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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

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Migalhas

Há um problema grave a assolar a humanidade. Sim, mais do que um, mas isso fica para outro dia. O que estou a falar é do óbvio, da obsessão colectiva que toma conta das nossas vidas. As migalhas.

Não há um único individuo neste planeta que não seja obcecado com migalhas. Por tudo o que isto envolve. Ao comer pão, bolachas, cone de gelado, partir queijo, um bolo... Migalhas. Migalhas por todo o lado. Ninguém deixa uma migalha passar em claro. As que ficam na mesa ou as que cobrem o casaco e nos fazem sacudir como cães com pulgas, como se aquele fragmento insignificante nos fosse arruinar o dia. 

 

É que até os animais. As formigas, por exemplo, vêem as migalhas como dádiva de Deus e partem em romaria à procura do seu Santo Graal, aquele minúsculo pedaço que se soltou da tosta que comias ao pequeno almoço enquanto tentavas adiantar o trabalho para esse dia. Arriscar a vida por uma migalha. 

 

Nós não somos melhores. Discussões e relações acabadas por causa desta obsessão. Porque não conseguimos conviver com a noção de um fragmento de comida se soltar de um pedaço maior e ir depositar-se numa superfície qualquer, que muitas vezes se torna uma espécie de No Man's Land. Sim, porque a partir do momento que cai uma migalha ela deixa de ser responsabilidade de alguém. Parece que toda a gente evita clamar a migalha como sua. Se caísse a fatia de pão inteira, sim, aí já tinha dono e culpado. As migalhas, no entanto, há sempre um argumento para contestar a sua origem e/ou culpabilidade. 

Quem nunca ouviu coisas como "olha que estás a sujar isso tudo"; "vê a porcaria que estás a fazer"; "vai buscar um prato!"; "não comas isso aí"? Todos. E tudo por umas míseras migalhas. Se estiverem a beber água no sofá, não vão ouvir nenhum aviso para terem cuidado ou ameaças de trabalhos de limpeza forçados caso derramem tudo. Pelo menos se não forem uma criança ou sofrerem de Parkinson. Agora experimentem comer um biscoitinho e vão ver os problemas que isso traz. Como se umas migalhas fossem algo mais trágico que um sofá encharcado de Vodka (sim, eu sei que tinha dito água, mas... vamos enganar quem?). Esta obsessão por migalhas está a arruinar vidas.

 

Fora isso, há a acrescentar o impulso quase obsessivo compulsivo de aproveitar todas as migalhas, não desperdiçando aquelas insignificâncias quase que sob pena de prisão. As migalhas são uma droga que faz mais vítimas que qualquer outra. Pessoas de todas as idades não resistem à visão de pequenas migalhas que ainda estejam ao alcance, molhando os dedos para conseguir agarrar todas as partículas que ficaram no fundo do saco das batatas, por exemplo, e passando-os pela gengiva, como se de cocaína se tratasse. 

 

Mas as pessoas teimam em não perceber e continuam a sucumbir ao efeito das migalhas, condenando toda a nossa raça à extinção. É uma droga perigosa e que conta com a conivência de todos nós, que actuamos como dealers e viciados em simultâneo.

O problema maior? O problema é a direcção final deste vício. Qual esquema vilanesco digno de um filme da Disney, quanto mais obcecamos com migalhas mais vamos dando continuidade à metamorfose que está a acabar com a raça humana. Gradualmente, e sem nos darmos por isso, não passamos de um pombo a vaguear pela cidade à procura de mais uma migalha. Só mais uma migalha. E assim será o final da humanidade. Transformados em pássaros ínuteis devido a migalhas. Pássaros ínuteis que vendem o corpo por uma migalha, numa busca constante. Just another fix, man... 

 

 

 

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