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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 3 - Cap. IV

     Carl esperneava no soalho, a dor a tornar-se insuportável quanto mais a figura de Sophia avançava na sua direcção; a luz que a rodeava escurecia tudo à sua volta, enfraquecendo o próprio ar, tornando-o mais pesado. 

     O anjo já não estava descontraidamente sentado, mas antes de pé, e já não sorria. Carl olhou-o do chão, não conseguia falar mas pensou em pedir ajuda, esperando que ele viesse em seu auxílio. Nada aconteceu, o anjo permaneceu em pé a olhar Carl a debater-se com a dor que sentia, o próprio brilho e confiança trocista que antes apresentava tinham desaparecido por completo, parecia impotente perante o que acontecia. Sophia, ou o que quer que aquele espectro fosse, deteve-se junto ao bolo de aniversário. A sua voz ecoou, uma vez mais, por toda a igreja:

     – Estragaste-o. Não se aproveita nada. Como sempre, arruínas tudo. Não serves para nada! – Não gritava, mas Carl desejou que o tivesse feito. O som que produzia era calmo mas estridente, cortava pelo ar e fazia-se sentir fisicamente, mais dilacerante que a dor de cabeça que se mantinha. 

    – Vejo que já não estamos sozinhos – disse o anjo, num tom monocórdico e diferente do som harmonioso que antes emitia – Se queres ajuda, tens de colaborar comigo, Carl. Não consigo ver o que se passa, tens de querer, tens de me deixar ajudar. Estou aqui por ti, por alguma razão. Não lutes contra a minha presença.

     Conseguiu controlar a dor de cabeça assim que ouviu aquela voz. Não tão eficazmente como antes, ainda a sentia, mas era manejável. Voltou a abrir os olhos e olhar para o homem, ignorando o espectro da pequena Sophia, debruçada sobre o bolo. 

     – AJUDA-ME! – Ordenou Carl.

    – Não basta pedir, tens de querer. Eu já te disse que nem consigo ver nada, só a ti. Tens de me deixar aproximar. Tens de querer a minha ajuda; já disse que estou aqui por ti, se fizeres o que é suposto fazeres, o que vieste aqui para fazer, tudo ficará bem. E pode ser que voltes para a tua mulher. – O homem tentava avançar para Carl, mas parecia que não era capaz de chegar mais perto. Começava a irritar-se, queria a sua ajuda, queria perceber o que se passava e sair dali, mas, até agora, aquele homem fora inútil.

     – Está tudo bem, tio – Sophia voltara a cabeça para mirar o homem do outro lado da igreja. Toda a sua cabeça rodara, mas o corpo permanecia debruçado sobre o bolo. Carl começou a afastar-se, aterrorizado com o que estava a ver. –, eu posso perdoar-lhe pelo bolo. A eles não, mas a si. 

     Ao acabar de falar, a cara de Sophia abriu-se a meio, de orelha a orelha, expondo um vasto conjunto de dentes, tão amarelos como os seus olhos. Dentes afiados e irregulares, toda a face estava transformada neste buraco aterrador. Carl ficou estático enquanto aquela figura voou em direcção ao outro lado da igreja, sugando tudo o que estava no caminho. O anjo ainda tentou afastar-se, mas acabou trucidado por completo. 

   

     A igreja tornou-se ainda mais escura que antes, Carl já nem conseguia distinguir as paredes, nem perceber, sequer, que estava numa igreja. A única coisa que via era a figura demoníaca da sobrinha, rodeada de um mar negro de escuridão avermelhada, envolta num efeito de nevoeiro sangrento.

     Naquela que lhe pareceu a melhor decisão possível, e a que já devia ter tomado há muito, assim que o seu corpo o permitisse, Carl fugiu em direcção à porta. Virou-se na direcção oposta à que estava e correu durante aquilo que lhe pareceram horas. Não sabia para onde corria, a escuridão era cada vez mais intensa e, agora que tentava lembrar-se, não tinha visto nenhuma porta. Quando antes olhara em redor não tinha notado, mas percebia agora, não havia mesmo nenhuma porta. Ainda assim, continuou a correr, acompanhado por um silvo que agora se fazia ouvir; nem precisava ver para compreender que era a figura de Sophia a rir-se. Um barulho que lhe arrepiava e o fazia perder força a cada passo. Ainda não tinha parado de correr, mas estava ciente do que tinha acontecido, ou o que não tinha acontecido: parou, olhou para trás e verificou que nunca tinha saído do mesmo sítio. 

     – O que queres de mim? O que te fizeram? – Carl sentia-se derrotado, a sua voz soava sem vida. Olhava a sobrinha, sentia todas as dores, já não as conseguia ignorar, mas já não eram um incómodo; apesar de todo o sofrimento, eram como se fosse parte do seu ser. – Porra, digam-me o que se passa!

     – Isso, deixe essa raiva sair, tio. – Sophia riu-se, novamente aquele silvo que fazia sangrar os ouvidos – Não é o que eu quero de si. É o que quer de mim. Estou aqui para lhe abrir os olhos. E não se preocupe, não me fizeram nada, tio... Você é que me deu esta forma. 

     – Eu é que... O que é que queres dizer com isso? E o que fizeste ao homem que dizia ser um anjo? 

     – Anjos e anjinhos... Que se fodam todos! Não é disso que se trata? – A figura avançou, mas não havia nada que Carl pudesse fazer. Não queria ver aqueles dentes outra vez, só pensar nisso o amedrontava. – Uma igreja... Giro! – Carl olhava-a sem fazer ideia do que se passava. Ela dava a ideia de que ele é que tinha organizado tudo isto, de alguma forma. – Apropriado, penso eu. Anda lá, tio, vamos acabar de vez o que começaste. Sabes o que pensam de ti, que não serves para nada. Sabes como te olham nos eventos de família... todos com o Deus deles, todos em comunhão. Que se fodam! E a tua mulher? Ela sabe bem o teu passado. Sabe a merda que a religião te fez e, mesmo assim, continua a insistir, a trazer-te para a igreja, a tratar-te como se precisasses ser salvo. 

    Carl continuava sem perceber a situação, as dores aumentavam, mas agora eram quase prazerosas. Ouvia o que aquela figura lhe dizia e era tudo verdade. Desprezava a religião, mas havia uma parte dele, de vergonha e culpa, que habitava a sua mente. Mesmo depois de tudo o que se passara, depois da sua revolta, depois do campeão...

     Estava agora envolto naquela escura cortina sangrenta que emanava da figura com o corpo de Sophia, sentia-se liberto, sabia o que se passava e o que fazer. Ouviu-se novamente um clique e o anjo, agora homem, voltou a surgir, desta vez ao pé deles e com uma indumentária diferente. Vestia agora todo de preto, com umas calças e camisa simples. 

     – Escolheste o lado que querias, agora deixa que essa escolha tome conta de ti. – disse o homem, enquanto os resquícios daquela igreja se incendiavam à sua volta.