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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. III

    Leonor lutava contra a informação que lhe avassalava o cérebro. Quase nem se conseguia concentrar com o martelar do seu ritmo cardíaco que lhe dilacerava os ouvidos, vívido de forma invulgar, tão forte que sentia a cabeça dilatar e a garganta a aferrolhar. Queria acreditar que era uma partida, uma praxe de alguma forma. Meterem-se com a estagiária, afugentarem a inocência que nela podia residir. Iriam todos rir-se deste acontecimento anos mais tarde. Leonor via-se a contar esta história no primeiro dia do novo semestre aos amigos enquanto trocavam impressões acerca do Verão e das suas primeiras experiências e contactos com o mundo de trabalho; deu por si a relatar aquela noite num primeiro encontro, para quebrar o gelo; a partilhar histórias dos tempos de estudante, enquanto socializava numa qualquer conferência médica; recontar aquela experiência anos mais tarde, como sendo uma inspiração que lhe fez focar estudos num certo fenómeno, no início do seu discurso sobre uma importante descoberta científica que ajudara a alcançar; como um momento de humor no meio da sua história de vida, partilhado durante uma conversa com alunos de medicina na sua antiga universidade num qualquer evento em que seria convidada. Aquela história de que os filhos se iam fartar e os netos ansiar ouvir repetidamente.

    Não era nenhuma partida, infelizmente. Sabia, sentia, que o que Luís lhe contara após tê-la arrancado do conforto uterino do lar era a verdade. Sentia-o através do ar que lhe era difícil inspirar dado a sua garganta virtualmente fechada pelo horror que lhe fora relatado. Este tipo de coisas acontecia nos filmes, não na realidade. Não a ela, ou na sua proximidade. Mas lá estava ele, aquele sentimento de inevitabilidade, escoltado pelo apregoar do seu coração, manifestação física do nervosismo que lhe assolava e lhe dizia que não haveria filhos ou netos, conferências e grandes descobertas. Não, aquela noite estava apenas a começar e Leonor já a queria esquecer.

    O carro resvalava, vibrante, pelas ruas da cidade, lançado em direcção do hospício. O peso da grande bigorna da existência fez Leonor soluçar à procura de oxigénio. Absorveu todo o ónus que o ar carregava, e, de pulmões cheios, abordou o que andara a censurar na sua mente.

     – Fui eu? Foi por causa de mim qu…

     – Não, nada disso – cortou Luís. – Mas tenho as minhas suspeitas.

    – Suspeitas? Mas acha que foi propositado? – Perguntou Leonor, de olhar arrebitado.

    – Tenho a certeza – respondeu ele, dando uma guinada ao volante e enveredando por uma ruela apertada. – Disso não tenha dúvidas, Leonor. Alguém destrancou a porta propositadamente. Alguém queria que Raquel Adarga saísse daquele quarto. Como e porquê, não sei.

    Leonor desviou o olhar. Observou, pensativa, enquanto o contorno dos prédios ia arquitectando o horizonte atrás deles. Luís conduzia com a urgência que a situação parecia requerer, mas Leonor ainda não percebera que peça era ela neste intrincado tabuleiro. 

     As suas mãos irrequietas percorreram a porta e encontraram a pequena protuberância que faria descer o vidro, caso pressionada. Leonor pensou em abrir a janela, o café com leite saltitava-lhe no estômago e não pediria licença para se ausentar de lá. Acabou por não fazer nada, pensou que iria conseguir cheirar a chacina, saborear o seu sangue; achou que não aguentava o putrefacto vento daquela noite. O corpo pressionava agora a porta do carro, como que numa reacção fisiológica de fuga. Não tinha nada a ver com isto, era só uma estagiária. Só uma estudante. Só queria estar em casa, partilhar as suas experiências com o pai e perder-se na minúcia própria da sua juventude; ainda mal era adulta, apesar da sua atitude.

     Este ar de insegurança foi notório para Luís que se apercebeu, talvez pela primeira vez, que Leonor ainda não passava de uma adolescente. Por mais despachada e confiante que fosse, por mais adulta que agisse, e que se estava a tornar, Leonor era uma miúda assustada e atirada sem arma nem escudo para o meio desta arena em que os leões dominavam.

    – Desculpa, Leonor – disse Luís. – Eu não te devia ter envolvido nisto. Não é nada contigo, muito menos aquilo que te peço para fazeres. É só porque… – Luís hesitava por continuar – Nada. Vou levar-te de volta a casa.

    – Não – balbuciou Leonor. – Eu quero ajudar. Eu só… Eu só não compreendo. E devíamos era ir à polícia, falar com eles. Eles é que têm de ajudar… eu não compreendo, olhei-lhe nos olhos. Eu vi o que ela era. Não acredito… não consigo…

    O telemóvel de Luís estremecia pela quinta vez no suporte que o sustentava no tablier do carro; letras brilhantes anunciavam que lhe ligavam do hospício, mas nem um nem outro fizeram caso de tal ocorrência.

    – Não foi ela. Não penses nisso, nem acredites no que ouvires. A Raquel é uma criança, tu viste-o. É uma criança num corpo que não lhe obedece como queria. Não, algo se passa, mas não é o que pensas, nem o que estão a tentar fazer parecer – proferiu Luís.

    A cordialidade tinha sido abandonada e tratava-a como a um igual. Leonor sentia o pesar na voz de Luís. E como não? Há anos que cuidava de Raquel. Não lhe interessava o que quer que ela tivesse feito no passado, era apenas a sua paciente. E uma paciente que o encarava como um pai, que esperava dele esse tratamento e que o obtinha. É claro que Luís se afeiçoara àquela mulher, mas como não ver as evidências? Ele próprio lhe tinha contado o que se passara nas poucas horas desde que tinham saído do hospício. O envolvimento da polícia e a sua exoneração por parte dele deviam ser motivos suficientes para ela não estar envolvida, para não estar num carro a altas horas da noite a caminho de um local de crime. Já havia uma operação de busca a ser montada, a polícia estava encarregue de todas as diligências. Percebia que Luís se encaminhasse para lá, se dedicasse a tentar encontrar Raquel Adarga, estivesse lá quando ela fosse capturada. Na qualidade de médico responsável por ela, e pelo hospício, a sua presença era necessária. Mas Leonor não tinha responsabilidade nenhuma no caso. Queria ajudar Luís, esse sentimento era verdadeiro. O doutor parecia-lhe um homem bom e genuinamente preocupado e convencido da inocência da sua paciente nos acontecimentos da noite. Contudo, continuava sem entender plenamente o que esperava dela e como podia ajudar a encontrar Raquel.

    À sua frente erguia-se o hospício, envolto numa labareda sombria e imponente. Como lhe parecia diferente aquela visão a esta hora e a que teve ao princípio da tarde quando lá se apresentara, pensou Leonor. A súbita mudança de direcção levando a viatura a contornar a entrada do hospício, vestida com as brilhantes luzes e aparato policial, sobressaltou e confundiu, ainda mais, Leonor.

    – Mas… onde vamos? O que se passa? – Perguntou.

    – Procurar a Raquel – disse Luís, sem tirar os olhos da estrada e ignorar por completo o arraial que se tornara a entrada do seu local de trabalho. – Não confio na polícia, Leonor. Há muita coisa enraizada nesta comunidade e o interesse por Raquel Adarga é uma dessas raízes. Uma raiz grossa e extensa, que vai buscar o seu sustento ao imaginário comum, sugando o medo e o ódio que vive na cabeça de cada um e lhe dá forma, retira deles todos os nutrientes e dá corpo ao mito. Raquel é uma espécie de bicho papão, a história que se usa para assustar as crianças a comer a sopa antes que ela lhes venha apanhar; é o monstro debaixo das suas camas à noite. Não, a polícia não vai ajudar. Há um sentimento de injustiça e desconfiança que sempre paira em redor deste assunto. Por eles está decidido, o que ocorreu aqui foi obra dela e mais nada há a saber. Preciso de encontra-la antes deles. Vão abatê-la como a um animal selvagem e dar um fim à sua história. Vão cantar justiça e versar sobre a lenda.

    » Não posso deixar que isso aconteça. Não há mais ninguém em quem possa confiar, todos os outros têm os seus alicerces assentes sobre as raízes do mito de Raquel Adarga, mas tu não.  Confio em ti e vi como ficaste quando a viste hoje ao início da noite. Tu viste para lá do acto, viste a pessoa, a criança lá aprisionada. Diz-me, Leonor, não achas que aquela mulher já foi castigada pela atrocidade que cometeu? Mais de cinquenta anos passados numa custódia médica, e na condição em que se encontra? Achas que está a fingir? Não, és inteligente demais para isso. Ninguém aguentaria cinquenta anos num fingimento como aquele, em condições daquelas. Nem enganaria um sem número de médicos e estudiosos. Não, Raquel Adarga foi, e continua, castigada pelo erro que perpetrou, seja por Deus ou pela sapiência da biologia.

    Luís parou o carro na base de uma colina. Adjacente ao hospício e nas traseiras do jardim, crescia uma enorme zona arborizada. Conflitos sobre a sua pertença duravam há vários anos, entre a luta do município para anexar aquela área e diversas entidades privadas que clamavam direito ao seu quinhão. Envolvido neste imbróglio legal, prosperava aquele bosque urbano.  Como a sombra que originamos, sempre presente e nunca notada, erguia-se furtivo e esquecido à vista de todos.

    – A polícia considera que a Raquel teve alguma coisa a ver com isto. Estão a montar todo um contingente com base nessa assumpção. Estão focados na saída principal do hospício e na sua ligação ao jardim. Vão partir para a busca a partir daí e avançar nessa direcção, seguindo o rasto dos corpos – disse Luís. – Mas ela não está envolvida nisto dessa forma. Sei que não. Alguém está a puxar cordelinhos e a ver as peças cair nos lugares pretendidos. Raquel não passa de uma menina assustada que se viu abandonada de repente. Não iria fugir para a confusão, iria tentar esconder-se o melhor possível. Resguardar-se até alguma solução lhe parecer viável. Não ia tentar fugir, nem ia pela direcção que acham que foi. Sei-o. Sinto-o. Temos de chegar primeiro a ela, temos de a proteger de algum desvairado sentido de justiça e assegurar um tratamento honroso. Ajudas-me, Leonor?

    Aí estava, o momento de decisão. Sempre fora decidida e assertiva, mas o peso que esta tarefa acarretava podia ser demais para ela, para o seu futuro. À partida não estava a fazer nada de mal, nada contra a lei, isso sabia-o. Mas estava a escolher um lado, e podia não ser o lado certo. Estava a depositar toda a esperança na palavra de um homem que conhecera horas antes, assentar toda a sua fé na sua certeza de que aquela mulher era uma vítima neste cenário e precisava protecção. E se a encontrassem? O que fariam? Se a polícia estava decidida a culpar Raquel pela carnificina registada, de nada serviria encontra-la primeiro. Ia Luís escondê-la? Mantê-la fechada num quarto em sua casa, cuidando dela como se de um animal ferido encontrado na estrada? Leonor não sabia, mas agora não era tempo para se preocupar com detalhes. Era tempo de agir, e ela, para o bem e para o mal, tomara a sua decisão quando se candidatara ao estágio de Verão do Hospício Padre Cabral Correia.

    – Sim, claro – respondeu Leonor.

   Ajudou Luís a retirar duas grandes lanternas da bagageira, bem como dois kits de primeiros socorros. Apressaram-se, os dois, para o interior sombrio do pandemónio arborizado.

   Leonor ainda não sabia se tinha tomado a decisão correcta. Pensou no pai. Não lhe tinha dito nada havia horas, mas nem ele devia estar em casa ainda. Lançara olhares frequentes ao telemóvel que se mantivera imperturbável. Para onde tinha ido o pai? O que se passava com ele? Sentiu uma pontada de dor saudosista a espetar-se no seu âmago. E se Luís estivesse errado? E se ela estivesse a caminhar alegremente para os braços do seu carrasco? E se Luís até estivesse parcialmente certo, mas fosse ele em conluio com Raquel? O seu pensamento divagava por estes tópicos, evocando o sentimento de pavor. Duas enfermeiras esfaqueadas, três seguranças degolados, um enfermeiro desaparecido… Mas continuava a avançar, guiada pelo toque taciturno da florestação.  O som de um corvo caía do éter úmbrico da noite, como se a natureza lhes estivesse a avisar, fazendo uso dos seus pássaros da desgraça.

 

***

 

    Raquel prosseguia caminho, em fuga por entre as árvores, com dificuldade que não compreendia.

   Tinha saído para a luz, inundada pelo seu calor. Caminhara com dificuldade e apreensão, chamara pelo pai. Ninguém aparecera e ela continuara. Dera com aquelas duas mulheres. Lembrava-se delas. Gostava delas. Sempre tinham sido simpáticas consigo, uma delas até lhe dava doces quando ia sozinha ao quarto de Raquel. Chamara por ela, mas ficou sem resposta. Pareciam que dormiam, resplandecentes sob a forte luz branca daquele corredor que percorria sozinha pela primeira vez. Tocou numa delas, na simpática, mas ela não reagira. Abanou-a com mais força, sem compreender o que se passava. Nem quando o corpo sem vida da enfermeira simpática deslizou da cadeira onde estava disposto para o chão, cobrindo Raquel de uma viscosidade doentia, um sangue tão avermelhado que magoava a retina, ela compreendeu. Sentiu as lágrimas a chegar e o medo a formar-se. Iam brigar com ela, iam pô-la de castigo. Não devia ter saído do seu quarto e, agora, a enfermeira simpática estava coberta de sangue. Começou a chorar e foi nesse estado que tentara voltar, encontrar o seu refúgio que agora lhe parecia perdido. Queria o pai, queria alguém. Mas não podia ficar ali, não sabia até quando ia haver luz, não podia estar ali quando chegassem as pessoas más. Fugira, então, pela primeira porta que viu. Despoletando o chinfrim audível de um alarme, Raquel embrenhara-se na mata que só ela parecia ver, a mesma mata que bailava de fora da sua janela durante as tardes que passava na sua pequena mesinha a colorir.

    Andara e andara, com sangue a manchar-lhe o pijama e lama a entranhar-se nos pés; o corpo titubeava pelo solo irregular. E agora prosseguia, por entre as árvores tentava fugir das sombras que estava convencida que lhe queriam magoar, mas estas eram mais rápidas que o seu pensamento e esperavam por ela, ameaçadoras, atrás de cada ramo. Tinha de se esconder, esperar pelo pai. Ele punha sempre tudo bem, ele sabia cuidar dela. Ele não se ia chatear.

   Raquel avançava, uma criança perdida a fugir do medo e para o medo, uma figura abominável a desviar-se das sombras que agora chamavam o nome dela. A angústia subia de tom e ela tentava correr, mas os pés não lhe obedeciam e o corpo chiava. As trevas vinham na sua direcção, clamar a alma dela para no abismo inflamar-se, num pensamento que não compreendia. Sentia o aperto do abraço obscuro da noite, envolvida nas sombras que lhe atormentavam o espírito, o seu pavor tomava forma física e vinha no seu encalço a chamar por ela, rindo-se. Tentava escapar, mas as pernas não planeavam o mesmo que ela. Escorregou e deixou-se ficar jazida no volutabro que serviria de sua sepultura. Viu a sombra envolver o ar e, numa forma cada vez mais corpórea, surgiu uma silhueta que lhe atiçava e apavorava.