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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Serviços Literários

Há um problema muito comum que assola todas as pessoas que gostam de ler: a ganância.

 

Em conversa com amigos ou qualquer pessoa que mantenha hábitos regulares de leitura, bem como uma visita por todos os blogs em que se fala de livros, há sempre uma coisa que salta à vista: queremos sempre mais. Queremos mais livros, novas histórias, novas descobertas, novas personagens. Não é que não estejamos contentes com aquilo que temos, simplesmente ansiamos por mais. É incontrolável; o desejo ardente de descobrir novas obras que nos fascinem e apaixonem. 

São recorrentes as promessas de não comprar mais livros até ler todos os que habitam a estante. Promessas essas que são feitas à mesma velocidade com que se aproveita mais umas promoções e se traz para casa uma saca de livros qual Pai Natal tipográfico. Esta é também uma das razões para aquelas rugas já tão características que vos torneiam a cara, as mesmas que dão origem a uma expressão de incompreensão e desprezo sempre que alguém vem com a ladainha do "mais livros para quê? Já tens tantos... Nunca mais os lês a todos." 

 

Daí a ganância. A ganância literária, do saber, do conhecer. Porque há sempre novos, e antigos, livros que nos interessam, novas histórias e assuntos a explorar. Até aqui não há nenhum problema. O problema é o tempo; a falta de tempo.

 

Inventamos estratégias e inovamos nos nossos hábitos, para tentar compensar essa falta de tempo e mitigar essa ganância que nos invade. Lemos nos transportes, nos telemóveis, tentamos tornar todo um aparelho à prova de água para ouvirmos um audiobook durante a natação... E, invariavelmente, acidentes acontecem, o livro acaba na panela de sopa a ferver, chateamo-nos com o cônjuge porque nem durante o parto largaram o livro, etc. Pelo meio, a vida continua a intrometer-se e não é possível dedicar todo o tempo desejado à leitura, fazendo com que a lista de interesses continue a crescer e nunca seja reduzida, aumentando a mágoa que sentimos porque nunca iremos conseguir ler tudo aquilo que queremos.

 

E se eu vos dissesse que tenho a solução para tal problema? Uma solução em que ganham todos: vocês e eu. Mais uma vez munido do meu espírito empreendedor, posso resolver esse problema de forma rápida e que vos deixará a todos satisfeitos. Por uma pequena quantia, a negociar conforme o livro requerido, bem como uma cópia física do livro em questão, eu leio os livros que querem ler e não têm tempo para o fazer e conto-vos o que se passa! Num tempo que pode ir de dez minutos a uma hora (mediante o pagamento) eu conto-vos o livro todo. Todo o enredo esmiuçado, tal como se fossem vocês mesmos a tê-lo feito. 

 

Um serviço literário personalizado com o qual em poucos minutos despacham livro atrás de livro. É ver essas listas de livros lidos por ano a subir exponencialmente, obras despachadas, conhecimento sem fim; tudo sem esforço nenhum. Podem agora descansar e fazer a vossa vidinha normalmente, dar longos passeios, socializar, não queimar o jantar, pintar o quarto, ver os filhos a crescer, adoptar um papagaio... Tudo isso com o conforto e satisfação de que estão a ler um livro ao mesmo tempo. Deixem para mim os calos nos dedos e cortes de papel, a mantinha por cima das pernas, as copiosas quantidades de chá ou café, os óculos na cara devido à visão desgastada; deixem-me fazer o trabalho pesado e ler todos os livros.

 

A sério, pensem nisso...

 

 

Negócios Outono/Inverno

Tive um Verão muito produtivo, mas agora está na altura de mudar a minha estratégia e continuar a aproveitar-me das estações para obter rendimento.

 

Como sempre, tudo o que faço é para contribuir para o bem-estar geral e sempre com um grande espírito empreendedor. Por isso venho anunciar a minha nova linha de serviços Outono/Inverno.

A começar já hoje, podem encontrar-me a deambular pelas ruas da cidade para servir todas as vossas necessidades. Quer dizer, quase todas, porque isto dito assim parece que vou estar envolvido na prostituição, e eu não enveredo por esses caminhos. A menos que a oferta agrade e aí podia discutir-se essa possibilidade, mas é assunto para outra altura.

 

O que se vai mesmo passar é que eu vou estar a servir de pronto socorro para todas as vossas necessidades sazonais. Basta registarem-se na minha aplicação e requisitarem a minha presença sempre que algo vos aflija e eu aparecerei qual Super-homem; muito menos em forma, mas de certeza mais bem vestido.

 

Então em que consiste o reportório de serviços que vou prestar? Estou preparado para todas as condicionantes da época. Se saíram de casa e ignoraram aquele pensamento que tomava a voz da vossa mãe a dizer para levarem um agasalho porque ia fazer frio, apesar de na altura estar sol, eu apareço com um casaquinho para vos cobrir esse precioso corpinho. Casacos, fatos de água, mantas, cachecóis, luvas, gorros… Seja o que for que necessitem na altura para sobreviver nesta época.

Mas não é só! Os meus serviços são muito completos e vou andar pelas ruas sempre a zelar pelo vosso bem. Pacotes de lenços e medicamentos anti gripais vão ser por mim distribuídos como se vos estivesse a tentar vender droga. Claro que a minha zelação não é propriamente altruísta, é a troco de compensação financeira. Mas se me quiserem pagar em castanhas, também aceito.

 

E claro, o expoente máximo do meu negócio: o serviço de reparação de guarda-chuvas. Como se fosse um reboque que chamariam caso vos gripasse o motor do carro, eu vou tratar de arranjar os vossos guarda-chuvas no local. Um serviço que mais ninguém presta neste país, inovador e que só peca por tardio. Sempre que o vento vitimar o vosso guardião, sempre que as suas varas se partirem, sempre que se recusar a abrir ou que tenha algum buraco, eu apareço com o meu kit de reparação e resolvo o vosso problema. Varas extra, novas pegas, remendos, protecção anti vento, uma nova cobertura, tudo o que precisarem para melhorar ou reparar o vosso guarda-chuva e não terem problemas em chegar ao destino com a cabeça seca e um nível de conforto aceitável. Só não lhe chamem é de chapéu, porque senão eu vou ser obrigado a aparafusá-lo permanentemente na vossa cabeça; por aquilo que sei, é assim que se usam chapéus: na cabeça. Não presos num pau que seguram acima de vocês. Portanto, chapéu é na cabeça e se estiver preso num pau não é um chapéu. A menos que estejam numa situação de combate e pendurem o chapéu num pau para enganar o sniper adversário.

 

Já agora, numa promoção especial de lançamento os primeiros cem clientes recebem ainda uma vacina da gripe por conta da casa. Da vossa casa. Que isto do negócio não está muito favorável e eu preciso de um sítio para ficar…

Os jovens não comem elogios.

Os jovens portugueses não se alimentam de elogios.

O que é pena, porque parece que é a única coisa que lhes estão dispostos a dar.

 

Todos os dias, a toda a hora, há quem elogie os jovens portugueses: ou porque são muito trabalhadores, ou porque são grandes empreendedores, ou porque não têm medo de ir para fora e seguir com a sua vida, etc.

Também há quem diga que chulam os pais e que estão sempre agarrados ao telemóvel sem saber ainda o que é a vida, mas isso são contas de outro rosário.

 

GroupOfGirlsOnCellPhones-850x400.jpgTêm alguma razão, vá...

 

O problema é que esses elogios que os jovens recebem não se transformam em dinheiro - numa compensação real e palpável pelos seus esforços - e eles acabam por desmotivar. E depois, lá está, são considerados calões!

Se os elogios fossem comestíveis, então meu Deus... Era ver os jovens portugueses todos balofos, a vangloriar-se de terem comido até ao fim o grande elogio que haviam recebido do seu chefe meia-hora antes.

 

Infelizmente, não é bem assim.

 

Os jovens não conseguem gerir a sua vida só com um "Muito bem!", com um "Bom trabalho!" ou com a afamada "acumulação de experiência". A experiência é uma coisa muito bonita de se oferecer, mas não paga as contas que as pessoas têm no correio ou o carro que as leva para o trabalho (a menos que o seu trabalho seja mesmo roubar carros; nesse caso, até beneficia acumular experiência).

 

Tive uma ideia: em vez de elogiarem os jovens portugueses, dêem-lhes uma pastilha de morango de cada vez que eles fizerem um bom trabalho.

Não lhes vai matar a fome, mas dá-lhes algo para trincar enquanto fazem contas à vida.