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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Não subestimem as superstições

Podem pensar já não ser muito relevante, tendo em conta que a sexta-feira 13 já passou, mas posso-vos garantir que mais virão e é preciso ter cuidado. Outubro não tarda aí e não quero que passem pelo mesmo que eu; que a minha experiência vos sirva de aviso: não brinquem com as superstições.

 

Esta sexta-feira começou como outro dia qualquer na minha vida: com um grande bacanal na minha cama, que eu gosto de fazer exercício logo pela manhã e nada melhor que uma orgiazinha para pôr os músculos a trabalhar. Ok, esta parte é mentira, desculpem. Uma das minhas resoluções de ano novo era a de não mentir tanto e já o estava a fazer. O dia começou normalmente e enquanto me arranjava lembrei-me que era sexta-feira 13.

Eu nunca fui uma pessoa supersticiosa em relação a nada, não passa tudo de uma grande tolice para mim. Ao preparar-me para sair de casa, notei no guarda-chuva que estava ao pé da porta. Com este espírito jocoso que me é inato, decidi achincalhar o universo como forma de rebeldia e abrir o guarda-chuva dentro de casa. Num dos dias mais temidos do ano ainda lhe ia acrescentar outra prática supersticiosa associada a má sorte. Sim, sou uma pessoa corajosa; ou imprudente, como vão perceber.

 

Abro o guarda-chuva sem pensar em nada mais e dou com ele contra o lustre, que se solta do tecto e cai-me em cima. Isto só por si não é muito mau, porque nunca gostei muito daquele lustre, mas não deixa de ser uma chatice, até porque um pedaço dele ficou-me espetado no ombro. Comecei a ficar apreensivo com este azar causado por ter aberto um guarda-chuva dentro de casa. Querem ver que as superstições são para ser levadas a sério? Fui até ao espelho para ver melhor a minha nova ferida no ombro e tropeço no guarda-chuva que tinha ficado caído no chão e vou de cara contra o espelho. Ficou tudo desfeito, cara e espelho por igual. Ainda tentei ver em que estado estava, a olhar o meu reflexo nos resquícios de vidro partido, sabendo que estava a incorrer em mais uma prática nociva, no que à superstição diz respeito. Estava, além de magoado, a ficar bastante assustado. Não me devia ter metido com uma sexta-feira 13, era uma batalha que não podia vencer.

Ferido e ensanguentado saio de casa, arrastando comigo todo o azar que imprudentemente tinha contraído. Azar esse que se fez notar na figura de um elevador avariado. Ao chegar ao último lance de escadas vejo que está ocupado por um escadote e que a única maneira de passar seria por baixo dele. O senhor que lá estava a arranjar alguma coisa (não sei o quê, não conseguia ver bem por força de ter vidros espetados nos olhos) recusou-se a descer para me facilitar passagem e disse-me para não ser medricas e passar por ali. Nesta altura já eu estava tão assustado que nem estranhei ele nem se ter importado com o meu estado de prisioneiro de guerra escapulido. Passei por baixo do escadote e fui bater três vezes com o punho contra a madeira, para ver se anulava o efeito do que tinha acabado de fazer; já estava por tudo a esta hora. Só cheguei a bater uma vez. Não me tinha apercebido que aquele bocado de madeira que ali estava servia de apoio à escada. Não vi muito bem como tudo se passou, mas sei que o escadote caiu e o senhor deve ter aterrado mal. Tentei ajudá-lo, mas ele já tinha morrido. Pescoço partido. As minhas impressões digitais estavam por todo o lado. Alguém iria aparecer a qualquer momento. Eu seria acusado de homicídio de alguma forma, da maneira que este dia me estava a correr. Sexta-feira 13 atacava outra vez. Decidi fugir.

Vou a correr pela rua abaixo quando se atravessa um gato preto no meu caminho. Agastado com todas estas ocorrências e com tanto azar a permear a minha vida, tentei afastar-me dele o mais depressa possível, para ver se me safava desta. Corri noutra direcção quase sem olhar e foi nessa altura que fui atropelado por um camião.

 

E pronto, foi assim que passei a minha sexta-feira 13. Só posso garantir que nunca mais subestimarei nenhuma superstição e aconselho-vos a fazer o mesmo. De resto, estou bem, obrigado pela preocupação. No hospital a recuperar. Só parti 47 ossos, portanto não foi assim tão mau. Se não der notícias nos próximos tempos não se preocupem, devo estar bem, só não devo conseguir ter acesso ao computador. Ainda não sei bem como é que funciona a prisão. Mas vou ter uns aninhos para me habituar.

 

Até lá.