Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. VI

     A viagem de carro fora longa e silenciosa. Kotes teve tempo para pensar em tudo o que lhe acabara de acontecer, mas não era capaz de encontrar lógica em tudo o que vira e ouvira. Hoje acordara com o único objectivo de esperar pela boleia da morte e acabou com uma dádiva de vida inesperada. Estaria o destino a pregar-lhe uma cruel partida? Estaria ele a sonhar tudo isto?

     Estes gajos pareciam completamente insanos, não sabia se iria realmente se reencontrar com o seu pai, não sabia se estava seguro. Mas ainda há umas horas Kotes estava a encarar a morte nos olhos e agora estava preocupado com a sua saúde? "Bem, numa coisa têm razão", pensou o homem, "quando não me restava nada, pude libertar toda a frustração que demorei uma vida inteira a acumular. Com a força que nunca tive não me sinto prisioneiro das regras de ninguém". Olhava para os seus captores com outros olhos quando o carro abrandava num semáforo.

     Os dois homens pareciam nem pestanejar, durante os primeiros trinta minutos da viagem nunca tiraram os olhos de Kotes, nunca falaram entre eles nem com o condutor. Um perfeito silêncio que incomodava o homem rejuvenescido, mas não ao ponto de este se manifestar até agora. Não, Kotes tinha mais em que pensar. Finalmente, muitos minutos depois, decidiu falar:

     - Sabem, estive a pensar e acho que têm toda a razão - disse enquanto distribuía olhares para ambos os capangas.
     Os homens trocaram olhares em silêncio, e quando o da direita se preparava para falar, Kotes interrompeu:
     - Quer dizer, faz sentido. As coisas não podem correr sempre bem, as pessoas precisam de motivação, de um objectivo - O carro voltou a andar a meio do seu diálogo - Eu por exemplo não tinha nada para alcançar hoje de manhã antes de vocês aparecerem, acho que todos os truques mágicos e pistolas me fizeram bem. 
     Um sorriso começava a delinear-se no seu rosto, algo que não passou despercebido aos dois homens. Um deles finalmente disse respondeu com um "muito bem, senhor". 
     - O seu pai vai ficar muito contente de saber que está connosco, que abraçou o seu destino - disse o segundo homem com a cicatriz.
     Kotes dedicou especial atenção ao último homem a falar. 
     - Sim, finalmente percebo o que me faltava, porque sentia que a minha vida não era o que eu queria. Agora acho que nunca mais vou ter o mesmo problema. Obrigado por me terem explicado tudo - o olhar de Kotes desviou-se para a zona entre o condutor e o banco de trás enquanto o carro voltava a abrandar - Aquilo alí é para beber? Acham que me podem fazer o favor de me dar uma garrafa? Quase falecer deixa um  gajo cheio de sede sabem?
     O homem da cicatriz era perspicaz o suficiente para desconfiar da súbita mudança de atitude do homem, mas o seu colega não parecia partilhar da mesma capacidade. Enquanto este se chegava à frente para abrir o compartimento das bebidas a situação no carro mudou. Um segundo fora suficiente para que Kotes esticasse a sua mão esquerda e tirasse a arma que se encontrava exposta na parte e trás das calças de um dos homens. Apontou rapidamente a arma ao seu antigo dono e o outro homem sacou duma pistola dele. 
     - Não pares em nenhuma luz vermelha - gritou o homem da cicatriz para o condutor - segue para o apartamento, rápido!  
     - Não lhe acertes Jimmy! - disse calmamente o outro homem - não podes... 
     A hesitação foi mais do que suficiente para um homem que não tem tempo a perder. Kotes disparou dois tiros sucessivos contra o homem que se encontrava á sua frente e o carro fez uma brusca curva à direita. Olhou rapidamente para o homem à sua direita e viu que estava pronto para retribuir o fogo mas outro solavanco na condução fez o homem falhar tremendamente. Ambos olharam para a frente e o condutor, também ele vítima de uma bala perdida, tombava para cima da manete das mudanças enquanto o carro se conduzia a si próprio para aquilo que parecia ser morte certa.
     A parede chegou rápido e com ainda mais força do que ele esperava. O carro parecia ser agora três vezes mais baixo e Kotes não tinha bem a certeza para que lado estava virado. Abriu a porta do carro com esforço e rastejou para fora. As ruas não tinham mais que três pessoas na proximidade mas parecia que apenas uma delas corria na sue direcção para ajudar. Do outro lado do carro a porta tinha desaparecido e uma figura rastejava para fora na direcção da sua arma de fogo. Kotes pegou na pesada arma e disparou sem hesitar. 
     Afastou-se calmamente da cena do acidente para não levantar suspeitas. A sua roupa estava em mau estado mas não parecia ter qualquer ferimento grave, tirando uma forte dor de cabeça. 
     Sentou-se na primeira paragem para autocarros que encontrou e esperou por um que o levasse a casa enquanto pensava sobre os loucos acontecimentos do dia. 
     "Espalha-ódio... bem pelo menos fizeram um bom trabalho em fazer-me odiá-los" pensou. Kotes nunca deixou que alguém o controlasse a vida toda e certamente não iria ser o seu pai ou umas cópias baratas que iriam mudar isso. Certamente queria encontrar o velhote mais tarde ou mais cedo, mas hoje não. Ainda tinha muito para fazer até lá, e parece que não iria ter limitações algumas. Hoje acordou pronto para morrer e acabou o dia com uma vida nova, quem diria? 
     Ainda lhe restavam muitas perguntas por responder. Quem eram, ao certo, os dois homens? Aquela tal de Susanne parecia saber quase tão pouco como ele... Estaria a ser manipulada pelos homens misteriosos a cargo do seu pai? E que raio de experiências têm este tipo de resultados? Parece que a solução seria encontrar a única pessoa que tinha todas as respostas... Mas só quando ele estivesse pronto, afinal, relações entre pais e filhos são sempre complicadas. E, neste caso, ainda mais. Não saberia como ia reagir na sua presença. Aliás, agora que sabia que podia matar qualquer pessoa que o incomodasse, o que o impediria de matar o homem por detrás de tantos problemas na sua vida? E o que o impedia de matar qualquer outra pessoa, por falar nisso? Mas nada disso parecia interessar, pelo menos para já...
     O autocarro chegou e Kotes sentou-se no banco de trás, ao lado de um menino que parecia ter os seus oito anos, muito entretido a comer um gelado cor-de-rosa. As sirenes ouviam-se à distância e, quando cruzaram a cena do crime, já uma multidão se juntava à volta do carro destruído. A sua atenção virou-se para o pequeno rapaz, quando este disse, entusiasmado:
     - Sabe, senhor, hoje são os meus anos! Recebi montes de presentes, um bolo na escola e um gelado! Este está a ser o melhor dia de sempre!
     Kotes olhou pelo vidro do autocarro, enquanto as nuvens se dissipavam no céu e o Sol forte voltava a brilhar.
     - Está mesmo. - Disse, sem olhar para a criança. - Até agora, não houve melhor.
 
 
FIM