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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 3 - Cap. V

     Carl abriu os olhos, o máximo que conseguiu, e admirou-se por ver as estrelas. Teria aquela igreja desaparecido, e dado lugar ao céu nocturno? Estaria ele ainda preso dentro daquele inferno, ou tinha feito a escolha acertada e conseguira sair?

     Lembrou-se, subitamente, da imagem horripilante de Sophia e sobressaltou-se, tentando olhar em volta a ver se a encontrava. Não via nada para além de plástico esmagado, vidros partidos, uma rua pouco iluminada à sua frente e, em cima, céu, muito céu. Percebeu, por fim, que tinha tido um acidente de carro. Ao olhar para a sua direita, viu Janice, a sua esposa, a sangrar do que antes era o seu braço direito, mas que agora, esmagado pelo carro, era só um coto. Estava morta, Carl conseguia percebê-lo. Podia lutar contra isso, acreditar que a sua mulher ainda podia sobreviver, mas estava plenamente ciente de que não havia volta a dar.

     Sobre o colo de Janice, que jazia sobre o acento e com a cabeça tombada para ele, como se dormisse um sono profundo, estava o bolo que seria para Sophia, no mesmo estado em que Carl o vira na igreja: o cavalo de massapão partido e com o doce de frutos silvestres a escorrer das suas entranhas. Só que, desta vez, o doce ainda estava fresco, pelo que Carl concluiu que o acidente não devia ter ocorrido há muito tempo.

     A próxima ideia de que se lembrou atingiu-o como um raio e Carl tentou reagir de imediato, embora não o conseguisse: os seus filhos! O que teria acontecido aos seus filhos, que estavam no banco de trás? Olhou para si próprio, viu o estado em que se encontrava e deu-lhe um arrepio na espinha. Ou, bem… o que restava da sua espinha. O tablier do carro de Carl estava enfiado no seu tronco, até à zona do umbigo, e ele conseguiu perceber, finalmente, de onde vinham as dores que sentira na igreja e o porquê de não se ter conseguido levantar durante muito tempo.

     Agora, sem se conseguir mexer, sem ter capacidade para se virar e perceber o que teria acontecido com os seus filhos no banco de trás, Carl deixou-se ficar a olhar o céu. Nunca aprendera as constelações, e tinha pena disso. Afinal, sabia que os mistérios do céu iam muito para além de um senhor barbudo escondido nas nuvens.

     Enquanto se ia perdendo nos poucos pensamentos que lhe restavam, ouviu o barulho grave e forte de um sino de igreja. Tocara dez vezes, o que significava que deviam ser dez horas da noite. O aniversário começara já há uma hora, sem eles. Na sala de estar dos seus cunhados – os pais de Sophia – já devia estar reunida toda a família, a comentar mais um atraso de Carl e de Janice e a lamentar o cada vez mais débil estado mental do homem da família. “Ainda bem que não veio, senão era outra bebedeira na certa!”, estariam a comentar na sua ausência. Carl sabia-o, e percebia aqueles comentários. Ao longo da sua vida, servira-se do álcool como analgésico para tentar apaziguar as feridas emocionais que ainda tinha, depois de tantos anos.

 

     Carl olhou para o lado. A sua mulher, bonita como sempre fora, sorria para os convidados e conversava. Sobre quê? Não conseguia perceber.

     Estavam agora na sala-de-estar dos pais de Sophia, uma divisão toda em tons de amarelo-torrado e muitíssimo bem iluminada. O sofá de camurça, onde Carl estava sentado, ao lado de Janice, era bastante confortável e condizia com o tom castanho-claro dos armários envidraçados onde os cunhados guardavam os seus melhores copos de cristal. O lustre, no meio do tecto, emanava uma luz muito forte e brilhante, que Carl julgava não ser própria de um candeeiro. Estava a tentar lembrar-se de onde já tinha visto aquele brilho intenso quando alguém, uma voz feminina, anunciou:

     – Cá vem a aniversariante!

     Para sua surpresa, Carl não se surpreendeu com o que estava a ver. Já estava à espera daquilo. A sua sobrinha, Sophia, entrava agora naquela divisão com o mesmo ar doentio e horripilante que tinha na igreja, apenas há instantes. A palidez da sua pele, que agora adquiria tons de cinzento, e as suas feridas abertas contrastavam com o ar – talvez demasiado – saudável das pessoas que a rodeavam. Toda a gente agia como se não notasse nada de errado naquele cenário fantasmagórico. Aliás, também ele, Carl, agia naturalmente perante aquela visão.

     Olhou de soslaio para a televisão, tal era o seu desinteresse por aquela cena. Nas notícias, davam conta de um aparatoso acidente de carro perto de uma das muitas igrejas das redondezas. Quando afastou os olhos da televisão novamente, ainda foi a tempo de ver a cabeça de Sophia dividir-se novamente, de orelha a orelha, com os dentes protuberantes a separarem-lhe os dois olhos, um para cada lado. A menina absorveu mais uma vez as pessoas que ali se encontravam como se sugasse a realidade à sua volta, enquanto todos lhe cantavam os parabéns com um ar bem-disposto.

     Quando terminou, e a sala se tornou novamente sombria – apenas com a luz da televisão e com o candeeiro a brilhar com a intensidade de um mísero fósforo –, a menina disse a Carl, já com as duas metades da cabeça unidas e com a sua voz fina mas estridente:

     – Não adianta, campeão! Não há volta a dar. Tens de aceitar que perdeste, desta vez. A tua realidade é outra!

     Carl permaneceu calmo, ainda assim, e o seu estado de espírito não se alterou sequer quando Sophia avançou para ele do meio da sala com uma velocidade sobre-humana – enquanto se ria –, envolvendo novamente os dois na mesma neblina sangrenta que os transportara para fora daquela maldita igreja e que lhe fizera perceber o que realmente se estava a passar.

     Só havia, concluiu novamente, embora agora com maior certeza, uma coisa a fazer.

     E tinha de agir rápido.