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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Fantasias Matinais

Passo demasiado tempo imbuído nos meus próprios pensamentos, a construir toda uma narrativa alternativa para aquilo que me rodeia. Sim, sei que é normal, pelo menos quero acreditar que sim, mas não paro de ser arrastado para locais recônditos de um qualquer universo paralelo que habita a minha psique.

 

Por exemplo: hoje de manhã estava no metro e no meio de toda aquela azáfama fui de encontro a um senhor. Instintivamente voltei-me para trás e pedi desculpa. E foi uma boa desculpa, honesta, sentida e com uma justificação para o acontecimento: “Peço desculpa, não o vi.”

Após o meu pedido de desculpa, reparo que o senhor é cego. E que eu acabei de me desculpar por não o ter visto. E isto teve graça para mim. Ri-me. Na minha cabeça só, que não sou assim tão maluco para desatar às gargalhadas assim do nada, como se fosse algum assassino que acabou de desmembrar uma família inteira para fazer porta-chaves.

 

Imediatamente pensei o quão espectacular seria se o senhor me tivesse respondido “nem eu”.

Riamos os dois, bem alto. Sentia-se no ar uma certa sincronia que se começava a formar entre nós, assente no bom humor. Abandonávamos os planos e obrigações que tínhamos para o dia e íamos os dois para uma qualquer taberna. Horas passavam, os olhos cobertos de lágrimas de tanto rir. Sonhos e aspirações partilhadas. Um encontro fortuito numa manhã dava início a uma amizade perpétua e inquebrável.

 

Não tardava e estávamos a abrir a nossa empresa de detectives privados. Num quarto andar de um prédio decadente no centro da cidade estava o nosso escritório. O nome da empresa era “Cabra Cega”. Claro que tínhamos mesmo uma cabra no escritório, era a nossa mascote.

Tudo corria de feição: casos eram resolvidos, a cabra era mansa e adorada por todos os clientes, a nossa amizade mais forte que nunca e diversão não faltava. Até àquele fatídico dia. No meio de uma investigação a um dos casos mais sérios que tínhamos tido até ao momento e quando eu me aproximava de uma grande descoberta, fui atropelado intencionalmente. Um carro a toda a velocidade veio de encontro a mim, tal como eu fora naquela manhã de encontro a um estranho, e esbulhou-me todo.  O meu parceiro veio em auxílio, às apalpadelas pelo caminho. Como um Hansel moderno, seguia as pistas que neste caso eram pedaços das minhas pernas.

 

Meses depois, com menos duas pernas mas com uma cadeira de rodas nova, tentávamos, ainda, deslindar o caso. Continuávamos sem solução à vista, nem para isso nem para o meu atropelamento. Apenas sabíamos que os acontecimentos estavam relacionados. Durante meses o meu parceiro recriminava-se por não me ter ajudado naquele dia. Ou a evitar o acidente, ou a fornecer alguma pista. Eu bem que gritei com ele, por entre as dores que me assolavam na altura, para ver que tipo de carro era ou para anotar a matrícula, para ver o condutor, mas nada.

Carregado com toda essa culpa, decidiu fazer a única coisa que podia para tentar corrigir, ou pelo menos prevenir, nova situação daquelas. Não voltaria a deixar-me mal por não poder ver. Foi ao escritório a meio da noite e trocou os seus olhos pelos olhos da cabra.

A visualizar o mundo pela primeira vez enquanto tinha um estranho desejo de ruminar um pouco de erva, dirigiu-se a minha casa para poder partilhar a boa nova e assistir-me na resolução do caso. Aquilo que não esperava era ver o que viu. Bem, na realidade não esperava ver nada, porque ainda não estava habituado, mas mesmo que estivesse não esperaria aquilo. Pela janela aberta o meu parceiro que tinha sido cego mas agora tinha olhos de cabra viu-me a andar nas minhas duas pernas, em perfeita saúde.

Aquilo que ainda não vos contei, é que o acidente tinha sido encenado. Aliás, tudo tinha sido encenado desde o meu encontro “fortuito” com ele naquela manhã no metro. Eu era na realidade um agente secreto com uma missão muito importante relacionada com aquele homem. Não sabia porquê, trabalhava para aquela organização e seguia as suas ordens à risca. Mesmo que até me tivesse afeiçoado a ele, o trabalho vinha sempre primeiro. A missão requeria que a certa altura eu estivesse numa cadeira de rodas e que o meu parceiro tivesse sido incapaz de ajudar com algo em relação ao acidente. Tudo fazia parte do plano. Aproveitando-me da sua invalidez, tinha conseguido executar as minhas maquinações de forma brilhante. Só não tinha contado com uma coisa: com a verdadeira amizade e amor que ele nutria por mim, e as acções que tinha tomado por causa disso.

 

E foi aqui que cheguei à minha estação de metro de destino e prossegui com a minha vida, que eu tenho mais que fazer do que fantasiar com coisas estúpidas que derivaram de um simples encontrão.  

Será que é só a mim que isto acontece?

 

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