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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 3 - Cap. III

     “Foda-se!”, pensou Carl. “Anjinhos, a sério?! Já virei a minha vida, as minhas crenças, de pernas para o ar tanta vez e vou ter de o fazer novamente?”.

     – Cuidado, campeão, sabes que é feio dizer palavrões nestes lugares. – Disse o “anjo”. – Ou pensá-los, vá.

     Carl ficou ainda mais perplexo. Sentia-se impotente perante a presença daquela figura, embora ela o fizesse sentir-se bem consigo e com o Mundo. Só que, ao saber que até os seus pensamentos estavam sob escrutínio, sentiu-se incomodado, quase envergonhado de pensar fosse o que fosse.

     A figura brilhante continuou:

     – Tem calma, não te preocupes que não vais ter de alterar nada na tua vida, pelo menos ao nível das tuas crenças habituais. Sabes, campeão, é que eu não sou um anjo afecto a este clube do Cristianismo, nem a nenhum dos que conheces, na verdade.

     Campeão. Campeão... Carl não era fã deste tipo de tratamento, não por ser pouco formal mas por ser o apelido de um condutor de autocarros muito religioso que ele conhecera nos tempos de escola. Os miúdos chamavam-lhe o “Campeão” por causa do seu feitio desembaraçado, quase bruto. Encarava os miúdos como um sargento encara os seus soldados e, tal como os soldados nunca esquecem o seu superior, também o Campeão ficara embutido – quiçá para sempre – na memória da criançada. Mais ainda na de Carl, depois daquela tarde em que fora o último a sair do autocarro e o Campeão lhe tinha pedido para ficar mais uns minutos à conversa…

     Mas não havia tempo para pensar nisso agora. Carl sentia-se mal, desnorteado, dorido e não dorido, tudo ao mesmo tempo. Tinha de desembaraçar-se daquela situação, perceber o que se estava a passar.

     – Falaste em regras que temos de respeitar… Que tipo de regras? – Indagou Carl.

     – Tudo na vida tem regras, camp… meu rapaz. – Respondeu o “anjo”, num tom quase trocista. Carl percebera a dica, que ele lhe tinha lido os pensamentos mais uma vez.

     – Pois sim, claro que sim. Só que, normalmente, seguimos as regras depois de sabermos qual é o jogo. E é isso que quero saber, o que é que se passa aqui e que merda de jogo é este!

     De repente, da frente da nave, quiçá do altar, surgiu uma nova figura, igualmente visível no escuro da igreja. Estava envolta por um brilho vermelho-sangue, muito mais sombrio do que o brilho do “anjo” que ainda se mantinha no mesmo lugar e na mesma posição descontraída, a ocupar os dois bancos de madeira.

     À medida que a figura se ia aproximando, Carl ia apercebendo-se de outras das suas características. Em primeiro lugar, percebeu que as suas formas correspondiam também a uma figura humana, ou bípede, pelo menos. Parecia ter um cabelo grande, farto e preto; um emaranhado de caracóis já meio murchos, com folhas no Outono. Quando a figura se aproximou da segunda fileira de bancos de madeira, tornando-se já praticamente visível para Carl, este estremeceu – só não saltando no banco por ainda não ter forças suficientes para isso – e deixou escapar um grito:

     – SOPHIA! – Gritou Carl, a plenos pulmões. À sua frente estava a figura da sua sobrinha – a aniversariante –, pálida como a neve e cheia de cortes e rasgões profundos nas várias zonas do corpo que não estavam tapadas pelo vestido branco-pérola que envergava. A sua pele branca, o tom avermelhado-escuro das suas feridas abertas e o brilho vermelho-claro que a rodeava faziam dela um espectro hediondo, um pesadelo medonho.

     Os olhos amarelados da menina fitaram os de Carl e ela falou, numa voz fina mas sonante que ecoou por todo o edifício, cortando o silêncio sepulcral:

     – Já o tínhamos avisado que não se deve dizer palavrões na igreja, tio… – A sua cara abandonou lentamente a de Carl e Sophia fitou, com um foco mortífero, o pequeno cavalo recheado de um doce de frutos silvestres já ressequido. – E o que é que fizeram ao meu bolo de aniversário?

     Carl agarrou-se subitamente à sua cabeça, sentindo-a quase a explodir de dor.