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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Devaneios Irrelevantes da Imaginação

Tenho estado a tentar corrigir a minha falta de participação no blog, a tentar voltar, mas não tem sido fácil. Sei que isto não interessa a ninguém, mas não deixa de ser um ponto de honra. Mas então porque é que não o tenho feito, se o quero assim tanto? Não é propriamente por falta de conteúdo, porque há sempre alguma tolice a passear-me pela cabeça capaz de me entreter; podia dizer que a vida se meteu no caminho, que era devido ao trabalho, a isto ou aquilo, mas a verdade é que não é nada disso.

Quero fazê-lo, tenho ideias, tenho vontade de escrever alguma coisa, tenho tempo… No entanto, não tenho produzido nada. O problema é que acontece sempre alguma coisa quando tento escrever.

 

Sento-me confortavelmente, com o computador à frente e a secretária devidamente organizada de forma obsessiva compulsiva, com as distâncias entre as canetas e o bloco de notas cuidadosamente calculadas, alguns papéis soltos a dar a impressão de um projecto em curso e uma iluminação que me permite a melhor fotografia inspiradora que já passou pelo instagram.

 

Os dedos começam a dançar pelo teclado e dou por mim a perguntar-me o porquê de isso acontecer. Porque é que os meus dedos estão a dançar uma valsa por cima do teclado, não faz sentido nenhum. Assim nunca mais começo a escrever. Continuo a observar, fascinado, enquanto as minhas mãos se entrelaçam num fabuloso tango de teatro dedal. Do nada, a mão esquerda cai desamparada. Clara sabotagem por parte da mão direita, que assim custou o primeiro lugar neste concurso de dança manual. Todas as minhas canetas olham incrédulas para esta falha, e no seu papel de juízes dão uma nota baixíssima. As mãos afastam-se do teclado, abatidas e distantes uma vez mais. A mão esquerda não se contém e começa um ataque feroz à mão direita, metendo unhas ao barulho e tudo. A direita bem se tenta defender, mas a ferocidade da esquerda não amansa. Acusações de sabotagem começam a ser proferidas, as canetas já vieram todas ver o que se passava, eu contínuo fascinado, o cachecol pendurado nas costas da cadeira começa a meter-se, sem dúvida a ver que escândalo era este que não o deixava repousar calmamente. Descobre-se que a mão direita estava cansada de ter de fazer a grande maioria do trabalho, estoirada do seu papel dominante nesta relação e a incriminar a mão esquerda de ser uma mandriona, que nem tem jeito para nenhuma actividade. Todo este alvoroço culmina na revelação que a mão direita mantém uma relação amorosa duradoura com outra parte do meu corpo, órgão que a mão esquerda tão bem conhece mas nunca foi muito próxima. Saltam as tampas às canetas, o cachecol recolhe-se nas costas da cadeira e eu acabo por separar as mãos e pôr fim ao espectáculo, que isto de me meter em assuntos pessoais não é para mim.

 

Passada esta hora e meia, sem que nada para o blog tivesse sido criado, olho para o computador determinado a escrever aquilo que queria. É nesse momento que reparo na estranha mensagem que ocupa todo o ecrã, num fundo vermelho berrante umas letras garrafais brancas ferem-me a visão. Pior que isso é a sua mensagem:

 

Vasco: és a causa das vitórias do senhor Trump.

 

As pernas tremem-me e só não caio porque estou sentado. O meu computador, alvo de algum ataque informático para extorsão, talvez só para ameaça, mostra que alguém sabe a verdade, que alguém conhece o meu maior segredo. Aumenta o meu nervosismo e paranóia, sinto o batimento cardíaco na língua e fico intrigado: será que estou mesmo a sentir o batimento cardíaco na língua? Ponho os dedos da mão esquerda na língua e tento encontrá-lo. Pressiono e percorro toda a língua, mas nunca consigo realmente sentir o batimento cardíaco ali. Começo a ficar preocupado, será que estou morto? Levanto-me num salto e abro a porta do guarda-roupa para me ver ao espelho que tem numa das portas. Qual não é o meu espanto quando não vejo o meu reflexo! Já desconfiava, depois de não conseguir sentir o batimento cardíaco na língua. Não passo de um fantasma. Não sei quando morri, se sempre estive morto todos estes anos. É ao mesmo tempo que estou a colocar toda a minha existência em causa que volto a ficar demasiado ansioso e a sentir que estou com um ritmo cardíaco muito acelerado. Caio em mim e na estupidez do que estou a fazer, apercebendo-me que estava a tentar encontrar pulsação na língua. Olho com atenção para a porta do guarda-roupa e continuo sem ver o meu reflexo, mas agora percebo porquê. Não é este o guarda-roupa que tem o espelho na porta, é o outro. Dou uma boa gargalhada e preparo-me para voltar à minha vida quando me lembro do que realmente se estava a passar. A mensagem no meu computador! Alguém sabia a verdade e era preciso resolver este assunto de uma vez por todas. Esta informação não podia ser divulgada.

 

Olho com atenção para a frase que me enche o ecrã e de repente tudo faz sentido. E se vocês olharem com atenção também vão perceber. É uma mensagem codificada, criada com aquele conteúdo chocante para me fazer despertar. É muito fácil de perceber, é só reordenar as letras todas daquela frase e ficamos com a mensagem verdadeira:

 

Vasco, és cá um parvo. Tu estás só a sonhar.

DRDII

 

Tudo não passou de uma forma do meu cérebro me trazer de volta à realidade, de me despertar destas fantasias inconsequentes. DRDII (Departamento Real dos Devaneios Irrelevantes da Imaginação) é a sigla dessa secção do meu cérebro, como todos sabemos.

 

Assim que percebo a verdadeira mensagem acordo para o mundo. Nada disto se passou, continuo sentado à minha secretária com o editor de texto aberto e em branco. Finalmente despertei desta fantasia, mais uma de muitas. Agora estou demasiado alterado para escrever o que quer que seja para o blog, hei-de fazê-lo noutra altura.

 

A sério, eu bem que tento, mas continuam a acontecer coisas destas. Assim fica difícil.

A memória já não é o que era

Depressa, leiam e prestem atenção!

 

Não é habitual partilhar momentos pessoais ou opiniões sérias; nada do que digo vale a pena. Hoje o caso é outro, diferente, importante. Hoje tenho uma coisa para dizer e peço que o leiam e percebam.

Não é fácil fazê-lo, mas por vezes a vida tem destas coisas. Não me importo com as consequências, se as houver. O que tenho a contar é grave e importante, e já aguentei tempo suficiente sem o dizer, contra tudo o que acredito. Sinto-me mal por não o dizer mais cedo, vejo agora que essa teria sido, sempre, a melhor opção e não me sinto bem comigo próprio por ter adiado e escondido isso de todos vós durante tanto tempo.

 

Não o fiz com maldade. Foi uma decisão pensada e muito reflectida. Concluí que era o melhor, o mais adequado e seguro, guardar a informação que tinha para partilhar. Achei que não era o momento, que podiam não estar preparados. Admito que estava errado, peço desculpa. Se calhar foi só por insegurança da minha parte, eu é que não devia estar preparado para falar disso abertamente e reprimo-me por isso. Mas já está feito e só me resta aceitar que o devia ter dito mais cedo; hei-de dizer agora e pronto.

 

Antes que alguém venha, antes que alguém me impeça, vou dizer e vou contar. E oiçam/leiam e não ignorem. O que tenho para dizer já decorre há muito tempo. Talvez não o tenha dito mais cedo para poupar algumas pessoas, ou então esperava que alguém tomasse essa iniciativa e não recaísse tal tarefa sobre os meus ombros.

Mas já passou muito tempo e estou farto da situação, vou ter de dizer e pronto. Mais nada. Há que ter atitude.

 

Portanto, prestem atenção, é sério e importante. Tenho algo a contar e vou mesmo fazê-lo.

Antes de mais algum contexto, senão ninguém percebe nada, também.

 

Então é assim, vou contar agora, isto tem tudo a ver com... Esperem... Ok, isto é embaraçoso. Peço que me perdoem, mas não faço ideia do que ia contar. Esqueci-me completamente. Já estou aqui há uns 37 minutos a tentar lembrar-me e nada. Nada mesmo. Não me consigo mesmo lembrar do que queria dizer.

Bem, paciência. Não devia ser nada de importante, afinal. Há-de ficar para a próxima, para outro dia qualquer. Mas o mais provável é que não seja nada. Se calhar só queria dizer que tinha de ir estender roupa, ou algo do género. Não sei, penso que não, mas não me lembro mesmo do que podia ser.

 

Não me consigo mesmo lembrar, o que seria... Olhem, paciência. Esqueçam. Não era nada de importante, de certeza. Sou capaz de nunca ter tido qualquer coisa para dizer, sequer. 

O Fim de Uma Relação

Todos passamos pelo mesmo, de uma forma ou outra, mas nunca é fácil. Nem todas as relações são feitas para durar e, inevitavelmente, hoje chego ao fim de uma.

 

Hoje começo uma nova fase.

 

Há quem diga que é preciso mudar, que a mudança é uma coisa positiva. Não sou contra esta opinião, no entanto, a ideia de mudar não é uma coisa que me agrade. Nunca convivi bem com a mudança, mesmo que depois de efectuada tudo melhore e fique mais satisfeito. 

Nem a deitar coisas fora, por mais inúteis que sejam, é tarefa fácil para mim. Penso sempre que pode haver algum momento em que aquela pequena memória com forma física me vai fazer falta. Mantenho livros que possuo desde criança, colecções inteiras, que já na altura não gostava assim tanto, mas sou incapaz de me desfazer deles. São parte do que sou. 

 

Obviamente que relações são coisas diferentes de livros, por exemplo, mas é só uma pequena amostra para ilustrar o sentimento que me apega às coisas e o quanto de mim é parte delas.
Sou uma pessoa emocional, sentimental e que se apega (talvez demais) às coisas. O sentimento, contudo, é sempre verdadeiro e nunca com base no conforto e hábito.
Isto tudo para me levar ao que quero realmente dizer, ao fim de uma relação que mantinha já há uns anos. Relação esta que não termina de forma trágica e de mal com a vida, mas sim como resultado de algo que se vinha a arrastar há muito tempo e se torna inevitável. Uma relação não acaba de um momento para o outro, é um acumular de sentimentos e acontecimentos, uma progressão natural até a um fim que já estava anunciado. Chega a uma altura que não há volta a dar, o desgaste acumulado tornou-se fatal e já não há remendos possíveis.

 

Não quero estar a partilhar demais, nem a aborrecer ninguém, mas não queria deixar passar em claro este acontecimento. Foram muitos anos da minha vida com ela presente e o que sinto mantém-se. Contudo, nem tudo pode durar para sempre.
Quanto a mim, é claro que me custa; que não será fácil de ultrapassar. Por isso decidi dar o exemplo que dei no principio, porque este pode ser um acontecimento significativo. E não gosto de mudança, em teoria. Tenho medo dela, medo de arriscar. Mas as coisas acontecem.

 

Resta lembrar os bons momentos e também os maus, porque fazem parte, pelos quais passamos juntos. E foram muitos. Muita coisa boa fizemos juntos. Não sei como será daqui para a frente e se vou encontrar algo, outra vez, que me dê o que ela deu. E isso assusta, um futuro desconhecido, sem o conforto e a certeza que já tinha com ela. Mas há que tentar.

 

Rimos e chorámos, comemos e bebemos, saltámos e caímos... Sempre juntos. Ela esteve sempre lá para mim, sem nunca se queixar, sem nunca me julgar. Sempre disponível para o que quer que fosse e viesse. Sempre fomos diferentes, mas nunca inimigos. Aqueceu-me e confortou-me sempre que foi preciso e fizemos de tudo o que podíamos juntos; mais houvesse para fazer. Estando a ter um dia bom ou mau, sabia que podia contar com tudo aquilo que me dava, incondicionalmente. Sem falar no seu quente interior, sempre receptivo a que eu a penetrasse, quando quisesse, as vezes que fosse preciso.

 

Mas é assim a vida e agora há que continuar. Hei-de arranjar mais e esperar que o sentimento seja o mesmo, que me sirvam tão bem como esta sempre me serviu.

 

Tudo acaba.
Está na altura de a retirar da rotação e de, por fim, deitar fora este par de meias. 

Imagens sensíveis... Ainda me custa a vê-las.

 

 

Papel do Panamá

Eu estou lixado com esta merda dos papéis do Panamá. Parece que toda a gente está metida nisto, mesmo. Então com as notícias só a promoverem o assunto, cada vez mais gente se interessa por papel do Panamá. 

 

Depois há as pessoas como eu, que toda a vida usaram papel do Panamá para os seus projectos e as suas coisas e, agora, fica complicadíssimo de arranjar. Parece mesmo que não há maneira de obter papel do Panamá nos tempos que correm.

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 Parece que toda a gente descobriu o papel do Panamá, como se fosse um grande segredo antes disso. E agora andam todos lá metidos. Eu, que dependo de alguns materiais para exercer a minha profissão e cumprir com aquilo que ofereço, fico a arder.

 

Sem falar nos indignados que apareceram, saídos de alguma árvore como um pica-pau no cio, a acusarem toda a gente que usa papel do Panamá. Odeio estas modas. Arranjem outro hobby e deixem de copiar os interesses de toda a gente. Oxalá isto passe depressa. 

 

É que não passa de uma moda. "Jucenilde, ouvi agora nas notícias que o que está a dar é papel do Panamá, já encomendei duas resmas, antes que se acabe". Nem precisam desse papel. E vão fazer o quê com ele? É que para o que querem qualquer um serve. Usem papel português, que temos que contribuir para a industria local também. Ou, se querem papel da América Central, comprem papel da Costa Rica. Não tem metade da qualidade, mas, de certeza, serve perfeitamente para o que querem. Papel do Panamá é um artigo de luxo por uma razão, é preciso muito investimento para o produzir. E o seu uso é exclusivo também, portanto larguem as modas e deixem-no para os artesãos como eu.

 

Agora está esgotado, pois claro. Com todo este barulho à volta. E eu, que precisava urgentemente de reabastecer o meu stock, não tenho hipótese. Tenho um novo cliente que me encomendou setenta convites de luxo, impressos no melhor papel do Panamá. Claro que aceitei, é uma especialidade e um gosto. Depois vem esta nova moda e fico à rasca. Bem, cá vou ter de me arranjar. Não queria perder um cliente, muito menos um novo cliente, que se pode vir a tornar regular. A julgar pelo que me pediu, estes convites para uma festa de inauguração da sua nova mansão...

 

Por acaso não o conheço. Não faço ideia quem seja, ou como tem tanto dinheiro. Ou o que fez para o merecer e pôr a render, ou onde o guarda. Mas bem, isso não me diz respeito. Papel do Panamá é que interessa.

Apenas uns dias de uma vida normal

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08/04/2016

 

Querido Diário,
A primavera chegou e com isso alguns problemas em casa, como bem sabes. Tive de voltar a chamar um exterminador. Eu sei que estava sujeito a isso quando decidi mudar-me para a cidade, no campo não tinha estes problemas. Tenho de ficar fora de casa durante três dias e depois devo poder voltar, com a infestação resolvida.

 

09/04/2016

 

Diário do meu coração,
Estou a ficar em casa de um amigo até poder voltar à minha. Enquanto me estava a lavar notei que havia uma embalagem de condicionador. Ele é careca desde criança.

 

10/04/2016

 

Meu Diário fofo,
Dormir numa cama diferente afecta-me sempre a qualidade do sono. O Carlos disse-me que a meio da noite lhe entrei no quarto e tirei a lâmpada do seu candeeiro, mas não me lembro de nada.
Fui acordado de manhã pelo telefonema do meu vizinho, que me disse que estava alguém à minha porta para entregar um colchão e um candeeiro.

 

11/04/2016

 

Paixão de Diário,
O Carlos diz-me que é raríssimo aparecer algum em casa dele; um ou dois por ano em média. Logo por sorte foi enquanto eu cá estava. Estava a lavar a loiça e vejo um a espreitar e sair do espaço entre o armário e o frigorífico. Tenho nojo, mas estava sozinho e tinha de continuar na cozinha, pois tinha um assado a secar na máquina. Todo arrepiado fui para o apanhar e aproveitei quando parou de andar. Consegui dar-lhe com a colher de pau. Várias vezes até ter a certeza de que morria. Depois disso nem me quis desfazer dele, não gosto nada.
O que vale é que o Carlos não tem nojo nenhum. Quando chegou desfez-se dele num instante. E nem se importou com a quantidade de sangue espalhado pela cozinha, nem com os intestinos que tinham saltado para cima da mesa e que dançavam ao ritmo do motor do frigorífico. 

 

12/04/2016

 

Meu rico Diário,
Voltei hoje a dormir em minha casa. O exterminador disse que podia aparecer algum, que estivesse escondido e ainda não tivesse morrido. Mas para não me preocupar, que caso isso acontecesse, ele ia estar mais morto que vivo e não passaria de uma situação residual. Já não se podia reproduzir e a infestação estava tratada.

 

13/04/2016

 

Diáriozinho,
Voltei a ter o meu sonho recorrente esta noite. O tal em que participo numa competição de carpintaria e não consigo acabar a minha peça a tempo. A competição é ganha pelo indivíduo que tem os dedos da mão direita todos do mesmo tamanho. Quando vou para lhe cumprimentar, observo um gang de calculadoras a roubar o troféu. 
Acordei desconcertado e com o coração acelerado. Ah, além disso, estou a ficar sem detergente da roupa. E será que tenho toalhas limpas?

 

14/04/2016

 

Amável Diário,
O exterminador tinha razão e voltou a aparecer mais um homem aqui em casa. Estava no escritório, a finalizar o meu tratamento estatístico sobre o crescimento de alfaces nos dias ímpares do mês de Março em solos ricos em alcatifa, quando o vi. Não sei de onde apareceu, mas, tal como tinha dito o exterminador, via-se que andava desorientado. Estava a tentar trepar a parede e movia-se devagar. Punha os pés e as mãos na parede e deslizava até ao chão.

Tinha de o matar, mas imediatamente fiquei arrepiado só com a ideia. Estes seres enojam-me mesmo. Sei que dizem que não fazem mal, mas, para mim, não há nada pior que um humano. Seres nojentos e repugnantes. Atirei uma bota a ver se lhe acertava, mas falhei. O homem não ficou muito afectado pela tentativa, continuava ali desorientado e lento. Atirei a outra bota e consegui que lhe acertasse. Com ele já lá caído, dei-lhe repetidamente com a bota até cobrir todo o chão de sangue. É mesmo nojento. Quem diria que tinham tanto. Deixei a bota em cima do corpo e fui trabalhar para o quarto.

 

15/04/2016

 

Louvável Diário,
Já não me lembrava que tinha matado um homem no meu escritório. Continua lá com a minha bota em cima. Tenho de me desfazer dele mas tenho nojo mesmo quando estão mortos. Pensei ligar ao Carlos. Sei que era estúpido da minha parte, chamar ajuda só para deitar fora um homem que matei, mas é que não gosto mesmo nada. Lembrei-me, depois, que o Carlos estava fora da cidade, é um dos oradores convidados do XIX Congresso Nacional de Bingo.
Fui buscar um guardanapo e enchi-me de coragem, mas não fui capaz. Quando comecei a tocar no cadáver, o meu corpo recolheu-se todo. Que estratégias alternativas existem para me livrar de um corpo e que não incluam ter de tocar nele? 
Pensei em usar ácido, mas provavelmente ia dar-me cabo do tapete;
Podia chamar o exterminador, mas este ia gozar comigo, certamente, e cobrar algum valor absurdo;
Não tinha comprado sacos para o aspirador, por isso não o podia utilizar;
Queimar o corpo e depois varrer as cinzas podia resultar. Mas depois corria o risco de estragar as cortinas; Normalmente não me importaria, mas estas eram herança de família. O meu tio-avô tinha-se enforcado involuntariamente com elas, num dia que tinha sido atirado pela janela por uma partida dos filhos, que tinham posto uma mola debaixo do seu lugar preferido no sofá. Só foi descoberto quatro dias depois, pendurado na cortina pelo pescoço, do lado de fora da janela e com uma família de gaivotas a usar a sua cabeça como ninho.

Não sabia mesmo o que fazer, mas depois lembrei-me que, uma vez, eu e a minha irmã tínhamos matado uma barata. Os dois com nojo de ter de limpar o local do crime, mas com o stress de ter de o fazer antes da polícia descobrir, notamos que dezenas de formigas tinham vindo em nosso auxílio. Lembro-me que ficamos os dois durante um par de horas a observar, enquanto as formigas desmembravam e levavam a barata às peças através de um pequeno buraquinho. No dia seguinte, numa passagem de rotina, a polícia não deu com nada que pudesse aguçar a suspeição. As formigas tinham feito um trabalho excelente. 

Decidi tentar este método. Parti um bolacha e deixei um trilho de migalhas desde a janela até ao corpo. Vamos ver se dá certo. Era uma bela ajuda.

 

16/04/2016

 

Meu doce Diário,
Acordei hoje com a campainha. Lá estava alguém com um colchão e um candeeiro. Tivemos uma discussão, mas ele provou que os tinha encomendado durante a madrugada do dia dez. Acabei por aceitar e a ter de ficar com os produtos.
Fiquei mesmo sem detergente da roupa. Ao menos tenho toalhas lavadas.

Sei que queres saber sobre o corpo do homem que matei no escritório no outro dia. As formigas vieram! Para elas é um festim. Já me mandaram dezenas de postais pelo correio e, pelo menos, quatro convites para casamento, bem como um para uma coroação. Quando passo pelo escritório para ver como está, são sempre todas simpáticas. Porque não pensei logo nisto? Assim é que se desfaz das coisas. E sem se perder nada. Devem acabar de arrastar todas as partes e migalhas do corpo dentro de dois dias, pelo que vejo. Hoje já só tinha meio corpo e estavam a trabalhar num pulmão, enquanto outro esquadrão tentava manobrar parte do fígado pela pequena passagem ao pé da janela que as leva para a rua e para o seu formigueiro.

 

17/04/2016

 

Diário,

Pensamento engraçado: Se os carros usassem pepinos como combustível, sempre que fossemos abastecer era muito mais engraçado para todos.