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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 3 - Cap. II

     Ia a uma festa de aniversário. Sim, lembrava-se de estar no carro, ele, a mulher e os filhos. Como teria ido parar, sozinho, àquela igreja? Estava a tentar recordar-se de mais, mas uma dilacerante dor de cabeça começava a surgir e a tornar a concentração mais difícil. 

     Tentou, novamente, perceber onde se encontrava. Já tinha a certeza de que estava numa igreja, mas não fazia ideia qual, nem onde ficava. Nos últimos anos, com a mulher, tinha ido várias vezes à igreja, mas não a esta. Nunca a esta. Viviam numa pequena cidade e conhecia as três igrejas que lá havia; esta não era uma delas. Teria saído da cidade? Nada fazia sentido. E onde estava o resto da família? 

       Enquanto tentava recordar-se, Carl olhava em volta. Nunca gostara de igrejas, mesmo quando ainda acreditava em tudo na religião e as frequentava regularmente com os pais. Sempre se sentiu estranho naquele local, como se não fosse permitida a sua presença ali. Mais do que qualquer bicho ou actividade, uma igreja aterrorizava-lhe. Aquela não era diferente, e o sentimento de terror já se manifestava. Queria levantar-se e tentar perceber onde estava, mas, além da dor de cabeça, não gostava da ideia de deambular sozinho naquele edifício; tentava mentalizar-se de que não passava disso mesmo, de um edifício, como todos os outros, mas o medo que tomava conta da sua mente era irracional. Não sabia o que era pior: se todas aquelas figuras de santos que adornavam as paredes, se o cheiro característico do sítio. Sempre odiara aquele cheiro, desde novo que se lembrava de ficar nauseado numa igreja; aquela mistura de pó bafiento e incenso. 

     Continuava sentado no banco, a meio da nave, percebia agora. Começava a sentir-se claustrofóbico; conseguia ver que a igreja era pequena e não muito adornada. Já estava suficientemente adaptado à escuridão ali presente para ter a certeza de que nunca tinha estado ali antes. Olhava para a frente, em direcção do presbitério, e o terror e náusea que sentia aumentavam. Tinha de levantar-se e sair dali, tinha de perceber o que se estava a passar. 

     Um silêncio total estava instalado. Nem os bancos de madeira estalavam ou rangiam, apenas o silêncio como nunca tinha presenciado; parecia que o próprio silêncio ressoava das paredes e se propagava como um som. Novamente, tentou falar ou tossir, ou algo que provocasse barulho, mas não foi capaz de nada. Tentou levantar-se, mas, assim que o fez, sentiu o corpo colapsar e ficou de joelhos agarrado ao banco da frente. Afinal tinha o corpo dorido, só agora o tinha notado. Não só dorido, mas pior; parecia que tinha sido abalroado por um comboio. Todo o corpo doía, até respirar se estava a tornar complicado. 

     Como tinha ido ali parar?, pensou, o que está a acontecer?. Apoiado no mesmo banco onde estava aquilo que antes lhe parecera uma carcaça, recordou-se de mais umas vinhetas do passado. Não era nenhum cadáver animal que ali jazia. Era um bolo. O que restava de um bolo. Lembrava-se agora: estavam todos no carro a caminho do aniversário da sua sobrinha. Estavam atrasados, e ele acelerava para tentar compensar. Normalmente a mulher opõe-se quando Carl conduz a alta velocidade, porém estavam atrasados e encarregues de levar o bolo, por isso nem houve discussão desta vez. O bolo tinha a forma de um cavalo, recheado com doce de frutos silvestres: as duas coisas preferidas da pequena Sophie. 

     Tentou usar o banco como apoio para se levantar, mas as dores mantinham-se insuportáveis. Continuava sem ouvir nada, nem a chuva. Sim, lembrava-se que estava chover, mas não estava molhado. Sentia que estava a ser observado, apesar de ter a certeza de que estava sozinho; mesmo não sendo muito adornada, aquela pequena igreja possuía algumas figuras, estátuas. Sentia todos aqueles olhos em si. 

     Pela primeira naquele espaço um som fez-se ouvir. Um pequeno estalido, não mais do que um clique.

     – Não penses na dor e isso passa. É só levantares-te, campeão. 

     Carl olhou para o lado, mortificado. Um homem encontrava-se sentado num banco do outro lado da igreja, com os pés apoiados no banco da frente. Carl tinha a certeza que não havia lá ninguém um segundo antes, será que estava a alucinar das dores?

     – Não te preocupes, campeão. Estou mesmo aqui, não é nenhuma alucinação. Pode ter-te acontecido muito coisa, mas não estás louco ainda. – O homem soltou uma sonora gargalhada, um som harmonioso, dos mais belos que Carl já ouvira. – Não te vou fazer mal, acredita. Estou aqui para ajudar. Agora levanta-te lá, essa dor que sentes é só uma ideia tua.

     Carl continuava estupefacto a olhar o homem; era estranho, com uma atitude ainda mais estranha. Estava vestido com uma camisa de manga curta azul florescente, muito larga, e umas calças amarelas bem justas. Estava descalço e, mesmo na atmosfera umbrática da igreja, com uns óculos escuros redondos e pequenos.

     Não sabia explicar, mas Carl sentia uma confiança desmedida naquele homem, bastara olhar para ele. Começou, lentamente, a levantar-se, tentando ignorar a dor; deu por si em pé, a olhar o homem que mantinha um sorriso estampado na cara. Era estranho o que sentia. Tinha dor e não tinha. Sentia as mazelas do corpo, o latejar da cabeça, mas não sentia a dor, como se já não fosse capaz de a sentir, apesar de esta se estar a manifestar. Respirar deixara de ser um incómodo, até porque, mesmo não tendo reparado, já não o estava a fazer.

     – O que... O que se está a passar? – Perguntou Carl, conseguindo produzir um som pela primeira vez neste tempo.  – O que se passou? Onde estou? Quem és tu? A minha mulher?

     – Calma, campeão – o homem falava de forma descontraída e confiante, parecia divertido com tudo aquilo –, vamos a ter calma. É muita coisa ao mesmo tempo, tens de te adaptar. Não te posso dar as respostas todas de uma vez, aliás, preferia que tu as descobrisses sozinho.

     – Mas... – As pernas de Carl tremiam, mas não de dor – Quem és? Como vieste aqui parar? Não havia cá ninguém. E, se sabes o que se passou, diz-me! E diz-me onde está a minha mulher e os meus filhos.

     – Eh, estamos muito temperamentais, campeão. Assim não vamos a lado nenhum. Não te posso dizer essas coisas todas, temos de respeitar as regras. Mas não te preocupes, pode ser que no final te leve à tua mulher. – Sorriu, novamente. Um sorriso aberto em que mostrava uns dentes tão brancos que iluminavam a zona à sua frente. – Quer dizer, se tudo correr bem para o teu lado. Quanto a mim, bem, para simplificar, chamemos-me um anjo.