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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Olha que ler este título faz-te mal...

Há uma moda, que já o é desde sempre, ou, no mínimo, desde que tenho consciência das minhas acções, em que toda a gente pensa saber o que devias ou não devias fazer. Não o digo em relação a casos de dúvida, uma opinião sincera, um conselho sobre alguma coisa, ou a uma simples opinião a pedido, por exemplo: "se eu acho que devias comprar esse casaco? Não. Faz-te parecer um urso polar com lepra ou uma poltrona meia estofada que foi vomitada em cima por um sem-abrigo que tinha comido uma papaia estragada". Não, falo em coisas muito mais óbvias que isto e que carecem de opinião, coisas triviais, do conhecimento de toda a gente no mundo, práticas e comportamentos a ter ou evitar, conselhos inócuos. Já agora, neste caso, se gostas do casaco compra o casaco, só me pediste opinião e disse o que achava. Mas, faz o que quiseres. E é isto o que muita gente parece não perceber ou aceitar.

 

Geralmente são das pessoas mais irritantes que existem. Não porque gostam/praticam aquilo que te aconselham, mas pelo fanatismo e achar que tudo tem de ser como eles e que se não o és é porque não sabes as consequências e só podes ser muito estúpido. Também não falo das pessoas que, genuinamente, se preocupam contigo e tentam fazer-te mudar/adaptar certos comportamentos. Falo exclusivamente daquelas que o fazem só porque sim. Porque devem achar que não sabes os perigos. 

 

O quê? Levar um estilo de vida sedentário é mau para a minha saúde? Quem diria, não fazia ideia. ainda bem que me informas. Comer só "porcaria" vai-me prejudicar? Que surpresa! Não sabia mesmo, obrigado pela informação, vou já alterar todos os meus hábitos. Só nunca o fiz por falta de conhecimento. Porque isso não são coisas que toda a gente sabe! São segredos da vida, que só vocês descodificaram. Ainda bem que passam a mensagem. Vou já a correr para um ginásio, e tratar da minha saúde porque me informaste que não o fazer era mau para mim. Dedicar todos os minutos da minha vida a exercitar-me e a comer bem para poder viver mais tempo e ser saudável e assim ter mais tempo para continuar neste ciclo. Porque é só isso que posso fazer, se quiser viver. Portanto, vou transformar a minha vida numa missão para viver mais tempo. Com isso não consigo fazer mais nada, só tenho uma preocupação: viver mais tempo. Para fazer o quê? Mais nada, que não há tempo. Tenho de continuar neste ciclo para poder viver. 

 

Ah, não comas muita carne vermelha, tem cuidado com os doces, isso está cheio de alimentos processados não o devias comer... A sério? E eu aqui na ignorância. Não sabia disso nem nada. Se o escolhi fazer não pode ter sido na posse desse conhecimento, não é? Tem cuidado a escalar essa estrutura, podes cair e magoar-te... Mais uma vez, ainda bem que me avisam. Não acham que toda a gente sabe? Eu sei as coisas que me fazem mal, o que não devia fazer, aquilo que devia. Eu sei que se ficar muito tempo desprovido de oxigénio morro, não é necessário lembrares-me disso, tal como sei que se me fosse drogar isso seria mau para mim. Eu sei isso tudo. Eu e toda a gente! O que eu não sei, é o que tens tu a ver com isso e o porquê de mo vires dizer como se eu tivesse acabado de nascer. Não sou uma criança que tens de dizer para não molhar os dedos e os ir enfiar nas tomadas, ou para não meteres as mãos no fogo que te vais queimar.

 

O que é que acham? Acham que se forem ter com um viciado em heroína e lhe disserem para não comprar aquela dose e não a injectar mais, que ele, subitamente, vai olhar para vocês e perceber que aquilo era um mau hábito? Acham que ele não sabe? Que não o sabia desde sempre, desde a primeira vez? Que vai largar a seringa e dizer que não fazia ideia que era aquilo que lhe estava a fazer mal, que ainda bem que lhe deram aquela informação? Não. E sim, é um exemplo um bocado extremista e sem muito sentido - e não estou a dizer para não se tentar ajudar essas pessoas, uma coisa não tem nada a ver com a outra - mas é só para ilustrar que as pessoas sabem o que estão a fazer. Parem de achar que não.

 

O que digo é que somos responsáveis pelas nossas acções. Temos o conhecimento, se eu o quiser fazer na mesma, faço. E não percebo o porquê de não o entenderes ou isso te chatear e incomodar. Se corre mal... corre mal. Selecção natural. Continua a não ter nada a ver contigo. Eu sei o que faço. Eu e toda a gente. A única excepção, é quando aquilo que faço interfere com o que tu fazes, aí sim tens todo o direito de falar e tomar alguma acção. De resto, é só comigo. 

 

Sim, eu durmo pouco. Por vezes como em excesso, como carne, como fritos, bebo álcool, não faço exercício suficiente, já olhei directamente para o sol, já saí à rua sem casaco quando estava frio. Já fiz festas a um cão que encontrei na rua. Faz-me tudo mal. Eu sei. Perfeitamente. Todos o aprendemos muito cedo nas nossas vidas. Não é o facto de chegares ao pé de mim e me dares essa informação como se eu nunca tivesse concebido essa ideia, que o vai mudar. 

 

Não comas isso, não faças aquilo, não digas isso, não penses assim, não fumes, não bebas, não te drogues... isso vai matar-te lentamente. Excelente! Não tenho pressa nenhuma para morrer. Lentamente é como gosto. Pelo caminho, deixem-me em paz.