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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. IV

     - Vai pela sombra! – disse Afonso ao enfermeiro. Seriam as últimas palavras que trocariam um com o outro, e ambos sabiam disso; embora não pela razão correcta.

     Já era tarde. Bastante tarde, aliás, para um homem de quase sessenta anos. Leonor deveria estar preocupadíssima com ele, com o seu papá, como o homem que lhe servia tanto de saco de boxe como de Muro das Lamentações pueris, próprias da idade. Mas tinha de fazer o que fez, não havia volta a dar. Já tinha esperado demasiados anos. A coragem ia-lhe e vinha-lhe, como o oxigénio nos seus já cansados pulmões. Se num dia achava que estava na altura de fazer alguma coisa em relação ao assunto, no outro já não era invadido pela mesma adrenalina da antecipação de se ver a cravar uma estaca no coração de Raquel, ou algum ritual do género que é próprio de se fazer aos monstros. Porque Raquel era um monstro, efectivamente, e Afonso sabia-o! Acreditava na sua condição mental de criança assustada, pois claro que sim, mas tinha para si que aquela era uma personagem criada pelo seu sentimento de culpa pelo que havia feito àquelas crianças; nas quais se incluía a sua irmã, Matilde Pureza.

     Matilde era a irmã mais velha de Afonso Pureza. Tinha estado no aglomerado de miúdos que tinha tudo para ser uma festa, mas que acabou por ser a maior tragédia da vida daquela pacata cidade. Futuros doutores, engenheiros, advogados e até empregados de limpeza e marceneiros não passavam agora de pequenos sacos de ossos no cemitério municipal. E Matilde era um desses saquinhos. A criança feliz e atenciosa que era, nunca tendo sequer dado a entender o mínimo sinal de desagrado quando nascera o seu irmãozinho mais novo, já não existia. Deixara de existir de repente, ainda Afonso aprendia a dar os primeiros e atrapalhados passos na Terra, a mesma que ainda dava abrigo a Raquel Adarga, embora ele não percebesse bem porquê. Achava que, depois do que ela fizera, Raquel deveria ter sido erradicada do próprio planeta.

     Mas tal não acontecera, e agora Afonso, um homem que valorizava a família acima de tudo e que tinha visto a sua ser desfeita pelas mãos de Raquel, queria exercer a sua cláusula de vingança, que achava existir desde que aquela assassina havia assinado um contrato com veneno. Mais do que isso: queria vingar-se também de todas aquelas pessoas que, durante anos, haviam dado guarida a Raquel Adarga. Daquele hospício onde tantas vezes tinha entrado com o objectivo de visitar Raquel, percebê-la a ela e o porquê de ter feito o que fez, mas de onde havia sido sempre barrado pelos adoradores fardados daquela assassina. Por isso, fizera o que fez. Ou o que Abel tinha começado, mas que ele iria terminar assim que apanhasse Raquel Adarga cá fora…

     Deixou Abel no sítio onde tinham combinado, longe do hospício e da confusão que ambos sabiam que se iria instalar, e seguiu viagem novamente. Não parava de pensar em Raquel. As rugas que via de ano a ano nos jornais atormentavam-lhe frequentemente os sonhos, punham-no doente no Inverno e mal-disposto no Verão. Poderia apenas esperar mais uns anos até que o velhinho corpo de Raquel Adarga cedesse, com o peso da idade? É claro que podia, e nem tinha de se chatear. Só que não sabia quantos anos de idade ainda restavam àquele monstro, e achava que ele não merecia ter o privilégio de morrer de velhice. Era uma questão de justiça!

     Arrancou novamente na direcção do hospício, mas deu a volta por trás a alguns quarteirões de distância. Não queria, de todo, envolver-se a si nem ao Opel Corsa alugado a não ser que tivesse mesmo de ser; a não ser que fosse procurado após matar o corpo e a alma – as duas almas, aliás – de Raquel Adarga.

     Estacionou o carro a uma distância considerável do edifício e saiu para a rua. O ar estava pesado e húmido, mas corria uma leve brisa que provocava as folhas das árvores ao longo da rua. Deu por isso que se tinha esquecido de uma coisa importante – muito importante – e voltou a entrar no carro para retirar a pistola de dentro do porta-luvas. Deixou ficar o coldre, porque assim era mais fácil escondê-la por entre a roupa caso desse de caras com alguém.

     Voltou a sair do carro. Desta vez, já tinha tudo consigo, incluindo a pequena lanterna que trazia sempre no porta-chaves, embora nunca lhe tivesse dado uso. Agora, aquele pequeno aparelho ia ter uma estreia em grande! Foi-se afastando do Opel enquanto olhava em volta, para se assegurar de que não era visto, e reparou que a rua estava deserta. Talvez demasiado deserta, mas isso podia ser impressão sua e do seu crescente estado de ansiedade; afinal, já era tarde para haver transeuntes. Percorreu as ruas silenciosas como um monge percorre os claustros do seu mosteiro. Reflectiu como um monge, também, embora estivesse certo de que um religioso que tivesse os pensamentos macabros, vingativos e angustiantes que ele havia tido nos últimos tempos não podia ser lá muito bom religioso.

     Enquanto percorria a terceira rua que lhe faltava para chegar até ao emaranhado de vegetação que ficava nas traseiras do Hospício Padre Cabral Correia, e que desconfiava ter sido o sítio para onde uma assustada Raquel Adarga se tinha dirigido, Afonso olhou em frente e estremeceu. O que viu, uma figura negra e oscilante que parecia mover-se ao sabor do vento – embora a brisa nocturna soprasse na direcção contrária –, fê-lo deter-se quase instantaneamente, como um animal que não quer alertar o seu predador para a sua presença. A sombra foi-se tornando gradualmente mais pequena e Afonso percebeu porquê: não estava a diminuir em tamanho, estava era cada vez mais longe. Parecia subir a colina que dava para o bosque, levitando um pouco acima do solo mas nunca a mais de um metro. Era como ver uma pequena nuvem, carregadíssima de más e chuvosas intenções, a percorrer um pequeno trilho pedestre a vinte quilómetros por hora. Só quando deixou de ver aquela pseudo-entidade por completo, e teve tempo suficiente para garantir a si próprio que afinal não vira nada e que aquilo não passava de um jogo de sombras nocturnas provocado pelo perverso sentido de humor do acaso, é que resolveu retomar o seu caminho, com o seu estado de ansiedade um pouco mais aguçado.

     De repente, começou a ouvir, cada vez mais próximo, o barulho de sirenes. Várias sirenes. Depois, muitas sirenes! O pânico abriu de rompante a porta que separava o seu cérebro da irracionalidade e começou a correr a toda a velocidade – ou ao máximo de velocidade que conseguia, com a sua idade – na direcção do bosque.

     “Os filhos da puta descobriram-me! O sacana do enfermeiro desbocou-se!”, pensou Afonso. Só que, enquanto corria, percebeu que deixava cada vez mais para trás o barulho das sirenes. Virou-se para trás e viu – juntamente com as portas e janelas das várias casas que se iam abrindo para que os seus inquilinos pudessem tentar perceber o que se passava – que as luzes azuis e vermelhas tinham parado, não nas traseiras do hospício onde ele se encontrava, mas na porta da frente. A silhueta escura do edifício fantasmagórico recortava os clarões bicolores e de alternação rápida que brilhavam no céu, como um grupo de faróis sob o efeito acelerador de anfetaminas.

     Virou-se novamente, enfrentando a escuridão da vegetação que se estendia à sua frente e que contrastava com o cenário que se perfilava nas suas costas, e voltou a caminhar naquela direcção. Estava certo de que todo aquele aparato de homens fardados estava à procura dele – dele e de Raquel Adarga, caso ela já tivesse escapado –, só deviam era estar a procurar no sítio errado.

 

***

 

     Leonor estava ofegante, mas não tanto como Luís. Apesar do seu aspecto relativamente jovem, o avançar da idade do psiquiatra já não lhe dava muitas mais benesses. Se bem que a culpa não era inteiramente dele. A encosta do bosque começava algo ligeira, mas tornava-se mais e mais íngreme à medida que se ia subindo. Principalmente ao passo apressado em que subiam ambos. À sua volta, as árvores abanavam ligeiramente como se estivessem a dançar um slow, e Leonor sentia-se quase enojada por estar agora a consumir a largos goles o mesmo ar putrefacto que ainda há bocado, no carro de Luís, a tinha impedido de abrir a janela.

     O ar pesado, suportado pelo ambiente também pesado em que se encontravam e apenas pontuado pelos seus passos, pelo agitar das folhas ou pelo lamento de algum pássaro nocturno mais desassossegado, foi cortado pelo som da voz ofegante de Luís:

     - L-liga a tua lanterna, se fazes o favor. – pediu o médico a Leonor, fazendo o mesmo com o seu aparelho. – O caminho só vai ficar mais escuro a partir daqui.

     Tinha razão. Tendo ambos estado, até então, relativamente iluminados pela luz das sirenes e do burburinho popular que se instalara à volta do hospício – e não querendo atrair as atenções de toda essa gente para dois pontos brilhantes no meio da vegetação que costumava estar embrulhada na penumbra –, era agora altura de aclararem o seu percurso recorrendo aos seus próprios meios.

     Com as duas lanternas em riste, e os kits de primeiros-socorros às costas, Luís e Leonor pareciam dois pequenos escuteiros perdidos numa floresta. Percorreram enquanto puderam o caminho de ervas secas que ainda parecia existir no chão, apesar do grave estado de abandono em que se encontrava o bosque. Quando o trilho desapareceu e as ervas voltaram a esverdear, andaram mais alguns minutos naquela direcção à espera de finalmente encontrar algo.

     E encontraram. Leonor julgava já ter visto aquelas calças de ganga bege em algum lugar. Também pensava estar relativamente familiarizada com aquele pólo azul-escuro. Mas só quando viu os poucos cabelos eriçados na parte de trás da cabeça daquele indivíduo é que percebeu quem se tratava:

     - Pai! – gritou a jovem, dilacerando o silêncio que teimava em fazer-se ouvir. Correu para aquela figura deitada no chão e Luís seguiu-a, olhando em volta. O silêncio podia já não existir por completo, mas a penumbra, toda aquela que não era iluminada pelas suas lanternas, mantinha-se.

     A poça de sangue que contornava o chão à volta da cabeça de Afonso não fazia prever boa coisa, mas, mesmo assim, Leonor virou-o e, mais uma vez, os seus gritos – agora quase de desespero – inundaram aquele tenebroso lugar. Quando Luís se aproximou e conseguiu ver o mesmo cenário que Leonor, não conseguiu evitar fazer uma careta de repulsa. A cara daquele corpo, fora ela qual fosse, tinha sido cavada da própria cabeça como se por uma concha de gelado gigante, existindo agora apenas um buraco côncavo no seu lugar. A metade do cérebro que restara ainda estava teimosamente colada ao crânio, cujos ossos mal eram visíveis no meio de tanto sangue, ainda fresco.

     Enquanto Leonor gritava e chorava, de raiva e de dor, de confusão e de desespero, agarrada àquele corpo, Luís arrependia-se de tudo aquilo, mas já tentava retirar algumas conclusões. “Quem fez isto não deve andar muito longe”, pensou. Depois, agarrou com força o farrapo de ser humano em que estava transformada a sua mais recente estagiária e tentou consolá-la o máximo que podia, naquelas circunstâncias.

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