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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 4 - Cap. II

     Sentado e à espera. Era assim que Afonso estava. Afinal, era a única coisa que lhe restava fazer naquela altura. Tudo o que tinha para fazer – sozinho – já havia feito. Agora, já não estava só nas suas mãos.

     Ali, naquela rua relativamente escura, apenas iluminada pelas já cansadas lâmpadas dos postes da luz feitos em madeira, o Opel Corsa que Afonso alugara estava acompanhado apenas por mais três carros, todos estacionados do outro lado. Afinal, era daquele lado da rua que ficava o jardim municipal, e toda a gente sabe o que acontece nos jardins municipais à noite…

     Só que, para Afonso, o que interessava não era os desvarios dos jovens, mas sim aquilo que se situava no lado da rua em que se encontrava: o hospício. Já tantas vezes havia estacionado ali – embora com o seu carro particular, não com um carro alugado – que admirava-se por a estrada ainda não ter as quatro marcas dos seus pneus.

     Dentro do carro, Frank Sinatra cantava-lhe – como que ao ouvido – sobre dois estranhos na noite que trocavam olhares, e que, eventualmente, acabariam por partilhar o amor. “Tretas!”, pensou Afonso. “Esse amor não existe, não pode existir!”. Para Afonso, o amor entre duas pessoas que não partilham quaisquer genes era uma farsa. O único amor que existia era entre familiares; esse sim, era verdadeiro e imaculado.

     Também não ajudava o facto de Afonso se ter casado três vezes, duas delas tendo acabado desastrosamente mal. Tinha desenvolvido umas espécies de anticorpos em relação ao amor conjugal.

     Era por isso que ele ali estava: alguém tinha perturbado o seu amor familiar, o único que realmente valia a pena. E, agora, era finalmente altura de vingar esse amor.

     Perdido nos seus pensamentos, voltou a olhar o hospício. Era um edifício curioso… Durante o dia, parecia uma instituição de saúde como qualquer outra, com traços até modernos. Durante a noite, tornava-se sinistro e parecia envolver-se em sombras, como um buraco negro que suga a felicidade de tudo o que o rodeia. Se calhar era só impressão dele, se calhar todos os hospícios, hospitais e outros lugares que tais têm essa aura nocturna. Ou, se calhar, era por saber o que lá havia dentro. Ou quem lá estava dentro.

     Algum tempo depois, quando Sinatra já se calara e dera lugar a um DJ qualquer que prometia “animar as noites” dos ouvintes, viu sair por uma das muitas portas para funcionários do hospício uma figura totalmente vestida de branco.

     “Pronto, está feito!”, pensou. Rodou a chave e o carro começou a fazer-se ouvir.

 

***

 

     O autocarro parou e Leonor saiu, pela porta do meio. Mal saiu, procurou logo pelo carro do pai, que costumava estar estacionado naquela zona. Estava em pulgas para lhe contar como havia sido o seu primeiro dia de estágio, e ver o Fiat Punto do pai ali parado veio aumentar-lhe ainda mais essa excitação alegre, esse nervoso miudinho; como quando temos vontade de urinar e, ao aproximarmo-nos de uma sanita, parece que a vontade aumenta ainda mais. Só que sabia que não lhe podia contar tudo, porque o pai nunca iria aceitar se soubesse que estava a estagiar naquele lugar e não na ala de psiquiatria do Hospital Gama de Freitas, como lhe tinha dito.

     Atravessou a rua e dirigiu-se à porta de entrada do prédio. Olhou para cima, para o andar do seu apartamento, e admirou-se por ver tudo fechado àquela hora. Sim, era tarde, mas o pai costumava ficar na sala a ver televisão e a dormitar quase até de madrugada, até finalmente decidir que se calhar era melhor ir para a cama de vez.

     Rodou a chave na fechadura, empurrou a pesada porta de madeira e entrou em casa. A única luz que via era a da campainha, electrónica, e nada mais. Passou o dedo pelo interruptor que ficava à direita e atirou as chaves para a mesinha da entrada à esquerda, como era seu hábito. O seu pai sempre lhe dissera para não fazer aquilo, porque as chaves riscavam a madeira da mesa, mas ela encarara aquele aviso como um conselho, daqueles pequenos, que os pais dão durante toda a vida mas sabem perfeitamente que os filhos nunca vão cumprir. Por causa disso, o tampo da mesinha escura estava cheio de pequenos riscos bege, que apontavam num caos de várias direcções.

     Chamou:

     - Pai?

     Não obteve resposta e tentou mais alto. Como continuou a falar sozinha, calou-se. Atravessou o corredor, em direcção à cozinha, e perguntou-se onde poderia estar o raio do homem a uma hora daquelas. Fez o seu café com leite, que bebia sempre antes de ir dormir – o café não lhe tirava o sono – e foi bebericá-lo para a sala. Quando se ia sentar no sofá, viu um bilhete em cima da mesinha cuja única função era segurar os comandos da televisão e os pés de quem quer que estivesse sentado no sofá. Pegou no bilhete e leu-o:

 

Filhota, fui dar uma volta para espairecer e não tardo em casa.

Deixei um resto de ervilhas guisadas do jantar no frigorífico, serve-te à vontade.

Do teu ‘belhote’,

Afonso.

 

     Leonor ficou um pouco mais descansada depois de ler o bilhete, mas continuava perplexa. O pai nunca fizera aquilo antes. Dar um passeio nocturno? Ainda por cima àquela hora? E o carro, na entrada? Teria ido a pé, sujeito a ser assaltado – ou pior – naquele bairro?

     Pensou em ligar-lhe, mas decidiu esperar mais alguns minutos. Afinal, o pai não devia estar muito longe de chegar. Se calhar tinha-se perdido nas horas, num café qualquer. E, se assim fosse, ainda bem, pensava Leonor, porque só Deus sabia o quanto ele estava a precisar de arejar a cabeça. A mais recente separação do seu pai tinha-lhe deixado marcas profundas, e o ‘belhote’ andava muito alterado ultimamente.

     Ligou a televisão, e continuou a bebericar o seu café com leite. Fez um pouco de zapping, embora soubesse que não se ia conseguir concentrar em programa nenhum – não depois de um dia excitante daqueles –, e, quando achou que já era altura mais do que suficiente, pegou no telemóvel com o intuito de ligar ao pai.

     Ouviu alguém bater à porta do apartamento. Ou isso, ou algum pica-pau especialmente irritante tinha-se afeiçoado à sua porta, porque ela não parava de fazer barulho. Gritou um “Já vai, já vai!”, mas quem quer que fosse parecia não ter ouvido.

     Atravessou o corredor e olhou pelo visor da porta. Não podia ser… Abriu-a e nem teve tempo para cumprimentos. Luís disse-lhe:

     - Aconteceu algo de muito grave e preciso de toda a ajuda possível. Vamos! Explico-te pelo caminho.

     Leonor não disse nada. Limitou-se a pegar nas chaves e a sair. A televisão, que antes ainda tinha um ser humano a fazer-lhe alguma companhia, falava agora completamente sozinha.

 

***

 

     Abel entrou no carro, com pouco fôlego.

     - Está feito! Arranca! – gritou, como conseguiu, para Afonso.

     - Calma, rapaz. – respondeu o condutor num tom calmo, talvez até motivado pela voz suave de Sinatra. – Apenas abriste uma porta, ainda vai demorar algum tempo até que algo aconteça.

     Ainda assim, fez-se à estrada. Não falaram durante largos minutos, Afonso e Abel, até porque não tinham assunto. Não se conheciam e apenas tinham falado a propósito daquela tarefa. Agora, que estava concluída, não havia muito mais a dizer. Ainda assim, Abel achava que ainda havia muito mais a dizer, por isso perguntou:

     - Porquê?

     Afonso arqueou a sobrancelha.

     - Porque é que fizemos isto? – continuou o enfermeiro.

     - Já te disse, é uma questão pessoal. É justiça. Não precisas de saber mais nada.

     - Ai não? E se me vierem a implicar no assunto?! – questionou Abel.

     - Paguei-te o suficiente para não me chateares com essas questões, não paguei? Fizeste-o de livre vontade, agora não podes voltar atrás.

     Era verdade. Já não dava para voltar atrás. Mas, se Abel pudesse, fazia-o. Não o disse a Afonso, como é óbvio, mas oh, se o fazia! O que ia ser daquela gente, com quem lidava diariamente já há três anos? O que ia ser até daquela mulher, que, apesar de não merecer compaixão, parecia provocá-la na maior parte das pessoas?

     De repente, lembrou-se de Leonor. A estagiária. Tinham estado muito pouco tempo juntos, mas é claro que tinha reparado nela! Aquele hospital parecia um lar de meia-idade, por isso, ver uma jovem beldade daquelas entrar pelas portas duplas adentro era sempre um prazer. Um prazer que se ia repetindo de ano a ano, sempre que chegavam mais estagiários de Verão. “Provavelmente, serão os últimos.”, pensou Abel para si próprio.

     - O que se passa? – perguntou Afonso ao pendura.

     - Nada, estava só a pensar na coincidência que foi isto ter acontecido no mesmo dia em que entraram os novos estagiários de Verão.

     - Foi propositado. Fi-lo porque hoje é também o primeiro dia de estágio da minha filha, e ficava com tempo para isso. Não é costume ter tempo livre no Verão, quando ela cá está.

     - Pois, percebo… – respondeu o enfermeiro.

     Nenhum dos homens se apercebeu de que estavam ambos a falar acerca da mesma pessoa.

     Mas agora, como Afonso bem dissera, já não se podia voltar atrás.