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Queria? Já não quer?

Estabelecimento gerido por taberneiros armados em engraçados.

Queria? Já não quer?

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Escrituríssima Trindade - Ep. 1 - Cap. V

     - Isto nunca mais acaba. Em que é que me fui meter? - pensou Marta. Sentia-se cansada e com o corpo dorido. Tinha sido um dia desgastante, após uma noite ainda mais difícil. "O caso da faca", como lhe chamara Manuel, na noite anterior, tinha-a mantido a pé durante mais umas duas horas a seguir à sua ocorrência. Depois de se aperceberem que não sabiam de onde tinha aparecido aquela faca, nem como se tinha partido um copo, Marta fora ao andar de cima ver se estava tudo bem. Manuel tinha saído à rua para se assegurar que não se passava nada, verificando o perímetro da casa e se a porta da cozinha estava bem trancada. Marta deixara uma luz acesa no quarto das miúdas, como precaução, e continuou a acender as luzes no andar de cima até se certificar que tudo estava bem.

     Os dois, de volta à cama, chegaram à conclusão que a faca deveria pertencer ao antigo dono da casa, afinal, só se tinham mudado havia duas semanas e o antigo proprietário tinha deixado algumas coisas para trás. Quanto ao copo, Marta tinha dito que encontrara o Nenúfar a rondar o quarto das filhas quando fora averiguar o primeiro andar, portanto o gato devia ter saído do quarto quando ela lá tinha ido antes de descer à cozinha e que só podia ter sido mesmo ele a derrubar o copo.

     Um carro passou no sentido contrário ao de Marta e a luz dos seus faróis fez-lhe baixar os olhos por um momento. Era apenas o segundo carro com que se tinha cruzado, nesta noite, desde que saíra de casa há mais de uma hora. Eram agora quase duas da manhã.

     - Espero que o Manel não tenha acordado. Não é nada habitual, dorme como uma rocha, mas com tudo o que se está a passar... era o que faltava ele acordar a esta hora e eu não estar em lado nenhum. - pensou. Marta não sabia o que havia de sentir. Estava ainda mais perdida do que antes de fazer o que tinha feito. Ou melhor, de não fazer aquilo a que se tinha comprometido. Ainda estava ressentida com Manuel por este ter arranjado um novo trabalho e terem-se mudado, fazendo-a abdicar da sua vida na cidade e da carreira.

     Ora Marta o amava, ora o odiava. Pior, sabia que não era culpa dele, mas não o conseguia evitar. Fora uma decisão em conjunto. Apesar disso, tinha abdicado de tudo pelo melhor da família e agora não sentia nada. Odiava o marido e as filhas. E depois, odiava-se a si por ousar sentir isso.

     Passava os dias desesperada numa casa que ainda não lhe parecia dela, apenas com um gato como companhia. E o quanto odiava aquele gato. Ao menos tinha servido para Marta lhe imputar as culpas em relação ao copo partido, quando, ao ver a cara de choque do marido, perdera toda a coragem e tivera de encontrar uma explicação para o que acabara de acontecer. Se ao menos não tivesse empeçado nas caixas que ainda se encontravam espalhadas por toda a casa e feito cair um copo que alguém lá deixara em cima, tudo teria sido diferente. 

     Antes disso, tinha achado que tudo ia passar, que estava só a sentir-se assoberbada com todas as mudanças recentes na sua vida. E, se calhar, tudo teria passado. Agora nunca iria saber, pois, numa tarde, enquanto cometia o seu pequeno acto inconsequente de rebeldia e se deitava no jardim a fumar um cigarro, dera com o confronto entre a vizinha e o seu novo cão. Marta correra para ir ao auxílio da vizinha e, nesse momento, tudo mudara. Já não estava sozinha. Já não passava os dias desesperada só com um gato que odiava. Aquela mulher fazia-a sentir-se viva, era electrizante, aventureira. Sentia-se capaz de conquistar o mundo ao lado dela. Em sentido inverso, aumentava o ressentimento em relação ao marido e às filhas. 

     Já conduzia aquele carro há mais de duas horas, sem proferir palavra. Olhava a estrada à sua frente e tentava vislumbrar que futuro a esperava. O silêncio foi, finalmente, interrompido por uma voz melodiosa, acompanhada do toque suave de uma mão a pousar na perna de Marta:

     - Diz-me só o porquê de não o teres feito. - pediu Mariana - porque é que não o fizeste? Tínhamos combinado.  

 

(Próximo capítulo: Mr. Fro)