um lado a enorme compaixão que sentia por aquela mulher, por outro, o conhecimento que tinha daquilo que ela tinha feito, e a dúvida que persistia e resistia à passagem do tempo.

    Já sabia do caso de Raquel antes de se mudar para aquela cidade para frequentar o primeiro ano de medicina, mas, em conversa com os novos amigos, tinha aprofundado o conhecimento sobre o que se passara há tantos anos. Era o caso mais conhecido daquela cidade, e ainda mais falado e discutido entre os estudantes de medicina, movidos pela curiosidade enfermiça própria da idade.

     Raquel Adarga tinha vivido vinte e três anos perfeitamente normais até àquela funesta noite de Fevereiro. Ao voltar a casa de um turno nocturno no restaurante, Raquel tinha sido violentamente agredida e violada por dois homens. Além de todas as feridas físicas e psicológicas que resultaram daquele nefasto acto, a maior chaga daquela noite chegou cerca de nove meses depois. Contava-se que ainda tentara abortar, por mais que uma vez, mas tinha sido sempre mal sucedida. Perante insistência da mãe, Raquel foi internada no Hospício Padre Cabral Correia até concluir a gravidez, por medo que se magoasse a si e ao bebé. Liliana Adarga estava determinada a criar o neto e cuidar da filha, inundá-los de amor até expurgar qualquer réstia da vil penitência que tinha açoitado a sua família.

     Foi precisamente isso que aconteceu quando nasceu o pequeno Álvaro. Não só a sua própria família, mas toda a comunidade se afeiçoou ao bebé e contribuiu para ultrapassarem a situação. Só que a cada dia que passava, Raquel sentia-se pior. Uma inveja e raiva crescentes manifestavam-se e apoderavam-se do seu pensamento, um ciúme incontrolável que desencadeou diversas brigas. Não suportava a criança e toda a atenção que recebia, não aguentava ser ignorada e, na mente dela, culpada pelo ocorrido. Tornou-se de tal forma insustentável, que já nem conseguia olhar na direcção de qualquer bebé ou criança, sentia um desprezo incomensurável.

     Trinta crianças morreram naquela tarde de domingo, sob o olhar atento de Deus, às portas da igreja e pelas mãos de Raquel. Dizem que veneno é a arma de uma mulher, e, pelo menos naquele dia, foi mesmo. Uma fornada inteira de bolachas impregnada com veneno, servida num convívio dominical. O próprio filho tinha sido o primeiro a pôr uma bolacha na boca, seguindo-se mais trinta crianças que comeram tudo sem deixar rasto de qualquer migalha. Todas as crianças colapsaram e não houve nada que pudesse ter sido feito, toda uma comunidade reduzida à calamidade provocada por Raquel. Álvaro fora a única criança a sobreviver, dado que não comeu a bolacha, mas apenas a teve na boca uns instantes.

     Raquel fora encontrada num baloiço no jardim adjacente à igreja. Frágil, olhar vidrado e candura estatelada no rosto. Chorou sem parar enquanto foi levada pela polícia, chamando pela mãe que se recusava olhar na sua direcção.

     O restante da família de Raquel saiu da cidade após o julgamento, até hoje não se sabia nada sobre o que lhes tinha acontecido. Leonor, desde que descobrira o caso num documentário visto na televisão, ficara fascinada e decidida a enveredar pela psiquiatria.

     Vários médicos especialistas analisaram Raquel, e todos concluíram que não estava a fingir. O seu acto de maldade tinha desencadeado uma qualquer perturbação dissociativa, como que um mecanismo de defesa, entrando a sua psique numa fantasia e ficando retida com a mente de uma criança. Para todos os efeitos, Raquel não passava de uma criança de seis anos de idade, que controlava, desajeitadamente, um corpo que há muito lhe tinha ultrapassado. Procurava o conforto, o amor que as crianças recebiam, queria ser como elas, queria esquecer, e o seu cérebro encarregou-se de lhe conceder o seu desejo. As dúvidas e incertezas pairavam até hoje, mas há muito que deixara de importar. Desde esse dia que tinha estado internada naquele hospital.

   Leonor não tinha dúvidas, depois de presenciar o que presenciou aquela noite, a debilidade de uma idosa com o olhar honesto e medo irracional de uma criança, a necessidade de afecto e cuidado. Assistiu a Luís deitar Raquel, mostrar-lhe a janela e persianas fechadas e aconchegá-la com os lençóis. Beijou-lhe a testa ao de leve e encaminhou-se para a porta, com um ar abatido. Passou por Leonor que continuava fixada naquela mulher. Não conseguia dissociar o horror que ela tinha cometido, mas sentia uma enorme compaixão, uma dor que nem ela compreendia. Durante aqueles cinco segundos que ficou sozinha à porta do quarto, o olhar de Raquel pousou no dela e foi possível desmistificar um sorriso tímido, mesmo ao jeito de uma criança envergonhada.

    Luís chamou por Leonor e pediu-lhe para fechar e trancar a porta. Leonor cumpriu o pedido, mas não estava focada em nada do que fazia, movia-se de forma displicente e atabalhoada, claramente afectada pelo que tinha visto. Sentia uma estranha conexão àquela mulher, e, a juntar à dor que lhe provocava, uma compreensão pelo seu sentimento.

    Despertou para a realidade ao som da voz de Luís, que ultimava instruções para os enfermeiros. Dirigiu-se a ele, cabisbaixa, para se despedir deste primeiro dia.

   – Não me faça arrepender de lhe ter trazido aqui – atirou Luís, com uma voz cansada. – Os estagiários não me costumam acompanhar a esta ala do hospício. Pensei que você podia aguentar e ser séria em relação ao assunto. Não comente o estado dos pacientes, em especial este. Todos os anos algum jornalista lembra-se de Raquel Adarga e tenta arrancar pormenores a quem acha que os tem. Espero que não me desiluda, Leonor, vejo muito potencial em si.

    A sua voz soava como uma ordem e as suas palavras fizeram Leonor corar e gelar ao mesmo tempo. Não conseguiu encarar Luís de frente, desviando o olhar para o vazio.

    Acompanhou Luís até ao seu escritório para recolher as suas coisas. Não trocaram mais nenhuma palavra, um entendimento silencioso tinha sido alcançado e concordado entre eles. Quando já se preparava para sair, perguntou:

   – Porque é que ela está isolada? Porque não está junto com as outras crianças? Ou com os adultos? Duvido que nesta altura alguém se importe, ou que o tribunal ainda mande alguma coisa. Não me parece que seja um perigo para alguém.

    – É complicado. É muito mais do que me apetece falar agora, mas posso dizer-te que continua separada pela sua segurança, e dos outros. Parecendo que não, continua a ser um perigo. Não pode ver crianças, não as compreende e desconfia delas. Tens de perceber que, para ela, Raquel é uma criança. E o seu aspecto é, para si, o aspecto de uma criança. Quando vê uma criança... verdadeira, digamos assim, entra num estado de pânico. Julga-as impostoras, artificiais. Já tivemos casos, há alguns anos, em que tentamos essa aproximação, mas Raquel atacou-as com tudo o que podia. Abriu o sobrolho a um dos meninos que lá estavam, após arremessar um dos seus brinquedos.

   Leonor anuiu com a cabeça e não falou. Compreendia a situação. A dissociação que Raquel sofrera, minada pelo ciúme e falta de atenção, transformara-a numa criança. E uma criança que não controlava o próprio corpo, que não respondia como esperava. Uma criança que não tinha iguais e que requeria atenção e cuidados constantes, ainda mais dependente que uma verdadeira criança de seis anos de idade. Aquela mulher que se assustava com sombras e com o escuro, com tudo o que não era normal e não compreendia.

    Luís despediu-se de Leonor no parque de estacionamento, após a recusa desta em aceitar a sua boleia. O autocarro passava mesmo à porta do seu apartamento e a zona era segura e de viagem rápida. Do carro, viu Leonor entrar para o autocarro e seguir o seu caminho, enquanto ligava o motor do seu automóvel e se animava com a ideia de, a esta hora, a mulher já ter jantado e ele poder comer sozinho.

 

***

 

    Não passara assim tanto tempo desde que Raquel tinha adormecido. Não compreendia porquê, mas nunca conseguia dormir por um grande período de tempo consecutivo. Acordou a meio da noite e procurou instintivamente o seu dinossauro de peluche. Sentia-se confortável e mais segura sempre que o abraçava. Deu com ele caído ao pé da cama e tentou apanhá-lo. Raquel tinha a mente de uma criança instável, mas um corpo fustigado pelo passar dos anos. Estes pequenos exercícios de locomoção tornavam-se difíceis, principalmente quando o corpo não acompanhava a agilidade da mente. Ao tentar chegar ao dinossauro, deu com algo que não esperava. O pai tinha-lhe assegurado que a escuridão não levitava para ela esta noite, mas, no entanto, lá estava ela, a estender os seus longos tentáculos que já acercavam os pés da cama. 

     Desta vez Raquel não paralisou com o medo. A acompanhar o braço das sombras, revelava-se uma língua de luz que inundava o quarto e lhe projectava um teatro sombrio na parede por trás dela. Raquel não reparou no espectáculo teatral que as sombras dos seus brinquedos realizavam, porque, pela primeira vez, aquela fresta de luz provinha de uma porta entreaberta. Agarrou o seu peluche pelo caminho e caminhou para a porta. Algo tinha acontecido, algo que a sua mente infantil não conhecia. O que sabia era que o seu mundo estava a crescer e havia um novo espaço para explorar. um espaço em que a luz abundava e as sombras não lhe podiam dominar. 

     A balbuciar, de peluche numa mão e o polegar da outra na boca, uma mente de seis anos a comandar o corpo rangente e pesaroso de uma velha criminosa saiu para o exterior do quarto pela primeira vez desde que se lembrava. Não compreendia o que via, mas avançou. 

Tentei ser escritor, mas não consegui.

Hoje foi o primeiro dia, ao fim de uma semana, em que acordei sóbrio e sem qualquer pontinha de ressaca.

 

Têm de perceber: o meu objectivo é ser escritor! E ser escritor não implica só escrever. Se assim fosse, eu já o seria, porque já aqui explicamos o que é escrever.

A verdade é que para se ser escritor é preciso - segundo relatos que tenho ouvido - muitas outras coisas, como ser ansioso, algo depressivo, estar mal com a vida e, até (lá está), ser bêbado.

 

Ora, como eu até costumo ser uma pessoa relativamente feliz e com uma visão positiva sobre esta coisa estranha a que chamam de vida, decidi começar pelo que me pareceu mais fácil: passar a ser bêbado.

Nesta última semana, bebi de tudo: cerveja, vinhos vários, whisky, tequila, gin (para manter a classe), rum (porque sou fã de piratas), shots com nomes estranhos e até detergentes com nomes familiares.

 

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Às vezes fazia um cocktail com vários ao mesmo tempo.

 

Deitava-me todos os dias bêbado e, no dia seguinte, a minha recompensa era não me lembrar de nada do dia anterior, além de uma bruta de uma ressaca. Coisas escritas, que é bom, nada!

O único pedaço de literatura que me surgiu durante toda esta semana foi um bilhete que deixei à porta da minha ex-namorada, regado com muitas lágrimas e algum vómito.

 

Por isso, não dá!

Não percebo o que estou a fazer mal mas, se continuar assim, não me restará fígado para escrever. Talvez não esteja a proceder correctamente, talvez seja necessário um equilíbrio entre todos os aspectos referidos anteriormente...

Ou talvez deva apostar noutra área profissional, como talhante ou assassino mercenário.

 

Enfim, vou reflectir mais um bocadinho e já volto a falar convosco.

Até já. Alguma coisa, vão ali ao frigorífico buscar uma cerveja, que restou bastante.

Escrituríssima Trindade - Ep. 3 - Completo.

Então, seus malucões e suas maluco... Enfim, vocês aí, tudo bem?

Fica aqui uma pequena listinha dos capítulos da mais recente Escrituríssima Trindade, para que não vos falte nada neste belo início de semana.

 

Vá, aproveitem, mas não digam que vêm daqui.

Não, a sério; é bom que não dêem com a língua nos dentes, ouviram?!

 

Capítulo I

Capítulo II

Capítulo III

Capítulo IV

Capítulo V

Capítulo VI