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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

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Preocupações Felinas

A minha gata mordeu-me há duas noites. Certamente confundida pelo cheiro a salmão do meu novo creme hidratante - sou filho de um pescador e de uma sereia, este cheiro a peixe traz-me conforto e memórias de casa.

Não foi nada de especial, acontece a todas as pessoas que têm gatos. Uma pequena dentada apenas, sem malícia. Deixou-me com dois pequenos furos no pulso e prosseguimos as nossas vidas; ela foi praticar os seus truques de cartas e eu fui substituir todos os meus atacadores por fios de esparguete.

 

No dia seguinte à dentada foi feriado, daí que não tenha notado nada de errado comigo. Vejo agora que os meus problemas já tinham começado. Acordei cedo e levantei-me. Sentia-me cansado, pois não tinha dormido muito bem, porém queria aproveitar este dia de descanso extra. Estava era tão cansado que não conseguia fazer nada. Por várias vezes ao longo das primeiras horas da manhã dei comigo a acordar de repente, deitado em sítios inusitados. Em cima do frigorífico, dentro de um armário, a meio do corredor, debaixo de um tapete... Achei estranho, claro, mas, ao mesmo tempo, fazia sentido que com todo o cansaço que estava o meu corpo se desligasse a qualquer instante e eu procurasse, instintivamente, sítio para me deitar.

 

As horas foram passando, quase sem eu dar por elas - até porque passei a maior parte do tempo a tentar apanhar uma mosca que voava insistentemente contra o vidro da minha janela. Já agora, não a apanhei, se quiserem saber. Vim a descobrir que ela estava do lado de fora da janela, afinal.

Fui almoçar, ainda sem ter aproveitado nada do feriado, apesar de me sentir estranhamente satisfeito com o meu dia.

Devido ao meu parentesco, não como peixe, até porque nunca tive nenhum distúrbio de querer comer a minha mãe e, além disso, tenho sempre o receio de que ia comer algum primo afastado ou coisa que o valha. Só que peixe era a única coisa que me estava a apetecer naquele dia. Por acaso tinha em casa uma lata de sangacho de atum, comprada por engano. Ora bem, não resisti e abri-a, pu-la num prato e comi o sangacho de atum. Sem talheres, sem acompanhamento, nada. Lancei-me à animal selvagem sobre a minha presa e devorei-a por completo.

 

Do resto do dia não me ficou nada na memória. Acho que passei a maior parte da tarde a dormir perto de uma janela, ao sol. Quando ficou escuro, fui para uma cadeira e continuei a dormir. 

Acordei já tarde e fiquei desiludido comigo mesmo, tinha acabado por desperdiçar o feriado sem ter feito nada de especial. Não estranhei nada do que se passou no decorrer do dia, pois sempre fui preguiçoso. Não havia sido um dia incaracterístico.

Ainda pensei no que podia fazer, além de que não tinha jantado nem nada. Mas já era mesmo tarde e não valia a pena, no dia seguinte voltava a rotina do emprego. O melhor que tinha a fazer era ir para a cama, porque, ao que parecia, ainda me apetecia dormir. A caminho do quarto a minha atenção foi captada por um canto da casa, no corredor, que, apesar de não conseguir lá ver algo, tinha a certeza de que existia alguma coisa ali. Fiquei a observar, mas não notei nada, mesmo que o sentimento não desaparecesse. De repente, a minha gata apareceu e ficou a olhar para o mesmo canto. Ok, agora eu tinha a certeza que havia ali algo. Existia ali alguma coisa. Passamos cerca de meia-hora entre olhares ao canto e a atacá-lo efusivamente, patas e mãos misturadas num frenesim de movimentos. No final dei-me por satisfeito pelas minhas acções e fui para a cama. 

 

Acordei tarde hoje, já atrasado para ir para o banco. Levantei-me às pressas e dei um salto, acompanhado de um grito assanhado, com o susto que uma pequena sombra me causou. Notei que a minha cama estava cheia de cabelo meu e estranhei, não sou de ter cabelo a cair, costuma ser bem forte, mas não tinha tempo para pensar nisso. Fui para o duche e, a seguir, hesitei. Parecia que não conseguia entrar, só a visão da água assustava-me. Tentei tocar nela, mas assim que os primeiro pingos fizeram contacto, desatei a correr até à outra ponta da casa, num comportamento irracional. Não tinha mesmo tempo para o que quer que fosse que se estivesse a passar, por isso decidi vestir-me e sair de casa.

 

A partir daqui é que comecei a desconfiar de que algo de anormal se passava. Sempre fui um funcionário exemplar e confiável, mas hoje não estava a conseguir lembrar-me de nada. Não sabia fazer procedimento nenhum, deixei vários clientes à espera, passei horas a dormir em cima da secretária. Fui chamado à atenção e aconselharam-me a ir para casa, mas estava determinado em acabar o meu dia de trabalho. Não se passava nada. 

 

Tudo mudou ao princípio da tarde, quando passei largos minutos a brincar com a gravata do meu chefe e depois, à frente do meu chefe e do cliente com o qual o estava a ajudar, prossegui a tirar a roupa e, sentado no chão, fui lambendo todo o corpo. Grandes e longas lambidelas.

Ainda não estou oficialmente despedido, mas fui enviado para casa com um processo disciplinar e sem ter sido feita qualquer queixa na polícia, por acordo de todos e por respeito ao que sempre fui como profissional.

 

Agora estou em casa, incrédulo com tudo o que fiz e por ter arruinado a minha carreira profissional. E finalmente comecei a juntar todas as peças e a compreender o que se passa comigo. Estou a transformar-me num gato. A minha gata, quando me mordeu na outra noite, causou diversas mudanças no meu DNA e estou a adquirir características de gato. Sim, agora faz sentido. Tudo faz sentido. Podem pensar que não, que é do mais comum que existe, um gato morder levemente o dono, e que eu devo é ter batido com a cabeça durante alguma destas peripécias. Mas não, tenho a certeza de que é isto que está a acontecer. É que, ao contrário da maioria, a minha gata é radioactiva.

 

 

 

 

 

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