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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

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Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. IV

     - Alto! – Exclamou um dos ciclistas, ainda a desmontar da bicicleta. Agora que estavam mais perto, Susanne reparou que os dois homens não tinham, de todo, trajes de desportista.

     Analisando-os de baixo para cima, os sapatos de camurça castanhos eram seguidos de umas calças de ganga cinzentas e rasgadas na zona da bainha, como se fossem ligeiramente compridas em demasia para a altura deles. Ambas as t-shirts, de um tom amarelado – fosse por causa do suor, fosse por efeito dos raios de Sol abrasadores –, tinham em cima de si um casaco de cabedal vermelho, de aspecto pesado. Dava a impressão de serem dois extraterrestres, que nunca antes se haviam vestido sozinhos no mundo dos humanos.

     Mas o mais impressionante de tudo é que eram a fotocópia quase perfeita um do outro, em termos de aparência, estatura e altura. Ambos os homens tinham o cabelo negro e ondulado cortado pelos ombros, enquadrando caras tão magras que quase se tornavam gretadas. Pareciam esqueletos ambulantes – principalmente um deles, o que não falara, que, sendo quase igual ao seu parceiro, tinha a particularidade de ter a zona superior direita da cara completamente rasgada, desde a cana do nariz até à orelha, passando pelo que antes deveria ter sido um olho e que agora era só um monte de carne cozido em duas pontas. Apesar de já estar cicatrizada, a ferida alargada não deixava de ser medonha.

     - Alto, nem mais um movimento! – Reiterou o mais normal dos dois homens.

     - Quem são vocês? – Disse o antigo idoso, agora homem de meia-idade, virando-se para os encarar de frente. – O que estão aqui a fazer?

     - Nós? Estamos a passear, isto ainda é um espaço público. Pelo menos há muitos anos que o é. – Deu uma gargalhada irónica e prosseguiu. – Quanto a nós, somos… Digamos que somos cientistas.

     - Cientistas? De bicicleta? – Questionou o homem.

     - E então? Os cientistas não podem andar de bicicleta?

     A paciência do quarentão esgotou-se. Voltou a virar-se para Susanne, novamente decidido a atirá-la do penhasco abaixo. Depois lidaria com os dois ciclistas… Afinal, não seria a primeira vez que teria de se livrar de alguns empecilhos.

     Enquanto levantava Susanne novamente pelos ombros, ouviu um estrondo. Era um tiro! Reparou que uma substância vermelha havia respingado por cima do seu corpo, e julgou ter sido atingido pela bala. Ao baixar o corpo da mulher, olhou para a cara dela e viu o buraco avermelhado que tinha na testa, por onde ainda jorrava algum sangue. O tiro tinha acertado nela!

     - Qua… o que… – tentou balbuciar o homem, com os músculos ainda rígidos dos nervos. Tinha largado o corpo da mulher, que jazia agora ao calhas no chão.

     - Peço desculpa, – disse o ciclista com metade da cara destruída, ainda com o revólver em punho; a sua voz era exactamente igual à do colega – foi para o seu próprio bem.

     - O que você tinha consigo, – continuou o colega, num tom eloquente de quem está a dar uma palestra – era aquilo a que nós chamamos de uma “espalha-amor”.

     - Uma espalha-amor? – Perguntou o antigo aleijado, ainda perplexo.

     - Isso mesmo, uma espalha-amor! Um ser humano que abdicou da faceta negra que todo o verdadeiro ser humano deve ter e que dedica o resto da sua vida a tentar converter outros ao seu modo de vida. Tipo um vegetariano, mas do espírito!

     Ambos os homens riram-se. Um riso seco e gutural, cessado de imediato quando o homem perguntou:

     - Então e porque foi que a alvejaram? Porque não me deixaram matá-la, se era isso que queriam?

     - Porque você nunca iria conseguir fazê-lo, por muito que tentasse. Porque as espalha-amor, meu caro, não conseguem ser mortas por pessoas que ainda mantêm intacta a dicotomia do espírito, pessoas capazes de sentir tanto alegria como tristeza, pessoas por vezes positivas e outras vezes mais negativas. – Fez uma pequena pausa, antes de rematar: – Pessoas como você, senhor Kotes.

     O homem estremeceu ao ouvir novamente o seu nome. O seu verdadeiro nome, não aquele que a gente da cidade havia inventado para ele. Henry Kotes – o “velho assassino de Sta. Helena”, como era hoje conhecido, embora nada tivesse sido provado.

     - Como eu? Acha que eu ainda tenho alguma réstia de alegria e de pensamentos positivos dentro de mim? – Questionou, ironicamente.

     - Muito poucos, mas tem. Acredite! Aliás, foi por isso que nós aqui viemos, para o ajudar a expulsar essa réstia de bondade e a tornar-se num de nós. Apanhar uma espalha-amor foi apenas um bónus. – Explicou o ciclista.

     - E quem são vocês?

     - Nós? Bem, Sr. Kotes… Nós somos o exacto oposto da menina Susanne.

 

(Próximo capítulo: Vasco Barcelos)