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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 3 - Cap. VI

     – Porque é que não sinto que perdi? – Perguntou Carl. Já pensava claramente, agora só precisava perceber-se a si próprio.

     –  Porque não perdeste. Não estava a falar contigo. Tu ganhaste. – Sophia olhava, divertida, para o lustre, a única fonte de fraca luz, junto com a televisão, ainda presente naquele cenário. 

     Uma explosão de luz inundou a sala, que agora não passava de um enorme vazio com uma televisão, Carl e Sophia no centro, durante um segundo e foram mergulhados outra vez na escuridão. O lustre tinha rebentado e desaparecido. Carl deu-se por realizado; estava livre. Já não se sentia em conflito consigo próprio, seguira o seu caminho, tinha executado a sua decisão.

     Na televisão passavam, agora, imagens do acidente a acontecer. Como se fosse um filme, o acidente acontecia e voltava a acontecer, filmagens de diversos ângulos apareciam no pequeno ecrã. Mas não era um filme, Carl sabia-o. Sabia que era real. Sentia-o. Olhou, uma vez mais, na pequena televisão, o seu carro a embater violentamente contra um muro de pedra. De todas as vezes que o via, Carl sentia o embate, mas não sentia dor. Só alívio. 

     O homem voltou a aparecer, sem se ouvir um clique desta vez, e juntou-se aos restantes. Carl estava sentado num chão que não existia, na obscuridade imensa da sua mente, observado por Sophia, à sua frente, e com o homem a seu lado.

     – Vejo que já o fizeste. – Suspirou o homem, com uma voz fraca  que custava a sair – Fizeste-o mesmo. 

   – Sim, é claro que fez! E tu perdeste, não conseguiste nada. – Sophia respondia divertida, o som da sua voz continuava cortante, mas já não ameaçador, semelhante ao da verdadeira Sophia. Carl permanecia quieto, calmo e em paz, a olhar a televisão. Pensou em Sophia, a verdadeira, quando ouviu o tom de voz semelhante ao dela que aquela visão emitia. A querida Sophia, que mal podia esperar a sua festa de anos porque ia montar um pónei. Bem, não era preocupação dele, a sobrinha iria pertencer ao seu passado.

     – Eu tentei, Carl. Tentei. – Lamentou-se o homem. – Ainda tentei, agora no fim, mostrar-te como seria. Que não és má pessoa, que havia esperança de felicidade. Tentei mostrar-te que valia a pena. Era a parte de ti que ainda acreditava, mas já não. 

     – Sim, sim – Sophia riu-se, um silvo tenebroso encheu o ar – Lá isso mostraste. Era aborrecido, tive de intervir para acabar com aquela parvoíce. O que lhe mostrei foi mais poderoso... E só lhe mostrei o que ele queria. Não é para isso que aqui estamos? Não te martirizes, estavas condenado à partida, ele não o queria o suficiente. Agora está feito, tudo resolvido, estamos livres. 

     – Livres... por agora. Parece boa opção, mas até quando? – O homem falava cada vez mais baixo e a custo. Carl olhou, por fim, na sua direcção e reparou que este não passava de uma mísera figura, quando comparado com a sua forma anterior: mantinha-se a roupa toda preta, mas estava mais baixo e envelhecido. As rugas aparentavam ter sido desenhadas por algum objecto irregular, decerto os dentes da entidade que se manifestava sob a forma de Sophia; tão magro e curvado que mal se aguentava em pé, tinha de inspirar longa e profundamente para continuar a falar. Não parecia a mesma representação que se manifestara na igreja, excêntrico e confiante. – Mataste a única parte boa que ainda te restava. Toda a decência e bondade que ainda habitavam o teu ser... Era fraco, mas sempre presente. Tinha o seu lugar em ti, mas queimaste-o de vez. Permitiste que ela lá entrasse e se apoderasse de ti. Tantos anos a resistir, mas deixaste que o mal te consumisse, a que custo? Sim, podes sentir-te bem agora, mas lembra-te que o mal nunca prospera, não dura para sempre. Podes querer-me de volta, mas vais perder-me para sempre.

     Carl sentia a cabeça a latejar cada vez mais, o corpo doía intensamente e apetecia-lhe vomitar. Era um incómodo, mas nada mais; a dor física passaria. A outra dor, psicológica, essa já não a sentia. Já não estava dividido, mas sim farto daquele homem, daquele anjo caído. Estava na altura de o destruir de vez. 

     Com este pensamento, a cara de Sophia voltou a abrir e deixar visível as profundezas da sua inexistência. O homem não fez qualquer tentativa de a parar, já tinha tentado tudo. Desta vez não voltaria. Ela avançou e consumiu, de uma vez por todas, o que restava daquela pálida concepção. 

     Iluminados pela fraca luz da televisão, que continuava a repetir, uma e outra vez, o acidente, Carl deixou-se ficar envolvido pela negritude que emanava de Sophia. Sentia-se em paz. Durante anos tinha tentado convencer-se que seria uma pessoa normal, que o conseguiria. Lutou contra os seus instintos todos os dias, mas não havia volta a dar. O pouco que lhe restava da sua educação católica, dos valores que lhe tinham passado e, que por mais que se revoltasse, tentava manter, em nome da decência, e da vergonha que sentia dos seus reais sentimentos. Guardava essa sua réstia de bondade, de ligação a um passado conturbado, o seu último resquício de fé. Não mais, o seu inferno pessoal tinha consumido essa parte de si, vira-a arder nas chamas do seu subconsciente.

     – Está tudo bem, Deus perdoa. – A voz saía da televisão, da boca de Janice – Fizeste o que tinhas que fazer.

     Carl olhou para a televisão. Via-se a si próprio, dentro do carro, a acelerar, a chuva a embater nos vidros e os filhos a brincar no banco de trás. Janice olhava para o lado, na direcção da "câmara" e falava directamente para ele.

     – Não estou a pedir perdão. Quanto muito, pediria por ter casado contigo. Por achar que podia ser uma pessoa normal, achar que conseguia reprimir tudo o que sentia e ser feliz. Mas não consigo. Errei ao achar que conseguiria. E não suporto a recordação constante, a tua completa devoção à religião que tanto me magoou. Achei que podia relevar, mas não dava mais. Estava a tomar conta de mim, estava a aumentar o sofrimento a cada dia, tive de acabar de vez com isso. Destruir essa parte da minha existência, terminar de vez com todos os laços que me prendiam à religião e que minavam o meu bem-estar. – Carl suspirou. As dores aumentavam de intensidade e ouvia agora um barulho distante, agudo e repetitivo, que lhe fazia doer, ainda mais, a cabeça.

     Observou enquanto via o acidente a ocorrer, agora de dentro do carro. Reparou no ponteiro a assinalar os 180 km/h, os gritos da mulher, os filhos, oblívios no banco traseiro. O embate contra o muro, o corpo de Janice a ser projectado para a frente e esmagado com o impacto, Mark, o filho mais novo que tinha a mania de brincar com o cinto de segurança, a ser cuspido pela janela, e Charlie a ficar empalado em destroços. Viu tudo com uma calma divina, não passavam de danos colaterais.

     – Está na hora de ir, de regressar. – Disse, virando-se para o espectro na forma de Sophia, que avançou para ele e o envolveu nas suas mandíbulas.

 

***

     Carl abriu os olhos, o máximo que conseguiu, mas não viu nenhuma estrela no céu; a lua era a única coisa que iluminava o local do acidente. Via plástico esmagado e vidro partido por todos os lados, enquanto se intensificava o barulho grave e repetitivo que já estava a ouvir antes. Percebeu agora que eram sirenes, por certo uma ambulância e os bombeiros já vinham a caminho. 

     O tablier do carro de Carl estava enfiado no seu tronco, até à zona do umbigo. Metade do seu crânio encontrava-se exposto e corriam quantidades copiosas de sangue por todo o seu corpo. Tudo lhe doía, mas a dor física iria passar. Sabia disso, tal como sabia que ficaria bem, que não era aquele o seu fim. De resto, sentia-se bem. Fez o que fez conscientemente e após muita reflexão, não sentia remorsos. Rastejou até ao corpo da mulher, que também tinha sido projectado e observou-a. Tentou pensar em algo, alguma forma de honrar aquele cadáver. Nada lhe ocorreu. Não se arrependia, mas também não era aquilo que tinha desejado. Simplesmente, não tivera escolha, pela sua sanidade mental. Pensou em fechar-lhe os olhos, mas o que restava de Janice já não os tinha. Tentou levantar-se, mas a dor era demais e continuava a perder muito sangue. Ao longe, via o corpo de Mark sobre o terreno do outro lado do muro, agora esborralhado, que embatera. O corpo do menino, dobrado sobre si mesmo, com as pernas a passar pelas costas e ultrapassar a cabeça, jazia, ali, em paz. Já nada o poderia magoar agora, nunca seria afectado pelas crenças patetas de alguém, nunca teria um campeão na sua vida. 

     Ainda no carro, encarcerado no meio de todas aquelas camadas de metal, estava o corpo de Charlie. Carl ficou a olhar o corpo do seu primogénito, rasgado desde o nariz até ao fim do esterno, como se não passasse de um porco no matadouro. As sirenes faziam-se ouvir cada vez mais próximas e o seu sofrimento físico iria caminhar para uma resolução. Do nada, uma convulsão tomou conta do pequeno Charlie e surpreendeu Carl. Agarrou na única mão que ainda restava ao filho e percebeu que ainda havia uma réstia de vida naquele corpo. 

     Uma dor mais forte que antes começou a invadir Carl, mas esta não era uma dor física como as restantes. Esta doía mais, fazia-se sentir mais profundamente. Não, não se queria sentir assim. Mais não, aquela dor ele não aguentava. Pegou num dos destroços que se encontravam por ali, um bocado de vidro partido, e enterrou-o directamente na cavidade exposta do filho. Empurrou até sentir o seu interior humano a sucumbir às suas mãos. Assim a dor iria parar, desaparecer novamente. 

     Uma explosão de dor ainda mais forte invadiu-lhe o corpo e a mente por completo. "NÃO!", pensou, "O QUE FUI FAZER? NÃO, OS MEUS BEBÉS!". A dor era cada vez mais forte e toldava-lhe a vista. Toda a certeza que tinha caiu com o peso de um bigorna, sentiu-se a desabar. A chuva doía-lhe ao tocar na pele, mas essa dor já não significava nada. A real percepção do que tinha feito, isso sim era dor. Fora avisado, sabia-o e pensara sobre isso. Tomara uma decisão conscientemente, sabia o que tinha a fazer e fê-lo. Um segundo de satisfação em troca de uma vida com um sofrimento inqualificável, acabara por ser a decisão que tinha tomado.

     As sirenes continuavam a aumentar de tom, mas Carl já só ouvia um riso que lhe fazia sangrar os ouvidos. Um silvo medonho ecoava na sua cabeça e, agora, já não havia mais nenhum refúgio, iria ter de o ouvir enquanto vivesse.

 

FIM.