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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Escrituríssima Trindade - Ep. 2 - Cap. I

     Dúvida e curiosidade coabitavam enquanto avançava, cautelosa, pelo estreito trilho de terra batida que se estendia por entre as silvas, com marcas de cadeira de rodas bem vincadas, em direcção ao homem na beira do penhasco. Uma aragem pegajosa varreu o ar, mas não ajudou em nada a dissipar um pouco do calor que se fazia sentir. O dia estava quente, como sempre, apesar de o Sol se esconder atrás de uma cortina de nuvens que conferiam um ar sombrio àquela manhã. A mulher chegou ao fim do trilho e entrou na pequena clareira ali formada.

     A olhar o precipício estava um homem de aspecto cansado e derrotado, na companhia de uma garrafa de whisky meio vazia, mantendo-se impávido na sua cadeira de rodas. O pouco cabelo que ainda apresentava caía-lhe branco e esparso abaixo das orelhas, deixando ver os rasgos que tinha na cara. O corpo, magro e frágil de todo o abuso sofrido e falta de cuidado, fazia prever que arrastar-se naquela cadeira não era tarefa fácil. Todo este conjunto fazia-o parecer mais velho do que aquilo que realmente era. 

     Com os pés a arrastar no chão, de forma a emitir ruído e não sobressaltar o homem, ela aproximou-se quase até seu lado. O homem permaneceu imóvel, sem tirar os olhos do mar à sua frente.

     - Tenho estado à tua espera. - A voz do homem saiu rouca, como se estivesse a falar pela primeira vez em muito tempo. A mulher olhou para ele com apreensão e sem saber o que responder. Segundos passaram, arrastados por mais uma aragem peganhenta.

     - O senhor não me esperava. Não sabe quem sou. - Soava viva e confiante, com os olhos a fazer transparecer um certo fascínio pela situação.

     O homem atirou a cabeça para trás e virou-a, lentamente, na direcção dela. - És a morte.

     Desta vez não houve tempo para o silêncio se instalar, a mulher soltou um audível "ah" e virou-se na direcção do trilho de terra batida, pronta a ir embora. Deu dois passos em frente e hesitou. Voltou atrás, ficando, de novo, a olhar a expressão intrépida do homem. Notava-se nela uma curiosidade cada vez maior e uma vontade desafiante de responder à altura.

     - Por muito que gostasse de ter um título oficial tão pomposo quanto esse, não me parece que seja a mim que espera. - O homem sorriu ao ouvir esta resposta, com as cicatrizes na sua cara a montar o seu próprio espectáculo. Os olhos brilhavam, naquilo que parecia ser a primeira vez, com entusiasmo verdadeiro pela conversa que se fazia prever.

     - O que fazes aqui, então? - disse ele.

     A mulher usou o pé para varrer o chão ao pé da cadeira de rodas e sentou-se cruzando as pernas. - Todas as manhãs saio de casa e desço a rua. Passo pelo pequeno café que fica no canto onde se reúnem os pescadores depois de concluírem os seus negócios diários e sigo até ao pequeno porto que dá acesso ao calçadão. Faço um pequeno aquecimento e começo a correr. Todas as manhãs, durante uma hora. E de todas as vezes, sempre que passo pela pequena entrada no muro que dá acesso ao trilho de terra batida, consigo vê-lo, aqui, nesta clareira, sozinho. Durante essa hora, passo por ali uma média de cinco vezes, e em todas elas pergunto-me porquê. Porque é que está aqui, o que está aqui a fazer? Porque é que está sempre sozinho? - Parou de falar por um momento e encarou o homem.  - Não sei... hoje decidi parar. E vir aqui. E saber esses porquês. E saber quem era.

     Com dificuldade, o homem manobrou a cadeira até ficar virado na direcção daquela mulher sentada no chão. Inclinou-se um pouco para a frente e pôs a garrafa no chão. Olhou para ela directamente e ela pôde notar, pela primeira vez, que apesar do sentimento de prazer e entusiasmo que emanava anteriormente, o olhar dele era frio e distante. 

     - Sabes bem quem eu sou. Toda a gente neste maldito lugar sabe. - Manteve o olhar fixo no dela, que depressa baixou os olhos para o chão.

     - E é mesmo tudo verdade? Tudo o que contam acerca de si? - Perguntou.

   - Tudo verdade. E, de certeza, que ainda muito fica por contar. - Voltou a manobrar a cadeira em direcção ao precipício à sua frente. 

     - Então porque é que está aqui? Se eu fosse a si, não voltava a este sítio.

     - Já lho disse, menina. Estou à espera da morte. E que melhor sítio para a encontrar, que aqui? - Disse ele, com uma pequena gargalhada abafada, seguida da tosse. - Todos os dias arrasto-me como posso, nesta maldita cadeira, até aqui. Todos os dias quero atirar-me daqui de cima e sentir algo que não dor.

     - Não pode fazer isso! - Levantou-se num pulo e pôs-se à frente da cadeira, agarrando-a. - A vida é preciosa, não interessa o que lhe aconteceu ou aquilo por que passou. Nada justifica que se mate. Deus deu-nos vida por uma razão, que de certeza não era para a podermos acabar por nossa vontade. Há muito mais por que viver.

     - Não me fales do que não sabes, mulher. - ripostou ele, afastando-a da frente com as mãos. - Nem me venhas falar no significado na vida. Além disso, já estou a morrer.

     - E não estamos todos, desde que nascemos?

     - A diferença é que eu sinto-o.

    Ficaram os dois a fitar-se por instantes, ela à procura de palavras que servissem para demover o homem de prosseguir com as suas intenções. - Se é assim, - disse ela, finalmente - se todos os dias fica aqui a pensar acabar com a sua vida, se sente isso tudo, porque é que nunca o fez? 

     - Já lhe disse, menina - falou o homem, com o tom de voz e o tratamento a voltar à forma inicial - O momento não era o indicado. Estava à sua espera.

     - Já lhe disse que não sou a morte.

    - Aí é que se engana, menina. - A mulher olhava para ele sem compreender o que ele estava a dizer - A morte só tem significado se for sentida. A morte só é real se for vivida por alguém. Só precisava que alguém parasse. Que alguém sentisse. Para mim, a menina é a morte. - Ao mesmo tempo que acabava de dizer estas palavras, o homem empurrou as rodas, fazendo a cadeira avançar a toda a velocidade que conseguia em direcção ao precipício à sua frente. 

    Ela demorou a reagir, mostrava-se abalada pelas palavras dele e quando avançou para travar a sua investida foi tarde. Foi a correr atrás da cadeira e lançou-se contra ela. Sentiu o corpo a bater na estrutura metálica e ouviu barulho de algo a cair, mas recusou-se a olhar. Mantinha-se prostrada no chão, da forma como tinha caído, até que ouviu a voz do homem.

    - Merda! Merda, merda, merda! Porquê? Porque é que interferiste? - Ela ganhou coragem e levantou os olhos. À sua frente estava o homem, fora da cadeira e caído no chão ainda a alguma distância daquilo que teria sido uma queda fatal. O esgar de raiva presente na sua cara era perceptível por entre as lágrimas. 

    A mulher levantou-se, tinha-se magoado no braço, mas nada que merecesse atenção. Ia ao encontro da cadeira de rodas para levá-la ao homem e ajudá-lo a voltar para ela, quando o movimento dele lhe fez deter o passo. Um olhar de incredulidade tomou-lhe conta do rosto ao ver o homem a erguer-se, com espanto e confusão, lentamente, nas suas duas pernas.

 

(Próximo capítulo(Exmo.) Diogo Ourique)