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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Ode ao Barbeiro

Primeiro, uma declaração de interesses: o meu pai é barbeiro.

 

Uma coisa que todos temos em comum é o facto de cortarmos o cabelo, nem que seja uma vez na vida - sei que existem os carecas, mas, para mim, não são gente. Porém, isso fica para ser abordado noutro dia.

Ora, habitualmente, quem nos corta o cabelo é um cabeleireiro ou um barbeiro. Alguém que faz do acto de desfazer uma parte do corpo de outra pessoa uma profissão. E, na minha opinião, não são levados tão a sério como deviam, nem remunerados como merecem.

 

Podem servir como instrumentos de tortura, se for preciso...

 

Pensem nisso. É óbvio que os profissionais são remunerados de acordo com a profissão que praticam, a sua relevância, dificuldade, competência, conhecimentos necessários, etc; então não acham que um barbeiro merecia ser das pessoas que mais recebe? 

Vejamos um exemplo clássico: vou ao médico com uma pequena tosse. Ele verifica que não se trata de nada de mais e recomenda que tome um qualquer xarope. E por coisas dessas, são bem pagos. Sim, eu sei que o exemplo é redutor, é de propósito, deixem-me em paz.

Por outro lado, vou eu ao barbeiro, ele corta-me o cabelo e ajeita-me a barba por meia dúzia de euros e está feito. Com a saúde não se brinca, mas com o barbeiro já se pode? Onde está a justiça nisso?

 

Um médico, naquela situação quase inocente, tem imensas responsabilidades e blá blá blá... E o barbeiro? Digo-vos eu que tem ainda mais! 

O barbeiro tem de ter a competência para cortar o cabelo de forma razoável e deixar algum tipo de penteado que se aceite. Pelo meio, tem de saber interpretar tudo aquilo que é dito ao tentarem explicar que raio de penteado querem (esta, comigo, é fácil. Só tenho dois penteados, os quais vou alterando ao longo do ano e só um é que é relevante para o barbeiro: cabelo comprido ou curto), de lidar com as vossas intenções de mudança de visual a meio do corte, de ir contra a sua vontade e aceitar fazer algo de estúpido com o vosso cabelo, manter a mão tão firme como um cirurgião, lidar com toda a cacofonia que se passa no estabelecimento, a constante agitação a toda a volta ou o facto de não estares anestesiado mas sim a mexeres-te a toda a hora. Isto sem falar que um barbeiro tem de ser versado em todos os assuntos que existem: é ao mesmo tempo treinador de futebol, filósofo, conselheiro matrimonial, político, humorista, cozinheiro....

 

Não acham que esta vida de stress constante e de uma miríade de conhecimentos merece ser tratada e remunerada com mais respeito?

 

Controla-te Alberto, controla-te...Sempre que tem aquela navalha na mão e um pescoço a descoberto, tem de combater a tentação de acabar com mais uma vida miserável. O controlo total que isto implica só pode ser comparável ao de algumas forças militares. E, no entanto, ninguém liga ao barbeiro...

 

Claro, ainda acham que isto é um exagero e não importa para nada. Não acham que um corte de cabelo pode afectar completamente a vossa vida? Que a responsabilidade de realizar esse corte de cabelo ou penteado é enorme?

 

O Almeida vai ao barbeiro à hora de almoço, está mais do que na hora de cortar o cabelo e mantê-lo curto como sempre. Tem um visual limpo, correspondente com a  profissão que desempenha. Como estava muito ocupado, não teve tempo de fazer marcação no seu barbeiro habitual. Ao chegar lá, não havia maneira de ser atendido àquela hora. Preferiu ir ao barbeiro do outro lado da rua, já tinha adiado demais este corte. 

Este outro barbeiro não era tão habilidoso e estava distraído, resultando num lado da cabeça completamente rapado e o outro às riscas, tipo zebra. O Almeida ficou furioso, começou a insultar o tal barbeiro para quem o ouvisse. Face a estes insultos, o barbeiro recusou-se a rapar o cabelo por completo ao Almeida e, assim, conferir-lhe um aspecto aceitável. Entretanto, o Almeida tinha mesmo de voltar para o escritório, tinha uma reunião que não podia perder.  

É só um mau corte de cabelo, dizem vocês, há-de crescer, dizem vocês. Claro. O problema é que o Almeida foi para a reunião e não foi levado a sério. Foi despedido por desrespeito e por ter custado um negócio muito importante à firma. Foi para casa desolado e assim que a mulher o viu correu a esconder-se. Escandalizada que estava com aquele penteado do marido, entrou com o pedido de divórcio e saiu de casa. A reputação do Almeida ficou marcada por este dia, ninguém o contratou e perdeu tudo o que tinha no divórcio. A última notícia que tive dele, foi que tem dormido na rua, ainda assombrado por aquele corte de cabelo, e a vender o corpo para conseguir um dinheirinho. Quando digo vender o corpo, não falo em prostituir-se. Não, ele tentou, mas ninguém quer ter sexo com o Almeida; todos têm a imagem dele com aquele penteado gravada nas suas mentes. Falo, literalmente, em vender o corpo, às peças, digamos. Neste momento penso que ainda tem um braço e meia perna, se alguém estiver a precisar.

 

Até dói só de olhar.Continuem a achar que aberrações destas não têm importância, nem afectam a vida a ninguém. Continuem sem valorizar o barbeiro...

 

Já agora, naquela história completamente real que contei, sabem quem é que estava a cortar o cabelo no barbeiro habitual do Almeida? O seu colega Paulo Esquilo. O Paulo saiu de lá com um penteado aperfeiçoadíssimo. Foi promovido ao lugar do Almeida, casou com uma super modelo e acabou a liderar a empresa. Tudo por um corte de cabelo. Tudo porque o seu barbeiro era mais competente. 

Já percebem agora o impacto e a responsabilidade que estão nas mãos de um barbeiro?

 

Para nem falar no Menezes, que sendo cego não podia verificar se o seu penteado estava bom ou não. Saiu da barbearia e toda a gente ficou estupefacta a olhar para ele. Cerca de quinze pessoas nas redondezas do estabelecimento completamente pasmadas, a olhar o pior penteado já alguma vez criado. Tão horrível que era, que um dos senhores que estava a operar uma grua para ajudar nas mudanças dos novos inquilinos do prédio ao lado, ficou sem reacção e deixou um piano cair em cima do pobre Menezes, que nem o viu. Morreu, claro. 

 

Depois de tudo isto, ainda acham que um barbeiro não tem uma das profissões com mais responsabilidade de sempre? E que não merece ser tratado de acordo com isso?

 

Pois, bem me parecia.

 

Venham, entrem, deixem-me influenciar-vos a vida...

 

Rectificação: Só depois de publicar isto é que me chamaram à atenção que, afinal, o meu pai não é barbeiro. Peço desculpa, tenho de ter mais cuidado com as minhas fontes.