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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 5 - Cap. II

     Sonhava. Com os campos, com a terra fresca, com a neblina matinal que gelava os ossos e humedecia as enxadas; sonhava com o sol do meio-dia e a brisa que lhe secava o suor quando se recostava numa faia. Sempre sonhara apenas com o que conhecia, pois imaginação era uma das coisas que também nunca tinha tido e a sua visão do mundo sempre fora ordinária e restrita ao que o rodeava.

    Entretanto, apercebeu-se que não sonhava, mas que lembrava. O cérebro convalescia em memórias enquanto se mantinha num estado de subconsciência. A cacofonia que ouvia era a orquestra de enfermeiros e médicos, o tilintar de pequenos objectos de metal; sentia o frio nas costas e uma dor na perna. Ou onde devia estar uma perna, já não tinha a certeza de nada. Não sabia quanto tempo passara, onde se encontrava, ou o que estava a acontecer exactamente, mantinha-se naquele limbo existencial entre memórias e presente.

     Uma vez tinham-lhe dito que antes de morrer toda a vida nos passava pelos olhos em imagens. Luís nunca ligou nenhuma a essa informação, mas agora pensava se não seria isso que estava a acontecer. Estaria ele a ver o filme da sua vida, o presente de despedida que Deus nos confere? Não tinha vontade de viver nem de morrer, não tinha vontade de nada. Sempre aceitara que viveria enquanto tivesse que ser e morreria quando chegasse a hora. Entregou-se às memórias que continuavam a mostrar-se e abandonou a pequena noção que tinha recuperado do mundo real.

     Via coisas que não sabia que estavam guardadas na sua mente, via coisas das quais se lembrava de maneira diferente. A realidade não é tudo o que parece e as certezas da memória não passam de percepção, mas Luís não o compreendia totalmente. Só estava contente por se ver criança a correr.

     Em consciência não se lembrava de tudo o que agora revia, mas era assim que as coisas tinham sido. Era o que lhe diziam as memórias agora desbloqueadas. Reviu o dia em que faleceu o pai. O dia em que, com os seus tenros catorze anos, saiu pela alvorada para lavrar a terra, naquele que seria o primeiro dia do resto da sua vida. Nunca mais tinha pensado nisso desde que aconteceu. Parecia tudo novo, seria possível ter revelações sobre as próprias vivências? Ao fim da manhã, meras horas após a terra ter assentado em volta do caixão do pai, parou para merendar. Sentado ao abrigo de uma faia, não ouvia vivalma. Foi, por isso, com surpresa que notou no homem a aproximar-se dele, que se prostrou à sua frente tapando o sol. Como podia ter esquecido aquele homem e a involuntária inquietação que ele o fez sentir?

     Por embaraço, ou cautela, não tinha dito muito, limitando-se a responder. A vida não é mais que isto, dizia-lhe o homem, que só a terra provia. Desde que continuasse nos seus afazeres, que se dedicasse à terra, nada lhe faltaria. As couves seriam sempre verdes e as batatas não faltariam, era uma garantia pessoal. Era só o que preocupava Luís naquela altura e ali estava um estranho a assegurar que desde que se mantivesse focado na terra, viveria com sustento e sem preocupação. Isso e apertar-lhe a mão, dizia o homem, assegurava essa fertilidade e futuro. E trabalho, sempre muito trabalho. Da escravidão do trabalho não se safava, como o pai tinha feito, disse-lhe o homem, era uma troca justa, acrescentou. Luís não percebia, mas certo é que apertou a mão ao homem. Fitou os seus olhos amarelos enquanto o fazia, ardentes, ansiou por recolher a mão que fervia, mas não conseguia desviar o olhar. No final, venho buscar-te, bocado a bocado, disse o homem.

     Luís abriu os olhos numa ânsia sôfrega, zonzo e com a mão a escaldar. Notou que estava amarrado à cama.