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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

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Feira Do Livro À Minha Moda

Sim, eu sei, toda a gente está a falar da feira do livro de Lisboa. Para não ficar para trás, também o vou fazer. 

 

Self explanatory

 

Para começar, habito a cerca de cinco minutos a pé da feira do livro (talvez a um minuto e meio se for de bicicleta, dois de asa delta, trinta segundos se for disparado de um canhão e cerca de trinta e três minutos de caiaque), tirando partido desta situação, vou várias vezes à feira.  Ou seja, das duas semanas e meia do evento, é provável que vá cerca de dez/onze dias. Nem que seja só para ir beber um café e olhar de relance para uma barraquinha à espera de ver um milagre em forma de livro. E não estou a falar da bíblia, disso há lá muitas, mas não tenho interesse.

 

Tendo em conta que posso ir várias vezes à feira, não me vou precipitar a comprar nada, a menos que seja um achado fantástico. Quando falo de um achado fantástico, falo, claro, de um livro que foi escrito no ano que vem, por um viajante no tempo, e que contenha todas as combinações vencedoras do euromilhões de 2016. Até agora ainda não o encontrei, suspeito que as nossas linhas temporais ainda não se tenham cruzado.

 

Primeiro dia da feira é também o dia da minha primeira visita. Neste dia não interessam muito os livros nem a que preço estão. Esta primeira incursão é feita para averiguar onde se encontra tudo, como está a organização de mais uma edição da feira do livro, ver as novidades e ir vagueando por ali, a olhar as bancas sem muita atenção, só a marcar aquilo que pode vir a interessar.

 

Volta-se à feira ao princípio da noite num dia de semana, que não vai ter muita gente, para a primeira visita com atenção redobrada aos livros. Nesta visita é para perder umas três horas em cada banca de um lado da feira, a ver aquilo que já conheço, ou o que tenho interesse em conhecer, à partida. Ver como estão os preços e anotar.

No dia a seguir repete-se a estratégia, mas do outro lado da feira. 

 

Gente que me iria irritar se eu ali estivesse

 

Agora que já se sei o que há por toda a feira, é dia de fazer as primeiras compras. Aqueles livros que estou seguro de querer e que vale a pena aproveitar o preço de feira. Ao mesmo tempo, ir vendo outros livros que possam vir a interessar. 

Muito importante nestes dias de grande labuta é ir sozinho. Ou com alguém que perceba, e compreenda, que passar largos minutos numa banca, que sabes à partida não ter nada que te interesse e que nunca vais lá comprar algo, é importante para a experiência geral. 

 

A feira podia acabar por aqui que já me davam por satisfeito, não era? Afinal já lá tinha passado muito tempo, visto uma catafrada de livros e alugado um camião de mudanças para transportar todas as minhas compras. Mas não, longe de estar satisfeito.

Está na altura de voltar a repetir todo o processo realizado até agora, mas desta vez com atenção aos livros desconhecidos. Passar um dia na feira do livro qual Indiana Jones à procura de algum artefacto. Livros que nunca pensei em ler, que conheço o nome do autor, que goste da capa, que o título me desperte curiosidade...

Este dia é seguido do dia em que lá volto, agora com informação relativa a todos estes livros que fui vendo ao acaso e com novas descobertas que fiz ao pesquisá-los. Após este dia, vem mais uma tonelada de papel já escrito e ordenado aqui para casa. 

 

Perdi a conta, mas já se passaram alguns dias nesta minha estratégia de como abordar a feira do livro de Lisboa. Por esta altura já quase que sei de cor o que cada banca tem disponível. Se ainda tiver dinheiro que permita comprar comida, alimentar-me e, assim, ter energia para viver, volto à feira. 

Volto para mais descobertas e, agora mais ponderado ainda, levar uma coisa ou outra se determinar valer a pena. Neste ponto posso já não ter comida em casa para o resto do mês, mas não me vai faltar papel quando enlouquecer com a fome, por isso compro sempre um livro de culinária. Se é para me afogar com papel, que seja algo com uma imagem apetitosa.

 

Está a chegar o fim da feira e lá vou eu para o canto do cisne. Literalmente, porque os cisnes que se banham na pequena fonte que está no Parque Eduardo VII costumam dar um excelente concerto para celebrar mais um ano deste evento, e eu não o perco por nada. Deixo-lhes uma moedinha, como forma de reconhecimento e para os ajudar nas suas cenas de cisnes. Persigo um dos cisnes para lhe salvar a vida após se ter afogado com a moeda e, finalmente, desço o parque para a última visita à feira. Vagueio novamente, agora a pensar se hei-de levar este ou aquele, os livros que deixei para trás, os que estava em dúvida, os que não sabia se queria mesmo ou não, etc. 

 

Foi por um triz!

Ele já estava mesmo a ficar aflito. Ando há anos a dizer que temos de resolver o problema da falta de carteiras para os cisnes, senão dá nisto.

 

Compro mais algum, ou não, irrito-me porque alguém não hesitou como eu e levou aquele livro que eu estava a guardar para o último dia, caso ainda lá estivesse. Volto ainda a descobrir mais livros que me interessam, lanço um último olhar ao espaço como está e vou para casa ver em que altura do ano calha o fim de Maio e princípios de Junho do próximo ano (eu sei lá, podem mudar a ordem dos meses; não me admirava), para esperar mais uma edição da feira do livro. 

 

Não esquecer que a feira do livro não é só livros:

  • Também lá vou um dia só para me queixar da quantidade de pessoas que lá estão e que tornam impossível ver alguma coisa;
  • Vou um dia para me queixar e refilar que as pessoas não se sabem comportar em público e ficam paradas, de repente, no meio do caminho ou que andam devagar, ou que dão encontrões quando não há nenhuma razão para isso. Enfim, vou para me chatear. Um efeito colateral deste dia é irritar, profundamente, quem quer que esteja comigo;
  • Vou um dia para ver as bancas que não têm nada que me interesse. Só para tentar perceber o porquê e a quem os podem interessar. Não tenho interesse nos livros em si, mas isso não quer dizer que não deviam existir (há alguns que...);
  • Um dia só para ouvir todas as parvoíces e informações erradas ditas por pessoas que estão a ver os livros numa qualquer banca e fazem questão de falar muito alto e agir como se fossem os reis da literatura e a sua palavra a lei, isto quando mal sabem ler (gabo a paciência a quem trabalha nas bancas das editoras na feira do livro);
  • Um dia para refilar de todas as pessoas que lá estão e nunca leram um livro na vida. Passam o dia só a intrometer-se na passagem, a tirar fotografias e a fazer de conta que são pessoas interessantes;
  • Um dia para refilar de todos aqueles que escolhem passar pelo parque de bicicleta, pelo meio da feira do livro. Porque não há nada mais prático a fazer;
  • Um dia para refilar de isto tudo ao mesmo tempo;
  • Um dia para  ver todos os cães que vão passear os donos à feira do livro. Invejá-los a todos e querer fazer festas a todos os cães;
  • Pelo meio, vai-se comendo um gelado, um churro, bebendo uma cerveja - Mas sempre longe dos livros, não é para danificar a mercadoria! E, claro, refilar das pessoas que vão a comer e beber ao mesmo tempo que estão a manusear os livros. Sem falar naqueles que pegam num exemplar novo e o dobram e amassam e deitam-lhe o lume e, no fim, decidem a pô-lo de volta no sítio;
  • Ah, e eu sei que disse que não havia compras por impulso e demonstrei que este processo era todo muito bem pensado, mas, de algum modo, tenho sempre um monte de livros que não faço ideia, nem sei como nem quando os comprei. Acontece. Acho que é magia. 

Se calhar exagerei...

Bem, acho que voltei a ultrapassar um pouco o orçamento que tinha delimitado...

 

Também há muitas coisinhas com bom aspecto para se comer na feira, mas são quase tão caras como qualquer livro e deixam-me menos saciado que uma página do meu novo livro de receitas. Preciso desse dinheiro para o que realmente interessa. 

 

Agora vou, que tenho de ir vender o meu outro rim (podemos viver sem nenhum, certo?) para ter mais uns trocos para gastar.

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