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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

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Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. II

     - O que é que me está a acontecer? O QUE É QUE ME FIZESTE?! – Gritou o homem, assustado. A sua voz estava agora mais forte, mais sonante. Na sua cara, as imensas brechas que anteriormente simbolizavam as dezenas de anos que já levava na bagagem começavam a dissipar-se. Parecia estar a rejuvenescer.

     - Eu não... Só tentei ajudar, mas… – tentou explicar a rapariga. Também ela estava assustada, sem conseguir manter um fluxo de pensamento coeso.

     O antigo velhote, que agora aparentava ser um homem na casa dos quarenta anos – não mais do que isso – estava a redescobrir a sua mobilidade ao nível nas pernas. Levantava ora uma, ora outra, parecendo estar a marchar sem nunca sair do sítio. Avaliou o resto do seu físico – incluindo a sua masculinidade, claro – e puxou alguns dos seus agora mais bastos e escurecidos fios de cabelo.

     - Quem é você, afinal?! – Perguntou ele, quando se voltou a lembrar de que não estava sozinho.

     - Eu sou… Bem, isso não interessa, agora. Você está bem? – Perguntou a mulher, ainda meio confusa.

     - Se estou bem?! Minha cara, não podia estar melhor! – O medo já se tinha dissipado em grande parte, e dava agora lugar ao entusiasmo puro de um miúdo que acabara de receber uma consola de jogos pelo Natal. – Olhe para isto!

     O homem deu um pontapé com toda a força na cadeira de rodas, para mostrar a sua força, e esta deslizou, ainda de lado, pela pouca encosta que ainda restava até cair do precipício. A mulher ainda fez uma investida para tentar resgatá-la, mas no fundo sabia que nunca iria chegar a tempo e por isso manteve-se sentada.

     - Deixa-a ir, pelos vistos já não vai ser necessária. – Disse ele num tom frio, mas algo divertido.

     Ficaram ambos, por alguns momentos, à espera de ouvir o “clanque” que a cadeira deveria fazer ao embater na superfície rochosa lá em baixo, mas a altura da falésia era tal que o som nunca lhes chegou.

     - Dificilmente voltamos a ver algum vestígio de alguma coisa que caia por ali abaixo, – adiantou o homem, como que a materializar através de palavras aquilo em que ambos estavam a pensar – por isso é que escolhi este sítio para as minhas… “experiências”, há muitos anos atrás.

     A mulher sentiu, de súbito, o seu corpo a ficar gelado, apesar do Sol abrasador. Aquelas palavras deixaram-na nervosa, como se viessem confirmar algo de que ela, no fundo, já suspeitava. Teriam todas as histórias que ouvira sobre aquele homem algum fundamento?

     - P-p-porque é que me está a dizer isso? – Gaguejou ela, começando finalmente a levantar-se do chão, muito devagar, com o intuito de sair dali pé ante pé, quase como se ele não a conseguisse ver.

     - Porque sei que isto não vai sair daqui. – Respondeu ele, e a firmeza da sua resposta provocou ainda mais calafrios na mulher. – Já percebi quem tu és! Não és a morte, não senhor… És uma representação física do meu passado, que veio para me atormentar.

     Ela não respondeu; parecia confusa. O homem continuou:

     - Há bocado falaste em Deus... Serás um anjo? Mas, mais importante do que isso: será que consegues voar?

     O quarentão ainda não tinha acabado esta última frase e já se dirigia a passo largo na direcção da mulher para a agarrar. Pegou nela pelos ombros, levantou-a do chão – o que até não era difícil, com a sua renovada força – e levou-a para a beira do precipício. Depois olhou-a nos olhos, porque queria apreciar a sua reacção quando a atirasse dali abaixo. Mas o que viu na cara dela, olhando de volta, fê-lo mudar de ideias.

     Acobardou-se, no fundo. E isso, eventualmente, iria custar-lhe caro.

 

(Próximo capítulo: Mr. Fro)