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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. III

     "É a ultima vez que dou ouvidos a alguém.", pensou a mulher. "Maldito lugar."

     Ainda há menos de 6 meses tinha estado perto daquela falésia, sem saber para onde ir nem o que fazer. A sua vida era um vazio impossível de sustentar, já não lhe restavam amigos nem família; aquele lugar parecia tão bom como qualquer outro para fazer o que tinha a fazer. Estivera mais de uma hora a contemplar a vista e a pensar na eficácia da queda que se apresentava à sua frente. Diziam que naquele exacto lugar houvera um laboratório nos anos 50 e, embora este tivesse sido fechado há décadas e não houvesse qualquer vestígio de um edifício ali, pouca gente se aproximava da plataforma. Aliás, era a primeira vez que via alguém desde o seu encontro com a mulher misteriosa.

     Regressou ao presente quando o homem tentou levantá-la acima da cabeça mais uma vez, mas a sua recente força não lhe parecia servir de muito agora. Os seus olhos cruzaram-se com os da mulher, e ele parecia agora mais confuso do que furioso. Largou-a mesmo à beira da falésia e não realizou qualquer outra acção, esperando que fosse a mulher a falar. Mas esta parecia não estar lá. A sua passividade irritava-o mas, sem saber porquê, sentia-se compelido a aguardar uma explicação.
 
     Há tantos meses atrás, a vida da mulher havia mudado, mas lembrava-se dos acontecimentos diariamente. Tinha estado focada no horizonte, a contemplar a vida que levara até ali. A presença daquela estranha incomodava-a.
     - Que fazes aqui? Aconselhava um sítio mais seguro para passear, menina - a mulher falava com um sorriso de uma avó carinhosa na cara.
     - O que quiser. Ponha-se a andar, você! - A frieza não pareceu convencer a mulherzinha a afastar-se.
     - Como te chamas, querida?
     - Susanne. Já pode ir agora?
     - Susanne... deves ter alguém preocupado contigo neste exacto momento... acho que és tu quem devia ir.
     Um leve sorriso cresceu na cara da mulher mais jovem. Mas sorria apenas pela ironia da suposição. Ninguém a esperava em casa, e ainda bem. Dois dos seus namorados haviam falecido nos últimos dois anos, ambos os seus pais foram vítimas de um acidente de viação e a sua irmã desaparecera desde Abril. Susanne era a má sorte ambulante e nenhum sucesso profissional fora alguma vez suficiente para dar importância à sua vida. Não podia aproximar-se de ninguém sem ter a sensação de que lhe estragaria a vida, de uma maneira ou outra. 
     - Não há nada nem ninguém para mim aqui - Disse, num tom calmo. - Ajudo mais se não estiver cá. 
     A pequena senhora estava três metros mais perto quando voltou a olhar para Susanne. Agarrou a sua mão direita e olhou-a directamente nos olhos.
   - Podes sempre tentar, só mais uma vez - Disse, entre um sorriso aberto. - Acredita em mim, não há cá sorte nem azar, estas coisas mudam quando menos esperamos. O truque está em não desistir. O universo dá sempre alguma coisa a quem tem a paciência de esperar e a vontade de procurar.
     A mulher não disse mais e afastou-se. "Que estúpida," - pensou Susanne - "pensava que aquelas palavras iriam dissuadir alguém de fazer seja o que for? Não é qualquer cliché que vai mudar a minha vida!". E, no entanto, viu-se a afastar-se do lugar. Olhou para trás e já não viu ninguém. Ao afastar-se do penhasco, fugia também da negatividade que a levara até ali. Pensou que nada podia mudar a sua sorte por magia, era ela própria que não se podia conformar com as cartas que o universo lhe deu.
     Nos meses que se seguiram Susanne não fugiu das pessoas, antes pelo contrário: todo e qualquer problema dos que a rodeavam era o seu problema. A sua dedicação para fugir das dificuldades foi reaproveitada para oferecer tudo o que podia para ajudar os outros. Ela era agora incapaz de ignorar alguém em sofrimento, fosse essa pessoa conhecida ou estranha. E, tal como a estranha senhora fizera com ela, parecia que todos ouviam o que tinha a dizer. Era como se fosse uma super-heroína e o seu super-poder consistisse em fazer os outros ouvir a razão.
     Mas naquela manhã calorosa, algo não estava a funcionar bem. O homem não queria ouvi-la, queria matá-la. Estava pronta para convencer esta pobre alma a contar-lhe tudo. Quem era e o que estava exactamente ali a fazer.
     E era o que o homem lhe teria dito, não fosse pela interrupção dos dois ciclistas que apareceram por detrás deles.
 

(Próximo capítulo: (Exmo.) Diogo Ourique)