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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

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Escape Rooms - Uma experiência

Fui experimentar algo que já me apetecia fazer há algum tempo: uma escape room.

 

Vou ser honesto quanto à minha experiência e dizer que não gostei muito. Não é que não tenham havido bons momentos, mas no geral... Pronto, se calhar o meu juízo está toldado e é só o meu rancor a vir ao de cima, a ferida no meu orgulho. Isto, claro, porque não consegui escapar no tempo estipulado. 

 

Não foi por falta de tentativas, fui lá todos os dias da semana passada, por exemplo. Ontem também já lá fui tentar a minha sorte, outra vez, sempre sem sucesso. É óbvio que vou lá voltar hoje, amanhã e as vezes que for preciso até conseguir resolver todos aqueles enigmas e todas aquelas tarefas. Ainda por cima já ouvi falar da recompensa que se tem quando se consegue completar o jogo com sucesso e só aguçou a minha vontade de o conseguir.

 

Clamam que neste tipo de jogo a tua capacidade física não interessa, que tens de depender da tua sagacidade, destreza mental e até imaginação para te safares, mas não se fiem nisso. Pela experiência que tenho, a capacidade física conta e muito; não é nada fora do comum chegar lá e o elevador estar avariado ou repleto de gente e ter de subir vários lances de escadas até alcançar a sala onde se vai desenrolar o jogo. E quando lá chego, a maior parte das vezes ainda tenho que fazer muita ginástica, muita correria de um lado ao outro, mais escadas para subir e descer ao longo do tempo estipulado. 

O realismo é de salutar. Eu e as dezenas de pessoas que todos os dias tentam vergar este desafio chegamos a uma sala que foi decorada com aspecto de um qualquer escritório. Lá encontramos diversas secretárias, computadores, ficheiros, armários... E começa o jogo! Não há tempo para descansar, temos de começar logo a tentar resolver o puzzle e ver se conseguimos sair dali antes do tempo acabar. 

Até agora só presenciei uma mão cheia de gente que conseguiu fazê-lo, e outros tantos que acabaram por desistir. É verdade que escolhi uma escape room de elevada dificuldade, uma em que o progresso se torna cada vez mais difícil pela adição de várias side quests, outros objectivos portanto, mini-jogos. Confere todo um maior nível de imersão à coisa, parece que temos um mundo inteiro a explorar. 

 

Começamos logo a trabalhar em equipa, temos uma pequena reunião e depois de definidas as prioridades e a estratégia de como vamos abordar o jogo, avançamos. É neste ponto que normalmente entra o game master e aumenta consideravelmente a dificuldade do desafio, lançando novas pistas, enigmas e tarefas que temos de realizar para conseguirmos escapar da sala. 

Lá vamos nós, navegando pela panóplia de documentos, artigos, emails, sempre procurando uma pista, algo que nos ajude a descodificar o mistério e a sairmos mais cedo. Falhamos redondamente, de todas as vezes. Aliás, nem sei bem o que estamos à procura, nem como escapar. Quando parece que estamos a conseguir alcançar algum objectivo, o game master volta a comunicar e a elevar o jogo. Mais pistas aparecem, mais documentos, mais tarefas que temos de realizar; tudo actividades que nos atrasam o verdadeiro objectivo: fugir daquela sala.

Desço escadas, pensando que estou a avançar no jogo, a descobrir alguma pista secreta. Dou com o arquivo, falo com o sr. Manuel, um infiltrado do game master, só pode, que me atrasa e dificulta as descobertas. Recebo comunicações da minha equipa, estamos a progredir. Tudo para nos puxarem o tapete quando já quase conseguimos destrancar a porta, fazendo-nos ver que afinal a resposta não é aquela, tudo o que pensamos estava errado. Ainda nem sabemos que enigma é suposto resolver para encontrar a resposta que nos levará à fuga. Chega o meio-dia e eu estou derrotado. O game master concede-nos uma pequena pausa para almoço e diz que nos deixa voltar durante a tarde, para irmos tentando novamente, já que somos clientes fiéis. 

 

Aqui entram vários dos mini-jogos que nos esperam e distraem do objectivo principal. A começar por o grande mistério de quem aqueceu uma sandes de ovo no microondas e cagou aquela merda toda? Seguido por o, ainda maior, mistério das pêras a apodrecer no frigorífico. Romances nascem e acabam, mexericos perpetuam-se, discussões resolvem-se ou agravam-se; a divisão na equipa começa a ser evidente. Formam-se grupos, cada um a tentar escapar primeiro que o outro.

 

O ciclo repete-se à tarde: mais emails, mais reuniões, mais documentos, mais coisas para resolver, tudo sem fim à vista, sem avançar no jogo, em nenhum momento mais próximo de encontrar a saída. Chega-se às cinco da tarde. Toca o alarme, quase que nos leva de novo aos tempos da primária. Acabou o tempo. Fizemos muito, tentámos de tudo, mas não conseguimos encontrar a resposta, não conseguimos vencer este desafio. Fica o esforço, novamente. Juramos voltar no dia seguinte, mesmo que este jogo já comece a perder a piada, mas agora a teimosia já comanda e vamos conseguir cantar vitória, nem que para isso tenhamos que voltar às mesmas tarefas inócuas, dia após dia, até encontrarmos a solução; até sairmos em ombros, vitoriosos, congratulados por amigos e pelo game master pela nossa mestria neste jogo e com um prémio por o termos derrotado. Pontualmente o game master deve sentir pena de nós, mas também sempre nos avisou que esta sala não era para principiantes, não era pêra doce. E realmente o sabor que nos fica é o de maçã reineta, mesmo quando ele nos propõe ficarmos depois da hora, a tentar resolver todo este puzzle, a tentar encontrar a solução: nem temos de pagar mais por isso! É pelo prazer do jogo. E é claro que ficamos, o sonho comanda a vida. Neste caso o sonho é escapar daqui o mais depressa possível. Pela maneira como as coisas têm corrido, diria que só devo encontrar a solução para este jogo quando tiver uns sessenta e seis anos, mais mês menos mês. Oh, mas vou encontrá-la, isso garanto, e vou usufruir da recompensa que vou receber.

 

E ainda dizem que isto das escape rooms é giro e está na moda? Chiça, que isto está a dar cabo de mim.