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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

O altruísmo mata.

Eu tinha um amigo que era a pessoa mais altruísta que vocês alguma vez poderiam conhecer.

Digo "tinha" porque ele, infelizmente, já faleceu. Justamente enquanto dava de comer aos mais necessitados.

 

Esses mais necessitados eram a sua própria família. Rogério era marido de uma esposa só, mas pai de dois filhos. Como não era um homem de grandes talentos, nunca conseguiu segurar um emprego o tempo suficiente para construir uma carreira e, por isso, saltitava de salário mínimo em salário mínimo. Aconteceu que tenha falecido num longo período de desemprego.

Ora, por isso, tornava-se cada vez mais difícil alimentar quatro bocas. Daí que Rogério tenha descurado completamente a sua, não comendo. Mas não, não foi de fome que ele morreu.

 

Um dia, quando ia fazer o pequeno-almoço para a família, Rogério reparou que já não tinham comida nos armários. Nada, zerinho! Por isso, teve de desenrascar qualquer coisa.

Começou por cozinhar os seus pés. Não seria a parte mais saborosa do corpo, mas dava para entrada e também para ele se ir habituando à dor. Prensando-os contra a tostadeira, fez apetitosas tostas que serviu à família sem nunca lhes contar a verdade.

 

Depois, cozinhou as pernas. Agora sim, começava a haver carne de qualidade! Apesar de não ser em grande quantidade, já que Rogério passava fome há vários anos e tinha pernas de periquito.

Mas era saboroso roer o osso.

 

Os pratos continuavam a sair da cozinha, e a família sempre sem perceber o que se passava.

Só quando Rogério começou a aproveitar as suas próprias tripas para fazer salsichas é que eles se aperceberam de que algo não estava certo: não era normal haver tanta comida à disposição naquela casa.

Quando foram à cozinha para ver o que se passava, deram com Rogério, ou o que restava dele, em cima do balcão mais próximo do fogão, já sem forças para continuar.

Ainda foram a tempo de ouvir as suas últimas palavras:

 

- Comam, comam... Que amanhã faço-vos uma omelete.

 

Eles nem perguntaram mais nada, porque não queriam saber de onde raio ele achava que iriam sair aqueles ovos.

E, aí, Rogério morreu.

 

Paz à sua alma.

Essa ninguém comeu.