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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Relato de uma obsessão

Há uns dias escrevi um post a alertar para os perigos das migalhas na nossa sociedade. Perigos esses que afectam todos, inclusive insectos. Isto não é uma surpresa para mim, o que foi surpresa foi a resposta que recebi. Imenso feedback, toda a gente a agradecer-me pelo meu trabalho ao chamar atenção para os reais problemas, inclusive uma chamada do presidente a congratular-me pelo serviço prestado e a pedir a minha colaboração para, juntos, resolvermos este problema. Mas isto não é conversa para agora.

 

Como escrevi no meu texto, as formigas são uma das partes muito afectadas por este vício e maldição que são as migalhas. Na sequência dessa observação (uma revelação para muitos de vós), fui contactado por uma formiga. Uma formiga que viu o pai sucumbir por uma migalha. O relato de um caso muito triste, que começou num rasgo de sorte e acabou num vício perigoso, numa constante busca pela próxima migalha, que não só deu cabo de toda uma família como levou mesmo à morte.

 

Não vou aqui partilhar, na íntegra, esse relato, enviado pelo filho, por achar que não devo. Um relato comovente, partilhado comigo como agradecimento pela chamada de atenção. Mas vou contar esta história que me foi confiada, as consequências que aquela formiga enfrentou e a dor que causou à família.

 

Contou-me o filho que o pai fazia parte de um esquadrão de operários batedores. Patrulhavam os arredores do formigueiro em busca de mantimentos. Os tempos não eram fáceis e, para agravar a situação, recebiam à comissão. Passou-se dias sem que aquele esquadrão conseguisse produzir resultados. Viram muitas outras unidades detectar alimento e tratar de o recolher mas, o dele, nada. Lembra-se de o pai contar uma vez que, por uma questão de segundos, não foram os primeiros a descobrir e a recolher a carcaça de uma centopeia. 

 

Por todas estas razões, o esquadrão ao qual pertencia acabou por ser destituído e esta formiga viu a sua família arruinada. Sem conseguir outro emprego e já a sentir o peso da idade, decidiu partir, sozinho, em busca de alimento. Neste ponto do relato que me foi enviado, o filho conta-me a despedida emocional que teve com o pai, por este acreditar que não seria capaz de voltar e pelo sentimento de culpa que sentia por não conseguir providenciar para a sua família. O pai partiu, então, para longe. Muito mais longe daquele formigueiro do que outra formiga alguma vez tinha ido. Um dia inteiro se passou e a família acreditava que já não o veria mais. Até que a formiga voltou. Radiante e triunfante, na posse de três grandes migalhas. O filho conta-me a alegria que todos sentiram, o alívio e o orgulho. Além disso, claro, com três grandes migalhas como aquelas (ele já não se lembrava bem, mas pensa que seriam duas de um pão de leite e uma de bolo de chocolate) estavam garantidos. 

 

Os feitos desta formiga percorreram o formigueiro e não tardou a que fosse feito general e responsável por liderar e organizar a recolha destes novos alimentos. Liderou imensos esquadrões e missões que voltavam cada vez com mais e mais migalhas. Tiveram de aumentar o formigueiro para poder albergar tamanha quantidade de mantimentos agora obtida.

Passaram alguns dias e a sugestão foi feita: se o general se quisesse retirar, estava à vontade para o fazer. Já tinha acautelado a recolha de imenso alimento, cumprido o seu dever com honra e distinção. E aqui, conta-me o filho, foi o princípio do fim. Do seu pai e da sua família. O general não aceitou a sugestão, por achar que ainda tinha mais para dar à causa. Tinha sofrido muito tempo e passado muitas dificuldades até àquele momento e agora queria, não só aproveitar o seu sucesso, mas construir um legado. Esta obsessão por migalhas levava-o a passar todo o seu tempo fora de casa, ou a liderar expedições de recolha, ou a planear novas abordagens e técnicas para poder obter cada vez mais. Quanto mais sucesso alcançava, mais queria. Começou a descurar a vida familiar, as noites que passava no formigueiro passava-as nas reservas de migalhas, a admirá-las e a coordenar a sua ingestão e utilização na criação de fungos para sustentar todo o formigueiro, para sempre. Tornou-se um vício, uma obsessão. Tornou-se violento para a família, em especial para a sua esposa formiga, mas, dado o seu estatuto, ninguém ousava a comentar. Os filhos ficaram cada vez mais isolados. Na escola, as outras formigas afastavam-se num misto de receio e admiração pelo pai que tinham. 

 

Com a família despedaçada, os filhos juntaram-se e imploraram ao pai que parasse. Já tinha o seu legado, fortuna e tudo o que mais podia querer. Para esquecer as migalhas e dar-se por satisfeito com o que alcançara, gozando o resto da sua vida. O general, sem nunca esquecer os tempos conturbados que vivera, recusou novamente esta proposta. Nunca mais se queria encontrar na situação que estivera anteriormente e sentia-se culpado pelo tormento pelo qual tinha feito passar a sua família. Não se queria sentir impotente outra vez. 

 

Partiu numa expedição em busca de mais migalhas, liderava um esquadrão de sessenta e seis formigas. Partiu nesta nova missão (uns dias após a sua primeira descoberta - estamos a falar de formigas, isto passa-se tudo em pouco tempo) contra o conselho de todos. Desde a rainha a todos os conselheiros do formigueiro. Inclusive, contra a vontade e o conselho do ancião e guardião Arthropoda. Ele, que tinha sobrevivido inúmeras gerações, era o mais antigo e fiável conselheiro da grande ordem Hymenoptera. Contou que já tinha visto situações semelhantes num passado já muito distante, e que não tinham acabado bem. Que havia sempre uma formiga que queria mais, mas que, eventualmente, a fonte de migalhas tornava-se num local perigoso, com constantes batalhões de operários formiga a invadir o local. Os responsáveis por gerá-las tomavam medidas de precaução contra as formigas. O general não acreditou, mesmo contra todos os avisos do ancião Arthropoda, porque achava que era só inveja. Não queria ouvir que não era necessário mais migalhas. Migalhas seriam sempre necessárias. Uma oferta dos Deuses, que o tinham tido como emissário. Não, procuraria e recolheria migalhas até morrer e o seu nome seria imortalizado em histórias e canções, ou o que quer que seja que as formigas façam. Ignorou os avisos, ignorou as histórias sobre o passado e sobre os repetidos genocídios praticados por uns tais de Homo sapiens.

 

Esta é uma história triste. Avisos e mais avisos. Sem nenhuma necessidade, sem ser o vício e a obsessão por migalhas. Esta obsessão que levou o general a liderar sessenta e seis formigas para um massacre que as dizimou a todas. Nenhum sobrevivente de um ataque com armas químicas, com recurso a Raid. Nem tiveram hipóteses.

Aquando da descoberta deste ataque e da perda de imensas vidas, apenas por um capricho do general que não aceitou largar o seu vício por migalhas, a sua família foi perseguida por toda a população. Consideravam-nos responsáveis e queriam, de algum modo, vingança. Perderam tudo o que tinham e todo o estatuto alcançado. A pobre mulher do general acabou por ser levada para um ramo de árvore nas redondezas do formigueiro para morrer de loucura, derivado a todo o stress que sentia. Quanto aos filhos, não se sabe de muito e não quero entrar nos pormenores daquilo que se sabe.

 

Aquilo de que posso falar é de um dos filhos. Aquele que me contou esta história comovente, o seu relato de vida atribulada devido a migalhas. Foi exilado e agora vagueia por aí, tentando aguentar-se sozinho no mundo e, ironia do destino, sobrevivendo como pode, com as migalhas que vai encontrando.

 

As migalhas são um problema, eu não estava a brincar quando o afirmei. Já desgraçaram muitas vidas, muitas famílias, muitas relações. Estão a dar cabo da nossa espécie, como já expliquei. Temos de parar com esta loucura.