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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 1 - Cap. VII

     Manuel soltou um grito que depois se tornou abafado, quando levou a mão à boca. Ainda não tinha acabado de rodar totalmente a maçaneta da porta do quarto de onde vinha aquele cheiro nauseabundo quando se deparou com o cenário mais macabro que já vira em toda a sua vida.

     Sentado em cima de uma cama, com o olhar vidrado no chão à sua frente, como se estivesse numa paragem de autocarro à espera de um transporte que nunca chegaria, estava o corpo daquele que reconheceu ser o seu vizinho alemão. Ou o que restava do seu corpo, vá. Do pescoço para baixo, o homem simplesmente não tinha pele. Manuel viu, um pouco abaixo da maçã-de-Adão do vizinho, o corte quase cirúrgico abaixo do qual a pele lhe tinha sido cuidadosamente arrancada. Os lençóis da cama – que, em tempos, deviam ter sido brancos – estavam todos manchados de sangue, com uma cor vermelha ainda mais escura na zona da cova formada no colchão pelo peso do homem. Teria havido ali uma poça de sangue, que entretanto havia sido absorvida pela esponja.

     O corpo do homem parecia um daqueles modelos da anatomia humana que se vê nos livros de ciências. Manuel conseguia ver-lhe todas as veias e todos os músculos – uns flectidos e outros relaxados, alguns mesmo rasgados (talvez por cortes de faca mal calculados) –, bem como a cor esbranquiçada dos ossos por entre algumas brechas. Naquele estado, literalmente despido, o alemão parecia ter apenas um capuz de pele na cabeça, como o Leatherface e outros assassinos em série que Manuel conhecia dos filmes. Ainda não tinha atraído muitos insectos, além de algumas moscas, mas não devia faltar muito tempo.

     Assim que recuperou os sentidos, Manuel, sem nunca se atrever a passar da soleira da porta para dentro (ainda tinha esperança de que, por causa do cansaço, aquele cenário fosse apenas uma miragem, ou uma alucinação bastante complexa), pensou em ligar para o 112. Mas como, se estava de pijama e tinha deixado o telemóvel em casa, na sua mesinha de cabeceira?

     De qualquer forma, não interessava. No hospital mais próximo, o estado era de emergência porque uma paciente, chamada Mariana R., havia morto no dia anterior diverso pessoal do staff antes de desaparecer dali como uma sombra, a toda a velocidade.

 

   Marta não sabia o que pensar. Continuava a caminhar ao lado de Mariana, esta com uma pasta na mão, e ambas seguindo o homem alto, naquela divisão de entrada que parecia uma biblioteca, daquelas públicas onde Marta às vezes ia passar tempo na ausência do marido. Os milhares de livros nas dezenas de estantes deviam ter milhares de títulos e milhões de palavras, mas Marta, naquele momento, não queria saber de nada disso. Só queria saber para onde estavam a caminhar, e desconfiava que estava prestes a descobrir.

     No fundo daquela sala enorme – que parecia a nave de uma igreja, Marta reparava agora – encontrava-se, entre dois enormes pilares de mármore bege e com rebordos a ouro, uma lareira maior do que qualquer outra que já tinha visto. O fogo, em vez do típico amarelo alaranjado, tinha uma cor mais próxima do vermelho, o que não agoirava nada de bom.

     À medida que se aproximavam mais e mais da lareira, a sala parecia alterar-se à volta deles. A claridade nas janelas parecia estar a desvanecer-se, escurecendo as paredes de dentro da casa, e as estantes com livros transformavam-se agora em gavetas embutidas na parede parecidas com as que há nas morgues, só que feitas em madeira velha. O cheiro também se tornava cada vez mais estranho; abafado e podre.

     Ao tomar novamente atenção ao seu percurso, Marta sobressaltou-se quando o seu olhar caiu sobre o homem alto, que ganhava agora contornos desfigurados e se parecia mais e mais com um cruzamento entre um carneiro e um lobo. Aquilo que, de início, julgara ser um robe vermelho, transformara-se agora em pele humana virada do avesso, a parte ensanguentada para fora. Aquela criatura, fosse lá o que fosse, tinha pele humana pousada sobre os ombros! Marta quis voltar para trás naquele instante, mas o seu corpo não obedeceu. Nem podia obedecer, aliás, porque já era tarde demais para isso. Olhou para o lado à procura do auxílio de Mariana, mas esta não estava ali. Só ali estava uma nuvem de fumo, uma sombra escura com ligeiros contornos de ser humano.

     Ao chegar perto da lareira, o homem (ou lá o que fosse agora) alto subiu o pequeno degrau que a precedia e virou-se para trás, para Marta. A cara dele, antes bela e de traços atraentes, parecia agora saída de um quadro aterrador da Idade Média: os seus olhos eram agora duas bolas negras embutidas numa cara comprida e coberta de pêlo castanho-escuro; o seu nariz pendia sobre a sua boca como um badalo, esta entreaberta num esgar que lhe rasgava o que lhe restava das bochechas e mostrava dezenas, quase centenas, de dentes afiados e amarelados numa boca escura e atribulada.

     A criatura falou:

     - Nova serva que de nós te aproximastes… – A voz era rouca e gutural, como um fumador compulsivo a quem haviam dado um megafone. – Dizei a que vens!

     Marta não falou, mas conseguia ouvir a sua voz. Poucos segundos depois, percebeu que a sua boca também se mexia sozinha, sem que interviesse:

     - Venho pedir-te albergue, ó Santo Caído! Implorar-te por uma vida nova ao teu lado.

     De onde tinham surgido aquelas palavras? Quem lhas teria ensinado? Teria sido Mariana, numa das suas inúmeras sessões de “terapia” das quais Marta não se recordava completamente? A criatura falou novamente:

     - Mostrai-me o vosso sacrifício!

     Da mesma maneira súbita que se havia esfumado no dia anterior, no hospital, Mariana retomara agora a sua forma humana. Como um sopro. Abriu a pasta que tinha na mão e tirou de lá o manto de pele humana que lá tinha guardado. Apesar de ensanguentada e ferida, Marta reparou que era uma pele pálida. “O marido de Mariana?!”, pensou. Teria a sua vizinha morto o marido alemão – adivinhando que ela não seria capaz de fazer o mesmo ao seu e arriscando a sua própria vida uma segunda vez – para garantir a sua integração?

     A criatura estendeu a mão (uma espécie de casco com protuberâncias semelhantes a dedos) para aceitar o tributo. Fez vários movimentos com os ombros, tentando soltar-se da pele que vestia e que acabou por deslizar pelas suas costas desfiguradas até aterrar no fogo vermelho da lareira. Abriu a sua nova veste de pele humana como se de uma toalha de mesa se tratasse e colocou-a aos ombros, novamente virada com a parte ensanguentada virada para fora.

     - Sacrifício aceite, embora sinta que a ti não tenha pertencido este homem. – Disse a voz grave e cavernosa. – Lavai-vos em fogo redentor!

     O antigo homem alto apontou para a lareira, embora não tivesse sido preciso. Da mesma forma que Marta soubera automaticamente o que dizer naquela ocasião, também sabia o que tinha de fazer. Subiu o mesmo degrau da lareira e encarou o fogo vermelho. Pensou em Manuel e nos momentos bons que tinham passado juntos, mas continuava a achar que estes não tinham sido suficientes. Com isto em mente, avançou em direcção às labaredas. Sentiu a sua pele a queimar-se e o seu corpo a desfazer-se, mas não gritou. Afinal, não era preciso. Não estava a arder, não sentia dor. Estava só a transformar-se em fumo negro, e, em breve, ia poder elevar-se acima de todas essas preocupações físicas. Ia ser apenas sombra.

     Talvez a sombra de Manuel, para que esse não mais a deixasse sozinha.

 

FIM