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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. V

     - O oposto dela? Que querem dizer com isso? - Perguntou Kotes - São uns "espalha-ódio"?

     - Suponho que nos possa chamar isso. Embora, não seja propriamente o ódio que nos move, sendo mais como uma missão de restabelecer o balanço emocional. - Respondeu um dos homens, que já não prestava muita atenção a Kotes, estando a dirigir-se ao cadáver ali disposto. 

     - Sr. Kotes, venha connosco, por favor. Vai perceber tudo não tarda nada. - Disse o homem com a cicatriz na cara, ao mesmo tempo que procurava algo nos bolsos do casaco.

     Kotes ficou onde estava, a ver um dos homens pegar no corpo de Susanne e atirá-lo do penhasco. O outro, o da cicatriz, acendia agora um cigarro que lhe conferia um aspecto ainda mais abominável que antes, com o fumo a ser, em parte, expelido pela zona meio cicatrizada do nariz. Kotes aproveitou esta distracção para se virar para o homem de costas para si, na beira da penhasco, e caminhou na sua direcção. Olhou de relance para o da cicatriz e reparou que continuava alheado da situação. Ainda não compreendia o que se estava a passar consigo, mas sabia que não ia abdicar desta sua saúde recuperada nem ia arriscar aqueles dois estragarem o que quer que fosse.

    Devagar, Kotes avançou com a intenção de empurrar o suposto cientista que ainda se encontrava no limite de terra firme, a ver o resultado do que tinha acabado de fazer. A menos de um metro do homem, Kotes levantou as mãos à altura do peito, mas, antes que pudesse concretizar o feito, a voz do outro cientista ecoou na pequena clareira.

     - Sr. Kotes! 

    O mais normal dos dois homens olhou por cima do ombro e sobressaltou-se ao ver Kotes a centímetros de si. Reagiu depressa e rodou para a direita, atacando antes que este pudesse recuperar a posição. Com a mão direita agarrou Kotes pelo colarinho e aplicou uma joelhada nas costelas que o vergou. Voltou a agarrar Kotes pelo colarinho e pelo braço esquerdo, mas este desferiu-lhe uma cotovelada no peito, mandando-o a cambalear para trás. O cientista levou uma mão ao peito e levantou a outra a tentar proteger-se, mas Kotes esmurrou-o na cara por duas vezes e deitou-o abaixo. Kotes parou um segundo a recuperar o fôlego e preparou-se para agarrar o homem agora postrado a seus pés e de nariz partido. Um enorme estrondo fez-se ouvir, fazendo Kotes parar e olhar na direcção do homem da cicatriz, que se encontrava agora de arma em punho e apontada a ele.

     - Já chega, Sr. Kotes. Teve oportunidade de desanuviar um pouco, agora vai respeitar-me. Já teve oportunidade de ver que eu não falho nenhum alvo, portanto não queira arriscar.

     O outro homem levantava-se agora do chão, ainda a cambalear e cuspiu para o chão. Tinha sangue a cobrir-lhe a cara, que começou a limpar com um lenço tirado do bolso. - Porquê que não o paraste antes? - Perguntou, deparando-se com um pequeno sorriso do seu colega. - Ele ia matar-me!

     - Não ia deixar que chegasse a esses termos, mas mereceste o que aconteceu, por isso deixei. Sabes bem com quem estamos a lidar e mesmo assim viraste as costas aqui ao nosso amigo. 

     Kotes permanecia imobilizado no local onde estava, agora mantido sob controlo entre os dois homens e com a arma ainda apontada a si. 

     - Sim, sim - Respondeu o homem, agora a apalpar o nariz e verificando que estava partido. - Vamos mas é embora daqui. Já disparaste esse revolver duas vezes, sem dúvida que não tardará a aparecer aqui alguém. Sr. Kotes, venha connosco, por favor. Não queria ter que o fazer obedecer recorrendo a outros modos, se é que me percebe.

     - Não me parece que vá fazer seja o que for. Nem me parece que ali o seu amigo vá usar aquela arma. - Disse Kotes. - Já tiveram oportunidade de me matar e não o fizeram. Mesmo agora, foram muito contidos comigo, o que me faz querer que, seja lá o que for que querem de mim, não me vão fazer mal. Pelo menos por agora. Precisam de mim de alguma forma. Além disso, o meu pai sempre me disse para não aceitar boleias de estranhos.

     Os dois homens trocaram um olhar e um sorriso entre si. - Muito bem, Sr. Kotes, - anuiu o homem da cicatriz, baixando a arma - nós precisamos de si. Tem toda a razão. E não lhe vamos fazer mal. E como o meu colega acabou de referir, não tardará a aparecer aqui alguém. Faríamos bem em evitar mais danos colaterais do que aqueles que já ocorreram. Portanto, peço-lhe, outra vez, que nos acompanhe.

     - Eu estou-me a lixar para os danos colaterais ou para o que vocês querem. Querem que vá convosco? Sim senhor. Mas então vão responder-me a umas perguntas primeiro. Depois, veremos.

     - Epá, já estou farto desta palhaçada! Levamo-lo de arrasto e pronto. Não temos tempo para isto. - Disse um dos homens, o de nariz partido, claramente já sem paciência para a situação e ressentido com os acontecimentos.

     - Está calado. Sabes que temos ordens para não o magoar. - Argumentou o homem da cicatriz, antes de prosseguir - Sr. Kotes, perceba uma coisa. Nós estamos aqui para o ajudar. Se o que tivermos de fazer para isso é responder a algumas perguntas antes, posso conceder-lhe essa vontade. Mas, no final, vai acompanhar-nos. E aí sim, tudo será compreendido. É para o seu próprio bem. 

     - Ok. Combinado. - Respondeu Kotes, concordando com os termos propostos. Nesta altura não tinha outra escolha. Tudo o que se estava a passar era estranho e não fazia sentido. Tinha de tentar compreender. Mesmo que fosse verdade e estes homens não estivessem ali para lhe fazer mal, alguma coisa queriam e não iam ser detidos facilmente. A sua única opção era cooperar até saber o que lhe estava a acontecer, nem que para isso tivesse de os acompanhar. - Então digam-me, o que raio se passou comigo?

     - Não lhe posso responder a isso. Não que não queira, mas porque não sei. Daí que seja positivo para todos se nos acompanhar, porque no final vai ter a resposta a essa sua pergunta. - Respondeu o homem da cicatriz. O outro, tinha ido a bufar e protestar sentar-se numa rocha enquanto se debruçava, uma vez mais, sobre o seu nariz. Não mostrava qualquer intenção de participar nesta sessão de inquérito.

     - Vou ter alguma resposta a algo que pergunte, então? - Indagou Kotes, visivelmente irritado. 

   - Depende das perguntas, Sr. Kotes. Por certo compreenderá. Tudo o que não puder responder agora, será devidamente explicado mais tarde, se for determinado que é relevante. - Respondeu o único outro homem a participar nesta conversa. 

      - Suponho, então, que vou continuar sem saber quem são vocês, para quem trabalham, como me encontraram... - Kotes continuava irritado com a falta de informação que obtivera até agora, enquanto o homem da cicatriz sorria e confirmava com a cabeça todas as afirmações que ouvia. - Bem, o que fazem vocês, afinal? Espalha-ódio, que raio é isso?

     - Como o nome indica, Sr. Kotes, espalhamos o ódio. A desconfiança, o ultraje, a negatividade, o desespero, a infelicidade, a maldade...

     - Mas porquê? Para quê, com que fim? - Interrompeu Kotes.

     - Ora, Sr. Kotes... Para manter o mundo a girar. - Respondeu o homem com uma gargalhada seca. - Para que haja progresso. Diga-me, já alguma vez a humanidade evoluiu com base no amor? Nunca. Precisamos do ódio, da inveja, da intolerância. Se todos nos déssemos bem, concordássemos, se houvesse paz e harmonia, estávamos desgraçados! O mundo precisa de discórdia. Precisa de tristeza, precisa de caos, precisa de morte. Isso é que nos faz lutar, evoluir. O amor é o pior inimigo que temos. É imbatível e destruidor por direito. Veja, Sr. Kotes. Com amor, não há mais nada a procurar. Se tudo estivesse bem no mundo, se toda a gente amasse, tudo feliz, que mais havia a fazer? Que problemas para resolver, que crises a evitar, que objectivo de vida a procurar? Amor não é a resposta. Amor é motivação. A sua constante procura, a procura da felicidade e da paz, é a motivação. Por isso cabe-nos a nós impedir que esse estado seja alguma vez atingido. Porque só se pode procurar a felicidade e o amor quando estes ainda não existem. E essa procura é que nos leva à evolução, ao progresso. É o que mantém o mundo em ordem.

     Kotes não sabia como reagir após esta resposta, por isso deixou-se ficar em silêncio durante um momento. O colega do homem da cicatriz continuava sentado numa rocha, mas agora ouvia atentamente a conversa.

     - O que querem comigo? O que é que estavam a dizer quando disseram que me queriam tornar um de vós? - Perguntou Kotes, a lutar por encontrar palavras e descortinar o que se estava a passar.

     - Sr. Kotes, diga-me, porque é que tentou matar a menina Susanne? Será porque é aquela a sua natureza? A sua vontade? É inexplicável? Provavelmente conjurou algum motivo na sua cabeça que lhe permitia justificar essa acção. E tem sido assim toda a sua vida, não é verdade? Inúmeros actos que praticou ao longo da vida. Tentou sempre encontrar uma justificação, mas no final sabe bem porque o fazia, não sabe? Porque lhe parecia bem. Porque era o que sentia correcto. 

    - Acabe com o engonho! Conheço muito bem o meu passado e tudo o que fiz. Sei muito bem o que sentia. Não preciso de análises da sua parte. O que quer dizer com isso tudo? Que eu sou um talento inato para espalhar o ódio? Que me querem recrutar para a vossa organização e, por isso, fizeram algo que causou a regeneração do meu corpo?

    - Sr. Kotes, não é a questão de ser um talento natural. É mais do que isso. Você é a nossa origem. Digamos que é uma espécie de paciente zero.

    - Eu sou a origem? O que raio querem dizer com isso? 

     -Sabe o que é que costumava ser este lugar há muitos, muitos anos atrás?

    - Sei. - Respondeu Kotes, engolindo em seco. - Era o laboratório do meu pai.

     - Muito bem. Era o laboratório do seu pai. Arrisco a dizer que sabe isso, mas não sabe muito mais. Arriscava a dizer mesmo que não se lembra de muita coisa da sua infância. Pelo menos até à morte da sua família e a ter-se mudado para o orfanato. Deixe de olhar com espanto para mim, Sr. Kotes, não interessa como sei isto tudo. O que interessa é que sei. E você também. E que o que lhe digo é a verdade. - O homem parou de falar por instantes e olhou o relógio que trazia ao pulso. Olhou em volta para o colega sentado na rocha e fez-lhe sinal com a cabeça. Estavam a ficar sem tempo, era bom que se despachassem. - Faça um exercício de imaginação comigo. Imagine um homem brilhante, cientista à frente do seu tempo. Imagine que este tem um laboratório privado que desenvolve todo o tipo de experiências, muitas delas não aceites pela comunidade cientifica da época. Agora imagine que esse mesmo homem tem um filho. E que a certa altura, muito cedo na vida da criança, o pai nota que algo de especial se passa com ela. Que a criança não é como todos os outros meninos, que não apresenta qualquer evidência de alegria, satisfação, amor... Também não era um psicopata, nem nada conhecido. Porque ao contrário disso, esta criança, imaginemos, sentia um ódio constante, que contagiava toda uma sala, mesmo sem esta criança saber ainda falar. Era detentora de tanta negatividade que trazia infelicidade a tudo o que encontrava. Agora lembre-se de que estamos a imaginar que o pai dessa criança é um brilhante cientista. Como génio que é, e preocupado com o bem-estar do filho e de toda a gente que o rodeia, decide começar a estudar o ADN da criança. Já lhe tinha dito que era um homem à frente do seu tempo, não se esqueça. Vamos imaginar que se passaram alguns anos de estudo e que, a certa altura, o homem chega a uma conclusão. Ora bem, este brilhante cientista consegue, através do seus genes, isolar componentes que codificam a felicidade. Imaginemos que isto era possível. Imaginemos, também, que, de alguma forma, esses componentes são inseridos na criança. Agora imaginemos que, um dia, este laboratório, com pai, mãe e filho como seus únicos ocupantes, explode. Só a criança é encontrada viva e levada para um orfanato. Essa criança cresce e nunca é feliz. Não é capaz, nem se interessa em ser capaz. Todas as experiências levadas a cabo pelo pai têm como único efeito, na criança, um ténue sentimento de culpa, um sentimento que as suas más acções têm de ser justificadas de alguma maneira, mesmo que não seja por algo real, de forma a esta criança, agora adulto, conseguir prosseguir com a sua vida e as suas acções e não se mostrar arrependido de forma alguma. 

    Kotes estava petrificado e lívido, incapaz de pensar claramente e de processar aquilo que estava a ouvir. Permanecia ali, ao sol, como se estivesse frente a frente com Deus a ouvir o relato da criação do universo.

     - Continuando este nosso exercício, Sr. Kotes, imaginemos que aquele brilhante cientista, afinal, não tinha morrido. E que seguia com atenção, mas mantendo a sua distância, a vida desta sua criação orgânica. E que, vendo a luta e as dificuldades causadas ao filho pelas suas experiências, conclui que este era perfeito antes de ter sido submetido a uma suposta cura. Que a sua condição inicial era algo mais que especial, era o destino da humanidade. Era uma revolução. Imaginemos que este cientista, munido ainda de várias amostras com o ADN do filho, dedica toda a sua vida a estudar duas coisas: a primeira sendo uma forma de prolongar a vida; a segunda, uma recriação e implementação das condições do filho. Espalhar o ódio, digamos, por outros seres humanos. Isto, ao mesmo tempo que tenta encontrar uma cura para a condição que ele próprio acabara por dotar à criança. 

    Kotes continuava pálido, sentia as pernas a falhar e todo o corpo a tremer. Estava a transpirar mas cheio de frio, não obstante o Sol abrasador que se fazia sentir já há bocado. Permaneceu neste estado, a olhar o chão, até a voz do homem sentado na rocha o despertar para a realidade.

     - Está bom? Podemos ir, finalmente? Já estou farto desta merda. E é bom que nos vamos embora depressa, estou já a ver gente no fundo da estrada. Não é que esteja aqui algo à vista que nos pudesse trazer chatices, mas vamos evitar olhares ao máximo.

    O homem da cicatriz concordou com a palavra do colega e esperou que este se levantasse e atirasse as bicicletas do penhasco. Tinham sido só um pretexto, tinham um carro parado ali perto. Dirigiram-se os dois para o trilho de terra batida e seguiram caminho por ali fora até chegarem ao carro parado na berma da estrada, do outro lado do calçadão, após a curva que este descrevia e de onde já não dava para visualizar a clareira na beira do penhasco. Nem um nem o outro se tinham preocupado em olhar para trás ou em tomar alguma precaução para ver se Kotes os tinha seguido. Não precisavam. Sabiam que depois do que tinha sido dito, ele iria atrás deles. Daí não ter havido nenhuma surpresa na cara de nenhum dos homens quando, após uns minutos de espera ao pé do carro, Kotes apareceu, com a cara ainda sem cor, num estado quase letárgico.

     O homem com a cara normal sorriu e abriu uma das portas traseiras do carro.

     - Faça favor, Sr. Kotes. O seu pai está à sua espera.

 

(Próximo capítulo: Mr. Fro)