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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. III

     - Esteves, alguma novidade? – perguntaram-lhe pelo walkie-talkie.

     - Ainda nada, chefe – respondeu o Esteves.

     - Continua à procura, então.

     Manuel Esteves ainda não tinha a certeza do que queriam que encontrasse. Tinham-lhe pedido para rever as cassetes de segurança daquele dia, particularmente a do corredor do quarto 59. E ele bem que procurava, mas não via mais ninguém a entrar naquele quarto para além de uma enfermeira de meia-idade cujo nome agora não se lembrava bem e, a dada altura, vários enfermeiros e médicos que corriam na direcção do quarto, como se uma emergência tivesse ocorrido. Era tudo o que as cassetes daquele corredor lhe mostravam para aquele dia, mas parecia não ser suficiente para os seus superiores.

     Mas foi isso que lhes disse.

     - Senhor, continuo sem ver mais do que aquilo que lhe disse há pouco. Tudo normal até à altura do incidente.

     - Certo, Esteves, vamos analisar a situação por aqui. Continua atento – ordenou-lhe o chefe da segurança do hospital.

     Manuel recostou-se nas costas da cadeira. Estava cansado de tudo. Aquele novo trabalho não era especialmente difícil ou exigente, mas acordar cedo todos os dias para ir para a monotonia do cubículo escuro ver ecrãs a preto e branco o dia inteiro não era propriamente uma fonte de entusiasmo e de adrenalina. Sentia-se como uma pessoa que, quanto mais dorme, mais quer dormir – embora não dormisse mais do que o tempo necessário todos os dias.

     A situação só melhorava quando partilhava o dia de trabalho com o Sousa, que, embora lhe ocupasse algum espaço no cubículo, sempre era uma companhia, e era um tipo divertido. Mas o pai do Sousa tinha morrido, e o rapaz estava de licença.

     «Continua atento», tinham-lhe pedido. Mas Esteves já tinha tido atenção suficiente por um dia, e sabia que pouco mais tinha para fazer, a menos que alguém lhe desse uma enxada para a mão ou lhe fizessem mais algum pedido pelo rádio. E, nessa altura, acordaria.

     Fechou os olhos e tentou dormir, mas, ao abri-los novamente para uma última análise ao ambiente que o rodeava, viu muito perto dele duas bolas amarelas e ameaçadoras. Foi a última coisa que viu, embora conseguisse sentir enquanto esquartejavam os seus quatro membros de uma só vez.

 

***

 

     Tomás Sousa estava de licença, era verdade. Mas sentia-se culpado por ter deixado o Esteves sozinho naquele cubículo nos últimos dias. Como ia regressar ao trabalho logo no dia seguinte, decidiu surpreender o colega e levar-lhe um quiche vegetariano feito pela mulher, com alguns vegetais que o próprio colega havia colhido e lhe havia oferecido como forma de lhe dar os sentimentos. Além disso, conversar com o Esteves fora do contexto do trabalho ia fazer-lhe bem.

     Contudo, quando abriu a porta da garagem onde estava o cubículo das câmaras de vigilância e olhou para dentro, não viu nada para além de manchas de sangue nos vidros e de um rasto da mesma substância no chão, que desaparecia completamente alguns metros mais à frente. Os ecrãs continuavam ligados e a cadeira do colega estava caída de costas, mas não havia sinal do Esteves.

     Tomás carregou num botão da mesa e falou para o microfone, pedindo ajuda.

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. II

     Sonhava. Com os campos, com a terra fresca, com a neblina matinal que gelava os ossos e humedecia as enxadas; sonhava com o sol do meio-dia e a brisa que lhe secava o suor quando se recostava numa faia. Sempre sonhara apenas com o que conhecia, pois imaginação era uma das coisas que também nunca tinha tido e a sua visão do mundo sempre fora ordinária e restrita ao que o rodeava.

    Entretanto, apercebeu-se que não sonhava, mas que lembrava. O cérebro convalescia em memórias enquanto se mantinha num estado de subconsciência. A cacofonia que ouvia era a orquestra de enfermeiros e médicos, o tilintar de pequenos objectos de metal; sentia o frio nas costas e uma dor na perna. Ou onde devia estar uma perna, já não tinha a certeza de nada. Não sabia quanto tempo passara, onde se encontrava, ou o que estava a acontecer exactamente, mantinha-se naquele limbo existencial entre memórias e presente.

     Uma vez tinham-lhe dito que antes de morrer toda a vida nos passava pelos olhos em imagens. Luís nunca ligou nenhuma a essa informação, mas agora pensava se não seria isso que estava a acontecer. Estaria ele a ver o filme da sua vida, o presente de despedida que Deus nos confere? Não tinha vontade de viver nem de morrer, não tinha vontade de nada. Sempre aceitara que viveria enquanto tivesse que ser e morreria quando chegasse a hora. Entregou-se às memórias que continuavam a mostrar-se e abandonou a pequena noção que tinha recuperado do mundo real.

     Via coisas que não sabia que estavam guardadas na sua mente, via coisas das quais se lembrava de maneira diferente. A realidade não é tudo o que parece e as certezas da memória não passam de percepção, mas Luís não o compreendia totalmente. Só estava contente por se ver criança a correr.

     Em consciência não se lembrava de tudo o que agora revia, mas era assim que as coisas tinham sido. Era o que lhe diziam as memórias agora desbloqueadas. Reviu o dia em que faleceu o pai. O dia em que, com os seus tenros catorze anos, saiu pela alvorada para lavrar a terra, naquele que seria o primeiro dia do resto da sua vida. Nunca mais tinha pensado nisso desde que aconteceu. Parecia tudo novo, seria possível ter revelações sobre as próprias vivências? Ao fim da manhã, meras horas após a terra ter assentado em volta do caixão do pai, parou para merendar. Sentado ao abrigo de uma faia, não ouvia vivalma. Foi, por isso, com surpresa que notou no homem a aproximar-se dele, que se prostrou à sua frente tapando o sol. Como podia ter esquecido aquele homem e a involuntária inquietação que ele o fez sentir?

     Por embaraço, ou cautela, não tinha dito muito, limitando-se a responder. A vida não é mais que isto, dizia-lhe o homem, que só a terra provia. Desde que continuasse nos seus afazeres, que se dedicasse à terra, nada lhe faltaria. As couves seriam sempre verdes e as batatas não faltariam, era uma garantia pessoal. Era só o que preocupava Luís naquela altura e ali estava um estranho a assegurar que desde que se mantivesse focado na terra, viveria com sustento e sem preocupação. Isso e apertar-lhe a mão, dizia o homem, assegurava essa fertilidade e futuro. E trabalho, sempre muito trabalho. Da escravidão do trabalho não se safava, como o pai tinha feito, disse-lhe o homem, era uma troca justa, acrescentou. Luís não percebia, mas certo é que apertou a mão ao homem. Fitou os seus olhos amarelos enquanto o fazia, ardentes, ansiou por recolher a mão que fervia, mas não conseguia desviar o olhar. No final, venho buscar-te, bocado a bocado, disse o homem.

     Luís abriu os olhos numa ânsia sôfrega, zonzo e com a mão a escaldar. Notou que estava amarrado à cama.

 

Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. I

     Luís Fagundes nunca teve filhos. Também nunca teve uma família, nem sequer uma casa. Luís Fagundes, bem vistas as coisas, nunca teve nada. Agora, naquele lar para onde tinha sido transportado após a morte da irmã, também não tinha uma perna. Pelo menos já não a sentia. Aparentemente, iam cortá-la por causa de uma doença qualquer que Luís mal sabia o que era, mas que lhe diziam que tinha. E ele, como sempre fora uma pessoa conformada, anuía. Mas talvez não o tivesse feito se soubesse que, como consequência, lhe iriam retirar um dos seus quatro instrumentos de trabalho – os seus membros.

     Toda a vida Luís tinha trabalhado a terra. Tinha sido o seu único sustento e contribuição (embora mínima) para a casa da irmã e do marido dela, onde sempre residira após a morte dos pais. Apesar de tudo, não era um inquilino especialmente incomodativo. De manhã à noite, tendo o cuidado de levar algumas merendas consigo para não ter de ter o trabalho desnecessário de parar de trabalhar, ficava nos campos e plantava um pouco de tudo, mas com especial destaque para as batatas.

     Ninguém sabe bem o porquê de Luís não ter dado um pontapé mais a fundo na sua própria vida – nem sequer o próprio. Mas, ao que tudo levava a crer, tinha sido feliz de enxada na mão e em longas conversas com os outros homens da freguesia num banquinho que havia no adro da igreja. Ali, falava-se principalmente de agricultura – pelo menos quando passava alguém, porque toda a gente sabe que os homens falam de muita coisa quando estão sozinhos.

     No entanto, cavar a terra ao pé-coxinho ainda não é, nos tempos de hoje, factível. Existem demasiadas condicionantes; e Luís, embora tivesse alguns indícios de demência e estivesse ainda meio zonzo por causa da medicação, sabia-o.

     Começou a chorar, mas sem derramar qualquer lágrima. Habituara-se a chorar para si mesmo ao longo de toda a vida. Era capaz de entrar e sair de um longo estado de depressão sem alguém notar, mesmo a família, até porque nada disso alguma vez o impedira de continuar a trabalhar e a seguir com a sua vida.

     A sua auto-comiseração foi interrompida por uma das enfermeiras que costumava visitá-lo. Não era bonita nem feia, mas Luís também nunca tinha tido grande apreço por essas questões de beleza. Só tinha tido uma namorada e não durara muito tempo, até porque fora naquela altura em que pouco tempo de namoro não dava direito a muitas trocas afectivas – não como hoje em dia, achava ele.

     A enfermeira pediu para entrar e, ao olhar para a cama de Luís, deu um grito. Apressou-se a pedir ajuda na direcção geral do corredor e a lançar-se para o armário das toalhas. Luís só teve tempo de a ver despejar uma grande quantidade de toalhas brancas em cima da cama que, ao serem levantadas, tornavam-se avermelhadas. Não sabia o que se estava a passar, mas sentia-se cada vez mais zonzo; e já não tinha a certeza de ser da medicação.

     Adormeceu.

Conto do Alfredo e do duche pela manhã.

Alfredo acordou de manhã e deixou-se ficar mais um pouco na cama. Afinal, conseguia ouvir os colegas de casa a tomar duche.

Era sempre assim, de manhã. A competição era feroz, e o duche era só um.

 

Quando despertou completamente, o duche continuava ocupado. Decidiu ir tomar o pequeno-almoço.

Já de barriga cheia, voltou a colocar o ouvido à escuta, mas continuava a ouvir o estalar da água no chão do poliban. Decidiu ir trabalhar, adiantar alguma coisa enquanto esperava.

 

Trabalhou, almoçou, voltou a trabalhar e regressou a casa. E era vê-los, ora uns a sair do duche enquanto ainda esfregavam a farta gedelha, ora outros a entrar de toalha e champô em punho.

Parecia uma linha de montagem, na qual entravam ainda badalhocos e saíam impecáveis a nível da higiene pessoal.

E Afredo sempre sem conseguir tomar duche.

 

Acabou por decidir ir dar uma volta ao parque, para espairecer. Bebeu uma limonada, viu o pôr-do-Sol e regressou a casa. E jantou, porque a casa-de-banho continuava ocupada mas a cozinha, essa, estava livrinha da silva.

E, no dia seguinte, fez tudo de novo, porque ainda por cima a água às vezes esfriava sem ninguém saber porquê e atrasava ainda mais o processo.

 

Consta que, hoje em dia, Alfredo já terá falecido, tendo deixado como herança dois filhos e um neto.

Mas uma coisa é certa: nunca chegou a conseguir tomar duche.

 

Paz à sua alma.

Mini-contos (#06)

Hoje seria o aniversário da minha mãe.

Pedi uma fatia de bolo para a relembrar e celebrar,

mas só me deram uma fatia de tarte de maçã de ontem.

Pedi uma vela acesa para lhe homenagear,

mas os guardas só se riram de mim.

 

Nunca me deixam estar na presença de fogo desde que a queimei viva.

O altruísmo mata.

Eu tinha um amigo que era a pessoa mais altruísta que vocês alguma vez poderiam conhecer.

Digo "tinha" porque ele, infelizmente, já faleceu. Justamente enquanto dava de comer aos mais necessitados.

 

Esses mais necessitados eram a sua própria família. Rogério era marido de uma esposa só, mas pai de dois filhos. Como não era um homem de grandes talentos, nunca conseguiu segurar um emprego o tempo suficiente para construir uma carreira e, por isso, saltitava de salário mínimo em salário mínimo. Aconteceu que tenha falecido num longo período de desemprego.

Ora, por isso, tornava-se cada vez mais difícil alimentar quatro bocas. Daí que Rogério tenha descurado completamente a sua, não comendo. Mas não, não foi de fome que ele morreu.

 

Um dia, quando ia fazer o pequeno-almoço para a família, Rogério reparou que já não tinham comida nos armários. Nada, zerinho! Por isso, teve de desenrascar qualquer coisa.

Começou por cozinhar os seus pés. Não seria a parte mais saborosa do corpo, mas dava para entrada e também para ele se ir habituando à dor. Prensando-os contra a tostadeira, fez apetitosas tostas que serviu à família sem nunca lhes contar a verdade.

 

Depois, cozinhou as pernas. Agora sim, começava a haver carne de qualidade! Apesar de não ser em grande quantidade, já que Rogério passava fome há vários anos e tinha pernas de periquito.

Mas era saboroso roer o osso.

 

Os pratos continuavam a sair da cozinha, e a família sempre sem perceber o que se passava.

Só quando Rogério começou a aproveitar as suas próprias tripas para fazer salsichas é que eles se aperceberam de que algo não estava certo: não era normal haver tanta comida à disposição naquela casa.

Quando foram à cozinha para ver o que se passava, deram com Rogério, ou o que restava dele, em cima do balcão mais próximo do fogão, já sem forças para continuar.

Ainda foram a tempo de ouvir as suas últimas palavras:

 

- Comam, comam... Que amanhã faço-vos uma omelete.

 

Eles nem perguntaram mais nada, porque não queriam saber de onde raio ele achava que iriam sair aqueles ovos.

E, aí, Rogério morreu.

 

Paz à sua alma.

Essa ninguém comeu.

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. IV

     - Vai pela sombra! – disse Afonso ao enfermeiro. Seriam as últimas palavras que trocariam um com o outro, e ambos sabiam disso; embora não pela razão correcta.

     Já era tarde. Bastante tarde, aliás, para um homem de quase sessenta anos. Leonor deveria estar preocupadíssima com ele, com o seu papá, como o homem que lhe servia tanto de saco de boxe como de Muro das Lamentações pueris, próprias da idade. Mas tinha de fazer o que fez, não havia volta a dar. Já tinha esperado demasiados anos. A coragem ia-lhe e vinha-lhe, como o oxigénio nos seus já cansados pulmões. Se num dia achava que estava na altura de fazer alguma coisa em relação ao assunto, no outro já não era invadido pela mesma adrenalina da antecipação de se ver a cravar uma estaca no coração de Raquel, ou algum ritual do género que é próprio de se fazer aos monstros. Porque Raquel era um monstro, efectivamente, e Afonso sabia-o! Acreditava na sua condição mental de criança assustada, pois claro que sim, mas tinha para si que aquela era uma personagem criada pelo seu sentimento de culpa pelo que havia feito àquelas crianças; nas quais se incluía a sua irmã, Matilde Pureza.

     Matilde era a irmã mais velha de Afonso Pureza. Tinha estado no aglomerado de miúdos que tinha tudo para ser uma festa, mas que acabou por ser a maior tragédia da vida daquela pacata cidade. Futuros doutores, engenheiros, advogados e até empregados de limpeza e marceneiros não passavam agora de pequenos sacos de ossos no cemitério municipal. E Matilde era um desses saquinhos. A criança feliz e atenciosa que era, nunca tendo sequer dado a entender o mínimo sinal de desagrado quando nascera o seu irmãozinho mais novo, já não existia. Deixara de existir de repente, ainda Afonso aprendia a dar os primeiros e atrapalhados passos na Terra, a mesma que ainda dava abrigo a Raquel Adarga, embora ele não percebesse bem porquê. Achava que, depois do que ela fizera, Raquel deveria ter sido erradicada do próprio planeta.

     Mas tal não acontecera, e agora Afonso, um homem que valorizava a família acima de tudo e que tinha visto a sua ser desfeita pelas mãos de Raquel, queria exercer a sua cláusula de vingança, que achava existir desde que aquela assassina havia assinado um contrato com veneno. Mais do que isso: queria vingar-se também de todas aquelas pessoas que, durante anos, haviam dado guarida a Raquel Adarga. Daquele hospício onde tantas vezes tinha entrado com o objectivo de visitar Raquel, percebê-la a ela e o porquê de ter feito o que fez, mas de onde havia sido sempre barrado pelos adoradores fardados daquela assassina. Por isso, fizera o que fez. Ou o que Abel tinha começado, mas que ele iria terminar assim que apanhasse Raquel Adarga cá fora…

     Deixou Abel no sítio onde tinham combinado, longe do hospício e da confusão que ambos sabiam que se iria instalar, e seguiu viagem novamente. Não parava de pensar em Raquel. As rugas que via de ano a ano nos jornais atormentavam-lhe frequentemente os sonhos, punham-no doente no Inverno e mal-disposto no Verão. Poderia apenas esperar mais uns anos até que o velhinho corpo de Raquel Adarga cedesse, com o peso da idade? É claro que podia, e nem tinha de se chatear. Só que não sabia quantos anos de idade ainda restavam àquele monstro, e achava que ele não merecia ter o privilégio de morrer de velhice. Era uma questão de justiça!

     Arrancou novamente na direcção do hospício, mas deu a volta por trás a alguns quarteirões de distância. Não queria, de todo, envolver-se a si nem ao Opel Corsa alugado a não ser que tivesse mesmo de ser; a não ser que fosse procurado após matar o corpo e a alma – as duas almas, aliás – de Raquel Adarga.

     Estacionou o carro a uma distância considerável do edifício e saiu para a rua. O ar estava pesado e húmido, mas corria uma leve brisa que provocava as folhas das árvores ao longo da rua. Deu por isso que se tinha esquecido de uma coisa importante – muito importante – e voltou a entrar no carro para retirar a pistola de dentro do porta-luvas. Deixou ficar o coldre, porque assim era mais fácil escondê-la por entre a roupa caso desse de caras com alguém.

     Voltou a sair do carro. Desta vez, já tinha tudo consigo, incluindo a pequena lanterna que trazia sempre no porta-chaves, embora nunca lhe tivesse dado uso. Agora, aquele pequeno aparelho ia ter uma estreia em grande! Foi-se afastando do Opel enquanto olhava em volta, para se assegurar de que não era visto, e reparou que a rua estava deserta. Talvez demasiado deserta, mas isso podia ser impressão sua e do seu crescente estado de ansiedade; afinal, já era tarde para haver transeuntes. Percorreu as ruas silenciosas como um monge percorre os claustros do seu mosteiro. Reflectiu como um monge, também, embora estivesse certo de que um religioso que tivesse os pensamentos macabros, vingativos e angustiantes que ele havia tido nos últimos tempos não podia ser lá muito bom religioso.

     Enquanto percorria a terceira rua que lhe faltava para chegar até ao emaranhado de vegetação que ficava nas traseiras do Hospício Padre Cabral Correia, e que desconfiava ter sido o sítio para onde uma assustada Raquel Adarga se tinha dirigido, Afonso olhou em frente e estremeceu. O que viu, uma figura negra e oscilante que parecia mover-se ao sabor do vento – embora a brisa nocturna soprasse na direcção contrária –, fê-lo deter-se quase instantaneamente, como um animal que não quer alertar o seu predador para a sua presença. A sombra foi-se tornando gradualmente mais pequena e Afonso percebeu porquê: não estava a diminuir em tamanho, estava era cada vez mais longe. Parecia subir a colina que dava para o bosque, levitando um pouco acima do solo mas nunca a mais de um metro. Era como ver uma pequena nuvem, carregadíssima de más e chuvosas intenções, a percorrer um pequeno trilho pedestre a vinte quilómetros por hora. Só quando deixou de ver aquela pseudo-entidade por completo, e teve tempo suficiente para garantir a si próprio que afinal não vira nada e que aquilo não passava de um jogo de sombras nocturnas provocado pelo perverso sentido de humor do acaso, é que resolveu retomar o seu caminho, com o seu estado de ansiedade um pouco mais aguçado.

     De repente, começou a ouvir, cada vez mais próximo, o barulho de sirenes. Várias sirenes. Depois, muitas sirenes! O pânico abriu de rompante a porta que separava o seu cérebro da irracionalidade e começou a correr a toda a velocidade – ou ao máximo de velocidade que conseguia, com a sua idade – na direcção do bosque.

     “Os filhos da puta descobriram-me! O sacana do enfermeiro desbocou-se!”, pensou Afonso. Só que, enquanto corria, percebeu que deixava cada vez mais para trás o barulho das sirenes. Virou-se para trás e viu – juntamente com as portas e janelas das várias casas que se iam abrindo para que os seus inquilinos pudessem tentar perceber o que se passava – que as luzes azuis e vermelhas tinham parado, não nas traseiras do hospício onde ele se encontrava, mas na porta da frente. A silhueta escura do edifício fantasmagórico recortava os clarões bicolores e de alternação rápida que brilhavam no céu, como um grupo de faróis sob o efeito acelerador de anfetaminas.

     Virou-se novamente, enfrentando a escuridão da vegetação que se estendia à sua frente e que contrastava com o cenário que se perfilava nas suas costas, e voltou a caminhar naquela direcção. Estava certo de que todo aquele aparato de homens fardados estava à procura dele – dele e de Raquel Adarga, caso ela já tivesse escapado –, só deviam era estar a procurar no sítio errado.

 

***

 

     Leonor estava ofegante, mas não tanto como Luís. Apesar do seu aspecto relativamente jovem, o avançar da idade do psiquiatra já não lhe dava muitas mais benesses. Se bem que a culpa não era inteiramente dele. A encosta do bosque começava algo ligeira, mas tornava-se mais e mais íngreme à medida que se ia subindo. Principalmente ao passo apressado em que subiam ambos. À sua volta, as árvores abanavam ligeiramente como se estivessem a dançar um slow, e Leonor sentia-se quase enojada por estar agora a consumir a largos goles o mesmo ar putrefacto que ainda há bocado, no carro de Luís, a tinha impedido de abrir a janela.

     O ar pesado, suportado pelo ambiente também pesado em que se encontravam e apenas pontuado pelos seus passos, pelo agitar das folhas ou pelo lamento de algum pássaro nocturno mais desassossegado, foi cortado pelo som da voz ofegante de Luís:

     - L-liga a tua lanterna, se fazes o favor. – pediu o médico a Leonor, fazendo o mesmo com o seu aparelho. – O caminho só vai ficar mais escuro a partir daqui.

     Tinha razão. Tendo ambos estado, até então, relativamente iluminados pela luz das sirenes e do burburinho popular que se instalara à volta do hospício – e não querendo atrair as atenções de toda essa gente para dois pontos brilhantes no meio da vegetação que costumava estar embrulhada na penumbra –, era agora altura de aclararem o seu percurso recorrendo aos seus próprios meios.

     Com as duas lanternas em riste, e os kits de primeiros-socorros às costas, Luís e Leonor pareciam dois pequenos escuteiros perdidos numa floresta. Percorreram enquanto puderam o caminho de ervas secas que ainda parecia existir no chão, apesar do grave estado de abandono em que se encontrava o bosque. Quando o trilho desapareceu e as ervas voltaram a esverdear, andaram mais alguns minutos naquela direcção à espera de finalmente encontrar algo.

     E encontraram. Leonor julgava já ter visto aquelas calças de ganga bege em algum lugar. Também pensava estar relativamente familiarizada com aquele pólo azul-escuro. Mas só quando viu os poucos cabelos eriçados na parte de trás da cabeça daquele indivíduo é que percebeu quem se tratava:

     - Pai! – gritou a jovem, dilacerando o silêncio que teimava em fazer-se ouvir. Correu para aquela figura deitada no chão e Luís seguiu-a, olhando em volta. O silêncio podia já não existir por completo, mas a penumbra, toda aquela que não era iluminada pelas suas lanternas, mantinha-se.

     A poça de sangue que contornava o chão à volta da cabeça de Afonso não fazia prever boa coisa, mas, mesmo assim, Leonor virou-o e, mais uma vez, os seus gritos – agora quase de desespero – inundaram aquele tenebroso lugar. Quando Luís se aproximou e conseguiu ver o mesmo cenário que Leonor, não conseguiu evitar fazer uma careta de repulsa. A cara daquele corpo, fora ela qual fosse, tinha sido cavada da própria cabeça como se por uma concha de gelado gigante, existindo agora apenas um buraco côncavo no seu lugar. A metade do cérebro que restara ainda estava teimosamente colada ao crânio, cujos ossos mal eram visíveis no meio de tanto sangue, ainda fresco.

     Enquanto Leonor gritava e chorava, de raiva e de dor, de confusão e de desespero, agarrada àquele corpo, Luís arrependia-se de tudo aquilo, mas já tentava retirar algumas conclusões. “Quem fez isto não deve andar muito longe”, pensou. Depois, agarrou com força o farrapo de ser humano em que estava transformada a sua mais recente estagiária e tentou consolá-la o máximo que podia, naquelas circunstâncias.

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. III

    Leonor lutava contra a informação que lhe avassalava o cérebro. Quase nem se conseguia concentrar com o martelar do seu ritmo cardíaco que lhe dilacerava os ouvidos, vívido de forma invulgar, tão forte que sentia a cabeça dilatar e a garganta a aferrolhar. Queria acreditar que era uma partida, uma praxe de alguma forma. Meterem-se com a estagiária, afugentarem a inocência que nela podia residir. Iriam todos rir-se deste acontecimento anos mais tarde. Leonor via-se a contar esta história no primeiro dia do novo semestre aos amigos enquanto trocavam impressões acerca do Verão e das suas primeiras experiências e contactos com o mundo de trabalho; deu por si a relatar aquela noite num primeiro encontro, para quebrar o gelo; a partilhar histórias dos tempos de estudante, enquanto socializava numa qualquer conferência médica; recontar aquela experiência anos mais tarde, como sendo uma inspiração que lhe fez focar estudos num certo fenómeno, no início do seu discurso sobre uma importante descoberta científica que ajudara a alcançar; como um momento de humor no meio da sua história de vida, partilhado durante uma conversa com alunos de medicina na sua antiga universidade num qualquer evento em que seria convidada. Aquela história de que os filhos se iam fartar e os netos ansiar ouvir repetidamente.

    Não era nenhuma partida, infelizmente. Sabia, sentia, que o que Luís lhe contara após tê-la arrancado do conforto uterino do lar era a verdade. Sentia-o através do ar que lhe era difícil inspirar dado a sua garganta virtualmente fechada pelo horror que lhe fora relatado. Este tipo de coisas acontecia nos filmes, não na realidade. Não a ela, ou na sua proximidade. Mas lá estava ele, aquele sentimento de inevitabilidade, escoltado pelo apregoar do seu coração, manifestação física do nervosismo que lhe assolava e lhe dizia que não haveria filhos ou netos, conferências e grandes descobertas. Não, aquela noite estava apenas a começar e Leonor já a queria esquecer.

    O carro resvalava, vibrante, pelas ruas da cidade, lançado em direcção do hospício. O peso da grande bigorna da existência fez Leonor soluçar à procura de oxigénio. Absorveu todo o ónus que o ar carregava, e, de pulmões cheios, abordou o que andara a censurar na sua mente.

     – Fui eu? Foi por causa de mim qu…

     – Não, nada disso – cortou Luís. – Mas tenho as minhas suspeitas.

    – Suspeitas? Mas acha que foi propositado? – Perguntou Leonor, de olhar arrebitado.

    – Tenho a certeza – respondeu ele, dando uma guinada ao volante e enveredando por uma ruela apertada. – Disso não tenha dúvidas, Leonor. Alguém destrancou a porta propositadamente. Alguém queria que Raquel Adarga saísse daquele quarto. Como e porquê, não sei.

    Leonor desviou o olhar. Observou, pensativa, enquanto o contorno dos prédios ia arquitectando o horizonte atrás deles. Luís conduzia com a urgência que a situação parecia requerer, mas Leonor ainda não percebera que peça era ela neste intrincado tabuleiro. 

     As suas mãos irrequietas percorreram a porta e encontraram a pequena protuberância que faria descer o vidro, caso pressionada. Leonor pensou em abrir a janela, o café com leite saltitava-lhe no estômago e não pediria licença para se ausentar de lá. Acabou por não fazer nada, pensou que iria conseguir cheirar a chacina, saborear o seu sangue; achou que não aguentava o putrefacto vento daquela noite. O corpo pressionava agora a porta do carro, como que numa reacção fisiológica de fuga. Não tinha nada a ver com isto, era só uma estagiária. Só uma estudante. Só queria estar em casa, partilhar as suas experiências com o pai e perder-se na minúcia própria da sua juventude; ainda mal era adulta, apesar da sua atitude.

     Este ar de insegurança foi notório para Luís que se apercebeu, talvez pela primeira vez, que Leonor ainda não passava de uma adolescente. Por mais despachada e confiante que fosse, por mais adulta que agisse, e que se estava a tornar, Leonor era uma miúda assustada e atirada sem arma nem escudo para o meio desta arena em que os leões dominavam.

    – Desculpa, Leonor – disse Luís. – Eu não te devia ter envolvido nisto. Não é nada contigo, muito menos aquilo que te peço para fazeres. É só porque… – Luís hesitava por continuar – Nada. Vou levar-te de volta a casa.

    – Não – balbuciou Leonor. – Eu quero ajudar. Eu só… Eu só não compreendo. E devíamos era ir à polícia, falar com eles. Eles é que têm de ajudar… eu não compreendo, olhei-lhe nos olhos. Eu vi o que ela era. Não acredito… não consigo…

    O telemóvel de Luís estremecia pela quinta vez no suporte que o sustentava no tablier do carro; letras brilhantes anunciavam que lhe ligavam do hospício, mas nem um nem outro fizeram caso de tal ocorrência.

    – Não foi ela. Não penses nisso, nem acredites no que ouvires. A Raquel é uma criança, tu viste-o. É uma criança num corpo que não lhe obedece como queria. Não, algo se passa, mas não é o que pensas, nem o que estão a tentar fazer parecer – proferiu Luís.

    A cordialidade tinha sido abandonada e tratava-a como a um igual. Leonor sentia o pesar na voz de Luís. E como não? Há anos que cuidava de Raquel. Não lhe interessava o que quer que ela tivesse feito no passado, era apenas a sua paciente. E uma paciente que o encarava como um pai, que esperava dele esse tratamento e que o obtinha. É claro que Luís se afeiçoara àquela mulher, mas como não ver as evidências? Ele próprio lhe tinha contado o que se passara nas poucas horas desde que tinham saído do hospício. O envolvimento da polícia e a sua exoneração por parte dele deviam ser motivos suficientes para ela não estar envolvida, para não estar num carro a altas horas da noite a caminho de um local de crime. Já havia uma operação de busca a ser montada, a polícia estava encarregue de todas as diligências. Percebia que Luís se encaminhasse para lá, se dedicasse a tentar encontrar Raquel Adarga, estivesse lá quando ela fosse capturada. Na qualidade de médico responsável por ela, e pelo hospício, a sua presença era necessária. Mas Leonor não tinha responsabilidade nenhuma no caso. Queria ajudar Luís, esse sentimento era verdadeiro. O doutor parecia-lhe um homem bom e genuinamente preocupado e convencido da inocência da sua paciente nos acontecimentos da noite. Contudo, continuava sem entender plenamente o que esperava dela e como podia ajudar a encontrar Raquel.

    À sua frente erguia-se o hospício, envolto numa labareda sombria e imponente. Como lhe parecia diferente aquela visão a esta hora e a que teve ao princípio da tarde quando lá se apresentara, pensou Leonor. A súbita mudança de direcção levando a viatura a contornar a entrada do hospício, vestida com as brilhantes luzes e aparato policial, sobressaltou e confundiu, ainda mais, Leonor.

    – Mas… onde vamos? O que se passa? – Perguntou.

    – Procurar a Raquel – disse Luís, sem tirar os olhos da estrada e ignorar por completo o arraial que se tornara a entrada do seu local de trabalho. – Não confio na polícia, Leonor. Há muita coisa enraizada nesta comunidade e o interesse por Raquel Adarga é uma dessas raízes. Uma raiz grossa e extensa, que vai buscar o seu sustento ao imaginário comum, sugando o medo e o ódio que vive na cabeça de cada um e lhe dá forma, retira deles todos os nutrientes e dá corpo ao mito. Raquel é uma espécie de bicho papão, a história que se usa para assustar as crianças a comer a sopa antes que ela lhes venha apanhar; é o monstro debaixo das suas camas à noite. Não, a polícia não vai ajudar. Há um sentimento de injustiça e desconfiança que sempre paira em redor deste assunto. Por eles está decidido, o que ocorreu aqui foi obra dela e mais nada há a saber. Preciso de encontra-la antes deles. Vão abatê-la como a um animal selvagem e dar um fim à sua história. Vão cantar justiça e versar sobre a lenda.

    » Não posso deixar que isso aconteça. Não há mais ninguém em quem possa confiar, todos os outros têm os seus alicerces assentes sobre as raízes do mito de Raquel Adarga, mas tu não.  Confio em ti e vi como ficaste quando a viste hoje ao início da noite. Tu viste para lá do acto, viste a pessoa, a criança lá aprisionada. Diz-me, Leonor, não achas que aquela mulher já foi castigada pela atrocidade que cometeu? Mais de cinquenta anos passados numa custódia médica, e na condição em que se encontra? Achas que está a fingir? Não, és inteligente demais para isso. Ninguém aguentaria cinquenta anos num fingimento como aquele, em condições daquelas. Nem enganaria um sem número de médicos e estudiosos. Não, Raquel Adarga foi, e continua, castigada pelo erro que perpetrou, seja por Deus ou pela sapiência da biologia.

    Luís parou o carro na base de uma colina. Adjacente ao hospício e nas traseiras do jardim, crescia uma enorme zona arborizada. Conflitos sobre a sua pertença duravam há vários anos, entre a luta do município para anexar aquela área e diversas entidades privadas que clamavam direito ao seu quinhão. Envolvido neste imbróglio legal, prosperava aquele bosque urbano.  Como a sombra que originamos, sempre presente e nunca notada, erguia-se furtivo e esquecido à vista de todos.

    – A polícia considera que a Raquel teve alguma coisa a ver com isto. Estão a montar todo um contingente com base nessa assumpção. Estão focados na saída principal do hospício e na sua ligação ao jardim. Vão partir para a busca a partir daí e avançar nessa direcção, seguindo o rasto dos corpos – disse Luís. – Mas ela não está envolvida nisto dessa forma. Sei que não. Alguém está a puxar cordelinhos e a ver as peças cair nos lugares pretendidos. Raquel não passa de uma menina assustada que se viu abandonada de repente. Não iria fugir para a confusão, iria tentar esconder-se o melhor possível. Resguardar-se até alguma solução lhe parecer viável. Não ia tentar fugir, nem ia pela direcção que acham que foi. Sei-o. Sinto-o. Temos de chegar primeiro a ela, temos de a proteger de algum desvairado sentido de justiça e assegurar um tratamento honroso. Ajudas-me, Leonor?

    Aí estava, o momento de decisão. Sempre fora decidida e assertiva, mas o peso que esta tarefa acarretava podia ser demais para ela, para o seu futuro. À partida não estava a fazer nada de mal, nada contra a lei, isso sabia-o. Mas estava a escolher um lado, e podia não ser o lado certo. Estava a depositar toda a esperança na palavra de um homem que conhecera horas antes, assentar toda a sua fé na sua certeza de que aquela mulher era uma vítima neste cenário e precisava protecção. E se a encontrassem? O que fariam? Se a polícia estava decidida a culpar Raquel pela carnificina registada, de nada serviria encontra-la primeiro. Ia Luís escondê-la? Mantê-la fechada num quarto em sua casa, cuidando dela como se de um animal ferido encontrado na estrada? Leonor não sabia, mas agora não era tempo para se preocupar com detalhes. Era tempo de agir, e ela, para o bem e para o mal, tomara a sua decisão quando se candidatara ao estágio de Verão do Hospício Padre Cabral Correia.

    – Sim, claro – respondeu Leonor.

   Ajudou Luís a retirar duas grandes lanternas da bagageira, bem como dois kits de primeiros socorros. Apressaram-se, os dois, para o interior sombrio do pandemónio arborizado.

   Leonor ainda não sabia se tinha tomado a decisão correcta. Pensou no pai. Não lhe tinha dito nada havia horas, mas nem ele devia estar em casa ainda. Lançara olhares frequentes ao telemóvel que se mantivera imperturbável. Para onde tinha ido o pai? O que se passava com ele? Sentiu uma pontada de dor saudosista a espetar-se no seu âmago. E se Luís estivesse errado? E se ela estivesse a caminhar alegremente para os braços do seu carrasco? E se Luís até estivesse parcialmente certo, mas fosse ele em conluio com Raquel? O seu pensamento divagava por estes tópicos, evocando o sentimento de pavor. Duas enfermeiras esfaqueadas, três seguranças degolados, um enfermeiro desaparecido… Mas continuava a avançar, guiada pelo toque taciturno da florestação.  O som de um corvo caía do éter úmbrico da noite, como se a natureza lhes estivesse a avisar, fazendo uso dos seus pássaros da desgraça.

 

***

 

    Raquel prosseguia caminho, em fuga por entre as árvores, com dificuldade que não compreendia.

   Tinha saído para a luz, inundada pelo seu calor. Caminhara com dificuldade e apreensão, chamara pelo pai. Ninguém aparecera e ela continuara. Dera com aquelas duas mulheres. Lembrava-se delas. Gostava delas. Sempre tinham sido simpáticas consigo, uma delas até lhe dava doces quando ia sozinha ao quarto de Raquel. Chamara por ela, mas ficou sem resposta. Pareciam que dormiam, resplandecentes sob a forte luz branca daquele corredor que percorria sozinha pela primeira vez. Tocou numa delas, na simpática, mas ela não reagira. Abanou-a com mais força, sem compreender o que se passava. Nem quando o corpo sem vida da enfermeira simpática deslizou da cadeira onde estava disposto para o chão, cobrindo Raquel de uma viscosidade doentia, um sangue tão avermelhado que magoava a retina, ela compreendeu. Sentiu as lágrimas a chegar e o medo a formar-se. Iam brigar com ela, iam pô-la de castigo. Não devia ter saído do seu quarto e, agora, a enfermeira simpática estava coberta de sangue. Começou a chorar e foi nesse estado que tentara voltar, encontrar o seu refúgio que agora lhe parecia perdido. Queria o pai, queria alguém. Mas não podia ficar ali, não sabia até quando ia haver luz, não podia estar ali quando chegassem as pessoas más. Fugira, então, pela primeira porta que viu. Despoletando o chinfrim audível de um alarme, Raquel embrenhara-se na mata que só ela parecia ver, a mesma mata que bailava de fora da sua janela durante as tardes que passava na sua pequena mesinha a colorir.

    Andara e andara, com sangue a manchar-lhe o pijama e lama a entranhar-se nos pés; o corpo titubeava pelo solo irregular. E agora prosseguia, por entre as árvores tentava fugir das sombras que estava convencida que lhe queriam magoar, mas estas eram mais rápidas que o seu pensamento e esperavam por ela, ameaçadoras, atrás de cada ramo. Tinha de se esconder, esperar pelo pai. Ele punha sempre tudo bem, ele sabia cuidar dela. Ele não se ia chatear.

   Raquel avançava, uma criança perdida a fugir do medo e para o medo, uma figura abominável a desviar-se das sombras que agora chamavam o nome dela. A angústia subia de tom e ela tentava correr, mas os pés não lhe obedeciam e o corpo chiava. As trevas vinham na sua direcção, clamar a alma dela para no abismo inflamar-se, num pensamento que não compreendia. Sentia o aperto do abraço obscuro da noite, envolvida nas sombras que lhe atormentavam o espírito, o seu pavor tomava forma física e vinha no seu encalço a chamar por ela, rindo-se. Tentava escapar, mas as pernas não planeavam o mesmo que ela. Escorregou e deixou-se ficar jazida no volutabro que serviria de sua sepultura. Viu a sombra envolver o ar e, numa forma cada vez mais corpórea, surgiu uma silhueta que lhe atiçava e apavorava.

 

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. II

     Sentado e à espera. Era assim que Afonso estava. Afinal, era a única coisa que lhe restava fazer naquela altura. Tudo o que tinha para fazer – sozinho – já havia feito. Agora, já não estava só nas suas mãos.

     Ali, naquela rua relativamente escura, apenas iluminada pelas já cansadas lâmpadas dos postes da luz feitos em madeira, o Opel Corsa que Afonso alugara estava acompanhado apenas por mais três carros, todos estacionados do outro lado. Afinal, era daquele lado da rua que ficava o jardim municipal, e toda a gente sabe o que acontece nos jardins municipais à noite…

     Só que, para Afonso, o que interessava não era os desvarios dos jovens, mas sim aquilo que se situava no lado da rua em que se encontrava: o hospício. Já tantas vezes havia estacionado ali – embora com o seu carro particular, não com um carro alugado – que admirava-se por a estrada ainda não ter as quatro marcas dos seus pneus.

     Dentro do carro, Frank Sinatra cantava-lhe – como que ao ouvido – sobre dois estranhos na noite que trocavam olhares, e que, eventualmente, acabariam por partilhar o amor. “Tretas!”, pensou Afonso. “Esse amor não existe, não pode existir!”. Para Afonso, o amor entre duas pessoas que não partilham quaisquer genes era uma farsa. O único amor que existia era entre familiares; esse sim, era verdadeiro e imaculado.

     Também não ajudava o facto de Afonso se ter casado três vezes, duas delas tendo acabado desastrosamente mal. Tinha desenvolvido umas espécies de anticorpos em relação ao amor conjugal.

     Era por isso que ele ali estava: alguém tinha perturbado o seu amor familiar, o único que realmente valia a pena. E, agora, era finalmente altura de vingar esse amor.

     Perdido nos seus pensamentos, voltou a olhar o hospício. Era um edifício curioso… Durante o dia, parecia uma instituição de saúde como qualquer outra, com traços até modernos. Durante a noite, tornava-se sinistro e parecia envolver-se em sombras, como um buraco negro que suga a felicidade de tudo o que o rodeia. Se calhar era só impressão dele, se calhar todos os hospícios, hospitais e outros lugares que tais têm essa aura nocturna. Ou, se calhar, era por saber o que lá havia dentro. Ou quem lá estava dentro.

     Algum tempo depois, quando Sinatra já se calara e dera lugar a um DJ qualquer que prometia “animar as noites” dos ouvintes, viu sair por uma das muitas portas para funcionários do hospício uma figura totalmente vestida de branco.

     “Pronto, está feito!”, pensou. Rodou a chave e o carro começou a fazer-se ouvir.

 

***

 

     O autocarro parou e Leonor saiu, pela porta do meio. Mal saiu, procurou logo pelo carro do pai, que costumava estar estacionado naquela zona. Estava em pulgas para lhe contar como havia sido o seu primeiro dia de estágio, e ver o Fiat Punto do pai ali parado veio aumentar-lhe ainda mais essa excitação alegre, esse nervoso miudinho; como quando temos vontade de urinar e, ao aproximarmo-nos de uma sanita, parece que a vontade aumenta ainda mais. Só que sabia que não lhe podia contar tudo, porque o pai nunca iria aceitar se soubesse que estava a estagiar naquele lugar e não na ala de psiquiatria do Hospital Gama de Freitas, como lhe tinha dito.

     Atravessou a rua e dirigiu-se à porta de entrada do prédio. Olhou para cima, para o andar do seu apartamento, e admirou-se por ver tudo fechado àquela hora. Sim, era tarde, mas o pai costumava ficar na sala a ver televisão e a dormitar quase até de madrugada, até finalmente decidir que se calhar era melhor ir para a cama de vez.

     Rodou a chave na fechadura, empurrou a pesada porta de madeira e entrou em casa. A única luz que via era a da campainha, electrónica, e nada mais. Passou o dedo pelo interruptor que ficava à direita e atirou as chaves para a mesinha da entrada à esquerda, como era seu hábito. O seu pai sempre lhe dissera para não fazer aquilo, porque as chaves riscavam a madeira da mesa, mas ela encarara aquele aviso como um conselho, daqueles pequenos, que os pais dão durante toda a vida mas sabem perfeitamente que os filhos nunca vão cumprir. Por causa disso, o tampo da mesinha escura estava cheio de pequenos riscos bege, que apontavam num caos de várias direcções.

     Chamou:

     - Pai?

     Não obteve resposta e tentou mais alto. Como continuou a falar sozinha, calou-se. Atravessou o corredor, em direcção à cozinha, e perguntou-se onde poderia estar o raio do homem a uma hora daquelas. Fez o seu café com leite, que bebia sempre antes de ir dormir – o café não lhe tirava o sono – e foi bebericá-lo para a sala. Quando se ia sentar no sofá, viu um bilhete em cima da mesinha cuja única função era segurar os comandos da televisão e os pés de quem quer que estivesse sentado no sofá. Pegou no bilhete e leu-o:

 

Filhota, fui dar uma volta para espairecer e não tardo em casa.

Deixei um resto de ervilhas guisadas do jantar no frigorífico, serve-te à vontade.

Do teu ‘belhote’,

Afonso.

 

     Leonor ficou um pouco mais descansada depois de ler o bilhete, mas continuava perplexa. O pai nunca fizera aquilo antes. Dar um passeio nocturno? Ainda por cima àquela hora? E o carro, na entrada? Teria ido a pé, sujeito a ser assaltado – ou pior – naquele bairro?

     Pensou em ligar-lhe, mas decidiu esperar mais alguns minutos. Afinal, o pai não devia estar muito longe de chegar. Se calhar tinha-se perdido nas horas, num café qualquer. E, se assim fosse, ainda bem, pensava Leonor, porque só Deus sabia o quanto ele estava a precisar de arejar a cabeça. A mais recente separação do seu pai tinha-lhe deixado marcas profundas, e o ‘belhote’ andava muito alterado ultimamente.

     Ligou a televisão, e continuou a bebericar o seu café com leite. Fez um pouco de zapping, embora soubesse que não se ia conseguir concentrar em programa nenhum – não depois de um dia excitante daqueles –, e, quando achou que já era altura mais do que suficiente, pegou no telemóvel com o intuito de ligar ao pai.

     Ouviu alguém bater à porta do apartamento. Ou isso, ou algum pica-pau especialmente irritante tinha-se afeiçoado à sua porta, porque ela não parava de fazer barulho. Gritou um “Já vai, já vai!”, mas quem quer que fosse parecia não ter ouvido.

     Atravessou o corredor e olhou pelo visor da porta. Não podia ser… Abriu-a e nem teve tempo para cumprimentos. Luís disse-lhe:

     - Aconteceu algo de muito grave e preciso de toda a ajuda possível. Vamos! Explico-te pelo caminho.

     Leonor não disse nada. Limitou-se a pegar nas chaves e a sair. A televisão, que antes ainda tinha um ser humano a fazer-lhe alguma companhia, falava agora completamente sozinha.

 

***

 

     Abel entrou no carro, com pouco fôlego.

     - Está feito! Arranca! – gritou, como conseguiu, para Afonso.

     - Calma, rapaz. – respondeu o condutor num tom calmo, talvez até motivado pela voz suave de Sinatra. – Apenas abriste uma porta, ainda vai demorar algum tempo até que algo aconteça.

     Ainda assim, fez-se à estrada. Não falaram durante largos minutos, Afonso e Abel, até porque não tinham assunto. Não se conheciam e apenas tinham falado a propósito daquela tarefa. Agora, que estava concluída, não havia muito mais a dizer. Ainda assim, Abel achava que ainda havia muito mais a dizer, por isso perguntou:

     - Porquê?

     Afonso arqueou a sobrancelha.

     - Porque é que fizemos isto? – continuou o enfermeiro.

     - Já te disse, é uma questão pessoal. É justiça. Não precisas de saber mais nada.

     - Ai não? E se me vierem a implicar no assunto?! – questionou Abel.

     - Paguei-te o suficiente para não me chateares com essas questões, não paguei? Fizeste-o de livre vontade, agora não podes voltar atrás.

     Era verdade. Já não dava para voltar atrás. Mas, se Abel pudesse, fazia-o. Não o disse a Afonso, como é óbvio, mas oh, se o fazia! O que ia ser daquela gente, com quem lidava diariamente já há três anos? O que ia ser até daquela mulher, que, apesar de não merecer compaixão, parecia provocá-la na maior parte das pessoas?

     De repente, lembrou-se de Leonor. A estagiária. Tinham estado muito pouco tempo juntos, mas é claro que tinha reparado nela! Aquele hospital parecia um lar de meia-idade, por isso, ver uma jovem beldade daquelas entrar pelas portas duplas adentro era sempre um prazer. Um prazer que se ia repetindo de ano a ano, sempre que chegavam mais estagiários de Verão. “Provavelmente, serão os últimos.”, pensou Abel para si próprio.

     - O que se passa? – perguntou Afonso ao pendura.

     - Nada, estava só a pensar na coincidência que foi isto ter acontecido no mesmo dia em que entraram os novos estagiários de Verão.

     - Foi propositado. Fi-lo porque hoje é também o primeiro dia de estágio da minha filha, e ficava com tempo para isso. Não é costume ter tempo livre no Verão, quando ela cá está.

     - Pois, percebo… – respondeu o enfermeiro.

     Nenhum dos homens se apercebeu de que estavam ambos a falar acerca da mesma pessoa.

     Mas agora, como Afonso bem dissera, já não se podia voltar atrás.