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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 1 - Cap. VI

     Não demoraram muito a chegar aos portões da enorme casa. Um longo caminho rodeado de árvores separava-a dos portões. Era apenas a terceira vez que lá ia, mas Mariana já sentia que estava a chegar à sua própria casa. 

     - Agora tudo depende de nós. Não te sentes finalmente livre? - disse Mariana, sem nunca tirar os olhos do caminho.
     Falava com uma preocupante confiança, principalmente quando dependiam de um estranho para se proteger. Como confiar numa pessoa que nem o nome partilha?
     - É aqui que vive o bruxo? Isto é tudo dele? - a voz de Marta soava mais assustada que intrigada.
    - Já te disse, ele é uma pessoa normal, tu já o viste! Parece-te algum maluco do voodoo? - Mariana olhou-a nos olhos e o tom da conversa mudou drasticamente - Tenta não lhe dizer nada dessas coisas nos próximos dias, ele ainda não tem a certeza se te leva connosco.
    - O quê? Achas que me safo sozinha? Tu prometeste!
    - E tu prometeste que não desistias à ultima da hora. - A desilusão na cara de Mariana era transparente. - Ele é um guia para quem precisa, não te oferece nada mais do que conselhos. A motivação era tua, tu é que te sentias presa na tua própria vida, tu e só tu concordaste em fazer isto comigo, ninguém te obrigou. E no último minuto mudas de ideias? Não te vais libertar verdadeiramente sem cortar os laços com a tua antiga vida... - Respirou fundo e, numa voz mais calma, disse - Não te posso prometer que ele ainda te leve, mas vou tentar, ok?
     Marta sabia muito bem que toda aquela conversa era obra do homem alto, como o identificava. Tudo o que ele dizia era de facto conselhos, mas uns que se escondiam nos cantos mais escuros da sua mente e se recusavam a sair. Só o conhecera uma vez, mas ele parecia saber exactamente o que dizer e nem por uma vez discordou dela. E os olhos! Os seus olhos eram de um azul como nunca vira, e quando os seus olhares se prendiam, parecia não haver nada impossível, todos os planos eram boas ideias e toda a motivação de que precisava surgia como que por magia. O homem alto podia não ser nenhum bruxo, mas estava longe de ser uma pessoa normal.
     O carro finalmente parou e Marta teve um breve momento de lucidez: 
    - Não vamos! - Disse. - Vamos fugir nós as duas! Ele não tem que saber, não tens que entrar na casa, por favor, há outras maneiras de nos escondermos.
     - Como? - Mariana não parecia surpreendida com a sua reacção. - Tens o dinheiro para arranjar transporte para fora do país? Para arranjar identidades novas? Tens alguém que te protegerá como ele? Esta é a única solução. 
     Percebeu ali que tinha perdido a vizinha. Ou, se calhar, esta nunca fora quem pensava. "Ele tem-na na mão", pensou.
     E agora? Fugira de uma prisão para entrar noutra?
     As portas da frente da casa abriram-se e um alto vulto apareceu perante elas. Com um robe vermelho vestido, o homem estava tão atraente como sempre, com um sorriso enorme na cara e aqueles olhos penetrantes fixos em ambas. Marta sabia que tinha feito um pacto com o demónio, mas aquela visão fora o suficiente para também ela sorrir.
     - Venham cá, - disse o homem - está tudo bem agora, fizeram o que estava certo.
  
 
(Próximo capítulo: (Exmo.) Diogo Ourique)