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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

R.I.P. Samuel

Ontem foi um dia complicado: conheci e perdi um grande amigo. 

 

Restos de um Internacional Português. 

 

Decidi arranjar um animal de estimação, uma companhia, algo para amar e me alegrar a vida. Agora que tinha o espaço e a disponibilidade, como já estou a viver sozinho desde o divórcio - aliás, o nunca poder ter um animal foi uma das razões que levou ao divórcio: ela dizia que não precisávamos arranjar nenhum, que já me tinha a mim, o seu touro. Sempre pensei que a alcunha fosse pela minha potência sexual, mas era mesmo pela cornadura.

 

Vá, isso agora não interessa, fica para outro dia. O que importa é a minha viagem ao canil, para escolher um companheiro de vida. Queria alguém como eu, esperava que fosse amor à primeira vista: um animal abandonado, deixado à sua sorte, e, nós os dois, iríamos conhecer-nos, ajudar-nos e reaprender a ser felizes.

Foi mais difícil do que julgava, vagueei naquele canil durante mais de uma hora, mas não conseguia conectar-me emocionalmente a nenhum animal. E, para mim, essa conexão é o mais importante. 

Quando estava já quase a desistir, vi-o. Ali sozinho, no meio de todos mas isolado. Metido no seu mundo, rastejava para um canto e ali ficava, cabisbaixo. Foi uma cena de filme, apaixonei-me imediatamente. Aquela gosma reluzente, aqueles olhinhos irregulares, a perfeição. Decidi na hora, mas foi difícil de o trazer. Não me queriam deixar, da parte do canil. Diziam que aquilo não era animal para ninguém e que não era nada com eles, nem da sua responsabilidade. Que "aquilo" nem devia estar ali, não era nada que se pudesse adoptar. Perguntaram-me se eu tinha algum problema ou se estava a gozar. Depois de muita luta lá o trouxe, contra a vontade de todos. 

 

Chamei-o de Samuel. Vasco e Samuel. Eu e o meu caracol de estimação.

 

Samuel, num dos nossos momentos mais felizes.

 

Levei o Samuel para casa e tivemos a tarde mais magnífica que podia pedir. Mostrei-lhe o seu novo quarto, fomos passear à rua para ele fazer as suas necessidades, brincámos à apanhada, ainda jogamos um bocadinho às cartas...

Com o tempo comecei a ficar preocupado: o Samuel não tinha tocado na sua ração ainda. Nem água tinha bebido. Além disso estava com um compleição meia amarela e comecei a ficar preocupado. Será que estava doente? Afinal, não me queriam deixar trazê-lo, será que estava para ser abatido? Com olhar abatido já ele estava. Decidi ir ao veterinário então, até porque precisava desparasitar e ter as vacinas em dia. 

 

Infelizmente, o Samuel nunca voltaria do veterinário. Quando lá cheguei não me quiseram atender, também pensavam que estava lá a gozar e a fazê-los perder tempo. Enquanto discutia com a recepcionista, deixei a caixa de transporte do Samuel ali ao pé, numa cadeira. Com toda a azáfama não reparei que o Samuel se esgueirara pela grade da sua caixa. Quando notei o que estava a acontecer já foi tarde demais, só fui a tempo de ver o Samuel pela última vez, mesmo antes de ouvir um audível crack, provocado pela patorra de um Golden Retriver. 

 

A última vez que vi o Samuel.

 

 

Já passou um dia, mas a dor ainda permanece. Tive muito pouco tempo com o Samuel, só que foi marcante. Ao menos isso. Vou ficar com as boas memórias e tentar seguir em frente, sei que era o que ele queria. Descansa em paz, amigo.

 

 

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