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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 3 - Cap. I

     Àquela hora, naquele sítio, de nenhuma das janelas encostadas ao tecto entrava luz. Carl encontrava-se sentado já há algum tempo – não sabia bem quanto – no meio de uma quase completa escuridão, apenas pontuada por algumas velas que os fiéis deviam ter deixado durante o dia e que ainda ardiam.

     Quando voltou a si, embora nunca tivesse estado inconsciente – apenas “alterado” – começou a avaliar a sua situação e percebeu que se encontrava sentado num banco de madeira, naquilo que parecia ser uma igreja. Tentou vociferar alguns sons, a ver se o eco lhe dava alguma pista do tamanho do edifício, mas não conseguiu fazer qualquer barulho com a garganta. Além disso, os próprios músculos ainda estavam entorpecidos, pelo que tentar bater palmas ou algo do género também era virtualmente impossível.

     Ironia das ironias: Carl encontrava-se precisamente no sítio que, nos últimos anos, mais tinha tentado evitar. Fora criado católico, mas afastara-se da religião (pelo menos espiritualmente) desde muito novo quando descobrira na escola que, afinal, era descendente dos macacos, e não de Adão e Eva. Depois dessa descoberta, começou a questionar tudo o que aprendera até então sobre o assunto.

     Hoje, continuava a tentar fugir da igreja mas nem sempre conseguia, porque era casado com uma devota católica que o obrigara a baptizar os seus dois filhos poucos meses depois de nascerem.

     Tentou distinguir quaisquer barulhos na rua que lhe pudessem dar uma pista da zona onde estava, mas não conseguia ouvir nada. Se estivesse numa igreja perto de uma estrada movimentada, decerto que, mesmo àquela hora (embora não soubesse que horas eram), conseguiria ouvir algum burburinho.

     À medida que os seus olhos se iam habituando à escuridão, conseguia distinguir mais algumas coisas. Viu que, à sua frente, havia mais algumas cinco filas de bancos de madeira, pelo que deveria estar no meio ou no fundo da igreja, dependendo do seu tamanho.

     Conseguiu perceber também que, em cima do banco de madeira imediatamente à sua frente, jazia um cadáver carcomido de um animal, que ele pensou imediatamente ser de um cão. Curiosamente, não emanava dele qualquer odor pútrido que condissesse com o seu aspecto.

     Ao tentar olhar para si próprio, dando um esticão nos músculos do pescoço que ainda estavam preguiçosos, embora não doridos, viu que tinha a camisa branca às riscas cinzentas toda manchada de vermelho. Levou um dedo a perto de uma das nódoas, passou-o na camisa ao de leve e levou-o ao nariz: a substância cheirava a doce de frutos silvestres. Provou-a. E o mais estranho é que também sabia a doce de frutos silvestres.

     Depois, aos poucos, começou a recordar-se.